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Ouro, Nanquim e o Algoritmo do Desejo

A cobertura em São Paulo exalava o cheiro de café gourmet e o aroma metálico de produtos de limpeza caros. Emanuel estava sentado à cabeceira da mesa de mármore, os olhos fixos na tela do celular, enquanto Arthur, em sua cadeirinha alta, tentava desesperadamente capturar uma fatia de mamão com suas mãos gordinhas. O menino, agora com nove meses, era a imagem viva da vitalidade; seus cabelos castanhos estavam sempre revoltos e seus olhos escuros brilhavam com uma curiosidade que Emanuel reconhecia como sua.

Do outro lado da mesa, Sara estava em pé, vestida com um conjunto de ioga de grife que custava o preço de uma pequena galeria de arte. Ela segurava o celular com a ponta dos dedos, o rosto transformado em uma máscara de frustração. Valentina, sentada em um carrinho de bebê cravejado de cristais swarovski logo atrás da mãe, brincava silenciosamente com um chocalho de prata, parecendo uma boneca de porcelana que mal respirava para não desmanchar o laço de fita no topo da cabeça.

— Emanuel, isso é um absurdo! — Sara exclamou, jogando o celular sobre a mesa. — Eu postei o ensaio da Valentina com a temática "Princesa de Mônaco" há duas horas. Usei as melhores hashtags, paguei tráfego pago e o engajamento está estagnado!

Emanuel nem sequer levantou o olhar. Ele estava ocupado limpando um pingo de papinha que Arthur acabara de lançar em seu antebraço tatuado.

— Talvez as pessoas estejam cansadas de ver bebês fantasiados de realeza, Sara — comentou ele, a voz calma e profunda. — É um pouco artificial, não acha?

— Artificial? É classe, Emanuel! É aspiração! — Ela bufou, cruzando os braços sobre os seios siliconados. — E aí eu entro no seu perfil profissional, aquele que deveria ser apenas para suas tatuagens e artes em nanquim, e vejo que você postou uma foto do... dele.

Ela apontou para Arthur com um gesto de desdém. Arthur, percebendo a atenção, soltou uma gargalhada ruidosa e bateu as mãos na mesa, espalhando farelos de biscoito de arroz.

— Eu postei uma foto nossa no estúdio, Sara. Só isso — Emanuel finalmente bloqueou o celular e olhou para ela.

— "Só isso"? Emanuel, a foto tem o triplo de curtidas do post da Valentina! O comentário mais curtido diz que ele é o "herdeiro do trono do nanquim". As pessoas estão obcecadas por essa imagem de pai tatuado e bebê bagunceiro. Isso está destruindo a estética que eu construí para a nossa família!

Eduarda entrou na sala nesse momento, vestindo um robe de seda leve sobre uma camisola de algodão. Ela parecia ter acabado de acordar; sua pele era macia, os olhos um pouco inchados de sono e o cabelo castanho caía em ondas naturais sobre os ombros. Ela exalava uma fragilidade carinhosa que instantaneamente suavizou as feições de Emanuel.

— Bom dia... — sussurrou ela, aproximando-se de Arthur e beijando o topo de sua cabeça. — O que houve? Ouvi gritos lá do corredor.

— O que houve é que o seu filho está roubando o holofote da minha filha, Eduarda! — Sara sibilou, aproximando-se da morena com passos predatórios. — Eu gasto horas planejando a imagem da Valentina, e o Emanuel posta uma foto do Arthur todo sujo de tinta e o algoritmo simplesmente explode.

Eduarda piscou, confusa, e olhou para Emanuel em busca de proteção. Ela buscou o braço dele, apoiando-se com aquele jeito manhoso que sempre desarmava o tatuador.

— Eu não sabia que fotos de bebês eram uma competição, Sara — disse Eduarda em voz baixa. — O Arthur só estava feliz porque o Manu deixou ele segurar um pincel sem tinta.

— É exatamente esse o problema! — Sara gritou. — Essa "simplicidade" de vocês é calculada para parecer mais real, e as pessoas caem nisso! Enquanto isso, a Valentina, que é uma lady, fica em segundo plano.

— Sara, chega — Emanuel levantou-se, sua presença alta e imponente silenciando a sala. — Eu não posto fotos para competir com você. Eu posto porque tenho orgulho do meu filho. O Arthur tem uma energia que as pessoas sentem através da tela. Ele não é uma boneca de vitrine.

— Você está dizendo que a minha filha é uma boneca? — O rosto de Sara ficou vermelho sob a maquiagem impecável.

— Estou dizendo que você está projetando suas frustrações na Valentina. Ela é um bebê, não um acessório de marketing.

Sara soltou uma risada amarga e pegou o carrinho de Valentina, começando a empurrá-lo em direção à saída da sala.

— Veremos, Emanuel. Se o mundo quer "realidade", eu vou dar realidade a eles. Mas não pense que eu vou deixar a Eduarda e esse moleque passarem por cima da minha linhagem.

Quando a porta bateu, o silêncio que se seguiu foi pesado. Eduarda soltou um suspiro longo e se aninhou mais no abraço de Emanuel.

— Ela me assusta às vezes, Manu — confessou ela, olhando para Arthur, que agora tentava escalar o colo do pai. — Eu não quero que o Arthur seja motivo de briga.

— O Arthur não é o motivo, Duda. O motivo é a insegurança dela — Emanuel a puxou para um beijo na têmpora. — Esqueça a Sara. Hoje eu tenho o dia livre no estúdio principal. Quero levar vocês dois para lá.

— Para o estúdio? Mas a Sara diz que lá é um ambiente insalubre para bebês.

— A Sara não entende nada de arte — Emanuel sorriu de canto. — E o Arthur precisa começar a entender o cheiro da tinta.

Horas depois, no santuário de Emanuel — um estúdio amplo com paredes de concreto exposto, luzes industriais e prateleiras cheias de livros de arte e frascos de nanquim —, a cena era o oposto do luxo estéril da cobertura.

Emanuel havia colocado um grande rolo de papel canson no chão. Arthur, vestindo apenas uma fralda, estava sentado no centro, com pequenos potes de tintas orgânicas e atóxicas ao seu redor. Eduarda observava da poltrona de couro, um sorriso doce no rosto enquanto via Emanuel se ajoelhar ao lado do filho.

— Veja, Arthur — Emanuel mergulhou o dedo em uma tinta preta e fez um traço firme no papel. — Isso é linha. Isso é o que define o mundo.

Arthur observou com os olhos arregalados. Com uma coragem que fez o coração de Emanuel saltar, o bebê mergulhou as duas mãos no pote de tinta e as bateu com força no papel, criando uma explosão de manchas pretas e respingos aleatórios.

— Isso! — Emanuel riu, uma risada rara e sonora. — Expressionismo puro, garoto!

Eduarda pegou o celular para registrar o momento. Não havia filtros, não havia iluminação profissional, apenas a luz natural que entrava pelas janelas altas e a conexão crua entre pai e filho. Na foto, Emanuel aparecia com as mãos sujas de tinta, guiando as mãos pequenas de Arthur sobre o papel. O contraste entre as tatuagens complexas de Emanuel e a pele macia e limpa do bebê era visualmente poético.

— Posso postar? — perguntou Eduarda, timidamente.

— Deve — respondeu Emanuel, sem tirar os olhos do filho.

O post foi feito sem legendas elaboradas, apenas um emoji de um pincel e um coração preto. Em menos de uma hora, o engajamento superou qualquer coisa que Emanuel já tivesse postado em sua carreira. O mundo digital parecia sedento por aquela vulnerabilidade. Comentários de artistas renomados, celebridades e seguidores comuns inundaram a postagem: "A sucessão está garantida", "O olhar do Emanuel para o filho é a obra de arte mais bonita", "Arthur é luz pura".

Enquanto isso, na área VIP de um shopping de luxo, Sara estava sentada em um café, cercada por sacolas de compras. Ela atualizava o feed a cada trinta segundos, e a cada atualização, o post de Emanuel subia, enquanto o seu post da Valentina continuava a cair no esquecimento do algoritmo.

— Eu não acredito nisso — murmurou ela, as unhas cravadas no couro da bolsa. — Eles estão fazendo isso de propósito. Eles querem me apagar.

— Amiga, você viu o post do Emanuel? — Vanessa, que acabara de chegar, sentou-se à mesa sem perceber o clima. — O Arthur está uma fofura! Ele tem o mesmo olhar intenso do Emanuel quando está tatuando. A internet está parando por causa dele.

Sara lançou um olhar tão mortal para a amiga que Vanessa quase derrubou o cappuccino.

— Ele é um bebê sujo em um chão de estúdio, Vanessa. Não há nada de "fofo" nisso. É falta de higiene e de classe.

— Ah, qual é, Sara? As pessoas amam isso agora. É o "quiet luxury" misturado com maternidade real. A Eduarda acertou em cheio no tom.

— A Eduarda não acertou nada! — Sara se levantou, a voz subindo de tom e atraindo olhares das outras mesas. — Ela é uma oportunista que usa a timidez para se fazer de santa enquanto rouba o meu espaço! Mas eu vou mostrar para o Emanuel quem é que manda nesta família.

Sara saiu do shopping em um estado de fúria cega. Ao chegar em casa, ela encontrou a sala vazia. O silêncio da cobertura, que antes ela considerava um sinal de sofisticação, agora parecia um insulto. Ela caminhou até o quarto de Valentina e encontrou a bebê dormindo, cercada por ursos de pelúcia que custavam fortunas.

— Você vai ser maior que eles, Valentina — sussurrou ela, embora houvesse uma lágrima de frustração em seu olho. — Eu vou fazer você ser a criança mais famosa deste país. Eles não vão nos vencer com papinha e tinta preta.

À noite, Emanuel e Eduarda voltaram do estúdio. Eles estavam exaustos, mas havia uma aura de felicidade ao redor deles. Arthur dormia profundamente no colo de Emanuel, com um pequeno rastro de tinta preta que não saíra totalmente de trás de sua orelha.

Ao entrarem na sala, deram de cara com Sara. Ela estava sentada no escuro, iluminada apenas pelo brilho do tablet.

— Espero que tenham aproveitado o dia de "artistas" — disse ela, a voz carregada de sarcasmo.

— Foi um dia ótimo, Sara — respondeu Emanuel, ignorando a provocação. — O Arthur tem talento.

— Talento para chamar atenção, você quer dizer. Emanuel, eu recebi três propostas de marcas de luxo hoje. Eles querem a Valentina. Mas adivinha? Eles só fecham se o Arthur estiver na campanha também. Eles querem o "contraste".

Emanuel parou no meio da sala.

— Eu não vou colocar o Arthur em campanhas de publicidade para serem o acessório da sua filha, Sara.

— "Sua filha"? Ela é sua filha também, Emanuel! — Sara levantou-se, caminhando até ele. — Você está criando uma divisão nesta casa. Você exalta o Arthur e esconde a Valentina porque tem vergonha do que eu represento!

— Eu não tenho vergonha do que você representa, Sara. Eu tenho cansaço — Emanuel suspirou, sentindo o estresse acumulado. — Você transforma tudo em uma transação comercial. A Eduarda e o Arthur... eles são apenas vida. Sem filtros.

Eduarda, sentindo a tensão escalar, deu um passo à frente, aproximando-se de Emanuel com aquele jeito de quem busca proteção, mas também de quem quer apaziguar.

— Sara, se você quiser, eu posso te ajudar com as fotos da Valentina. Eu estudo História da Arte, posso ajudar com a composição, as cores... talvez se você deixasse ela ser um pouco mais... ela mesma...

Sara soltou uma gargalhada histérica.

— Você me ajudar? A "menina tímida" quer dar aula de estética para mim? Eduarda, você mal sabe combinar os sapatos com o vestido. Você só faz sucesso porque o Emanuel te carrega no colo. Sem ele, você é apenas uma estudante de faculdade pública com cheiro de fralda.

Eduarda recuou, os olhos enchendo-se de lágrimas. Emanuel sentiu a raiva pulsar em suas veias. Ele entregou Arthur, que ainda dormia, cuidadosamente nos braços de Eduarda.

— Vá para o quarto, Duda. Agora.

Eduarda não contestou. Ela saiu apressada, sentindo o peso da hostilidade de Sara como um golpe físico.

Emanuel virou-se para Sara, seus olhos agora frios e cortantes como as agulhas que usava para marcar a pele alheia.

— Nunca mais fale assim com ela. E nunca mais use o Arthur como moeda de troca.

— Ou o quê, Emanuel? Você vai me expulsar? Vai abrir mão da mulher que esteve com você quando você era apenas um tatuador talentoso e não um empresário rico? Você precisa de mim para o seu status social, e você sabe disso.

— O que eu preciso, Sara, é de paz. E a Eduarda me dá isso. Se você continuar tentando destruir o que eu sinto por ela usando as crianças, você vai acabar sozinha nesta cobertura com os seus cristais e o seu algoritmo.

Emanuel deu as costas e caminhou em direção ao quarto de Eduarda. Sara ficou sozinha na sala, o peito subindo e descendo com a respiração ofegante. Ela pegou o celular e viu que a foto de Emanuel e Arthur acabara de atingir um milhão de curtidas.

Naquela noite, Emanuel não foi para o quarto de Sara. Ele deitou-se ao lado de Eduarda, que ainda chorava baixinho.

— Por que ela me odeia tanto, Manu? — sussurrou ela, aninhando-se no peito dele.

— Ela não odeia você, Duda. Ela odeia o fato de que você não precisa de esforço para ser amada. Ela acha que o amor é uma conquista, um prêmio que se ganha com beleza e dinheiro. Ela não entende que o que eu sinto por você é... essencial.

— E a Valentina? Eu me sinto mal por ela.

— Eu vou cuidar da Valentina. Mas não vou deixar a Sara transformá-la em um robô.

No dia seguinte, Emanuel acordou com uma notificação em seu celular. Sara havia postado uma nova foto. Nela, Valentina aparecia sentada no chão da cozinha, com um pote de sorvete derretido à sua frente, o rosto sujo e um sorriso banguela e espontâneo. A legenda dizia: "Vida real também é doce".

O post foi um sucesso imediato. Sara havia aprendido a lição, mas da forma mais manipuladora possível: ela estava mimetizando a simplicidade de Eduarda para recuperar o poder.

Emanuel olhou para a foto e depois para Eduarda, que dormia ao seu lado com a expressão serena. Ele percebeu que a guerra entre as duas mulheres de sua vida estava apenas começando. Sara usaria todas as armas, incluindo a própria vulnerabilidade fingida, para não perder o seu lugar.

— O jogo dela é perigoso — murmurou Emanuel para si mesmo.

Ele levantou-se e foi até o quarto de Arthur. O menino estava acordado, brincando com os próprios pés. Emanuel o pegou no colo e foi até a janela, observando o nascer do sol sobre São Paulo.

O sucesso de Arthur no Instagram fora apenas o rastilho de pólvora. Emanuel sabia que teria que ser o mediador de um conflito que envolvia ego, maternidade e o desejo de posse. Ele queria as duas; queria o fogo de Sara que o desafiava e a doçura de Eduarda que o curava. Mas, ao olhar para o filho, ele soube que a sua prioridade seria proteger aquela pureza da toxicidade que as redes sociais e a vaidade de Sara poderiam trazer.

— Você vai ser um grande artista, Arthur — sussurrou ele. — Mas, antes disso, você vai ser um homem livre.

A porta do quarto se abriu e Eduarda apareceu, com seu jeito manhoso, envolvendo a cintura de Emanuel com os braços.

— O que você está pensando? — perguntou ela.

— Que a tinta preta é a mais difícil de remover — respondeu ele, beijando o topo da cabeça dela. — Mas é ela que dá forma ao desenho.

Emanuel sabia que sua vida era agora um desenho complexo de luz e sombras. E, embora Sara estivesse tentando manipular as cores, era na suavidade de Eduarda que ele encontrava a tela branca para recomeçar todos os dias. O sucesso de Arthur fora apenas uma prova de que a verdade sempre vence a montagem, e Emanuel estava disposto a lutar para que sua casa, apesar de dividida, nunca perdesse a alma.