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Sombras sobre o Mármore e o Repouso dos Mortos

A mansão de campo dos pais de Sara, no interior de São Paulo, era o cenário perfeito para o que Emanuel chamava de "fuga necessária". Durante todo o final de semana, o mundo parecia ter se reduzido à presença expansiva de Sara e aos negócios de sua família. Entre rodadas de negócios sobre a expansão dos estúdios para o Catar e mergulhos na piscina de borda infinita, Emanuel se permitiu algo raro: desligar-se.

Sara estava em seu elemento. Usando biquínis mínimos e joias pesadas, ela desfilava entre os convidados do pai, um influente empresário do setor imobiliário, agindo como a rainha que sempre acreditou ser. Ela provocava Emanuel, testava sua paciência com comentários ácidos sobre a concorrência e o recompensava com uma atenção voraz entre quatro paredes. Por dois dias inteiros, o nome de Eduarda não foi pronunciado. Emanuel não checou as mensagens, não ligou para saber se ela havia jantado e não monitorou seus passos. Ele estava imerso no furacão loiro e ambicioso que era Sara.

— Você parece até outra pessoa quando não está preocupado com a "creche" — comentou Sara, no final da tarde de domingo, enquanto eles se preparavam para pegar a estrada de volta à capital. Ela ajeitava o batom vermelho no espelho do carro, lançando-lhe um olhar de soslaio. — Deveríamos fazer isso mais vezes. Você fica muito mais interessante quando foca em quem realmente está ao seu lado.

— Foi um bom final de semana, Sara — respondeu Emanuel, as mãos firmes no volante. Ele sentia o corpo relaxado, mas a mente começava a voltar para a rotina de controle que definia sua existência. — Mas a realidade nos espera.

Ao entrar no apartamento na noite de domingo, o silêncio da cobertura o atingiu como um lembrete. Ele pegou o celular, que estivera em modo silencioso na maior parte do tempo, e viu uma série de notificações. Havia mensagens de gerentes de estúdios, e-mails de fornecedores e... nada de Eduarda.

Aquilo o incomodou. Geralmente, Eduarda enviava fotos de seus desenhos, áudios manhosos contando como sentia saudades ou perguntas sobre quando ele voltaria. O silêncio dela era atípico. Ele discou o número dela enquanto tirava o paletó.

— Oi, Manu! — A voz de Eduarda soou do outro lado, mas não estava carregada da melancolia que ele esperava. Ela parecia... animada. Quase eufórica.

— Oi, pequena. Acabei de chegar. Por que não me mandou notícias o fim de semana todo?

— Ah, desculpa, amor! É que eu estive tão ocupada com o pessoal da faculdade! — Ele ouviu o barulho de papéis e risadas ao fundo. — Sabe o evento de História da Arte que eu te falei? Aquele sobre iconografia fúnebre e arquitetura romântica? Vai ser hoje à noite!

Emanuel franziu o cenho, sentindo uma pontada de irritação.

— Hoje à noite? Já são quase nove horas, Eduarda. Que tipo de evento acadêmico acontece a essa hora num domingo?

— É uma visita técnica noturna, Manu! O professor conseguiu autorização especial. Vai ser no Cemitério da Consolação. É maravilhoso, tem esculturas de artistas incríveis, mausoléus que são verdadeiras obras de arte... Eu estou tão animada! Já estou saindo de casa.

Emanuel parou no meio da sala. O relaxamento do final de semana evaporou instantaneamente, substituído por uma fúria fria.

— No cemitério? À noite? Eduarda, você ficou louca? — A voz dele subiu de tom, atraindo a atenção de Sara, que saía do banho enrolada em uma toalha.

— Não fica bravo, Manu... — O tom dela mudou na hora, tornando-se baixo e manhoso, aquela defensiva clássica que ela usava quando sentia o perigo. — É um evento da faculdade. Tem seguranças, tem o professor, tem todo mundo da turma. É super seguro e é importante para a minha nota.

— Eu não quero saber de nota, Eduarda. Eu não quero você andando entre túmulos no meio da madrugada. Isso é mórbido, é perigoso e é ridículo. Volte para casa agora. Eu passo aí para te buscar e jantamos juntos.

— Mas eu não posso voltar agora! — Ela parecia estar à beira das lágrimas, mas havia uma teimosia nova em sua voz. — Eu me preparei a semana toda. Eu quero muito ver as esculturas do Victor Brecheret sob a luz da lua. Por favor, Manu... confia em mim só um pouquinho? Eu te mando localização em tempo real, eu juro.

— Não. Eu não vou permitir isso. Eduarda, se você entrar naquele lugar, nós teremos um problema sério.

— Eu já estou no táxi, Manu. Eu preciso ir. Eu te amo, tchau!

Ela desligou. Emanuel olhou para o aparelho como se ele tivesse acabado de explodir em sua mão. Ele nunca, em todo o tempo de relacionamento, fora ignorado daquela forma por ela.

— O que foi agora? — Sara perguntou, encostando-se no batente da porta com um sorriso cínico. — A santinha resolveu virar gótica?

— Ela foi para um evento no cemitério. Agora. À noite — Emanuel disse, pegando as chaves do carro novamente.

Sara soltou uma gargalhada genuína.

— No cemitério? Que poético. Ela realmente sabe como chamar sua atenção, não sabe? Enquanto nós estávamos bebendo vinho caro e falando de milhões, ela estava planejando um passeio com os mortos. Você vai atrás dela, não vai?

— Vou. Ela não tem noção do perigo. São Paulo não é lugar para uma menina como ela estar em um cemitério à noite, faculdade ou não.

— Vá lá, herói — debochou Sara, caminhando em direção ao quarto. — Mas não se esqueça de que, enquanto você brinca de babá em túmulos, eu estarei aqui, na cama, sendo uma mulher adulta. Tente não se contaminar com o cheiro de mofo.

Emanuel ignorou a provocação e saiu. O trajeto até a Consolação foi feito em tempo recorde. Ele sentia o sangue pulsar em suas têmporas. Para ele, aquilo não era apenas sobre segurança; era sobre desobediência. Eduarda era sua Calmaria, a parte de sua vida que ele mantinha protegida e sob controle, longe da vulgaridade e dos riscos do mundo. Vê-la desafiar sua autoridade para ir a um lugar tão sombrio o deixava possesso.

Quando chegou aos portões do cemitério, viu um grupo de cerca de vinte estudantes reunidos perto da entrada monumental. Havia lanternas e pranchetas. Ele avistou Eduarda quase imediatamente. Ela usava um casaco de lã claro, que a fazia parecer ainda mais pequena e deslocada naquele ambiente cinzento. Ela conversava com um rapaz alto, que segurava uma câmera fotográfica.

Emanuel estacionou o carro de qualquer jeito e saltou, caminhando em direção ao grupo com uma aura de ameaça que fez alguns alunos se afastarem.

— Eduarda! — O grito dele cortou o silêncio da rua.

Ela se virou, os olhos arregalados. O rosto, antes iluminado pela curiosidade acadêmica, empalideceu.

— Manu... você veio mesmo... — Ela caminhou até ele, tentando sorrir, mas suas mãos tremiam.

— O que você pensa que está fazendo? — Ele a segurou pelo braço, não com força, mas com uma firmeza que não admitia réplica. — Eu disse para você não vir.

— Senhor, estamos em uma atividade acadêmica autorizada — o rapaz da câmera tentou intervir, dando um passo à frente.

Emanuel virou-se para ele, os olhos faiscando.

— Não se meta. Eu estou falando com a minha namorada.

— Manu, por favor! — Eduarda se colocou entre os dois, a voz saindo em um sussurro manhoso e desesperado. — Não faz um escândalo aqui. Todo mundo está olhando. É só uma visita, o professor está ali...

— Para o carro. Agora — ordenou Emanuel, a voz baixa e perigosa.

— Mas a gente nem começou a andar... eu queria tanto ver o "Sepultamento"... — Ela fez um biquinho, os olhos brilhando com lágrimas prontas para cair. Ela se aproximou dele, tentando abraçar sua cintura, buscando a proteção que sabia que ele sempre oferecia, mesmo quando estava furioso. — Por favor, meu amor... fica aqui comigo então? Me acompanha? Se você estiver do meu lado, eu vou estar segura, não vou?

Emanuel olhou para ela, para aquele rosto doce e frágil sob a luz amarelada dos postes. A manha dela era sua maior arma. Ela sabia que ele não suportava vê-la triste, e sabia que seu instinto protetor era mais forte que sua raiva.

— Eu não vou entrar em um cemitério para ver estátuas, Eduarda. Isso é doentio.

— Não é doentio, é arte! — ela insistiu, roçando o rosto na camisa dele. — É a história de como as pessoas amavam quem se foi. Por favor, Manu... só uma hora? Eu prometo que depois eu faço o que você quiser. Eu fico na sua casa a semana toda, eu juro!

Emanuel suspirou, fechando os olhos por um segundo. A promessa de tê-la na cobertura por uma semana inteira era o que ele mais desejava. Ele olhou para o grupo de estudantes, que agora começava a entrar pelos portões, e depois para a menina em seus braços.

— Você é impossível — ele murmurou, a raiva começando a ser substituída por um cansaço resignado. — Tudo bem. Eu vou com você. Mas se eu sentir que o ambiente está ficando estranho, nós saímos na mesma hora.

— Obrigada, obrigada! — Ela deu pulinhos de alegria e o beijou rapidamente no rosto. — Você é o melhor namorado do mundo!

Eles entraram. O cemitério da Consolação à noite era um labirinto de sombras e silêncio. O grupo seguia o professor, que explicava sobre os estilos arquitetônicos dos grandes mausoléus das famílias cafeicultoras. Eduarda ouvia tudo fascinada, segurando o braço de Emanuel com força, ora por medo das sombras, ora por puro afeto.

Emanuel, no entanto, sentia-se em um filme de terror. Para ele, aquele lugar era apenas um lembrete da mortalidade e do vazio, algo que ele tentava ignorar com seu dinheiro e seu poder. Ele observava as tatuagens em seus próprios braços — muitas delas inspiradas em temas clássicos — e sentia uma ironia amarga em estar ali.

— Olha aquela anja, Manu... — Eduarda apontou para uma escultura de mármore branco que parecia chorar sobre um túmulo. — Parece tão triste e tão linda ao mesmo tempo. Não te inspira?

— Me inspira a te tirar daqui o mais rápido possível — ele respondeu, puxando-a para mais perto quando um vento frio soprou entre as alamedas.

— Você é tão durão — ela brincou, manhosa, escondendo o rosto em seu ombro. — Mas eu sei que você está gostando de me proteger aqui no escuro.

— Eu não gosto que você se coloque em situações onde precise ser protegida, Eduarda. Você não entende que a sua segurança é a minha prioridade?

— Eu entendo... — ela suspirou, parando diante de um mausoléu imponente. — Mas às vezes eu sinto que você quer me guardar em uma caixinha de música. E eu preciso sair para ver o mundo, mesmo que o mundo seja um pouco assustador às vezes.

Emanuel não respondeu. Eles continuaram a caminhada por mais quarenta minutos. O clima era pesado, mas a empolgação de Eduarda era contagiante para os outros alunos, embora para Emanuel fosse apenas um teste de paciência.

Quando a visita finalmente terminou e eles voltaram para o carro, a tensão de Emanuel parecia ter voltado com força total. O silêncio da rua deserta e a adrenalina do passeio mórbido o deixaram em alerta.

— Agora, você vem para a minha casa — disse ele, assim que ela entrou no banco do passageiro. — Sem discussões. Você prometeu.

— Eu sei, eu vou — ela disse, recostando-se no banco, o cansaço finalmente vencendo a empolgação. — Mas não precisa falar assim. Eu fui uma boa menina, não fui? Eu fiquei do seu lado o tempo todo.

— Você foi uma menina teimosa que me fez ir a um cemitério num domingo à noite — ele retrucou, dando a partida no carro. — Sara tem razão sobre uma coisa: você sabe exatamente como me tirar do sério.

Ao chegarem na cobertura, Sara estava na sala, bebendo uma taça de vinho e assistindo a um documentário sobre moda. Ela olhou para os dois — Emanuel com a cara fechada e Eduarda com o casaco sujo de poeira de mármore e um sorriso cansado.

— Sobreviveram aos fantasmas? — Sara perguntou, a voz banhada em sarcasmo. — Ou trouxeram algum de herança?

— Oi, Sara — disse Eduarda, timidamente. Ela sempre se sentia pequena perto da presença esmagadora da loira. — Foi muito bonito, você deveria ter ido.

— Eu prefiro os vivos, querida. E de preferência os que têm conta bancária e bom gosto — Sara levantou-se e caminhou até Emanuel, passando a mão pelo peito dele. — Você parece tenso, Manu. A "ovelhinha" te deu muito trabalho entre as lápides?

— Eu vou tomar um banho — disse Emanuel, esquivando-se do toque de Sara. — Eduarda, suas coisas estão no quarto de hóspedes. Vá se limpar.

Eduarda assentiu e caminhou pelo corredor, sentindo o olhar de Sara queimar em suas costas.

— Você está perdendo a mão, Emanuel — Sara disse, baixo o suficiente para que apenas ele ouvisse. — Essa menina está começando a testar o quanto você aguenta. Primeiro a viagem sem aviso, agora passeios noturnos em cemitérios... O que vem depois? Um ritual de invocação na sala de estar?

— Ela é jovem, Sara. Ela estuda arte. Foi um evento da faculdade.

— Ela é esperta — corrigiu Sara. — Ela sabe que, enquanto agir como uma criança assustada, você vai correr para salvá-la. E enquanto você corre, ela faz exatamente o que quer.

Emanuel não respondeu. Ele foi para o banho, deixando a água quente lavar a sensação de desconforto daquela noite. Mas as palavras de Sara ecoavam em sua mente. Ele olhava para Eduarda e via fragilidade, mas às vezes, como naquela noite, ele via uma vontade própria que ele não conseguia domar completamente.

Mais tarde, quando a cobertura estava em silêncio, Emanuel foi até o quarto de hóspedes. Eduarda já estava deitada, vestindo um pijama de seda que ele havia dado a ela. Ela parecia um anjo, a pele clara contrastando com os lençóis escuros.

— Manu... — ela chamou, a voz sonolenta e manhosa, estendendo a mão para ele. — Vem aqui.

Ele se sentou na beira da cama. A raiva havia sumido, restando apenas aquela necessidade de posse que o definia.

— Você me assustou hoje, pequena. Não faça mais isso.

— Eu só queria que você visse o que eu vejo — ela sussurrou, puxando-o para um abraço. — O mundo não é só negócios e poder, Manu. Tem beleza nas coisas tristes também.

— A única beleza que eu quero ver é você segura na minha casa — ele disse, beijando a testa dela. — Você vai ficar aqui a semana toda. Eu vou te levar e buscar na faculdade todos os dias.

— Todos os dias? — Ela fez uma careta, mas não protestou. — Está bem. Se isso te faz sentir melhor... meu protetor rabugento.

Emanuel ficou ali até que ela adormecesse. Ele sabia que Sara estava no outro quarto, esperando por ele com sua impaciência e seu desejo direto. Ele vivia entre dois mundos: um de mármore e sombras, onde Eduarda o levava pela mão, e outro de ouro e fogo, onde Sara o desafiava a cada passo.

Ao sair do quarto, ele encontrou Sara no corredor, encostada na parede, observando-o.

— Ela dormiu? — perguntou a loira.

— Sim.

— Ótimo. Agora que a criança descansou, talvez o homem possa me dar um pouco de atenção. Ou você vai passar o resto da noite pensando em túmulos?

Sara o puxou pela nuca, um beijo agressivo que exigia sua presença total. Emanuel correspondeu, sentindo a diferença brutal entre a entrega suave de Eduarda e a demanda faminta de Sara.

Naquela noite, sob o teto de luxo da cobertura, o equilíbrio parecia restabelecido. Mas Emanuel sabia que era uma paz armada. Eduarda estava em seu território, mas por quanto tempo? Ela prometera uma semana, mas ele a queria para sempre. E Sara... Sara nunca aceitaria ser apenas metade de sua vida por muito tempo.

Enquanto a cidade lá fora rugia, Emanuel fechou os olhos, sentindo o peso de suas duas escolhas. Ele era um mestre do controle, mas no jogo entre a Calmaria e a Tempestade, ele começava a perceber que o único lugar onde ele não tinha poder era no coração daquelas duas mulheres. E o cemitério, com seu silêncio eterno, parecia rir de sua tentativa vã de manter tudo vivo e sob seu comando.