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Sombras de Neon e o Preço da Rebeldia
O silêncio no apartamento de Emanuel nunca era um sinal de tranquilidade; era, geralmente, o pavio curto de uma bomba prestes a explodir. Após o incidente no parque, Sara havia mudado sua estratégia. Ela não gritava mais, mas seus olhos brilhavam com um rancor gelado. Para uma mulher que vivia de imagem e status, ser derrubada aos pés de um ator fantasiado de gorila na frente de suas amigas era uma ferida que nem o melhor cirurgião plástico de São Paulo poderia fechar.
Emanuel sentia a pressão aumentar em seus ombros. Seus estúdios de tatuagem em Londres e Tóquio exigiam atenção, mas sua mente estava presa naquele triângulo volátil. Ele precisava de controle. Ele respirava controle. Mas naquela noite, o controle escaparia por entre seus dedos tatuados de forma definitiva.
Tudo começou quando Sara, vestindo um robe de seda preta que deixava pouco para a imaginação, anunciou que sairia com Paula para "espairecer". Emanuel, exausto após dez horas de trabalho, apenas acenou com a cabeça, sem imaginar que o destino da loira era a *Luxor*, uma das casas de strip-tease mais exclusivas e polêmicas da cidade, onde o champanhe custava o preço de uma moto popular e a discrição era vendida ao maior lance.
Enquanto isso, Eduarda se aproximava dele com aquele jeito que sempre o desarmava: os passos leves, o olhar baixo e as mãos mexendo nervosamente na barra da saia de linho.
— Manu... — ela chamou, a voz tão doce quanto um pecado. — Tem um evento hoje na faculdade. Uma palestra sobre o simbolismo das cores no Renascimento tardio. Vai ter uma recepção depois, no centro cultural. Eu realmente queria ir.
Emanuel esfregou os olhos, sentindo a pulsação na têmpora.
— Duda, está tarde. O centro da cidade é perigoso a essa hora.
— Por favor, Manu... — Ela se ajoelhou entre as pernas dele, apoiando o queixo em suas coxas e olhando-o de baixo para cima, manhosa, os olhos úmidos. — Eu quase não saio. Você sabe que eu sou responsável. Eu volto cedo, eu juro. É importante para o meu curso.
Emanuel olhou para aquela expressão de vulnerabilidade. Eduarda era seu porto seguro, a única que não exigia dele nada além de presença e cuidado. Ele cedeu, sentindo-se um tolo.
— Tudo bem, Eduarda. Mas vá de Uber Black, não saia de perto do grupo de alunos e me mande a localização em tempo real. Se eu não receber um sinal seu a cada meia hora, eu vou buscar você. Entendido?
— Sim, meu amor! — Ela o beijou rapidamente, um selinho casto que cheirava a gloss de morango, e correu para se arrumar.
Duas horas depois, a paz de Emanuel foi estraçalhada.
O primeiro golpe veio de um de seus seguranças particulares, que monitorava as redes sociais e os locais frequentados por Sara para evitar escândalos que pudessem manchar o nome do empresário.
— Senhor — disse a voz do segurança pelo telefone —, a Dona Sara foi localizada. Ela está na *Luxor*. Parece que ela subiu no palco principal com as amigas. Há vídeos circulando em grupos privados.
O sangue de Emanuel ferveu. A vulgaridade de Sara era algo que ele tolerava entre quatro paredes, mas a exposição pública de sua vida privada era algo que ele não admitia. Ele se levantou, a mandíbula travada, pegando as chaves de sua Range Rover preta.
— Eu estou indo para lá agora — rosnou ele. — Preparem a saída dos fundos. Não quero fotógrafos.
A chegada de Emanuel à *Luxor* foi como a entrada de um carrasco. Ele não parou para falar com os seguranças da porta; sua presença imponente e o olhar de puro ódio abriram caminho. O ambiente estava saturado de fumaça, luzes roxas e o som ensurdecedor de um batidão grave. No centro do palco, sob uma chuva de notas de dólar, Sara estava apenas de lingerie de renda, rindo alto enquanto Paula filmava tudo.
Ela estava bêbada, radiante em sua própria decadência, usando a atenção dos homens ao redor como um combustível para seu ego ferido.
Emanuel não esperou. Ele subiu os degraus do palco com passadas largas. O segurança do local tentou intervir, mas um olhar de Emanuel foi o suficiente para fazê-lo recuar.
— Sara — a voz dele cortou a música na mente dela.
— Manu! — Ela riu, tentando passar os braços pelo pescoço dele. — Olha só! Eles me amam aqui! Eu sou muito melhor que aquela monga!
Emanuel não disse uma palavra. Ele a segurou pelo pulso com uma força que a fez soltar um ganido.
— Você vai embora agora — disse ele, a voz baixa e perigosa.
— Me solta! Você está me machucando! — ela protestou, tentando se soltar enquanto o público vaiava.
Emanuel não se importou com a plateia. Quando ela tentou se debater e empurrá-lo, ele perdeu a pouca paciência que lhe restava. Ele a agarrou pela nuca, os dedos se enroscando no cabelo loiro impecável, e a forçou a caminhar em direção à saída.
— Você perdeu o juízo, Sara — ele sibilou enquanto a arrastava pelo corredor VIP. — Você quer ser vulgar? Seja. Mas não no meu nome. Você vai para o carro e não vai abrir a boca até chegarmos em casa.
Ele a jogou no banco de trás do carro como se fosse um fardo incômodo. Sara chorava de raiva, xingando-o com todas as palavras baixas que conhecia, mas Emanuel não ouvia. Seu celular começou a vibrar freneticamente no painel.
Era o alerta de localização de Eduarda.
Ele olhou para o mapa e sentiu o estômago revirar. O ponto vermelho não estava no centro cultural. Estava a trinta quilômetros de distância, em uma rodovia periférica, parado em um ponto conhecido por ser um "inferninho" de beira de estrada — um cabaré decadente chamado *Estrela da Noite*.
— O que aquela idiota está fazendo lá? — murmurou ele, o pânico começando a substituir a raiva.
— O que foi? A santinha se meteu em confusão? — debochou Sara do banco de trás, ajeitando o sutiã. — Que pena, Emanuel. Parece que sua bonequinha de porcelana quebrou.
— Cala a boca, Sara! — ele gritou, dando um soco no volante que fez o painel estalar.
Ele acelerou, ignorando todos os sinais de trânsito. A mente de Emanuel trabalhava em cenários catastróficos. Eduarda era ingênua, tímida, incapaz de lidar com o mundo real sem a proteção dele. Como ela fora parar naquele lugar?
Quando ele chegou ao *Estrela da Noite*, o cenário era desolador. Caminhões estacionados, luzes de neon queimadas e um cheiro de cerveja barata e óleo diesel. Ele desceu do carro, deixando Sara trancada lá dentro.
— Se você sair desse carro, eu juro que te deixo aqui — ameaçou ele antes de bater a porta.
Emanuel entrou no cabaré e a visão que teve quase o fez perder os sentidos. Eduarda estava sentada em um banco alto, cercada por três homens de aparência rústica. Ela estava pálida, tremendo visivelmente, segurando sua bolsa contra o peito. Ela vestia aquele vestido de linho claro que agora parecia tragicamente fora de lugar entre as paredes descascadas e as mulheres de roupas sumárias que circulavam por ali.
— Eu... eu só peguei o ônibus errado... o motorista disse que passava perto... — ela soluçava, tentando explicar algo para um homem que tentava passar a mão em seu ombro.
— Calma, boneca. A gente te leva para onde você quiser — disse o homem, com um sorriso banguela e malicioso.
Emanuel avançou como um animal predador. Ele não chamou o nome dela. Ele simplesmente agarrou o braço do homem e o torceu para trás com um estalo seco. Antes que os outros pudessem reagir, Emanuel desferiu um soco no estômago do segundo, derrubando-o da cadeira.
— Manu! — Eduarda gritou, jogando-se nos braços dele, chorando copiosamente.
Emanuel a abraçou, mas não era um abraço de conforto. Seu corpo estava rígido como pedra. Ele a afastou bruscamente, segurando-a pelos ombros com uma firmeza quase agressiva, sacudindo-a levemente.
— O que você tem na cabeça, Eduarda? — ele rugiu, a voz ecoando pelo recinto imundo. — Eu te dei tudo! Eu te dei segurança! E você vem parar em um lixo de lugar como este?
— O ônibus... Manu, eu me perdi... o celular ficou sem bateria... — ela tentava explicar entre soluços, os olhos grandes e aterrorizados.
— Mentira! — ele gritou, a raiva acumulada da noite explodindo sobre a pessoa que ele mais tentava proteger. — Você queria liberdade? É isso? Olhe ao seu redor! É isso que acontece com meninas como você quando saem debaixo da minha asa! Você quase foi destruída!
Ele a puxou pelo braço, sem a delicadeza de costume. Eduarda tropeçava em seus próprios pés, choramingando, enquanto Emanuel a arrastava para fora. O contraste entre a fúria dele e a fragilidade dela era perturbador.
Ao chegar no carro, ele abriu a porta do passageiro e a empurrou para dentro. Eduarda deu de cara com Sara, que a olhava com um sorriso de satisfação pura.
— Olha só quem resolveu aparecer — disse Sara, a voz carregada de veneno. — E eu achei que eu era a ovelha negra. Pelo menos eu sei onde estou me metendo, Eduarda. Você é só... patética.
— Cala a boca, as duas! — Emanuel entrou no carro, o clima tão pesado que parecia faltar oxigênio.
O trajeto de volta foi um pesadelo sonoro. Eduarda chorava baixinho, encolhida contra a porta, sentindo-se a criatura mais desprezível do mundo. Sara continuava a disparar alfinetadas, sentindo que, pela primeira vez, o pedestal de Eduarda havia caído. E Emanuel... Emanuel era uma tempestade silenciosa.
Ao chegarem no apartamento, ele não esperou que elas saíssem. Ele abriu as portas e apontou para dentro.
— Para o quarto. Agora. As duas.
— Emanuel, eu não vou... — Sara começou.
— AGORA! — o grito dele fez os vidros da entrada tremerem.
No luxuoso hall de entrada, sob a luz dos lustres de cristal, a realidade do triângulo amoroso de Emanuel parecia ter atingido o ponto de ruptura. Eduarda estava sentada no chão, as mãos cobrindo o rosto, soluçando de forma manhosa e desesperada, esperando o perdão que sempre recebia. Sara estava de pé, desafiadora, apesar do estado deplorável de suas roupas e cabelo.
Emanuel caminhou até Eduarda e a levantou pelo braço, forçando-a a olhar para ele.
— Você me decepcionou, Eduarda. Eu achei que você era diferente. Eu achei que você precisava de mim porque era pura, mas você é apenas imprudente.
Depois, ele se voltou para Sara.
— E você... você é uma vergonha para tudo o que eu construí. Você usa o meu dinheiro para se comportar como uma qualquer em palcos de quinta categoria.
— Você nos ama assim, Emanuel — retrucou Sara, aproximando-se dele, a voz voltando ao tom vulgar e confiante. — Você ama a santinha que se perde e a vadia que te desafia. Você não conseguiria viver sem esse caos.
Emanuel olhou para as duas. De um lado, a inocência ferida e dependente de Eduarda, que o fazia se sentir um deus protetor e, ao mesmo tempo, um monstro por sua reação agressiva. Do outro, a provocação constante de Sara, que o mantinha alerta e alimentava seu lado mais sombrio e controlador.
Ele sentiu um cansaço que vinha da alma.
— Eu quero paz — ele sussurrou, mas suas mãos ainda estavam fechadas em punhos.
— Você nunca vai ter paz com a gente, Manu — murmurou Eduarda, levantando o rosto úmido e abraçando a cintura dele, apoiando a cabeça em seu peito de forma submissa. — Você é o nosso dono. E donos precisam cuidar do que é deles, mesmo quando a gente erra.
Sara deu uma risada curta e se aproximou pelo outro lado, deslizando a mão pelas costas tatuadas de Emanuel.
— Ela tem razão, querido. Você está furioso porque quase nos perdeu hoje. De formas diferentes, mas quase perdeu. Admita. Você adora esse poder.
Emanuel fechou os olhos. O toque de Eduarda era um bálsamo; o de Sara, uma corrente elétrica. Ele era um homem rico, poderoso e respeitado no mundo inteiro, mas ali, entre aquelas quatro paredes, ele era apenas um prisioneiro de duas mulheres que sabiam exatamente como estraçalhar sua sanidade.
— Vão para o banho — disse ele, a voz finalmente baixando de volume, mas mantendo a autoridade rígida. — Eu vou decidir o que fazer com vocês amanhã. E se eu ouvir um sussurro de briga, eu juro que coloco as duas para fora sem nada, apenas com as roupas que estão no corpo.
Eduarda assentiu, limpando as lágrimas e caminhando para o corredor com a cabeça baixa. Sara lançou um último olhar provocador para Emanuel antes de segui-la, rebolando propositalmente apesar do salto quebrado.
Emanuel ficou sozinho na sala. Ele olhou para suas mãos — as mãos que tatuavam obras de arte, as mesmas mãos que hoje haviam arrastado uma mulher pelo cabelo e sacudido outra com violência. Ele se sentia sujo, mas, no fundo, uma parte doentia de sua mente sabia que Sara estava certa.
Ele precisava daquele caos. Ele precisava ser o pilar que impedia aquelas duas vidas de se desintegrarem, mesmo que isso custasse sua própria paz.
Ele caminhou até o bar, serviu-se de um uísque puro e olhou para a vista de São Paulo. A cidade estava calma, mas dentro de seu apartamento, a guerra apenas havia mudado de fase. Ele era o mestre, o protetor e o carrasco. E enquanto elas estivessem ali, buscando sua atenção, sua raiva ou seu perdão, Emanuel sabia que nunca estaria realmente sozinho.
Mas, ao ouvir o som de um objeto quebrando no corredor e o início de uma nova discussão abafada, ele percebeu que o "empurrão" de Eduarda no parque e a rebeldia de Sara na boate eram apenas os primeiros sinais de que suas namoradas estavam começando a aprender como jogar o jogo dele. E o preço para mantê-las sob controle estava ficando cada vez mais alto.