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Sinfonia de Gemidos e Outras Notas Dissonantes
A tensão na cobertura de Emanuel não era algo que se dissipava com o tempo; ela apenas mudava de estado, como uma matéria instável prestes a entrar em combustão. Após o episódio com o cachorro, o clima na casa assemelhava-se a uma guerra fria, onde cada cômodo era um território disputado e cada suspiro carregava uma intenção oculta.
Emanuel, no entanto, parecia ser o único capaz de navegar por aquelas águas turbulentas com uma calma irritante. Para ele, o fato de ter duas mulheres tão opostas sob o mesmo teto era um desafio logístico e emocional que ele, em sua mente pragmática e controladora, acreditava estar sob controle. Ele amava a doçura submissa de Eduarda, que o acalmava após um dia lidando com clientes difíceis e agulhas de tatuagem; mas também desejava a chama vulgar e agressiva de Sara, que o desafiava e alimentava seu ego de homem bem-sucedido.
Naquela noite de sexta-feira, Sara decidiu que era hora de marcar território de forma sonora. Ela sabia que Eduarda estava na biblioteca, cercada por seus livros de História da Arte, provavelmente tentando se perder em alguma pintura renascentista para esquecer o rosnado de Bóris ou a grosseria da loira.
Sara estava no quarto principal com Emanuel. O som da televisão estava baixo, mas o som que começou a emanar das paredes não tinha nada de discreto.
— Ah, Emanuel... Assim... Mais forte! — A voz de Sara não era apenas um sussurro de prazer; era uma performance. Ela gemia com uma cadência calculada, garantindo que cada nota alcançasse o corredor e entrasse pelos ouvidos da "santinha", como ela costumava chamar Eduarda.
Emanuel, embora focado no momento, percebia o jogo. Ele conhecia Sara o suficiente para saber que metade daquele entusiasmo era para a plateia invisível. Ainda assim, ele não a impedia. Havia algo de primitivo e satisfatório em saber que ele era o centro daquela disputa.
Enquanto isso, na biblioteca, Eduarda tentava se concentrar em um texto sobre a técnica do *chiaroscuro* de Caravaggio. Mas era impossível. Cada grito abafado de Sara atravessava as paredes como uma farpa. Ela sentia o rosto arder de vergonha e uma pontada de tristeza no peito. Ela sempre fora a silenciosa, a que guardava seus sentimentos e seus prazeres em um cofre fechado a sete chaves.
— Ela faz de propósito... — sussurrou Eduarda para Bóris, que estava deitado aos seus pés, com as orelhas em pé, confuso com a barulheira. — Ela quer que eu me sinta pequena, Bóris.
Mas, naquela noite, algo mudou em Eduarda. Talvez fosse o cansaço de ser sempre a "vítima" da história, ou talvez fosse a influência daquela energia rebelde que ela tanto tentava esconder. Ela fechou o livro com força, fazendo um estrondo seco.
— Quer saber? Chega.
Eduarda levantou-se e caminhou até o quarto onde Emanuel costumava passar as noites com ela quando não estava com Sara. Era um quarto menor, mais aconchegante, decorado com tons pastéis. Ela sabia que, em algum momento, Emanuel sairia do quarto de Sara e viria procurá-la para o "momento de paz" dele.
Cerca de uma hora depois, a porta se abriu. Emanuel entrou, parecendo levemente exausto, mas com aquele olhar predatório que ele reservava para as duas. Ele encontrou Eduarda sentada na cama, usando uma camisola de seda branca, curta o suficiente para ser provocante, mas simples o suficiente para manter sua aura de inocência.
— Ela finalmente dormiu? — perguntou Eduarda, a voz carregada de uma manha que Emanuel nunca tinha ouvido com aquela intensidade.
— Dormiu, pequena. Você sabe como a Sara é... intensa — Emanuel respondeu, sentando-se na beira da cama e puxando Eduarda para o seu colo. — Senti sua falta. O silêncio daqui é melhor.
Eduarda envolveu o pescoço dele com os braços, roçando os lábios em sua orelha.
— Pois hoje eu não quero silêncio, Manu.
Emanuel arqueou as sobrancelhas, surpreso. O que se seguiu foi uma inversão de papéis que o pegou completamente desprevenido. Eduarda, a menina tímida que mal sussurrava durante o ato, decidiu que sua voz também merecia ser ouvida.
Ela começou a gemer. Não eram gemidos vulgares como os de Sara, mas eram altos, agudos e carregados de uma urgência que parecia brotar de meses de repressão.
— Oh, Manu... Meu Deus, Emanuel! — Eduarda exclamava, a voz subindo de tom a cada toque dele.
O que Eduarda não sabia — ou talvez soubesse, no fundo do seu subconsciente travesso — era que Sara não estava dormindo. E, mais do que isso, Sara não estava sozinha no andar de cima.
No andar superior, no amplo terraço gourmet da cobertura, Sara havia organizado um "esquenta" de última hora com três de suas melhores amigas: Jéssica, uma loira tão siliconada quanto ela; e as irmãs gêmeas, Bia e Tati, que viviam de aparências e fofocas da alta sociedade. Elas bebiam champanhe caro e riam alto, comentando sobre as últimas compras.
De repente, o som vindo do andar de baixo cortou a conversa como uma faca.
— Meu... Deus... Emanuel! — O grito de Eduarda ecoou pelo duto de ventilação e pelas janelas abertas do andar de baixo, subindo direto para o terraço.
As quatro mulheres congelaram com as taças a meio caminho da boca.
— Mas o que é isso? — perguntou Jéssica, arregalando os olhos. — Sara, eu achei que você disse que a outra era uma freira de convento.
Sara sentiu o sangue subir ao rosto. O ódio borbulhou em suas veias. Ela reconheceria aquela voz em qualquer lugar. Era a "songamonga".
— Aquela... Aquela sonsa! — rosnou Sara, apertando a taça com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos. — Ela está tentando me imitar!
— Imitar? — Bia soltou uma risadinha maliciosa. — Amiga, se aquilo é imitação, ela merece um Oscar. O negócio parece estar bom lá embaixo. O Emanuel é tudo isso mesmo?
— Cala a boca, Bia! — Sara se levantou, bufando.
Lá embaixo, Eduarda continuava sua performance. Ela ouviu o som de risadas vindo do terraço e, em vez de se encolher de vergonha, sentiu uma onda de adrenalina. Ela sabia que as amigas de Sara estavam lá. Emanuel, por sua vez, estava entre o céu e o inferno. Ele estava adorando a nova faceta de Eduarda, mas sua mente racional começou a processar o barulho externo.
— Duda... — ele tentou dizer, entre um beijo e outro —, acho que elas estão ouvindo.
— Deixa ouvir, Manu — sussurrou ela, antes de soltar um gemido ainda mais alto que terminou em uma risadinha manhosa. — Eu quero que elas saibam que você é meu também.
No terraço, a situação atingia o ápice do ridículo. As amigas de Sara agora estavam debruçadas no parapeito interno, tentando ouvir melhor.
— Gente, escuta essa! — Tati ria alto. — "Manu, você é o meu rei!" Nossa, Sara, ela é muito mais criativa que você. Você só fala "mais forte".
— Eu vou matar ela! — Sara declarou, começando a caminhar em direção às escadas, mas Jéssica a segurou pelo braço.
— Não, amiga! Não estraga o show. Se você descer agora, vai parecer desesperada. Deixa ela achar que está abafando. Amanhã a gente acaba com ela no café da manhã.
Sara parou, respirando fundo. O som de Eduarda continuava, agora intercalado com o que parecia ser o som de Bóris latindo no jardim, possivelmente excitado pela agitação da casa.
— Até o cachorro entrou no coro — comentou Bia, limpando uma lágrima de riso do canto do olho. — Que família feliz, hein, Sara? O tatuador rico, a loira de administração que não administra nem a própria raiva, a historiadora ninfomaníaca e o Rottweiler de estimação. Isso daria um reality show incrível.
Sara finalmente se soltou de Jéssica e se serviu de mais champanhe, virando a taça de uma vez.
— Riam enquanto podem — disse ela, com um sorriso gélido. — Amanhã o "bebê" da Eduarda vai acordar com uma ressaca de realidade.
Na manhã seguinte, o sol entrou pelas janelas da cobertura com uma claridade impiedosa. Emanuel foi o primeiro a acordar. Ele se sentia estranhamente revigorado, apesar da noite caótica. Ele olhou para Eduarda, que dormia um sono profundo e tranquilo, com um sorriso quase imperceptível nos lábios.
Ele se levantou, vestiu um roupão de seda preta e desceu para a cozinha. Para sua surpresa, a mesa do café já estava posta, e Sara estava sentada lá, impecavelmente arrumada, com óculos escuros imensos cobrindo metade do rosto. Suas amigas já tinham ido embora, deixando para trás apenas o cheiro de perfume barato e algumas taças sujas no terraço.
— Bom dia, "Rei" — disse Sara, com uma voz que pingava sarcasmo.
Emanuel serviu-se de café, sem se abalar.
— Bom dia, Sara. Dormiu bem?
— Como eu poderia dormir com aquele festival de ópera que aconteceu aqui embaixo? — Ela tirou os óculos, revelando olhos carregados de irritação. — Suas amigas de faculdade agora ensinam "Gritos e Gemidos 101"? Porque, olha, a Eduarda se superou. Minhas amigas não param de mandar mensagem no grupo rindo da "performance" dela.
Nesse momento, Eduarda apareceu na cozinha. Ela vestia um pijama de flanela com desenhos de nuvens, o cabelo todo bagunçado e os olhos inchados de sono. Ela parecia a definição da inocência, o que só irritava Sara ainda mais.
— Bom dia... — murmurou Eduarda, indo direto para perto de Emanuel e se aninhando no braço dele.
— Bom dia, pequena — disse Emanuel, beijando o topo da cabeça dela.
Sara soltou uma risada ruidosa e seca.
— "Pequena"? Emanuel, essa daí é uma atriz de primeira categoria. Ontem à noite ela parecia uma sirene de ambulância. Parabéns, Eduarda. Você conseguiu o que queria. Agora todas as minhas amigas acham que você é uma louca varrida.
Eduarda sentiu o rosto esquentar, mas, em vez de baixar a cabeça e chorar, ela olhou para Sara com uma calma surpreendente.
— Elas acharam? Que bom. Pelo menos agora elas sabem que o Manu não fica com sono quando está comigo.
O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Até Bóris, que entrava na cozinha naquele momento, parou e olhou para as duas, sentindo a eletricidade no ar.
Emanuel quase engasgou com o café. Ele nunca tinha visto Eduarda dar uma resposta daquelas.
— O que você disse, sua... — Sara começou a se levantar, mas Emanuel colocou a mão sobre a mesa, em um gesto de comando.
— Chega. As duas. — O tom de Emanuel não admitia réplicas. — Sara, se suas amigas não têm nada melhor para fazer do que ouvir atrás das portas, o problema é delas e seu. Duda, eu não quero mais saber de competições sonoras nesta casa.
— Mas ela começou! — protestou Sara.
— E eu terminei — rebateu Emanuel, olhando fixamente para ela. — Agora, sentem-se e comam. Temos um dia longo. Eu tenho uma reunião em um dos estúdios e vou levar o Bóris para o adestrador profissional. Chega de mimos e chega de fotos.
Eduarda fez um biquinho, mas obedeceu. Ela se sentou ao lado de Emanuel, sentindo-se vitoriosa. Sara, por outro lado, estava espumando. Ela pegou uma torrada e começou a mastigar como se estivesse triturando os ossos de sua rival.
— Ah, e Sara — completou Emanuel, antes de dar o último gole no café —, se eu souber que você tentou levar o cachorro para qualquer estúdio fotográfico escondida, eu cancelo o adicional do seu cartão este mês. Fui claro?
Sara bufou, jogando o guardanapo na mesa.
— Você é um chato, Emanuel! Um chato controlador!
— E você adora isso — respondeu ele, com um meio sorriso cínico.
Emanuel levantou-se e saiu da cozinha, deixando as duas mulheres sozinhas. Bóris, sentindo que a autoridade máxima havia saído, aproximou-se de Eduarda e colocou a cabeça em seu colo.
— Viu, Bóris? — sussurrou Eduarda, fazendo carinho nas orelhas do cão. — O papai é bravo, mas a gente sabe como lidar com ele.
Sara revirou os olhos com tanta força que quase viu o próprio cérebro.
— Você me dá nojo, garota. Esse seu jeitinho de "ai, sou tão fofa" não engana ninguém.
Eduarda olhou para Sara, e por um breve segundo, o brilho de sensibilidade em seus olhos foi substituído por algo muito mais astuto.
— Não precisa enganar ninguém, Sara. Só precisa funcionar com ele. E, pelo que eu ouvi ontem à tarde... você está precisando de umas aulas novas. Se quiser, eu te empresto uns livros de História da Arte. Tem umas estátuas gregas que podem te dar umas ideias sobre... bom gosto.
Eduarda levantou-se com uma elegância leve, chamando o cachorro.
— Vem, Bóris. Vamos para o jardim antes que o ar aqui fique muito carregado de... silicone.
Sara ficou paralisada na cadeira, a boca aberta em choque. Ela foi insultada. Pela "santinha". E o pior de tudo: ela não tinha uma resposta imediata à altura.
Enquanto Eduarda caminhava para o jardim, sentindo o sol em seu rosto e a lealdade de Bóris ao seu lado, ela percebeu que a vida naquela cobertura nunca seria calma. Mas, pela primeira vez, ela não se importava. Entre as garras de Sara e o controle de Emanuel, ela estava aprendendo a afiar as próprias unhas — mesmo que elas estivessem pintadas com um esmalte rosa claro e delicado.
Emanuel, observando a cena da janela do escritório no andar de cima, soltou um suspiro de satisfação. Ele sabia que tinha criado um monstro — ou melhor, dois. Mas, no fim das contas, ele era o mestre daquela exibição, e enquanto elas lutassem por ele, ele teria exatamente o que queria: o caos mais delicioso que o dinheiro e o poder poderiam comprar.