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O Labirinto de Vidro e a Rendição do Coração

A cobertura de Emanuel nunca pareceu tão fria. O silêncio que se seguiu à partida de Eduarda era pesado, carregado com o eco das promessas quebradas e o cheiro do perfume doce dela que ainda flutuava no corredor. Ela prometera uma semana. Fora um pacto, uma trégua selada sob os lençóis de seda após a noite no cemitério. Mas a realidade de Eduarda — aquela vida suburbana, familiar e protegida que Emanuel tanto desprezava — sempre encontrava uma fresta para se infiltrar.

Desta vez, fora uma crise de saúde súbita do pai, algo que Emanuel, em sua fúria possessiva, rotulara imediatamente como "manipulação". Ele não aceitara as desculpas, não aceitara o choro contido dela enquanto arrumava a mala pequena. Para ele, cada vez que Eduarda cruzava aquela porta de volta para a casa dos pais, era uma derrota pessoal, um golpe em seu ego de homem que controlava impérios, mas não conseguia domar a vontade de uma menina de vinte anos.

— Ela foi embora, não foi? — A voz de Sara cortou o ar como uma lâmina. Ela estava encostada no balcão da cozinha, observando Emanuel com uma mistura de tédio e satisfação. — Eu avisei, Manu. A pombinha sempre volta para o ninho quando o vento sopra um pouco mais forte.

Emanuel não respondeu. Seus olhos estavam fixos na porta fechada. A veia em sua têmpora pulsava.

— Ela prometeu — ele rosnou, a voz saindo como o som de pedras sendo esmagadas. — Ela me deu a palavra dela.

— A palavra de uma criança que tem medo da própria sombra não vale o chão que ela pisa — Sara caminhou até ele, o quadril balançando sob o robe de seda preta. — Esquece ela por hoje. Eu estou aqui. Nós temos negócios para fechar, temos Dubai na próxima semana...

— Cala a boca, Sara! — Emanuel explodiu.

O movimento foi súbito. Com um braço, ele varreu a mesa de centro de mármore, enviando o vaso de cristal de Murano e as garrafas de whisky importado para o chão com um estrondo ensurdecedor. O vidro estilhaçou-se em mil diamantes afiados, espalhando o líquido âmbar pelo tapete persa.

Sara deu um passo atrás, os olhos arregalados, mas não de medo — de choque por vê-lo perder a compostura de forma tão visceral. Emanuel chutou uma poltrona de design, virando-a, e socou a parede de concreto aparente com uma força que certamente deixaria marcas em seus nós dos dedos.

— Eu dou tudo a ela! — ele gritava, enquanto arremessava um cinzeiro de ônix contra a vidraça blindada, que apenas ressoou com um baque surdo. — Eu dou proteção, dou luxo, dou o meu tempo! E ela prefere aquele subúrbio medíocre! Ela prefere ser a filhinha do papai!

— Você está louco, Emanuel! — Sara gritou de volta, tentando manter a voz firme apesar do caos. — É por isso que ela foge! Você é um maníaco por controle!

— Eu sou o homem que ela diz que ama! — Ele se virou para Sara, o rosto vermelho, o peito subindo e descendo. — Mas se ela quer a distância, ela vai ter a distância. Eu cansei de implorar.

Naquela noite, Emanuel destruiu metade da decoração da sala de estar. Fora uma purgação de raiva e frustração que deixou Sara em silêncio e a cobertura em ruínas.

Quatro meses se passaram.

Quatro meses de um inverno emocional que Emanuel impôs a si mesmo e a todos ao seu redor. Ele se tornara mais frio, mais focado nos negócios, expandindo seus estúdios de tatuagem com uma agressividade que assustava até seus sócios mais próximos. Com Sara, a relação tornara-se puramente estratégica e física; não havia espaço para conversas sobre sentimentos. Com Eduarda, o contato fora reduzido ao mínimo necessário. Ele não ligava, não mandava flores, não implorava. Ele a deixara no vácuo de sua ausência, esperando que o silêncio fizesse o que a pressão não conseguira.

No subúrbio, Eduarda definhava. A casa dos pais, que antes era seu refúgio, tornara-se uma prisão de arrependimentos. Ela sentia falta do cheiro de Emanuel, da segurança de seus braços tatuados e até mesmo da intensidade assustadora de seu olhar. A liberdade que ela tanto buscava parecia vazia sem o homem que era o centro de sua gravidade.

— Você não pode continuar assim, Eduarda — disse Helena, sua mãe, sentando-se ao lado dela na varanda em uma tarde chuvosa. — Você mal come, mal estuda. Seus desenhos perderam a cor.

— Eu sinto que o perdi, mamãe — sussurrou Eduarda, as lágrimas escorrendo pelo rosto pálido. — Ele não me procura mais. Ele desistiu de mim.

— Emanuel não é um homem que desiste, minha filha. Ele é um homem que espera a presa se cansar — Helena suspirou, sendo honesta de uma forma que nunca fora antes. — Você o ama?

— Mais que tudo no mundo.

— E você consegue viver sem ele? Sem aquela vida que ele te oferece, sem a proteção dele?

— Não. Eu me sinto incompleta aqui. Eu sinto que não pertenço mais a este lugar.

— Então você já sabe a resposta — Helena acariciou o cabelo da filha. — Às vezes, para sermos felizes, precisamos deixar de ser crianças e assumir o nosso lugar no mundo. O lugar de Emanuel é ao seu lado, e o seu é ao lado dele. A tia Eunice, o seu pai... eles vão sobreviver. Mas você não vai, se continuar aqui apenas existindo.

Eduarda olhou para a chuva. As palavras da mãe foram o empurrão que faltava. Ela percebeu que sua timidez e sua manha haviam se tornado escudos contra uma vida que ela desejava, mas temia enfrentar. Ela não queria mais ser a "pequena" que fugia; ela queria ser a mulher que ficava.

Naquela mesma noite, sem avisar, Eduarda pegou um táxi. Ela não levou malas, apenas a coragem que havia cultivado nas últimas horas.

Na cobertura, Emanuel estava sozinho. Sara tinha saído para um evento de gala, e ele preferira o silêncio do escritório e uma dose de whisky. A sala já fora restaurada, o mármore limpo, os vidros trocados, mas as cicatrizes daquela noite de fúria ainda pareciam marcadas no ar.

O interfone tocou.

— Senhor, a senhorita Eduarda está aqui embaixo — disse o porteiro.

O coração de Emanuel deu um salto que ele não sentia há meses, mas sua expressão permaneceu gélida.

— Deixe-a subir.

Ele se levantou e caminhou até a sala de estar, parando no centro do mármore branco. Quando a porta do elevador se abriu, Eduarda apareceu. Ela estava molhada da chuva, os cabelos castanhos grudados no rosto, usando um vestido simples e um casaco que parecia grande demais para ela. Ela parecia frágil, mas seus olhos tinham uma determinação que ele nunca vira.

Emanuel não se moveu. Ele a observou atravessar a sala, o som de seus passos pequenos ecoando no vazio.

— O que você está fazendo aqui, Eduarda? — ele perguntou, a voz desprovida de emoção.

— Eu vim te dar a minha resposta — ela disse, parando a poucos metros dele. A voz tremia, mas ela não desviou o olhar.

— Eu não fiz nenhuma pergunta recentemente.

— Você fez uma pergunta há quatro meses. E eu respondi com medo. Mas hoje eu vim responder com a verdade — ela deu um passo à frente, entrando no espaço pessoal dele. — Eu aceito, Manu.

Emanuel estreitou os olhos, o corpo tenso como uma corda de piano.

— Aceita o quê?

— Aceito morar com você. Aceito me mudar para cá amanhã, se você quiser. Aceito ser sua mulher, sem me esconder de ninguém, sem fugir para a casa dos meus pais toda vez que a vida ficar difícil — ela estendeu a mão e tocou o peito dele, sentindo os batimentos acelerados através da camisa de linho. — Eu não quero mais ser a sua "pequena" que vive no subúrbio. Eu quero ser a sua Eduarda, aqui, nesta casa.

O silêncio que se seguiu foi eterno. Emanuel processava as palavras. Ele esperara por aquele momento por anos. Ele brigara, gritara, quebrara móveis e impusera silêncios punitivos para chegar ali. E agora, vendo-a ali, rendida e decidida, a armadura de gelo que ele construíra começou a derreter debaixo do calor daquele toque.

— Você tem certeza? — ele perguntou, a voz agora rouca, a emoção começando a transbordar. — Se você cruzar essa linha, Eduarda, não tem mais volta. Eu não vou deixar você fugir de novo. Eu vou te prender a mim de tal forma que você vai esquecer o caminho de casa.

— É exatamente isso que eu quero — ela sussurrou, fazendo um biquinho manhoso, mas com um brilho de entrega total nos olhos. — Me prende, Manu. Eu sou sua.

Emanuel soltou um som que era metade suspiro, metade rugido de triunfo. Ele a envolveu em seus braços, tirando-a do chão e apertando-a contra si com uma força que quase lhe tirou o fôlego. Ele a beijou com uma fome desesperada, um beijo que carregava toda a frustração dos últimos quatro meses e toda a alegria que estava explodindo em seu peito.

— Você não imagina... — ele dizia entre os beijos, o rosto enterrado no pescoço dela — ... você não tem ideia do quanto eu esperei por isso.

— Eu te amo, Manu. Me desculpa por ter demorado tanto.

— Não importa mais — ele a colocou no chão, mas manteve as mãos em seu rosto, devorando-a com os olhos. — Você está aqui. Você é minha. Finalmente, o meu mundo está completo.

Emanuel sentia-se o homem mais feliz do planeta. A vitória era absoluta. Ele tinha Sara, sua parceira de fogo e negócios, e agora teria Eduarda, sua calmaria e doçura, vivendo sob o mesmo teto, sob o seu comando, sob a sua proteção. O equilíbrio que ele tanto buscara fora finalmente alcançado.

Nesse momento, a porta de entrada se abriu. Sara entrou, retirando as luvas de couro e parando abruptamente ao ver a cena. Ela olhou para Eduarda, para a mala inexistente, e para o rosto de Emanuel, que brilhava com uma felicidade que ela nunca vira — nem mesmo nos momentos mais intensos entre os dois.

— Ora, ora — disse Sara, cruzando os braços, a ironia voltando como um mecanismo de defesa. — Parece que a chuva trouxe um presente inesperado.

— Ela vai morar aqui, Sara — disse Emanuel, sem soltar a mão de Eduarda. Sua voz transbordava autoridade e júbilo. — A partir de amanhã, este é o lugar dela.

Sara manteve o olhar fixo em Eduarda por longos segundos. Ela viu a mudança na menina. Não era mais a garota assustada que pedia licença para respirar. Havia uma aceitação ali, uma rendição que era, paradoxalmente, uma forma de poder.

— Bom — disse Sara, dando de ombros e caminhando em direção ao bar, embora seu coração estivesse batendo de uma forma desconfortável. — Espero que você tenha comprado lençóis novos, Manu. Porque este apartamento vai ficar muito pequeno para nós três se não houver regras muito bem estabelecidas.

— As regras são as minhas, Sara — Emanuel disse, voltando sua atenção total para Eduarda. — E a primeira regra é que ninguém mais sai desta casa.

Eduarda aninhou-se no peito de Emanuel, sentindo-se finalmente em casa. Ela sabia que a convivência com Sara seria um desafio, que a possessividade de Emanuel seria constante e que sua vida mudaria para sempre. Mas, ao sentir o coração dele batendo contra o seu, ela soube que fizera a escolha certa.

Emanuel olhou para a sua cobertura, para a cidade iluminada lá fora, e sentiu que o império estava completo. Ele era o mestre de seu destino, o dono de sua vida, e agora, o guardião de suas duas mulheres. A felicidade que ele sentia era tão vasta que parecia não caber no peito. Ele venceu. A Calmaria e a Tempestade estavam finalmente sob o seu teto, e ele não as deixaria partir por nada neste mundo.

Naquela noite, o sono de Emanuel foi o mais tranquilo em anos. Ele tinha tudo o que queria. A manha de Eduarda agora era seu despertar diário, e a força de Sara era seu suporte constante. O labirinto de vidro finalmente tinha um centro, e ele era o rei absoluto de tudo o que os seus olhos alcançavam.