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Sombra, Túmulos e Chantagens
A atmosfera na cobertura de Emanuel estava mais carregada do que o habitual, o que já era um feito impressionante. O relógio de parede na sala de estar marcava quase oito horas da noite, e o cenário era digno de uma comédia de erros tingida de drama mexicano. Emanuel estava parado no centro da sala, com os braços cruzados sobre o peito largo, sua expressão era de granito puro. À sua frente, Eduarda parecia um pequeno vulcão de delicadeza em erupção.
— Eu já disse que não, Eduarda. Não vou repetir. É um cemitério, à noite. Não faz o menor sentido e é perigoso — Emanuel declarou, sua voz grave cortando o ar com a precisão de uma de suas agulhas de tatuagem.
Eduarda bateu o pé no chão, os olhos castanhos transbordando lágrimas que ela se recusava a deixar cair totalmente, o que só a deixava com um aspecto mais manhoso e desesperado.
— Mas Manu! Não é só um "cemitério"! É uma aula prática de História da Arte sobre iconografia tumular e arquitetura neoclássica! O professor conseguiu autorização especial, vai ser lindo, vai ter lua cheia, e todos os meus colegas vão estar lá! — Ela choramingava, aproximando-se dele e tentando segurar as mãos dele, que permaneciam imóveis.
— Iconografia tumular é o nome que dão agora para ficar vagando entre mortos no escuro? — Emanuel arqueou uma sobrancelha, irredutível. — Você é jovem demais, bonita demais e distraída demais para ficar andando em um cemitério à noite, mesmo com um professor de óculos fundo de garrafa por perto. A resposta é não.
Sentadas no sofá de veludo oposto, Sara e suas três fiéis escudeiras — Jéssica, Bia e Tati — assistiam à cena como se estivessem na primeira fila de um desfile de moda internacional. Sara segurava uma taça de vinho branco, um sorriso de puro deleite desenhado em seus lábios perfeitamente preenchidos.
— Ai, Emanuel, deixa a menina ir — provocou Sara, piscando para as amigas. — Quem sabe ela não encontra um fantasma que tenha mais assunto que ela? Ou melhor, talvez ela se sinta em casa entre as lápides, já que a personalidade dela é quase tão animada quanto uma.
As amigas de Sara caíram na gargalhada. Tati, a mais ácida das gêmeas, balançou o cabelo loiro e acrescentou:
— Imagina a cena, gente. A "santinha" de camisola branca correndo entre os túmulos. Se o Bóris for junto, vão achar que é o próprio cão do inferno buscando a alma dela.
Eduarda virou-se para elas, o rosto vermelho de humilhação e raiva. Ela odiava como Sara sempre conseguia transformar sua paixão acadêmica em motivo de chacota.
— Cala a boca, Sara! Você não entende nada que não tenha um código de barras ou um aplicador de gloss! — Eduarda gritou, surpreendendo a todos com o volume da voz.
— Olha só! A bonequinha de porcelana aprendeu a gritar — debochou Sara, recostando-se no sofá. — Cuidado, Emanuel, daqui a pouco ela morde.
Emanuel soltou um suspiro pesado, sentindo a têmpora latejar. O estresse de gerenciar seus estúdios ao redor do mundo não era nada comparado a uma noite de sexta-feira com aquelas duas.
— Sara, chega. Eduarda, para o quarto. Agora.
Mas Eduarda não se moveu. Pelo contrário, ela deu um passo à frente, entrando no espaço pessoal de Emanuel. Ela sabia que sua maior arma não era a lógica, mas o afeto e a falta dele.
— Você não manda em mim desse jeito, Emanuel! Se você não me deixar ir, eu... eu nunca mais vou deixar você me tocar! — Ela disparou, a voz trêmula, mas decidida.
Um silêncio sepulcral caiu sobre a sala. Até Bóris, que estava roendo um osso de borracha no canto, parou para observar. As amigas de Sara arregalaram os olhos, trocando olhares de choque e diversão.
— O quê? — Emanuel perguntou, sua voz baixando para um tom perigosamente calmo.
— É isso mesmo! — Eduarda continuou, soluçando e fazendo um bico imenso, cruzando os braços sobre os seios médios que o decote do vestido leve realçava. — Você nunca mais vai me comer! Nunca! Pode esquecer o que aconteceu ontem à noite, pode esquecer tudo! Você vai ficar na seca, Emanuel!
Bia soltou um engasgo que parecia uma risada contida, enquanto Jéssica sussurrava:
— Meu Deus, a freirinha virou negociante de greve.
Emanuel sentiu o sangue subir ao rosto. Não por timidez — ele era um homem que já tinha visto de tudo —, mas pela audácia de Eduarda em expor a intimidade deles na frente daquelas hienas loiras.
— Eduarda, você tem noção do que está dizendo? — Ele perguntou, dando um passo em direção a ela, a aura de controle começando a rachar.
— Tenho! — Ela gritou, as lágrimas agora descendo livremente. — Você me trata como se eu fosse um dos seus cachorros! "Duda, senta", "Duda, fica", "Duda, não vai no cemitério"! Eu sou uma mulher, Emanuel! Eu estudo! Eu tenho interesses! E se você não respeita o meu estudo, não vai ter o meu corpo!
Sara, vendo que a situação estava fugindo do controle e que Emanuel parecia genuinamente afetado pela ameaça — afinal, ele era um homem de apetites vorazes —, decidiu intervir para piorar as coisas.
— Nossa, Emanuel. Que ultimato barato. Se fosse eu, eu já teria mandado ela fazer as malas. Imagina só, ser chantageado por uma menina que ainda usa pijama de nuvenzinha.
Emanuel lançou um olhar mortal para Sara.
— Sara, se você abrir a boca mais uma vez, eu juro que coloco você e suas amigas para fora deste apartamento em cinco segundos.
As convidadas ficaram subitamente quietas. Elas conheciam aquele tom. Era o Emanuel dono de império, o homem que não aceitava insolência de funcionários nem de amantes.
Ele voltou sua atenção para Eduarda. Ela estava ali, trêmula, vulnerável, mas com uma teimosia que ele secretamente admirava, embora o irritasse profundamente agora.
— Duda, venha aqui — ele ordenou, suavizando um pouco o tom, mas mantendo a firmeza.
— Não! — Ela recuou. — Só vou se você disser que eu posso ir ao evento!
— Você não vai para um cemitério às nove da noite com um bando de estudantes bêbados e um professor que não consegue proteger nem a si mesmo.
— Não são bêbados! São acadêmicos! — Ela chorou mais alto, jogando-se no tapete e abraçando o pescoço de Bóris, que começou a lamber seu rosto para consolá-la. — Viu, Bóris? O papai é um monstro! Ele quer me manter trancada numa torre!
— Meu Deus, que drama — murmurou Tati, mas um olhar de Emanuel a fez encolher-se no sofá.
Emanuel caminhou até Eduarda e, sem esforço, a pegou pelos braços, levantando-a do chão. Bóris latiu uma vez, confuso, mas Emanuel deu um comando baixo e o cão se sentou.
— Escute bem — Emanuel disse, segurando o rosto de Eduarda entre as mãos, forçando-a a olhar para ele. — Eu não vou ceder a chantagens. Especialmente a esse tipo de chantagem. Se você acha que pode usar o sexo como moeda de troca comigo, você está muito enganada. Eu sou o homem desta casa. Eu decido o que é seguro para você.
Eduarda tentou se soltar, mas ele a segurou com firmeza, não para machucar, mas para ancorar.
— Eu te odeio! — Ela soluçou, embora seu corpo estivesse traindo suas palavras, inclinando-se para o calor dele. — Eu te odeio tanto, Manu...
— Eu sei que odeia — ele murmurou, beijando a testa dela. — Mas você vai ficar aqui. E quanto à sua "greve"... — Ele deu um sorriso de lado, algo predatório e sombrio que fez Eduarda estremecer. — Vamos ver quanto tempo você aguenta quando eu decidir que acabou.
Ele a soltou e olhou para o sofá.
— Sara, a festa acabou. Suas amigas podem ir. Eu quero silêncio nesta casa em dez minutos.
Sara bufou, levantando-se com elegância forçada.
— Vamos, meninas. O clima ficou pesado demais com o cheiro de incenso de funeral e hormônios reprimidos. Boa sorte, Emanuel. Você vai precisar de muita paciência para lidar com essa creche.
As amigas de Sara saíram apressadas, murmurando comentários maldosos assim que atravessaram a porta. Sara foi para o andar de cima, batendo os saltos com força, claramente irritada por não ter sido o centro das atenções naquela noite.
Emanuel ficou sozinho na sala com Eduarda e Bóris. A jovem estava sentada no sofá agora, soluçando baixinho, limpando o nariz na manga do cardigã.
— Eu só queria ver as esculturas de mármore sob a luz da lua... — ela disse, a voz pequena e derrotada. — O professor disse que as sombras revelam detalhes que o sol esconde.
Emanuel sentiu aquela pontada de culpa que só Eduarda conseguia provocar. Ele se sentou ao lado dela, puxando-a para o seu peito. Ela resistiu por dois segundos antes de se entregar ao abraço, manhosamente escondendo o rosto em seu pescoço.
— Eu não sou um monstro, Duda. Eu só me preocupo. Aquele cemitério não é seguro.
— Você podia ter ido comigo — ela sussurrou, fazendo círculos com o dedo na camisa dele.
— Eu tenho três reuniões com a Ásia daqui a pouco, pequena. Não posso passar a noite vendo anjos de pedra.
Eduarda levantou o olhar, os olhos ainda vermelhos, mas com um brilho de astúcia voltando.
— Então a minha greve continua.
Emanuel riu, um som rouco que vibrou no peito dela.
— É mesmo? Você vai conseguir dormir do meu lado, sentindo o meu cheiro, e não vai fazer nada?
— Vou — ela disse, embora sua mão estivesse subindo para a nuca dele, brincando com os cabelos curtos. — Você foi muito malvado. Me humilhou na frente daquelas loiras de farmácia.
— Elas não são de farmácia, o silicone da Sara custou mais que o seu carro — ele brincou, tentando aliviar o clima.
— Não tem graça! — Ela deu um tapa fraco no ombro dele. — Eu quero que você peça desculpas.
— Desculpas por cuidar de você? Nunca.
Eduarda se afastou, fazendo o bico mais exagerado de sua coleção.
— Então boa noite, Emanuel. Vá dormir com suas reuniões da Ásia. Eu vou dormir com o Bóris.
Ela se levantou e caminhou em direção ao quarto, chamando o cachorro.
— Vem, Bóris! Vem dormir com a mamãe porque o papai é um ditador!
Emanuel observou-a sair, balançando a cabeça. Ele sabia que aquela "greve" não duraria até a manhã seguinte, mas também sabia que teria que compensá-la de alguma forma. Talvez comprando aquele livro raro de gravuras que ela tanto queria, ou talvez apenas sendo um pouco menos rígido no dia seguinte.
No entanto, o silêncio da casa foi quebrado por um grito vindo do andar de cima.
— EMANUEL! O SEU CACHORRO COMEU O MEU SAPATO DE COBRA!
Emanuel fechou os olhos e suspirou. Bóris, o "bebê" de Eduarda, tinha acabado de declarar guerra à Sara no momento mais oportuno possível.
Lá embaixo, Eduarda ouviu o grito e soltou uma risadinha deliciada, abraçando o cachorro no corredor.
— Bom menino, Bóris — sussurrou ela, dando um beijo no topo da cabeça do Rottweiler. — Amanhã a mamãe te dá um bife extra.
Emanuel subiu as escadas, preparando-se para o próximo round. Entre a luxúria, a arte, o ciúme e os sapatos destruídos, ele percebeu que sua vida era um caos completo. E, para seu próprio espanto, ele não a trocaria por nada no mundo.