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O Labirinto de Carne e Silêncio

A atmosfera na cobertura de Emanuel nunca esteve tão carregada. O ar parecia estalar com a eletricidade de uma tempestade iminente, mas o som que preenchia o ambiente não era o de trovões, e sim o silêncio cortante de uma fúria contida. Emanuel não gritava mais. Ele não precisava. Sua presença, por si só, era um peso sufocante que esmagava qualquer tentativa de resistência.

No centro do quarto principal, a cama king-size parecia um altar de sacrifício sob a luz fria dos lustres de cristal. Emanuel estava de pé ao pé da cama, ainda vestindo a camisa social preta, agora com os botões superiores abertos e as mangas dobradas até os cotovelos, revelando as tatuagens complexas que serpenteavam por seus braços fortes. Seus olhos, geralmente serenos e observadores, estavam escuros, injetados de uma irritação que beirava o insuportável.

O motivo da fúria era o mesmo de sempre, mas elevado à décima potência. Naquela tarde, Sara e Eduarda haviam ultrapassado todos os limites aceitáveis. Em meio a um jantar de negócios importante, as duas iniciaram uma disputa passivo-agressiva que culminou em um escândalo público. Sara, com sua vulgaridade calculada, insultara a inteligência de Eduarda diante dos sócios de Emanuel; Eduarda, em resposta, usara sua manha para simular um ataque de ansiedade tão convincente que fizera Emanuel abandonar a mesa, perdendo um contrato milionário no processo.

Agora, o preço seria cobrado.

— Deitem-se. Agora. — A voz de Emanuel era um comando seco, desprovido de qualquer traço de afeto.

Eduarda, trêmula, com os olhos castanhos transbordando lágrimas que ela não ousava deixar cair, obedeceu primeiro. Ela se deitou no lado esquerdo da cama, o corpo esguio e pálido contrastando com os lençóis de seda escura. Seus movimentos eram lentos, manhosos, uma tentativa instintiva de despertar a proteção de Emanuel, mas ele nem sequer piscou.

Sara, no lado direito, bufou, tentando manter uma fachada de rebeldia. Ela estava apenas de lingerie de renda vermelha, o silicone firme de seus seios subindo e descendo com a respiração acelerada. Ela queria desafiá-lo, queria dizer que não era uma de suas subordinadas, mas o olhar gélido de Emanuel a fez morder o lábio e ceder.

— As pernas, abram — ordenou ele, caminhando para o lado da cama.

As duas obedeceram. Era uma imagem de submissão absoluta. Eduarda e Sara, as duas mulheres que passavam os dias tentando se destruir, agora estavam ali, expostas, vulneráveis e unidas pelo mesmo medo e pelo mesmo desejo de aplacar a ira do homem que as sustentava.

Emanuel desfez o cinto com um movimento brusco, o som do couro chicoteando o ar fazendo Eduarda dar um pequeno sobressalto.

— Vocês acham que a minha vida é um playground? — Emanuel perguntou, a voz baixa, enquanto se posicionava entre as duas. — Vocês acham que eu trabalho dezesseis horas por dia para chegar em casa e encontrar duas crianças disputando quem consegue me irritar mais?

— Manu, eu não tive culpa... — Eduarda começou, a voz falhando, tentando buscar o olhar dele.

— Cala a boca, Eduarda — cortou ele, sem olhar para ela. — Hoje não tem "Manu". Hoje não tem manha.

Ele se virou para Sara, que tentava manter um sorriso provocador, apesar do tremor nas mãos.

— E você, Sara... você acha que o seu corpo é um passe livre para a estupidez? Você acha que eu vou continuar pagando os seus luxos enquanto você enterra a minha reputação?

— Você sabe que eu sou a única que te agita, Emanuel — disse Sara, tentando recuperar o controle através da sedução. — Aquela songamonga só sabe chorar.

Emanuel soltou uma risada seca e sem humor. Ele se ajoelhou na cama, o peso de seu corpo fazendo o colchão ceder. Ele agarrou a coxa de Sara com uma mão e a de Eduarda com a outra, apertando com força suficiente para deixar marcas que durariam dias.

— Vocês se odeiam tanto, não é? — Ele olhou de uma para a outra. — Pois hoje, vocês vão aprender o que significa compartilhar. Vocês não vão se tocar. Vocês não vão se olhar. Vocês vão focar apenas em mim e no que eu vou fazer com vocês.

O ato que se seguiu foi desprovido de qualquer delicadeza romântica. Emanuel era um tatuador; ele conhecia o corpo humano, seus pontos de dor e de prazer, e sabia como usar ambos para marcar sua propriedade. Ele se moveu com uma eficiência brutal, alternando entre as duas com uma ferocidade que as deixava sem fôlego.

Ele entrou em Sara primeiro, com uma estocada profunda que arrancou um grito agudo da loira. Sara arqueou as costas, as unhas cravando-se nos lençóis, sua vulgaridade habitual transformando-se em um clamor por mais. Emanuel, porém, não lhe deu o prazer completo. Ele se retirou abruptamente, deixando-a ofegante e insatisfeita, e virou-se para Eduarda.

A jovem estava encolhida, os olhos fechados, esperando. Quando Emanuel a possuiu, foi com a mesma força, mas com uma possessividade diferente. Eduarda soltou um soluço, um som que misturava dor e uma entrega absoluta. Ela tentou abraçá-lo, buscar o calor de seu peito, mas Emanuel a afastou, mantendo a distância física necessária para que ela entendesse que aquilo não era um ato de amor, mas de disciplina.

— Olhem para mim — comandou ele.

As duas abriram os olhos. Sara estava com o rosto corado, o cabelo loiro espalhado como uma teia desordenada; Eduarda tinha a pele pálida manchada de rosa, as lágrimas finalmente escorrendo pelas têmporas.

Emanuel continuou a usá-las ao mesmo tempo, suas mãos explorando os corpos opostos com uma técnica que as levava ao limite da sanidade. Ele estimulava Eduarda com uma mão enquanto penetrava Sara; ele beijava o pescoço de Sara enquanto sussurrava ordens ríspidas no ouvido de Eduarda. O quarto estava preenchido pelo som de peles se chocando, respirações entrecortadas e o tilintar dos cristais acima deles.

— Vocês queriam atenção? — Emanuel perguntou, o suor brilhando em suas costas tatuadas. — Aqui está a minha atenção. Estão gostando?

— Sim... — gemeu Sara, a cabeça jogada para trás.

— Por favor, Emanuel... — sussurrou Eduarda, a voz sumindo em um gemido de prazer que ela tentava lutar contra.

A rivalidade entre as duas mulheres, que geralmente se manifestava em palavras venenosas e olhares de desprezo, ali se transformava em uma competição silenciosa de quem aguentava mais, de quem conseguia arrancar um som mais profundo de Emanuel. Mas ele era um muro de gelo e fogo. Ele não lhes dava o conforto do afeto, apenas a realidade crua de seu domínio.

Ele as virou, mudando as posições com a facilidade de quem manipula bonecas de porcelana e plástico. Sara, de quatro, exibia sua exuberância física, enquanto Eduarda, deitada de lado, mantinha sua fragilidade romântica mesmo naquela situação degradante. Emanuel não demonstrava preferência. Ele as tratava como extensões de sua vontade, ferramentas para extravasar o estresse que elas mesmas haviam causado.

— Vocês não se suportam, não é? — rosnou Emanuel, enquanto puxava o cabelo de Sara com uma mão e pressionava a base das costas de Eduarda com a outra. — Mas aqui, vocês são exatamente a mesma coisa. Duas mulheres que não sabem o seu lugar.

O clímax veio de forma avassaladora, mas Emanuel não permitiu que elas relaxassem. Assim que terminou, ele se afastou, saindo da cama sem olhar para trás. O silêncio voltou a reinar, quebrado apenas pelos soluços baixos de Eduarda e pela respiração pesada de Sara.

Emanuel caminhou até o banheiro, lavou-se e voltou vestindo um roupão de seda preta. Ele acendeu um cigarro, a ponta incandescente brilhando na penumbra do quarto. Ele se sentou na poltrona de couro, observando as duas mulheres na cama. Elas não se tocavam. Havia um espaço vazio entre elas, um abismo de ódio e ressentimento que nem mesmo o sexo mais intenso conseguia preencher.

— Amanhã — começou Emanuel, a fumaça do cigarro subindo em espirais — eu vou sair cedo. Tenho uma reunião para tentar salvar o que vocês quase destruíram hoje.

Ele deu uma tragada longa, os olhos fixos no teto.

— Sara, o seu carro novo? Esqueça. Ele vai ser devolvido à concessionária amanhã. Você vai andar com o motorista da empresa, e eu vou monitorar cada centavo que você gastar.

Sara abriu a boca para protestar, mas o olhar de Emanuel a calou instantaneamente. Ela se encolheu, sentindo o peso da punição financeira, que para ela era pior do que qualquer dor física.

— E você, Eduarda — ele continuou, a voz suavizando apenas um milímetro, o que era quase mais assustador —, você vai passar a semana inteira sem sair desta cobertura. Nada de faculdade, nada de museus. Você vai cuidar do Bóris, e se eu souber que você usou aquele cachorro para provocar a Sara de novo, eu mando ele para um canil no interior e você nunca mais o vê.

Eduarda soltou um grito sufocado, escondendo o rosto no travesseiro. Aquela era a ameaça definitiva. Bóris era seu único refúgio, sua única fonte de amor incondicional.

— Agora, saiam. Cada uma para o seu quarto — ordenou Emanuel.

As duas se levantaram, os corpos ainda tremendo, a pele marcada pela força dele. Elas se vestiram em silêncio, sem trocar um único olhar. A tensão entre elas não havia diminuído; pelo contrário, fora refinada. Agora, além do ódio mútuo, havia a humilhação compartilhada, um segredo de carne que as uniria para sempre, por mais que tentassem negar.

Eduarda saiu primeiro, caminhando com os ombros encolhidos, o vestido leve balançando ao redor de suas pernas. Sara saiu logo atrás, com os saltos altos batendo no chão com uma fúria contida, a cabeça erguida em um último gesto de orgulho ferido.

Emanuel ficou sozinho no quarto. Ele apagou o cigarro e caminhou até a janela, olhando para as luzes da cidade lá embaixo. Ele sentia o cansaço nos ossos, mas a fúria havia sido substituída por uma frieza calculada. Ele sabia que aquela noite não resolveria o problema. Sara continuaria sendo vulgar e competitiva; Eduarda continuaria sendo manhosa e manipuladora.

Mas, por algumas horas, ele as lembrara de quem era o mestre do labirinto.

No corredor, Eduarda parou na porta do seu quarto e olhou para trás. Sara estava à porta do dela, a mão na maçaneta. Por um breve segundo, seus olhos se encontraram. Não havia solidariedade. Não havia compreensão. Havia apenas a promessa de que o próximo round seria ainda mais cruel.

Eduarda entrou no quarto e encontrou Bóris deitado perto da cama. O cachorro levantou a cabeça, os olhos amarelos brilhando na escuridão. Ele soltou um gemido baixo e caminhou até ela, encostando o focinho frio em sua mão.

— Ele me machucou, Bóris... — sussurrou ela, caindo de joelhos e abraçando o pescoço do animal.

Bóris soltou um rosnado baixo, voltado para a porta, como se sentisse a presença de Emanuel ou o cheiro de Sara no ar. Eduarda apertou o abraço, sentindo o calor do cachorro. Ela sabia que, enquanto tivesse Bóris, ela ainda tinha uma arma. Uma arma que Emanuel acreditava ter controlado, mas que pertencia apenas a ela.

No quarto de Sara, a loira descontava sua raiva no espelho, passando o batom com tanta força que a ponta se quebrou. Ela olhou para o próprio reflexo, para as marcas vermelhas em suas coxas, e sorriu de forma sombria.

— Você acha que me quebrou, Emanuel? — ela murmurou para o vazio. — Você só me deu mais motivos para querer tudo o que é seu.

A cobertura de Emanuel voltou ao seu silêncio habitual, mas era o silêncio de um campo minado. O sexo não fora uma reconciliação, fora uma declaração de guerra. E enquanto o mestre dormia, acreditando no poder de sua disciplina, as duas mulheres planejavam seus próximos movimentos no escuro, usando a luxúria e a dor como combustível para o ódio que as mantinha vivas.

Emanuel fechou os olhos, finalmente permitindo-se o sono. Ele acreditava que o controle fora restaurado. Ele não via que, ao fodê-las ao mesmo tempo, ele criara um novo tipo de monstro: um que tinha duas faces, dois corpos e uma única e obsessiva vontade de destruí-lo através da destruição mútua.

O labirinto de carne e silêncio estava completo. E o rosnado de Bóris, ecoando baixinho na ala leste, era o único aviso de que o fim estava apenas começando.