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Seda e Algodão: O Peso do Desejo
O mês que se seguiu ao primeiro encontro foi um exercício de obsessão para Emanuel. Ele, que sempre se orgulhou de seu autocontrole e da frieza com que geria seus estúdios de tatuagem e sua vida pessoal, viu-se subitamente desarmado. A imagem de Eduarda — a forma como ela corava, o jeito manhoso de desviar o olhar e a doçura com que lidava com Juju — tornou-se um ruído constante em sua mente, sobrepondo-se até mesmo aos gritos e às exigências de Sara.
Emanuel não era homem de esperar. Ele queria Eduarda por perto, sob sua proteção, onde pudesse vigiar cada suspiro dela. E, para ele, "perto" significava dentro de sua própria casa.
A manhã de sábado estava nublada quando o carro de luxo de Emanuel parou em frente ao prédio simples onde Eduarda morava. Ele não avisou. Apenas subiu, e quando ela abriu a porta, ainda de pijama de flanela e com os olhos inchados de sono, ele entrou com a autoridade de quem já era dono do lugar.
— Emanuel? O que você está fazendo aqui? — perguntou ela, a voz saindo pequena, as mãos subindo instintivamente para tentar ajeitar o cabelo castanho bagunçado.
— Vim buscar você, Duda — disse ele, a voz grave não admitindo discussões. — Suas coisas. Onde estão as malas?
Eduarda piscou, confusa, sentindo o coração disparar contra as costelas. Ela recuou um passo, buscando o apoio da mesa da cozinha.
— Malas? Mas... Emanuel, a gente nem namora direito. Você disse que queria cuidar de mim, mas... eu achei melhor cada um na sua casa por um tempo. Eu tenho minha faculdade, minhas rotinas...
Emanuel se aproximou, reduzindo a distância entre eles até que ela pudesse sentir o cheiro de tabaco e perfume caro que emanava dele. Ele segurou o rosto dela com as duas mãos, os polegares acariciando as bochechas pálidas.
— Eu não quero você aqui, em um lugar onde eu não posso te ver. Eu quero você comigo, Eduarda. Quero que você acorde ao meu lado, que estude na minha biblioteca, que se sinta segura.
— Mas e a Sara? — sussurrou ela, os olhos se enchendo de uma hesitação manhosa. — Ela mora lá. Ela me odeia, Emanuel. Eu tenho medo de como ela vai me tratar.
— Eu estou lá para garantir que ninguém te toque — afirmou ele, a expressão endurecendo. — A Sara sabe das minhas condições. Ela aceitou. Agora, por favor, não me faça pedir de novo.
Eduarda, incapaz de resistir àquela força magnética e ao desejo profundo de ser cuidada, apenas assentiu, deixando os ombros caírem em sinal de rendição. Emanuel mesmo ajudou a guardar as roupas leves e os livros de História da Arte em duas malas grandes. Meia hora depois, ela estava sentada no banco de couro do carro, sentindo-se como uma prisioneira que, secretamente, desejava o seu captor.
Ao chegarem na cobertura, o clima era de guerra fria. Sara estava na sala, usando um conjunto de lingerie de renda por baixo de um robe de seda transparente, segurando uma taça de champanhe às dez da manhã. Ela observou a entrada de Eduarda com um sorriso que não chegava aos olhos.
— Olha só quem chegou com a mudança — debochou Sara, levantando-se e caminhando com os quadris oscilando. — O harém do Emanuel está oficialmente aberto, então?
Eduarda se encolheu atrás de Emanuel, segurando a barra da jaqueta dele.
— Ela vai ficar no quarto de hóspedes principal — anunciou Emanuel, ignorando a provocação. — Trate-a com respeito, Sara. Ou as consequências não serão agradáveis para o seu cartão de crédito.
— Relaxa, querido. Eu não mordo... a menos que me peçam — Sara lançou um olhar venenoso para Eduarda. — Bem-vinda ao hospício, santinha. Espero que tenha estômago forte.
A tensão só aumentou com a chegada de Juju, que passaria o fim de semana ali. A menina entrou como um furacão, mas parou subitamente ao ver o clima na sala.
— Duda! Você veio morar com o tio Manu? — A menina correu e abraçou as pernas de Eduarda, ignorando completamente a presença de Sara.
— Vou passar uns dias aqui, Juju — respondeu Eduarda, retribuindo o abraço com uma ternura que fez o peito de Emanuel se aquecer.
— Que bom! Porque a tia Sara é chata e a comida que ela manda a moça fazer é ruim! — reclamou a pequena pimenta, fazendo uma careta.
Na hora do almoço, o conflito explodiu. Sara havia pedido um serviço de buffet sofisticado: lagosta ao thermidor e uma salada de aspargos com óleo de trufas. Pratos caros, complexos e, para uma criança de quatro anos, absolutamente intragáveis.
— Eu não vou comer isso! — gritou Juju, empurrando o prato de porcelana. — Tem cheiro de peixe morto e essa coisa verde parece dedo de monstro!
— Coma logo, Juliana! — Sara exclamou, perdendo a paciência. — Isso custou mais do que a mesada da sua babá de luxo aí. É comida de gente fina, aprenda a ter paladar!
— Eu quero arroz e feijão! E ovinho! — Juju começou a chorar, um choro manhoso que buscava a atenção de Eduarda.
Emanuel massageou as têmporas, sentindo a irritação crescer. Ele olhou para a mesa posta, para a agressividade de Sara e para o sofrimento da sobrinha. Antes que ele pudesse intervir, Eduarda se levantou silenciosamente.
— Eu posso fazer algo para ela, Emanuel? — perguntou ela, a voz doce e tímida, mas com uma determinação suave. — Eu vi que tem alguns ingredientes básicos na despensa.
— Você não vai transformar minha cozinha em um restaurante de beira de estrada, vai? — desdenhou Sara, cruzando os braços, fazendo com que seus seios siliconados se destacassem sob a seda.
— Deixe ela, Sara — cortou Emanuel. — Se você não consegue lidar com uma criança, deixe quem consegue.
Eduarda caminhou até a cozinha americana. Ela se sentia observada pelos olhos intensos de Emanuel e pelos olhos julgadores de Sara, mas seu foco era Juju. Com movimentos ágeis e delicados, ela começou a picar um pouco de alho e cebola. O som da faca na tábua de madeira era o único ruído na sala além dos soluços baixos da menina.
Em pouco tempo, o perfume de comida caseira — aquele cheiro reconfortante de alho fritando no azeite — começou a preencher a cobertura, combatendo o cheiro forte de trufas e o perfume invasivo de Sara.
— Pronto, Juju — disse Eduarda, colocando um prato simples à mesa: arroz soltinho, feijão com caldo grosso e um ovo frito com a gema mole, exatamente como a menina gostava. — Fiz para você.
Juju parou de chorar instantaneamente. Seus olhinhos brilharam e ela subiu na cadeira com entusiasmo.
— É a comida da Duda! É a melhor do mundo! — exclamou a menina, começando a comer com uma satisfação que nenhuma lagosta poderia proporcionar.
Emanuel observava a cena em silêncio. Ele sentiu uma pontada de algo que não sabia nomear. Era uma mistura de orgulho e um desejo possessivo ainda maior. Eduarda não trazia apenas paz; ela trazia um senso de "lar" que ele, em sua vida de luxo e excessos, havia esquecido que existia.
— Patético — resmungou Sara, empurrando sua taça de champanhe. — Você está criando uma selvagem, Emanuel. E essa aí está ganhando a menina pelo estômago como uma típica dona de casa dos anos 50.
— Se ser "típica" significa não ser um pesadelo para quem está ao redor, talvez você devesse aprender algo com ela, Sara — rebateu Emanuel, levantando-se.
Ele caminhou até a cozinha, parando atrás de Eduarda, que estava lavando a pequena panela que usara. Ele não se importou com a presença de Sara ou de Juju. Envolveu a cintura de Eduarda com um braço, sentindo a fragilidade dela contra seu corpo sólido.
— Você é perfeita, sabia? — sussurrou ele no ouvido dela.
Eduarda estremeceu, sentindo o calor do hálito dele em seu pescoço. Ela se apoiou levemente nele, buscando aquela proteção que tanto a assustava e a encantava.
— Eu só queria que ela ficasse bem... — murmurou Eduarda, manhosa, virando o rosto para olhar para ele.
Emanuel não resistiu. Ele a beijou ali mesmo, um beijo lento e profundo, que reivindicava sua posse diante de todos. Eduarda correspondeu com timidez, as mãos pequenas repousando nos antebraços tatuados dele.
Sara assistia a tudo com os olhos semicerrados, a fúria borbulhando sob a superfície. Ela sabia que tinha o corpo de Emanuel, que tinha a história e a chama da paixão carnal com ele. Mas aquela garota... aquela garota estava roubando algo que Sara nunca soube cultivar: a alma de Emanuel.
— Não se acostume com o carinho, Dudinha — disse Sara, levantando-se e caminhando em direção ao quarto, parando apenas para lançar um último olhar por cima do ombro. — O Emanuel gosta de variedade. Hoje é arroz e feijão, mas amanhã ele sempre volta para o caviar. E o caviar aqui sou eu.
A porta do quarto de Sara bateu com força. Eduarda se afastou de Emanuel, os olhos baixos, a insegurança voltando a tomar conta.
— Ela tem razão, não tem? — perguntou ela, a voz trêmula. — Eu não pertenço a este mundo, Emanuel. Eu não sou como ela. Eu não sou... impactante.
Emanuel segurou o queixo dela, forçando-a a olhar para ele. Sua expressão era rígida, o olhar de um homem que estava decidido a manter o que era seu, custasse o que custasse.
— Você é exatamente o que eu quero, Eduarda. Eu não preciso de outra Sara. Eu já tenho a Sara para as noites de fogo e para o caos. Mas eu quero você para o resto. Eu quero a sua doçura, o seu cuidado... e sim, eu quero essa sua insegurança que me faz querer te trancar neste apartamento e nunca mais deixar o mundo te ver.
Eduarda sentiu um arrepio. Havia algo de sombrio na forma como ele a desejava, algo controlador que a fazia se sentir pequena, mas, ao mesmo tempo, estranhamente amada.
— Você quer as duas... — não era uma pergunta, era uma constatação dolorosa que ela fazia.
— Eu não vou mentir para você. Eu quero as duas — admitiu ele, a honestidade brutal sendo sua única oferta. — Cada uma de vocês preenche um espaço diferente em mim. E eu sou rico e poderoso o suficiente para ter tudo o que eu desejo.
Juju, que já havia terminado de comer, correu até eles e puxou a mão de Eduarda.
— Duda, vamos brincar de desenhar? O tio Manu está com cara de bravo de novo.
Eduarda sorriu para a menina, um sorriso triste, mas carregado de afeto.
— Vamos, Juju. Vamos desenhar.
Enquanto as duas se sentavam no tapete da sala, Emanuel ficou parado na cozinha, observando-as. Sua mente já trabalhava em como equilibrar aquelas duas forças opostas sob o seu teto. Ele sabia que Sara tentaria destruir Eduarda psicologicamente, e sabia que Eduarda, com sua sensibilidade, sofreria. Mas ele estaria lá para mediar, para punir e para recompensar.
Ele era o mestre das agulhas, e estava começando a tatuar uma nova realidade na vida daquelas duas mulheres. Uma realidade onde ele era o centro, o sol ao redor do qual a vulgaridade loira de Sara e a timidez castanha de Eduarda orbitariam, quer elas quisessem ou não.
Naquela tarde, enquanto Eduarda desenhava flores delicadas para Juju e Sara se trancava no quarto para planejar sua próxima jogada, Emanuel sentiu-se, pela primeira vez, completo. O caos e a paz finalmente dividiam o mesmo teto. E ele não permitiria que nenhuma das duas escapasse de suas mãos.