D
Brasas, Diamantes e o rosnado do Passado
O sol de domingo castigava a cidade, mas na mansão de Ricardo, um dos sócios de Emanuel, o calor era amenizado por uma brisa que soprava da piscina e pelo aroma inebriante de carne nobre na brasa. Seis meses haviam se passado desde a "noite do vidro quebrado", e a cobertura de Emanuel parecia ter alcançado uma estabilidade milagrosa, ou talvez apenas uma trégua muito bem coreografada.
Emanuel estacionou o carro e observou suas duas namoradas. Sara, radiante em um biquíni de grife coberto por uma saída de praia de seda transparente, ostentava novamente o brilho nos olhos de quem tinha o limite do cartão de crédito restaurado. Emanuel decidira devolver os privilégios financeiros dela há um mês, após Sara provar que conseguia coexistir com Eduarda sem tentar aniquilá-la verbalmente a cada café da manhã.
Eduarda, por outro lado, parecia uma pintura bucólica em meio ao luxo moderno. Usava um vestido de linho branco, leve e romântico, com os cabelos castanhos presos em uma trança lateral. Ela segurava a guia de Bóris com uma confiança que não possuía antes. O Rottweiler, agora um adulto imponente de músculos definidos, caminhava ao lado dela com uma disciplina que beirava a devoção.
— Lembrem-se — disse Emanuel, ajustando os óculos escuros enquanto saíam do carro —, o Ricardo é um cliente importante. Quero que hoje seja um dia de paz. Sara, sem provocações. Duda, mantenha o Bóris por perto, mas não deixe que ele assuste os convidados.
— Relaxa, Manu — disse Sara, ajeitando o cabelo loiro e retocando o batom. — Eu estou de excelente humor. Com o shopping inteiro disponível para mim de novo, não tenho motivos para me estressar com... detalhes.
Ela lançou um olhar rápido para Eduarda, mas não havia a agressividade de outrora, apenas o desdém polido de quem se sentia novamente no topo da hierarquia.
— Eu vou cuidar dele, Manu — murmurou Eduarda, aproximando-se de Emanuel e roçando o braço no dele, buscando aquele contato físico que reafirmava sua proteção. — O Bóris está calmo. Ele sabe que aqui é um lugar de amigos.
Ao entrarem na propriedade, foram recebidos com entusiasmo. Ricardo era um homem expansivo e adorava a excentricidade da vida de Emanuel.
— O tatuador mais rico do país chegou! — exclamou Ricardo, vindo abraçar Emanuel. — E trouxe as joias da coroa. Sara, você está deslumbrante. Eduarda, cada dia mais parecida com uma fada. E esse monstro... esse é o Bóris?
O cachorro sentou-se ao comando silencioso de Eduarda, observando Ricardo com uma neutralidade vigilante.
— Ele é lindo, Ricardo, mas é melhor não tentar fazer carinho sem que a Duda autorize — avisou Emanuel, com um sorriso de canto.
A tarde seguiu com o ritmo de um domingo de luxo. Emanuel circulava entre os empresários, discutindo novos estúdios em Dubai e investimentos em criptoativos. Sara, sentindo-se em seu elemento, dominava uma das rodas de conversa perto do bar, bebendo gim tônica e rindo alto, exibindo o relógio cravejado de diamantes que Emanuel lhe dera como "prêmio" pelo bom comportamento.
Eduarda preferiu o frescor de uma mangueira frondosa no canto do jardim. Ela se sentou em uma espreguiçadeira com Bóris deitado aos seus pés. Algumas mulheres de outros empresários se aproximaram, curiosas com a doçura da jovem e a imponência do cão.
— Ele não morde? — perguntou uma delas, olhando para Bóris com fascínio e medo.
— Só se ele sentir que eu estou em perigo — respondeu Eduarda, acariciando a cabeça larga do animal. — Mas ele é muito manhoso comigo. É o meu bebê.
De longe, Sara observava a cena. A visão de Eduarda sendo o centro das atenções por causa daquela "fera" ainda lhe causava um amargor no estômago, mas ela lembrava-se bem do período de "seca" financeira e da humilhação de ser ignorada por Emanuel. Ela não arriscaria tudo de novo, ao menos não de forma óbvia.
Contudo, o álcool e o sol costumam ser inimigos da prudência. Por volta das quatro da tarde, Sara já estava na sua quarta taça de gim. A confiança excessiva voltou a borbulhar. Ela caminhou em direção a Eduarda, balançando os quadris, atraindo o olhar de vários homens na festa.
— Ainda aqui no cantinho, Duda? — perguntou Sara, a voz um pouco mais arrastada que o normal. — O Manu está lá dentro fechando um negócio incrível. Você devia estar lá, apoiando ele, em vez de ficar aqui brincando de adestradora.
Eduarda levantou os olhos, sentindo a velha tensão subir pela espinha.
— O Manu sabe onde eu estou, Sara. Ele disse que eu podia relaxar.
— "Relaxar" — bufou Sara, sentando-se na borda da espreguiçadeira vizinha. — Você é tão previsível. Sabe, eu fico pensando... até quando você acha que esse seu teatrinho de menina indefesa vai funcionar? O Emanuel é um homem de negócios, ele precisa de uma mulher que brilhe, não de uma que se esconda atrás de um cachorro.
Bóris soltou um suspiro profundo, um som que vibrou no chão. Ele não rosnou, mas seus olhos amarelos fixaram-se em Sara.
— Não começa, Sara — pediu Eduarda, a voz baixa. — O Emanuel pediu paz. Você não quer perder seus cartões de novo, quer?
O rosto de Sara se contorceu por um milésimo de segundo. A menção aos cartões era o seu ponto fraco.
— Você se acha muito esperta, não é? — sibilou a loira. — Só porque o Manu tem esse instinto de salvar animais feridos, você acha que tem o controle. Mas olhe para mim, Eduarda. Eu voltei. Eu sempre volto. E eu tenho o que ele realmente deseja.
Sara levantou-se e, em um gesto de pura audácia alcoólica, tentou tirar o copo de suco da mão de Eduarda para forçá-la a levantar. No movimento abrupto, um pouco de suco respingou no vestido branco de Eduarda.
— Ai! Olha o que você fez! — exclamou Eduarda, levantando-se e limpando o tecido.
Bóris levantou-se instantaneamente. O movimento do cachorro foi fluido e silencioso. Ele se colocou entre as duas, a cabeça na altura da cintura de Sara. O rosnado não veio de imediato, mas a postura era de ataque iminente.
— Sai daqui, cachorro estúpido! — gritou Sara, perdendo a compostura e tentando empurrar o focinho de Bóris.
Desta vez, Bóris não esperou. Ele soltou um latido curto e seco, um som que silenciou a música da festa. Ele não avançou, mas mostrou os dentes com uma promessa clara de violência se Sara desse mais um passo.
— Sara! Afasta! — gritou Emanuel, que vinha da varanda com Ricardo.
Emanuel correu até elas, o rosto vermelho de fúria. Ele viu a mancha no vestido de Eduarda e a postura agressiva de Bóris.
— O que aconteceu aqui? — perguntou ele, a voz gélida.
— Ela jogou suco em mim, Manu! — mentiu Sara, a voz embargada por lágrimas falsas. — Eu só fui falar com ela e esse bicho avançou! Ele é um perigo, Emanuel! Você prometeu que ele estava treinado!
Emanuel olhou para Eduarda. Ela estava com os olhos marejados, segurando a coleira de Bóris com força.
— Ela veio me provocar, Manu... — sussurrou Eduarda, a voz trêmula. — Ela disse coisas feias e tentou tirar o copo da minha mão. O Bóris só me defendeu.
Emanuel olhou para Ricardo e para os outros convidados, que observavam a cena com um misto de curiosidade e desconforto. Sua reputação de homem de controle estava sendo posta à prova novamente.
— Ricardo, me desculpe por isso — disse Emanuel, voltando-se para o amigo. — O álcool às vezes altera os ânimos.
Ele então se virou para as duas.
— Para o carro. Agora. As duas.
O trajeto de volta para a cobertura foi um túmulo de silêncio. Sara olhava pela janela, bufando de vez em quando, enquanto Eduarda chorava baixinho, acariciando a cabeça de Bóris no banco de trás. Emanuel dirigia com as mãos apertando o volante com tanta força que o couro rangia.
Ao chegarem em casa, Emanuel não esperou. Assim que entraram na sala, ele se virou para Sara.
— Eu te dei uma chance, Sara. Uma chance de provar que você era madura o suficiente para ter sua liberdade financeira de volta e conviver em sociedade.
— Ela começou, Manu! Aquela sonsa fica se fazendo de vítima! — gritou Sara, jogando a bolsa no sofá.
— Chega de mentiras! — trovejou Emanuel. — Eu conheço você. Eu vi o jeito que você caminhou até ela. Eu sei quando você está caçando briga. Você não suporta ver a Eduarda em paz, não é?
— Eu não suporto essa farsa! — rebateu Sara. — Você a trata como uma rainha e a mim como uma empregada de luxo que você paga para exibir!
Emanuel caminhou até ela, a presença sufocante.
— Você é paga para ser o que eu quiser que você seja, Sara. E hoje, você foi um desastre. Amanhã, todos os seus cartões estarão bloqueados novamente. E desta vez, será por tempo indeterminado.
Sara soltou um grito de frustração e começou a quebrar os enfeites de cristal da mesa de entrada.
— Eu te odeio! Eu odeio essa casa! Eu odeio essa garota e esse cachorro maldito!
Bóris, sentindo a hostilidade, começou a rosnar da porta da cozinha. Eduarda correu até o cachorro, abraçando o pescoço dele.
— Manu, faz ela parar! Ela vai machucar o Bóris! — choramingou Eduarda, usando sua manha como um escudo.
Emanuel viu a cena: a destruição causada por Sara e a fragilidade de Eduarda. O contraste era o que o mantinha preso àquela dinâmica. Ele precisava do caos de uma para valorizar a paz da outra.
— Sara, vá para o seu quarto e não saia de lá até amanhã — ordenou Emanuel, a voz gélida. — Se eu ouvir mais um barulho de vidro quebrado, você dorme na rua.
Sara subiu as escadas batendo os pés, soltando palavrões que ecoavam pelo apartamento luxuoso.
Emanuel suspirou e caminhou até Eduarda. Ele se ajoelhou ao lado dela e do cachorro.
— Você está bem, pequena?
— Estou... — disse ela, limpando as lágrimas e olhando para ele com adoração. — Desculpa por estragar o seu dia. Eu só queria que fôssemos uma família feliz.
Emanuel a puxou para um abraço.
— Você não estragou nada. Você é a única coisa que faz sentido aqui. O Bóris agiu bem. Ele protege o que é meu.
Eduarda sorriu contra o peito de Emanuel. Ela sabia que, enquanto Sara fosse a vilã explosiva, ela seria a protegida eterna. Ela acariciou o pelo de Bóris e sentiu a vitória silenciosa.
Naquela noite, enquanto Emanuel dormia entre as duas — Sara de um lado, de costas e amargurada pela perda do crédito, e Eduarda do outro, abraçada ao seu braço com a confiança de quem era amada —, o silêncio da cobertura era apenas uma fachada.
Na cozinha, Bóris estava deitado, os olhos abertos na escuridão. Ele era o único que via as peças se movendo. Ele sabia que Sara tentaria algo de novo, e sabia que Eduarda usaria cada provocação para se enterrar ainda mais fundo no coração de Emanuel.
A vida de Emanuel era um equilíbrio precário entre o fogo e a seda, entre o cartão de crédito e o carinho manhoso. E enquanto houvesse um rosnado para protegê-la, Eduarda continuaria sendo a dona silenciosa daquele império, movendo as cordas de um homem que acreditava ter o controle de tudo, mas que era escravo das próprias necessidades emocionais.
— Boa noite, Bóris — sussurrou Eduarda, antes de cair no sono, sua voz sendo o último som de paz em uma casa construída sobre brasas sempre prontas para queimar.