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O Trono de Seda e a Fúria de Marfim

A cobertura de Emanuel em São Paulo exalava o cheiro de sucesso, uísque caro e uma tensão que poderia ser cortada com uma lâmina de tatuagem. O ambiente estava repleto de vozes graves e risadas contidas; três dos seus sócios internacionais e um curador de arte influente estavam acomodados nos sofás de couro italiano, discutindo a expansão da marca para Dubai. No centro de tudo, Emanuel mantinha sua postura de autoridade inabalável, mas havia um detalhe que suavizava sua imagem de empresário implacável: Eduarda estava aninhada em seu colo.

Ela parecia pequena, quase fundida ao corpo dele. Usava um cardigã de cashmere que Emanuel lhe dera, e suas mãos delicadas brincavam distraidamente com os dedos tatuados dele. De vez em quando, Emanuel apertava a cintura dela ou deixava um beijo rápido em seu ombro enquanto respondia sobre as projeções de lucro para o próximo trimestre. Eduarda estava em seu habitat natural: protegida, silenciosa e manhosa, aproveitando cada segundo da atenção exclusiva que recebia do homem que todos ali respeitavam.

Do outro lado da sala, encostada no bar de mármore, Sara era a personificação de uma tempestade iminente. Ela segurava uma taça de champanhe com tanta força que seus nós dos dedos estavam brancos. O vestido vermelho justo, curto e decotado, que ela escolhera especificamente para impressionar os convidados, parecia não surtir efeito. Emanuel mal a olhara desde que o jantar terminara. Para Sara, ver aquela "estudantezinha de arte" ocupando o lugar que deveria ser dela — o centro das atenções, o trono físico de Emanuel — era uma humilhação insuportável.

— Então, Emanuel, a estética brasileira tem essa força bruta que o Oriente Médio está ansioso para consumir — comentou Klaus, o sócio alemão, lançando um olhar curioso para a cena doméstica no sofá. — Mas vejo que você prefere o equilíbrio entre a força e a delicadeza.

Emanuel sorriu de canto, a mão subindo pelo braço de Eduarda.

— O equilíbrio é o segredo de qualquer império, Klaus. Sem um lugar seguro para voltar, o poder não serve para nada.

Eduarda se encolheu mais contra o peito dele, escondendo um sorriso tímido no pescoço de Emanuel. Foi o estopim. Sara caminhou em direção ao grupo, o som de seus saltos agulha batendo no chão como tiros de advertência.

— Que cena linda — disse Sara, a voz carregada de um sarcasmo que fez a conversa dos homens cessar abruptamente. — Parece uma pintura renascentista. O senhor feudal e sua mascote. Só falta o colar de pérolas, não é, Duda?

Eduarda estremeceu com a agressividade súbita e apertou a camisa de Emanuel. Ele sentiu a mudança na postura da namorada e seus olhos escureceram imediatamente.

— Sara, agora não é o momento — avisou Emanuel, o tom de voz baixo e controlado, mas com o aviso claro de perigo.

— Ah, nunca é o momento, não é? — Sara parou bem na frente deles, ignorando os convidados que trocavam olhares desconfortáveis. — Estamos recebendo pessoas importantes, Emanuel. Pessoas que vieram ver o dono da maior rede de estúdios do mundo, não um babá de luxo. Eduarda, querida, por que você não vai para o quarto ler um dos seus livrinhos e deixa o espaço para quem sabe conversar sobre negócios?

— Eu... eu só estou aqui com o Manu — sussurrou Eduarda, a voz trêmula, os olhos começando a brilhar com a umidade das lágrimas. — Ele me pediu para ficar.

— Ele pediu porque você é carente e não consegue ficar dez minutos sem ser paparicada — retrucou Sara, a vulgaridade da sua raiva transbordando. — Levante-se daí. Esse sofá é pequeno demais para nós três e eu não vou ficar em pé enquanto você faz esse teatrinho de menina indefesa.

Emanuel sentiu o estresse acumulado da semana pulsar em suas têmporas. Ele olhou para os sócios, que agora fingiam interesse súbito em seus próprios relógios e celulares. A paz que ele tanto buscava estava sendo estraçalhada pelo ego ferido de Sara.

— Sara, chega — disse Emanuel, levantando-se com Eduarda ainda nos braços por um momento, antes de colocá-la suavemente de pé ao seu lado, mantendo uma mão firmemente em seu ombro. — Você está sendo inconveniente. Se quer se juntar à conversa, pegue uma cadeira e comporte-se.

— Me juntar à conversa? Onde? No chão? — Sara apontou para o espaço ocupado por Eduarda. — Você está dando todo o espaço para ela. Ela está no seu colo, nos seus braços, na sua atenção. E eu? Eu sou o quê? A decoração cara que fica no canto do bar?

— Você é minha namorada, assim como ela — Emanuel tentou apaziguar, embora a irritação estivesse vencendo a lógica. — Mas a Eduarda é mais tranquila, ela não interrompe a reunião. Você chega chutando a porta.

— Eu chego sendo notada! — Sara deu um passo à frente, o dedo apontado para o peito tatuado dele. — Você adora essa submissão dela porque isso infla o seu ego de protetor. Mas não se esqueça de quem estava com você quando os estúdios eram apenas um sonho. Eu não vou ser escanteada por causa dessa sonsa.

Eduarda, sentindo-se o pivô de um escândalo público, começou a se afastar, a cabeça baixa.

— Manu, eu vou para o quarto... eu não quero brigar...

— Não, você não vai — Emanuel a segurou pelo pulso, não com força, mas com uma possessividade que não admitia contestação. — Você fica aqui. Sara, você vai se sentar na poltrona ao lado e vamos terminar essa conversa como adultos.

— Eu não vou sentar na poltrona ao lado enquanto ela fica grudada em você! — gritou Sara, perdendo completamente a compostura na frente dos sócios. — Ou ela sai, ou eu faço um escândalo que esses seus amigos nunca vão esquecer. Escolha, Emanuel. O que você prefere? A paz da sua bonequinha ou a confusão que eu sou capaz de causar?

Klaus, percebendo que a situação havia passado do limite do profissionalismo, levantou-se, seguido pelos outros.

— Emanuel, acho que podemos continuar isso amanhã no estúdio. O clima aqui ficou... pessoal demais.

— Klaus, me desculpe, eu... — Emanuel tentou intervir, mas o curador de arte já estava pegando o paletó.

— Sem problemas, meu amigo. Acontece nas melhores famílias. Ou nos melhores triângulos. Até amanhã.

Quando a porta do elevador se fechou, o silêncio que sobrou no apartamento era denso e tóxico. Emanuel virou-se para as duas, a mandíbula tão travada que seus dentes rangiam.

— Vocês têm noção do que acabaram de fazer? — perguntou ele, a voz soando como um trovão antes da tempestade.

— O que *ela* fez, você quer dizer! — Sara disparou, jogando o resto do champanhe na pia. — Ela fica se esfregando em você como um gato no cio só para me irritar, e você cai como um patinho.

— Eu não fiz nada, Sara! — Eduarda explodiu em um choro soluçado, escondendo o rosto nas mãos. — O Manu só estava fazendo carinho... eu gosto do colo dele... eu não queria expulsar ninguém...

— Gosta do colo dele porque é uma encostada! — Sara avançou para Eduarda, mas Emanuel se colocou entre as duas, empurrando Sara levemente para trás.

— BASTA! — o grito de Emanuel ecoou pela cobertura, fazendo as duas calarem-se instantaneamente. — Sara, você passou de todos os limites. Você humilhou a Eduarda, me humilhou diante dos meus sócios e destruiu uma noite que era importante para os meus negócios. Tudo por causa de um lugar no sofá?

— É sobre o meu lugar na sua vida, Emanuel! — Sara gritou de volta, as lágrimas de raiva borrando sua maquiagem cara. — Você a trata como porcelana e a mim como descarte!

— Eu trato você de acordo com o que você me entrega, Sara! — rebateu Emanuel, a racionalidade dando lugar a uma fúria fria. — Eu te dou luxo, te dou liberdade, te dou tudo o que você pede. Mas você me entrega caos. A Eduarda me entrega paz. E hoje, você provou que não sabe respeitar nem o meu trabalho.

Eduarda aproximou-se de Emanuel, agarrando-se ao seu braço, o corpo tremendo.

— Manu, por favor... não grita mais... eu fico no chão, eu fico em qualquer lugar, mas não briga com ela por minha causa...

— Viu só? — Sara riu, uma risada histérica. — Olha a performance! Ela é uma atriz melhor do que qualquer uma em Hollywood. "Eu fico no chão, Manu". Que patético!

Emanuel olhou para Eduarda, sentindo o instinto de proteção aflorar, mas também olhou para Sara, vendo a dor genuína por trás da vulgaridade e do ciúme. Ele estava exausto. O papel de mediador estava drenando suas energias.

— Sara, vá para o seu quarto. Agora.

— O quê? Você está me mandando embora da sala? — ela perguntou, incrédula.

— Estou mandando você se acalmar. Você não tem condições de conversar. Amanhã vamos rever as regras dessa casa. Ou você aprende a conviver e a respeitar os momentos em que a Eduarda precisa de mim, ou essa dinâmica não vai mais funcionar.

— Você está me ameaçando? Por causa dela? — Sara apontou para Eduarda com nojo.

— Estou estabelecendo limites. Algo que você parece ter esquecido o que significa.

Sara olhou para os dois — Emanuel protegendo Eduarda com o próprio corpo, e Eduarda olhando para ela com aqueles olhos de corça ferida. A loira sentiu uma pontada de derrota que a queimou por dentro. Sem dizer mais nada, ela pegou sua bolsa, chutou um dos saltos para longe e marchou em direção ao corredor, batendo a porta do quarto com tanta força que um dos quadros na parede tremeu.

Emanuel soltou um suspiro longo, fechando os olhos por um momento. Ele sentiu o peso de Eduarda contra ele.

— Ela me odeia, Manu... — sussurrou a menina, a voz manhosa e triste. — Ela nunca vai me aceitar.

— Ela está com ciúmes, Duda. Ela não sabe lidar com o fato de que eu preciso da sua calma tanto quanto preciso da energia dela — Emanuel a pegou no colo novamente, sentando-se no sofá agora vazio. — Mas ela não pode agir assim. Ninguém desrespeita o meu teto desse jeito.

Eduarda deitou a cabeça no ombro dele, as lágrimas secando, mas o coração ainda acelerado.

— Você ainda me quer aqui? Mesmo com toda essa confusão?

Emanuel a apertou mais forte, sentindo o perfume suave dela acalmar seus nervos destruídos.

— Eu não conseguiria ficar neste lugar sem você, pequena. Você é a única coisa que me mantém lúcido no meio desse circo.

— Mas a Sara... ela vai tentar se vingar, não vai?

Emanuel olhou para o corredor escuro por onde Sara desaparecera. Ele conhecia a mulher que tinha. Sabia que o silêncio dela agora era apenas o prelúdio de uma retaliação calculada. Mas, naquele momento, sob a luz suave dos lustres e com a fragilidade de Eduarda em seus braços, ele só queria a paz que lhe fora roubada.

— Deixe a Sara comigo, Duda. Eu sei como lidar com ela. Agora, apenas fique aqui. Não saia do meu colo.

Eduarda obedeceu, fechando os olhos e sentindo-se, apesar de tudo, a verdadeira rainha daquele império. Ela sabia que a guerra estava longe de terminar, e que Sara voltaria com garras mais afiadas no dia seguinte. Mas enquanto Emanuel a segurasse daquele jeito, como se ela fosse o seu tesouro mais precioso, ela suportaria qualquer tempestade.

Emanuel, no entanto, permaneceu olhando para o vazio. Ele era o mestre do controle, o homem que dominava a tinta e a pele, mas sentia que as rédeas da sua própria vida estavam escorregadias. O triângulo que ele criara era uma obra de arte perigosa e instável, e ele temia o dia em que a estrutura não aguentaria mais o peso do ódio de uma e da carência da outra. Por enquanto, o silêncio voltou à cobertura, mas era um silêncio carregado, como o ar antes de um grande desastre.