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O Santuário das Sombras e o Peso do Ouro
A noite em São Paulo tinha aquela tonalidade grafite, carregada de uma chuva fina que abafava o som incessante do trânsito lá embaixo. No quadragésimo andar, o mundo era diferente. O apartamento de Emanuel era um santuário de concreto, vidro e mármore, onde o caos da metrópole era apenas uma luz distante e desfocada. Dentro daquelas paredes, o ar cheirava a sândalo, couro e ao perfume doce, quase infantil, de Eduarda.
Emanuel estava sentado em sua poltrona de leitura, uma peça de design minimalista que parecia um trono moderno. Ele usava apenas uma calça de moletom cinza, deixando o tronco largo e as costas cobertas de tinta preta à mostra. Seus olhos estavam fixos em um relatório financeiro no tablet, mas sua mente estava em outro lugar. Ele sentia o peso suave de Eduarda acomodada entre suas pernas, sentada no tapete de pele de carneiro, com a cabeça apoiada em seus joelhos.
Ela estava em silêncio há quase uma hora, folheando um livro sobre a técnica de chiaroscuro de Caravaggio. De vez em quando, Emanuel deixava a mão cair sobre o cabelo castanho dela, acariciando os fios com uma possessividade distraída. Eduarda fechava os olhos e soltava um suspiro baixo, ronronando como um gato que sabe que está exatamente onde deveria estar.
— Manu... — ela chamou, a voz doce e arrastada, típica de quem está mergulhada em um conforto absoluto.
— Diga, pequena — ele respondeu, sem desviar os olhos da tela, mas intensificando o carinho na nuca dela.
— Eu estava pensando no que você disse hoje cedo... sobre o novo estúdio em Roma. Você vai mesmo precisar viajar no mês que vem?
Emanuel deixou o tablet de lado e inclinou-se para frente, segurando o queixo dela com os dedos calejados e firmes, forçando-a a olhar para ele.
— Vou. Mas não pense que você vai ficar aqui sozinha para se meter em confusão ou se perder em bibliotecas poeirentas. Eu já organizei tudo. Você vai comigo.
Os olhos de Eduarda brilharam. Ela amava aquela faceta dele. Emanuel não pedia; ele decidia. Ele não sugeria; ele provia. Para uma menina que crescera sentindo-se invisível e desamparada, a mão de ferro de Emanuel envolta em luvas de veludo era o seu oxigênio. Ela amava saber que sua vida estava mapeada pelo homem que ela idolatrava.
— Mas e as minhas aulas? — perguntou ela, apenas para ouvir a resposta que já esperava.
— Eu já conversei com o reitor, Eduarda. Suas faltas serão abonadas como pesquisa de campo internacional. Eu patrocinei a ala nova da faculdade, lembra? — Ele deu um sorriso de canto, um brilho predatório no olhar. — Ninguém diz "não" para o que eu quero. E eu quero você ao meu lado em Roma.
Eduarda abraçou as pernas dele, escondendo o rosto em suas coxas.
— Eu amo quando você resolve tudo assim... como se o mundo fosse pequeno demais para te enfrentar.
— O mundo é exatamente do tamanho que eu permito que ele seja, Duda. E você é o centro dele.
A bolha de ternura e controle foi estourada pelo som estridente de saltos altos batendo contra o mármore do corredor. Sara entrou na sala como um furacão de luxo e indignação. Ela usava um conjunto de academia que custava mais do que o carro de um cidadão comum, destacando cada curva siliconada e cada centímetro de pele bronzeada artificialmente.
— Ah, que cena patética! — Sara jogou as chaves do carro sobre a mesa de jantar, fazendo um barulho metálico que ecoou pelo ambiente. — Eu chego de um treino exaustivo e encontro o "Grande Tatuador" fazendo cafuné na sua boneca de pano. Emanuel, você está amolecendo.
Emanuel não se moveu. Ele apenas recostou-se na poltrona, a expressão tornando-se instantaneamente fria e impenetrável.
— Você está barulhenta hoje, Sara. O que foi? O personal trainer não deu a atenção que você acha que merece?
Sara caminhou até o bar, servindo-se de uma água mineral importada, bebendo-a com uma agressividade teatral.
— O personal foi ótimo, obrigada por perguntar. O problema é que eu passei na frente daquela joalheria na Oscar Freire e o gerente me disse que o colar que eu encomendei ainda não foi pago. O que está acontecendo? O império está ruindo ou você esqueceu que eu tenho um padrão de vida a manter?
Eduarda se encolheu, sentindo a vibração hostil de Sara, e Emanuel sentiu o movimento. Ele colocou a mão protetoramente sobre o ombro da morena.
— O colar não foi pago porque eu decidi que você já gastou o suficiente este mês em futilidades, Sara. Eu sou o provedor desta casa, não um caixa eletrônico sem limites.
Sara riu, uma risada seca e sem humor, aproximando-se do sofá com os olhos faiscando.
— Provedor? Você adora essa palavra, não é? Adora se sentir o macho alfa que sustenta as fêmeas do clã. — Ela apontou para Eduarda com desdém. — Essa daí se derrete toda quando você rosna, mas eu não sou assim, Emanuel. Eu não preciso de um pai, preciso de um parceiro que acompanhe o meu ritmo.
— Engraçado você dizer isso — Emanuel levantou-se lentamente, sua altura e porte físico preenchendo o espaço de forma intimidadora —, porque toda vez que eu corto o seu fluxo de dinheiro ou questiono suas saídas, você faz exatamente o que está fazendo agora: reclama, mas não vai embora. Por que será, Sara?
Sara abriu a boca para retrucar, mas as palavras morreram. Ela sustentou o olhar dele, um olhar que exigia submissão mesmo quando ela gritava por independência. Por trás de toda a vulgaridade e da fachada de mulher poderosa, Sara sentia um arrepio que não era de raiva. Ela odiava admitir, odiava até pensar nisso, mas a autoridade bruta de Emanuel era o que a mantinha presa a ele. Ela gostava do conflito, gostava de ser "domada" por alguém que tinha a coragem de dizer "não" para ela.
— Eu fico porque eu gosto do luxo, Emanuel. Não se iluda — ela mentiu, a voz vacilando levemente.
— Você fica porque sabe que nenhum outro homem teria a paciência ou a força para lidar com você — Emanuel deu um passo em direção a ela, parando a milímetros de seu rosto. — Você gosta de saber que, no fim do dia, quem dá a última palavra sou eu.
Sara desviou o olhar, sentindo o calor subir pelo pescoço. Emanuel sabia ler as pessoas como lia a pele de seus clientes. Ele sabia que Eduarda precisava de proteção e que Sara precisava de um freio. E ele entregava ambos com uma precisão cirúrgica.
— Manu... não briga com ela — pediu Eduarda, levantando-se e segurando o braço dele com as duas mãos, o olhar suplicante. — A Sara só está estressada.
— Ela está sendo mal-educada, como sempre — Emanuel suspirou, a tensão diminuindo um pouco sob o toque suave de Eduarda. — Vá para o banho, pequena. Vou pedir o jantar. Bife com batatas fritas para você.
— E para mim? — Sara perguntou, tentando recuperar sua pose de rainha do gelo.
— Para você, o salmão com caviar que você tanto faz questão de ostentar — disse Emanuel, voltando para o tablet. — Mas você vai comer aqui, na mesa, sem celular e sem reclamações. Entendido?
Sara bufou, caminhando em direção ao corredor dos quartos, mas antes de sair da sala, lançou um olhar por cima do ombro. Ela viu Emanuel puxar Eduarda para um abraço rápido, um gesto de posse absoluta. Uma pontada de ciúme a atingiu, mas junto com ela, um reconhecimento silencioso: ela também queria que ele a segurasse daquele jeito, com aquela força de quem não deixaria nada de ruim acontecer.
O jantar foi uma coreografia de silêncios e tensões. Eduarda comia devagar, saboreando a comida simples que Emanuel fizera questão de garantir que estivesse perfeita. Sara mexia no caviar com enfado, mas não ousava reclamar novamente. Emanuel comandava a mesa como um general em um momento de trégua.
— Eu recebi um convite para uma festa na galeria da Paula amanhã à noite — disse Sara, quebrando o silêncio. — Eu vou.
— Você não vai — Emanuel respondeu calmamente, cortando seu bife. — Amanhã temos um jantar com o pessoal do estúdio de Tóquio aqui em casa. Você vai estar presente, vestida de forma adequada e agindo como uma mulher de classe.
— Emanuel, eu já tinha combinado! — Sara protestou, mas sem a convicção de antes.
— Desmarque — ele ordenou, levantando os olhos e fixando-os nela. — Eu não estou pedindo, Sara. Estou informando. Se você quer o colar da joalheria, comece a agir como alguém que merece o meu investimento.
Sara cerrou os dentes, mas assentiu. O "macho protetor e provedor" havia falado. E, secretamente, no fundo da sua alma competitiva, ela sentia um alívio perverso por não ter que decidir nada, por ser conduzida por uma vontade mais forte que a dela.
Eduarda olhava de um para o outro, sentindo que, de alguma forma, aquele equilíbrio bizarro funcionava. Ela era o porto seguro de Emanuel, e Sara era o seu campo de batalha. E ele, o senhor de ambos, mantinha o mundo girando com sua força e seu dinheiro.
— Manu? — Eduarda chamou, limpando o canto da boca com o guardanapo de linho.
— Sim?
— Você pode me ajudar com aquele capítulo sobre iconografia depois? Eu não entendi bem a parte sobre o simbolismo das chaves.
Emanuel sorriu, um sorriso genuíno que raramente aparecia.
— Claro que ajudo, pequena.
— E eu? — Sara interrompeu, com um tom de voz que misturava carência e provocação. — Quem vai me ajudar a escolher o vestido para amanhã? Você sabe que se eu escolher sozinha, vou acabar sendo "vulgar" demais para os seus amigos japoneses.
Emanuel olhou para a loira, percebendo a tentativa dela de buscar sua atenção. Ele sabia que, por trás de toda a agressividade, Sara só queria que ele a notasse, que ele a validasse da mesma forma que validava Eduarda, mas à sua maneira.
— Eu vou escolher o seu vestido, Sara — disse ele, a voz suavizando um pouco. — Quero você elegante. Vou deixar o conjunto sobre a sua cama amanhã à tarde. Não mude nada, nem os sapatos.
— Como você quiser, mestre — Sara ironizou, mas seus olhos brilhavam. Ela amava quando ele tomava o controle de sua imagem, quando ele a moldava para ser a mulher que ele queria exibir ao mundo.
Após o jantar, Eduarda e Emanuel foram para o escritório. Ele sentou-se na grande cadeira de couro e ela acomodou-se no chão, entre as pernas dele, com seus livros. Era o ritual deles. Emanuel trabalhava em seus designs de tatuagem enquanto explicava os conceitos de arte para ela, sua voz grave agindo como um bálsamo para a ansiedade da menina.
— As chaves representam o poder de abrir e fechar, Duda — explicou ele, passando o lápis digital pelo tablet. — Na arte sacra, elas estão com Pedro. Na nossa vida... bem, as chaves estão com quem tem a responsabilidade de cuidar da casa.
— Então as chaves estão com você — concluiu ela, olhando-o com adoração.
— Sim. E eu nunca as perco.
Na porta do escritório, Sara observava a cena. Ela estava encostada no batente, as sombras do corredor escondendo sua expressão. Ela via a doçura de Eduarda e a força de Emanuel. Ela sentia-se, por um momento, uma intrusa naquela paz, mas então Emanuel levantou os olhos e a viu.
Ele não a mandou embora. Ele apenas estendeu a mão livre em sua direção.
— Venha aqui, Sara. Pare de ficar nas sombras.
Ela hesitou por um segundo, sua máscara de rebeldia tentando se manter firme, mas acabou cedendo. Ela caminhou até ele e sentou-se no braço da poltrona, deixando que ele colocasse a mão em sua cintura.
— Você é um maníaco por controle, sabia? — sussurrou ela, inclinando a cabeça para encostar no ombro dele.
— E você é uma mulher que precisa de rédeas curtas, sabia? — ele retrucou, puxando-a para mais perto.
Ali, naquele escritório iluminado apenas pela luz das telas e por uma luminária de mesa, o triângulo encontrou seu eixo. Eduarda no chão, segura e protegida; Sara no braço da poltrona, desafiada e contida; e Emanuel no centro, o pilar que sustentava as duas realidades opostas.
Eduarda amava aquela sensação de ser uma posse preciosa. Ela gostava de saber que não precisava se preocupar com contas, com segurança ou com decisões difíceis. Emanuel era o seu escudo contra o mundo cruel que ela tanto temia. Para ela, a masculinidade protetora dele era a sua religião.
Sara, por outro lado, jamais admitiria em voz alta, mas a sensação de ter um homem que não se dobrava aos seus caprichos, que provia o luxo que ela amava mas exigia respeito em troca, era o que a mantinha ali. Ela gostava de ser a "mulher do Emanuel", a protegida do tatuador mais rico e perigoso da cidade. O peso do ouro dele em seu pescoço era, na verdade, uma coleira de seda que ela não tinha a menor intenção de romper.
— Vocês duas são o meu maior trabalho — comentou Emanuel, olhando para a morena em seus pés e para a loira em seu ombro. — Mais difícil do que fechar as costas de um cliente com um desenho complexo.
— Mas você não trocaria a gente por nada — disse Sara, com um sorriso convencido.
— Não — Emanuel concordou, fechando os olhos por um instante e sentindo o perfume das duas se misturando. — Porque no fim das contas, vocês são as únicas que sabem que, por trás de todo esse dinheiro e desse poder, eu só sou um homem tentando manter o que é meu.
Eduarda pegou a mão dele e a beijou. Sara apertou o ombro dele. Emanuel respirou fundo, sentindo o peso da responsabilidade, mas também a satisfação do domínio.
A noite avançou e o silêncio voltou a reinar no apartamento. No quarto principal, a dinâmica continuaria, com sussurros, ordens e carinhos. Emanuel dormiria entre a doçura e o fogo, sabendo que, enquanto ele fosse o provedor e o protetor, aquele pequeno e caótico império permaneceria intacto. E no fundo, era tudo o que as duas queriam, cada uma à sua maneira, presas na teia dourada de um homem que sabia exatamente como governar o coração e a vontade de suas mulheres.