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D

O Caos e o Acanto

A tarde na cobertura de Emanuel estava longe de ser a serenidade que o mármore e o vidro sugeriam. O ar estava saturado com o cheiro de perfume importado e o som estridente de uma discussão que parecia não ter fim. Juju, com seus quatro anos de pura energia e uma inteligência emocional afiada para o caos, havia decidido que aquele era o dia de testar os limites da "Tia Sara".

— Eu já disse que não quero esse suco! É cor de lama! — gritou Juju, empurrando o copo de cristal com o suco de detox verde que Sara tentava forçá-la a beber.

O líquido espirrou generosamente, manchando o tapete persa e, para horror absoluto de Sara, atingindo a lateral de sua sandália de grife.

— Sua pestinha! Olha o que você fez! — Sara explodiu, levantando-se da cadeira com os olhos faiscando. — Emanuel, faça alguma coisa! Essa menina é um demônio! Eu não sou paga para ser babá de criança mal-educada!

Emanuel, que estava tentando revisar alguns contratos de seu estúdio em Londres no balcão da cozinha, fechou o laptop com um estalo seco. O rosto dele era uma máscara de tensão controlada. Ele amava a sobrinha, mas a energia de Juju era como um furacão dentro de seu santuário de ordem.

— Sara, gritar não vai resolver nada — disse Emanuel, a voz baixa e perigosa. — E Juju, peça desculpas agora.

— Não peço! Ela é feia e cheira a remédio de barata! — Juju retrucou, subindo no sofá de linho com os pés sujos de biscoito, pulando como se estivesse em um pula-pula.

— Remédio de barata?! Emanuel, esse perfume custou dois mil dólares! — Sara estava vermelha, as veias do pescoço saltadas. — Eu cansei. Ou essa garota sai daqui, ou eu saio!

A pequena pimenta, percebendo que havia atingido um ponto sensível, começou a gritar a plenos pulmões, um choro agudo e teatral que ecoava pelas paredes de vidro da cobertura. Era uma tática de guerra. Juju sabia que o tio odiava barulho e que Sara perdia a compostura em segundos.

Foi nesse momento que a campainha tocou.

Emanuel caminhou até a porta com passos pesados, sentindo a têmpora latejar. Quando abriu, o contraste foi imediato. Eduarda estava ali, vestindo uma saia midi de algodão azul claro e uma blusa de gola alta branca, os cabelos castanhos presos em um coque frouxo que deixava alguns fios caírem sobre o rosto delicado. Ela segurava uma pequena mochila de pelúcia.

— Oi... — sussurrou ela, encolhendo-se levemente ao ouvir o grito ensurdecedor vindo da sala. — A Luana disse que... que talvez as coisas estivessem um pouco agitadas por aqui. Ela me pediu para vir ajudar.

Emanuel sentiu um alívio tão súbito que quase suspirou. Ele estendeu a mão e, num gesto instintivo, tocou o ombro de Eduarda, guiando-a para dentro. A pele dela, mesmo através do tecido, parecia emanar uma calma que ele desejava desesperadamente.

— Você não faz ideia do quanto a sua presença é necessária agora, Eduarda — disse ele, os olhos fixos nos dela por um segundo a mais do que o estritamente profissional.

Assim que entraram na sala, a cena era dantesca. Sara estava apontando o dedo para Juju, que agora chorava de verdade, assustada com a própria escalada de agressividade.

— Ah, chegou a salvadora da pátria! — debochou Sara, cruzando os braços sobre os seios siliconados que quase saltavam do decote do top de academia. — Boa sorte com essa coisa, "Dudinha". Ela é insuportável.

Eduarda não respondeu. Ela sequer olhou para Sara com raiva; apenas sentiu uma pontada de pena pela criança e um desconforto profundo com a agressividade da loira. Com passos lentos e silenciosos, ela se aproximou do sofá.

— Juju... — chamou docemente.

A menina parou o grito no meio, soluçando. Ao ver Eduarda, seus olhinhos brilharam.

— Duda! A bruxa quer me dar veneno verde! — Juju se jogou nos braços de Eduarda, escondendo o rosto no pescoço da jovem.

Eduarda sentou-se no sofá, ignorando a sujeira de biscoito, e envolveu a menina em um abraço protetor. Ela começou a balançar o corpo suavemente, um movimento rítmico e ancestral.

— Psiu... está tudo bem. Não é veneno, é só um suco que a tia Sara gosta — disse Eduarda, a voz como um bálsamo. — Mas se você não gosta, não precisa tomar. Vamos respirar fundo? Igual às flores que a gente desenhou?

Emanuel observava a cena, encostado na parede, hipnotizado. Havia uma graça quase divina na forma como Eduarda lidava com o caos. Ela não impunha autoridade; ela oferecia refúgio. Ele olhou para Sara, que bufava e limpava a sandália com um lenço úmido, destilando veneno em cada gesto, e depois voltou para Eduarda, que agora cantava baixinho uma melodia sem palavras, acariciando os cabelos de Juju.

O contraste era violento. Sara era o asfalto quente de uma metrópole; Eduarda era a grama úmida de um jardim escondido.

— Isso é ridículo — resmungou Sara, aproximando-se de Emanuel. — Você vai deixar ela mimar a menina desse jeito? Ela precisa de disciplina, não de canções de ninar.

— Ela precisava de calma, Sara — rebateu Emanuel, sem desviar os olhos de Eduarda. — E parece que a Eduarda é a única aqui que sabe o que é isso.

Sara sentiu a alfinetada e cerrou os dentes.

— Você está defendendo essa sonsa? Ela nem fala direito! Parece que tem medo da própria sombra.

— Às vezes o silêncio diz muito mais do que os seus gritos — disse ele, a voz fria.

Eduarda, percebendo a tensão entre o casal, encolheu-se um pouco, mas não parou de ninar Juju. A menina, exausta pela explosão de temperamento, já começava a fechar os olhos, rendida ao cheiro de baunilha e à segurança que emanava de Eduarda.

— Emanuel... — chamou Eduarda, baixinho, com um tom manhoso e tímido que fez o sangue do homem circular mais rápido. — Será que eu posso levar ela para o quarto? Ela está quase dormindo.

— Claro. Eu te ajudo — prontificou-se ele.

— Eu levo, Emanuel. Eu conheço o jeito que ela gosta de deitar — disse ela, levantando-se com a menina no colo. Eduarda era esguia, mas parecia carregar o peso de Juju com uma facilidade nascida do afeto.

Emanuel a seguiu até o quarto de hóspedes. Ele abriu a porta e observou enquanto ela colocava a pequena na cama, cobrindo-a com a manta e dando um beijo suave em sua testa. O quarto estava na penumbra, e a luz que vinha do corredor criava uma aura ao redor de Eduarda.

Quando ela se virou para sair, deu de cara com Emanuel parado à porta. A proximidade era excessiva para a timidez dela. Eduarda baixou os olhos, as bochechas corando instantaneamente.

— Ela dormiu rápido — sussurrou ela, tentando passar por ele.

Emanuel, no entanto, não se moveu. Ele colocou a mão no batente da porta, bloqueando o caminho dela. Não de forma agressiva, mas possessiva.

— Obrigado, Eduarda. De verdade.

— Não precisa agradecer... eu gosto muito dela.

— Eu não estou falando só da Juju — disse ele, inclinando-se um pouco, o suficiente para sentir o calor que emanava da pele dela. — Você trouxe uma paz para esta casa que eu não sentia há muito tempo.

Eduarda sentiu as pernas fraquejarem. O olhar de Emanuel era pesado, carregado de uma intenção que ela não sabia como processar. Ele era um homem feito, rico, poderoso e tatuado, o oposto de tudo o que ela conhecia em seu mundo de livros e museus.

— Eu... eu preciso ir — murmurou ela, a voz falhando.

— Fique para o jantar — pediu ele. — A Sara vai pedir algo, ou podemos sair.

— Eu acho que a sua namorada não gostaria disso — disse Eduarda, finalmente encontrando coragem para olhar nos olhos dele. Havia uma tristeza doce em seu olhar. — Ela parece não gostar muito de mim.

— A Sara é... complicada — admitiu Emanuel, sentindo um conflito interno.

Ele amava a energia de Sara, a forma como ela o desafiava na cama e no dia a dia, a estética impecável e a vulgaridade magnética que ela exalava. Mas, olhando para Eduarda, ele sentia uma necessidade de proteção, um desejo de envolvê-la em seus braços e escondê-la da crueldade do mundo — inclusive da crueldade de Sara.

— Por favor, fique — insistiu ele, a voz mais suave. — Só para garantir que a Juju não acorde e bote fogo na casa de novo.

Eduarda soltou um risinho tímido, escondendo a boca com a mão.

— Tudo bem. Mas só por um pouco.

Quando voltaram para a sala, Sara estava sentada no balcão, tomando uma taça de vinho tinto. Ela olhou para os dois com um sorriso cínico.

— A "mãezinha" decidiu sair do quarto? Que fofo. Emanuel, pedi comida japonesa. Espero que a vizinha coma peixe cru, ou vai ter que se contentar com os farelos da Juju.

— Ela vai jantar conosco, Sara — disse Emanuel, sentando-se e indicando a cadeira ao seu lado para Eduarda.

O jantar foi um exercício de tensão. Sara dominava a conversa, falando sobre festas, marcas de luxo e as novas tendências de Miami, sempre fazendo questão de ressaltar o quanto aquelas coisas eram inacessíveis para alguém como Eduarda.

— E você, querida? — perguntou Sara, girando o hashi com habilidade. — História da Arte... isso dá dinheiro? Ou você planeja viver de luz e de cuidar dos filhos dos outros para sempre?

Eduarda apertou o copo de água entre as mãos, sentindo-se pequena.

— Eu amo o que estudo. A arte é a forma como a humanidade registra sua alma. O dinheiro... é secundário se você não tem beleza na vida.

Sara soltou uma gargalhada alta e estridente.

— Que poético! Emanuel, você ouviu isso? Ela é uma filósofa!

Emanuel não riu. Ele observava a forma como Eduarda se encolhia sob o ataque, a maneira como ela parecia buscar o apoio dele apenas com o olhar. Ele estendeu a mão por baixo da mesa e, para sua própria surpresa, tocou o joelho de Eduarda.

Ela deu um pequeno salto, mas não se afastou. O toque dele era firme e quente, uma âncora em meio à tempestade de sarcasmo de Sara.

— Eu acho que a Eduarda tem razão — disse Emanuel, olhando fixamente para Sara. — Às vezes, a gente se perde em números e aparências e esquece o que realmente importa.

Sara estreitou os olhos. Ela não era burra. Ela sentia a eletricidade no ar, a forma como Emanuel olhava para aquela menina sem sal. Mas, em vez de recuar, Sara sorriu de forma predatória. Ela conhecia Emanuel. Sabia que ele era um homem de apetites vorazes.

— Você está certo, querido. Talvez a Dudinha possa nos ensinar um pouco sobre "alma". O que você acha de ela passar mais tempo aqui? — Sara lançou um olhar desafiador para Emanuel. — Afinal, a Juju adora ela, e eu adoraria ter alguém para... organizar minhas coisas.

Emanuel entendeu o jogo. Sara estava tentando transformar Eduarda em uma empregada, em alguém inferior. Mas ele tinha seus próprios planos.

— Eu acho uma excelente ideia ela passar mais tempo aqui — disse ele, a voz carregada de um duplo sentido que fez Eduarda estremecer. — Mas não como sua assistente, Sara. Como nossa convidada.

Eduarda olhou de um para o outro, sentindo que estava entrando em um território perigoso. Ela se sentia atraída pela força de Emanuel, pela segurança que ele oferecia, mas a presença de Sara era como um espinho constante.

— Eu... eu preciso ir agora — disse Eduarda, levantando-se apressadamente. — Minha mãe deve estar esperando.

— Eu te levo até a porta — disse Emanuel.

No hall de entrada, longe dos olhos de Sara, o silêncio retornou. Eduarda pegou sua bolsa, as mãos tremendo levemente.

— Emanuel, eu não quero causar problemas entre você e ela.

— Você não causa problemas, Eduarda — disse ele, aproximando-se e encurralando-a suavemente contra a porta de carvalho. Ele levou a mão ao rosto dela, tirando uma mecha de cabelo. — Você é a solução que eu nem sabia que estava procurando.

— Mas você ama ela... — sussurrou ela, os olhos úmidos.

— Eu amo a intensidade da Sara — confessou ele, a voz rouca. — Mas eu preciso da sua doçura. Eu não quero ter que escolher, Eduarda.

Eduarda arregalou os olhos. A proposta implícita era escandalosa, assustadora e, de uma forma que ela não conseguia explicar, tentadora. Ela queria aquele homem. Queria a proteção dele, o cheiro dele, a forma como ele a fazia se sentir importante apenas por existir.

— Eu sou só uma estudante... — murmurou ela, buscando o apoio do peito dele, encostando a cabeça ali por um breve segundo de carência.

Emanuel a abraçou, sentindo a maciez do corpo dela contra o seu. Era como segurar um pássaro ferido.

— Você é muito mais do que isso. E eu vou te mostrar.

Ele se inclinou e beijou o topo da cabeça dela, um gesto de carinho puro que contrastava com a luxúria que ele sentia por Sara.

Eduarda saiu do apartamento sentindo o coração na boca. Ela era tímida, era manhosa, e estava completamente perdida no mundo de Emanuel.

Lá dentro, Emanuel voltou para a sala. Sara o esperava, encostada no sofá, com uma expressão de tédio misturada com diversão.

— Ela é fofa, Emanuel. Um pouco irritante com toda aquela humildade, mas fofa. Se você quer ela por perto, eu topo o jogo. Mas lembre-se: eu não divido meu trono.

Emanuel serviu-se de mais um pouco de vinho, olhando para a cidade iluminada lá fora.

— O trono é seu, Sara. Mas o castelo é grande o suficiente para as duas.

Ele sabia que o caminho seria turbulento. Sara e Eduarda eram água e óleo, fogo e gelo. Mas ele era o tatuador, o homem acostumado a lidar com a dor para criar beleza, a misturar cores para chegar à perfeição. E ele não descansaria até que tivesse a intensidade de uma e a doçura da outra sob o seu teto, sob o seu comando, e em sua cama.

A caçada havia começado, e Eduarda, em sua inocência, já havia caído na rede. Sara, em sua arrogância, achava que tinha o controle. Emanuel, no entanto, era quem segurava as rédeas de ambas.