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Ouro Sobre Nanquim: O Eclipse de Paris

A Cidade Luz nunca parecera tão vibrante, e ao mesmo tempo tão opressora, quanto naquela noite de outono. A cobertura temporária de Emanuel, um duplex de vidro e aço com vista para a Torre Eiffel, fervilhava com a preparação para o vernissage da "L’Art du Nanquim", a exposição internacional que consolidaria Emanuel não apenas como o maior tatuador do mundo, mas como um curador de arte visionário.

No andar de cima, o contraste entre os dois quartos principais era quase cômico, se não fosse trágico. De um lado, Sara comandava um exército de três maquiadores e dois cabeleireiros franceses. O quarto estava inundado por frascos de perfumes caros, sprays de cabelo e o brilho ofuscante de um vestido de alta costura cravejado de cristais Swarovski. Valentina, em seu berço de ouro portátil, usava um vestido que era uma réplica exata do da mãe, parecendo uma boneca de porcelana inanimada sob camadas de tule.

— Plus de volume! — gritava Sara para o cabeleireiro, gesticulando freneticamente. — Eu quero parecer uma rainha, não uma convidada qualquer. Emanuel gastou uma fortuna nesta galeria e eu serei a estrela principal. Valentina, não ouse babar nesse laço, custou mais que o aluguel deste apartamento!

Do outro lado do corredor, no quarto de Eduarda, o silêncio era quebrado apenas pelo som de Arthur tentando escalar uma poltrona de veludo e pelas risadas baixas da jovem. Eduarda não tinha maquiadores. Ela mesma havia feito uma pele leve, destacando apenas a doçura de seus olhos castanhos com um delineado fino. O cabelo estava preso em um coque clássico e desconstruído, com algumas mechas moldando seu rosto delicado.

Ela usava um vestido de seda pura em tom verde-esmeralda profundo, que caía de forma fluida sobre seu corpo esguio e leve, ressaltando a maciez de seus seios médios e a elegância discreta de sua postura. Arthur, por sua vez, vestia um pequeno terno de linho azul-marinho, sem gravata, e seus pés gordinhos estavam calçados com sapatos de couro macio que ele tentava constantemente chutar para longe.

— Você está pronto para ver os quadros, Arthur? — sussurrou ela, pegando o filho no colo e sentindo o cheiro de sabonete infantil e talco. — Hoje vamos ver a História da Arte saindo dos livros, meu pequeno explorador.

Emanuel entrou no quarto, vestindo um smoking preto impecável que contrastava com as tatuagens que subiam pelo seu pescoço. Ele parou na porta, e por um momento, o homem racional e prático sentiu o ar faltar nos pulmões.

— Você está... — Ele buscou a palavra, mas a lógica falhou. — Você parece uma pintura de Renoir, Eduarda. Mas com uma alma que nenhum pincel conseguiria capturar.

— Obrigada, Manu — disse ela, a voz manhosa e tímida, sentindo as bochechas esquentarem. — Eu estava com medo de estar simples demais para Paris.

— A simplicidade é o último grau da sofisticação — respondeu ele, aproximando-se e beijando a testa dela, antes de pegar Arthur, que imediatamente agarrou a lapela do smoking do pai. — E esse garoto aqui? Pronto para derrubar a torre de champanhe da galeria?

— Ele prometeu se comportar — riu Eduarda.

— Emanuel! — A voz de Sara ecoou do corredor, cortante como um chicote. — Estamos atrasados! E por que você está nesse quarto? Vamos, os fotógrafos já estão na porta da galeria!

A chegada à galeria no Marais foi um espetáculo de flashes. Sara saiu do carro primeiro, posando com Valentina no colo como se estivesse em um editorial da Vogue. Ela sorria para as câmeras, girando para exibir o brilho dos cristais, mas Valentina começou a chorar, incomodada com a luz forte e o peso do vestido desconfortável.

— Sorria para a foto, Valentina! — sibilou Sara entre dentes, mantendo o sorriso plástico para os jornalistas.

Logo atrás, Emanuel desceu com Eduarda. No momento em que Eduarda pisou no tapete vermelho, houve um murmúrio entre os críticos de arte e os fotógrafos de moda. Ela não brilhava pelo glitter, mas por uma aura de serenidade e elegância que parecia intrínseca a Paris. Arthur, no colo de Emanuel, acenava para as câmeras com uma energia contagiante, soltando gritinhos de alegria ao ver as luzes, tornando-se instantaneamente o favorito dos paparazzi.

Dentro da galeria, a disparidade entre as duas mulheres tornou-se um abismo. Sara instalou-se perto da entrada, em um lounge VIP, esperando que as pessoas viessem até ela para admirar seu luxo. Ela falava alto sobre os preços das obras e sobre como planejava decorar sua cobertura em São Paulo com "coisas caras".

— Essa tela aqui ficaria ótima no meu closet — disse Sara para um grupo de investidores franceses, apontando para um desenho técnico de Emanuel. — Combina com o mármore.

Os investidores sorriram educadamente, mas logo seus olhos se desviaram para o centro do salão, onde Eduarda estava parada diante de uma obra complexa de nanquim e folha de ouro. Ela estava cercada por Jean-Paul Clichy, um dos curadores mais respeitados da Europa, e outros acadêmicos de História da Arte.

— O uso do espaço negativo nesta peça — dizia Eduarda, a voz suave mas carregada de uma confiança técnica que Emanuel nunca vira nela — remete diretamente ao chiaroscuro de Caravaggio, mas com a precisão da arte japonesa *sumi-e*. Emanuel não está apenas tatuando o papel; ele está dialogando com a resistência da fibra, assim como se faz com a pele humana.

Jean-Paul Clichy inclinou a cabeça, impressionado.

— Mademoiselle, sua percepção é fascinante. A maioria das pessoas aqui só vê o valor de mercado. Você vê a genealogia da técnica.

— A arte é uma conversa entre séculos — respondeu Eduarda, sorrindo timidamente enquanto Arthur, em seu colo, tentava tocar a moldura do quadro com uma curiosidade vibrante, sendo impedido delicadamente pelas mãos da mãe. — E este pequeno aqui já está tentando aprender o vocabulário.

Arthur soltou uma gargalhada e apontou para uma mancha dourada na tela, gritando "Sol! Sol!". Os críticos riram, encantados com a espontaneidade do menino, que trazia uma vida necessária para o ambiente muitas vezes estéril de uma galeria de luxo.

Emanuel observava de longe, encostado em uma coluna, com uma taça de cristal na mão. Ele sentia um orgulho avassalador. Sara era a sua fachada, a sua armadura de ouro; mas Eduarda era a sua essência, a mulher que validava o seu talento diante dos olhos do mundo intelectual.

Sara, percebendo que o círculo de pessoas ao redor de Eduarda só aumentava, aproximou-se com Valentina, que agora dormia pesadamente, parecendo exausta.

— Emanuel, por que todos estão ouvindo a babá falar sobre tinta? — sussurrou Sara, a voz carregada de veneno. — Ela está passando vergonha, agindo como se fosse uma professora. E esse menino está fazendo barulho demais. Isso é um evento de classe, não um parquinho.

— Ela não é a babá, Sara — Emanuel respondeu, o olhar fixo em Eduarda. — Ela é a única pessoa nesta sala que realmente entende o que eu faço. E o Arthur... o Arthur é a única coisa aqui que tem mais energia que as minhas obras.

— Você está me ignorando na frente de todos! — Sara bateu o pé, o som ecoando no chão de resina. — Eu sou a sua namorada oficial! Eu administro a sua imagem!

— Então administre a sua própria frustração, Sara — disse Emanuel, afastando-se dela para se juntar ao grupo de Eduarda.

O ápice da noite ocorreu quando o diretor do Museu do Louvre, que fizera uma visita privada, aproximou-se de Emanuel.

— Monsieur Emanuel — disse o diretor —, sua obra é potente. Mas devo dizer que sua companheira — ele indicou Eduarda — nos deu uma aula de curadoria hoje. Ela tem uma sensibilidade rara. E o pequeno... ele tem o fogo da criação nos olhos.

Sara, que chegara logo atrás, tentou intervir.

— Obrigada, Monsieur. Eu cuido de toda a parte administrativa da carreira do Emanuel. Se quiser discutir contratos...

O diretor mal olhou para ela, focando novamente em Eduarda.

— A administração é necessária, claro. Mas a alma... a alma é o que nos faz comprar a arte. Mademoiselle Eduarda, adoraria que você visitasse nosso departamento de restauração amanhã.

Eduarda olhou para Emanuel, os olhos brilhando com uma mistura de susto e alegria.

— Eu adoraria — sussurrou ela.

A noite seguiu com Eduarda sendo o centro das atenções intelectuais de Paris. Arthur tornou-se o "Petit Prince" da noite, sendo carregado de colo em colo pelos convidados mais influentes, que se encantavam com sua falta de inibição e sua risada fácil. Enquanto isso, Sara permanecia no lounge, cercada apenas por Paula e Vanessa, que tentavam desesperadamente encontrar defeitos no vestido de Eduarda para consolar a amiga.

— Ela parece uma camponesa que achou um pote de ouro — comentou Paula, bebendo champanhe.

— Uma camponesa que está conversando com o diretor do Louvre enquanto você reclama do buffet — retrucou Vanessa, que, apesar de ser amiga de Sara, não podia ignorar o sucesso óbvio de Eduarda.

De volta ao duplex, após o evento, a tensão explodiu. Sara jogou a bolsa de grife na parede, acordando Valentina, que começou a chorar.

— EU ODEIO ESTE LUGAR! — gritou Sara. — EU ODEIO COMO VOCÊ DEIXOU AQUELA GAROTA ME ECLIPSAR! EU SOU A MULHER SILICONADA, A MULHER QUE TODOS QUEREM TER! E VOCÊ ME TRATOU COMO UMA DECORAÇÃO DE SEGUNDA CLASSE!

Emanuel, que carregava Arthur adormecido em seu ombro, não se alterou.

— Você se tratou como decoração, Sara. Você se preocupou tanto com o brilho dos seus cristais que esqueceu de olhar para os quadros. A Eduarda não te eclipsou. Ela apenas brilhou onde você não tem luz.

— Você a ama, não é? — Sara perguntou, a voz trêmula de raiva e insegurança.

Emanuel parou no meio da escada, olhando para Sara e depois para o quarto onde Eduarda entrava silenciosamente para colocar Arthur no berço.

— Eu amo o que você representa para o meu sucesso, Sara. Mas eu amo o que a Eduarda representa para a minha paz. E hoje, em Paris, a paz foi muito mais valiosa que o sucesso.

— Você não pode ter as duas para sempre, Emanuel! — Sara gritou, enquanto subia para o seu quarto, batendo a porta com força.

Emanuel entrou no quarto de Eduarda. Ela estava sentada na beira da cama, tirando os sapatos, parecendo exausta mas feliz.

— Você foi incrível hoje, Duda — disse ele, sentando-se ao lado dela.

— Eu estava com tanto medo, Manu... mas quando comecei a falar sobre a sua arte, o medo sumiu. Eu sinto que pertenço a esse mundo.

— Você pertence a qualquer lugar que você quiser — ele disse, puxando-a para um beijo lento e profundo, que carregava o sabor da vitória e do desejo acumulado. — E o Arthur... ele é o meu herdeiro, mas ele tem a sua luz.

— A Sara nunca vai me perdoar por hoje — sussurrou ela entre os beijos.

— Deixe a Sara com o ouro dela — respondeu Emanuel, deitando-a no colchão de seda. — Eu fico com a esmeralda.

Naquela noite, sob o céu de Paris, Emanuel sentiu que o seu plano de ter as duas estava se tornando um jogo perigoso de sombras e luzes. Ele tinha a mulher que o mundo admirava por fora, e a mulher que o mundo respeitava por dentro. Mas, enquanto observava Eduarda dormir com a calma de quem conquistara a Cidade Luz apenas com o intelecto e a doçura, ele soube que a tinta de sua vida estava mudando de cor. O nanquim preto e rígido de sua rotina com Sara estava sendo diluído pelas cores suaves e profundas de Eduarda, e em Paris, a arte sempre vencia a vaidade.

Pela manhã, os jornais franceses trariam a foto de Emanuel e Eduarda com Arthur, com a manchete: "O Novo Gênio do Nanquim e a Musa da Inteligência". Sara, ao ver a foto onde ela fora cortada da borda, entenderia que, em Paris, o glitter não era páreo para o ouro verdadeiro. E Emanuel, observando suas duas vidas, saberia que o triângulo estava mais afiado do que nunca, pronto para cortar quem não soubesse dançar entre o caos e a cura.