D
O Brilho da Discórdia sob o Sol de Angra
O sol de domingo em Angra dos Reis parecia mais intenso do que o habitual, refletindo-se nas águas cristalinas que banhavam o deque da mansão de praia de Emanuel. O som de música eletrônica suave misturava-se ao barulho das ondas e ao tilintar de gelo em taças de cristal. Emanuel, encostado no guarda-corpo de madeira nobre, observava o cenário com seu habitual olhar analítico. Ele era um homem que apreciava a ordem, mesmo quando cercado pelo luxo e pelo hedonismo que seus estúdios de tatuagem e investimentos lhe proporcionavam.
Ao seu redor, o grupo de amigos de Sara — um círculo de pessoas tão vibrantes e superficiais quanto a própria loira — ocupava as espreguiçadeiras. Sara estava em seu elemento. Usando um biquíni de grife minúsculo que acentuava suas curvas esculpidas por cirurgias plásticas e muita academia, ela distribuía risadas altas e comentários ácidos, agindo como a rainha absoluta daquela propriedade.
— Emanuel, querido, traga mais desse champanhe! — exclamou Patrícia, uma das amigas mais próximas de Sara, enquanto retocava o protetor solar. — A Sara estava nos contando que você está pensando em abrir uma unidade em Dubai. Ela já está até planejando o guarda-roupa para a inauguração, não é, amiga?
Sara deu um sorriso de soslaio, lançando um olhar possessivo para Emanuel.
— Alguém precisa cuidar da imagem pública desses estúdios, Paty. O Manu é o talento, mas eu sou a estratégia.
Emanuel apenas deu um sorriso contido, sem confirmar nem negar. Ele sabia que Sara gostava de alimentar a narrativa de que era a "primeira-dama" do seu império. De certa forma, a presença imponente dela facilitava as coisas em eventos sociais. Mas, no fundo, ele sentia falta de uma presença mais suave ao seu lado.
Eduarda estava sentada um pouco mais afastada, na sombra de um ombrelone, com um livro de História da Arte no colo. Ela usava um maiô romântico de cor lavanda e uma saída de praia de renda que a deixava com um ar quase etéreo. Para as amigas de Sara, Eduarda era quase invisível, uma espécie de "protegida" ou "sobrinha" que Emanuel carregava a tiracolo por caridade. Elas não entendiam, ou fingiam não entender, a profundidade do que ele sentia pela morena.
Emanuel caminhou até Eduarda, ignorando os chamados de Sara para que ele se juntasse à rodinha de fofocas. Ele se agachou ao lado da cadeira dela, colocando a mão em seu joelho.
— Está gostando do livro, pequena? — perguntou ele, a voz baixando dois tons, tornando-se mais doce.
Eduarda fechou o livro e sorriu, aquele sorriso manhoso que sempre desarmava os escudos de Emanuel.
— Sim, Manu. Mas está um pouco barulhento aqui, não acha?
— Eu sei. Logo eles vão para o barco e teremos um pouco de paz — ele prometeu, acariciando a pele macia dela. — Aliás, eu tenho algo para você. Algo que estava esperando o momento certo.
— Para mim? — Os olhos de Eduarda brilharam com uma mistura de timidez e expectativa.
Emanuel levantou-se e fez um sinal para que ela o seguisse até o centro do deque. Ele queria fazer aquilo ali, diante de todos. Não por exibicionismo, mas por uma necessidade latente de marcar território e mostrar, de uma vez por todas, que Eduarda não era um acessório descartável em sua vida.
— Pessoal, um minuto da atenção de vocês — disse Emanuel, sua voz firme cortando a música.
Sara parou de falar imediatamente, ajeitando a postura. Ela esperava um anúncio de negócios ou, quem sabe, um presente para ela mesma, já que adorava ser o centro das atenções.
Emanuel tirou do bolso da bermuda uma pequena caixa de veludo azul-marinho. Ele se virou para Eduarda, que ficou vermelha instantaneamente, sentindo o peso de todos os olhares sobre si.
— Duda, eu sei que você não gosta de joias chamativas ou de coisas que atraiam muita atenção — começou ele, abrindo a caixa. — Por isso, mandei um designer de Londres criar algo único. É um pingente de safira bruta, cercado por pequenos diamantes negros. A safira representa a sua calma, e os diamantes negros... bem, eles representam a minha marca em você.
O silêncio que se seguiu foi quase ensurdecedor. O pingente era uma obra de arte: delicado, mas com uma força intrínseca que combinava perfeitamente com a personalidade de Eduarda.
— Manu... é lindo — sussurrou ela, as mãos tremendo levemente. — É demais, eu não sei o que dizer.
— Não diga nada. Só me deixe colocar em você — ele disse, pegando a corrente de ouro branco e contornando o pescoço fino da namorada.
Enquanto ele fechava o fecho, Sara sentia o sangue ferver sob a pele bronzeada. Ela olhou para as amigas, que trocavam olhares de choque e deboche silencioso. Patrícia soltou um risinho nervoso.
— Nossa, que... diferente — comentou Sara, aproximando-se com passos decididos, o quadril balançando de forma provocativa. — É bem a cara da Duda mesmo. Meio apagadinha, mas cara. Só não sei se combina com esse look de "estudante em férias".
Emanuel lançou um olhar gélido para Sara.
— Combina perfeitamente com quem ela é, Sara. É uma peça exclusiva. Não existe outra igual no mundo, assim como não existe outra Eduarda.
Eduarda sentiu uma pontada de ansiedade com a tensão crescente. Ela se aproximou de Emanuel, buscando o contato físico que a acalmava.
— Obrigada, Manu — ela disse, ficando na ponta dos pés para beijar o rosto dele, de forma manhosa. — Eu vou cuidar muito bem dele.
Sara sentiu o golpe. Ela sempre recebia presentes caros — bolsas de grife, relógios cravejados de brilhantes, carros — mas eram coisas que se podia comprar em qualquer loja de luxo. A ideia de que Emanuel havia dedicado tempo para conceber uma joia específica para Eduarda a atingiu onde mais doía: em seu ego competitivo.
— Bom, se a sessão de fofura acabou, podemos ir para o iate? — Sara perguntou, cruzando os braços, o que fazia seus seios siliconados saltarem ainda mais no biquíni. — O sol não vai durar para sempre e eu quero testar o jet-ski novo.
— Podem ir na frente — respondeu Emanuel, sem tirar os olhos de Eduarda. — Eu e a Duda vamos ficar mais um pouco. Quero ver como a pedra reflete a luz do sol na pele dela.
As amigas de Sara começaram a se levantar, cochichando entre si.
— Você viu a cara dela? — sussurrou uma. — A Sara está possessa.
— Também, né? O Emanuel nunca mandou fazer nada exclusivo para ela. Ele só dá o cartão de crédito e manda ela escolher.
Sara ouviu o comentário e sentiu uma vontade imensa de gritar. Mas ela era inteligente demais para perder a compostura na frente de todos. Ela se aproximou de Emanuel e passou a mão pelo peito dele, ignorando Eduarda completamente.
— Não demore, querido. Você sabe que eu não gosto de pilotar o iate sozinha... e sabe que eu fico muito mais generosa quando estamos em alto-mar — disse ela, em um tom de voz audível para todos, carregado de uma vulgaridade estratégica.
Emanuel segurou o pulso dela, afastando a mão com firmeza, mas sem grosseria.
— Eu já disse, Sara. Vão na frente. Eu encontro vocês lá em uma hora.
Sara deu de ombros, fingindo indiferença, e saiu em direção ao cais, seguida pelo seu séquito. Eduarda soltou um suspiro de alívio quando o barulho das vozes se afastou.
— Ela ficou brava, não ficou? — perguntou Eduarda, tocando a safira em seu pescoço.
— Ela sempre fica brava quando não é o centro do universo — Emanuel respondeu, puxando Eduarda para um abraço apertado. — Mas eu não me importo. Eu queria que você soubesse o quanto é importante para mim, Duda. Especialmente agora, com toda essa pressão para você morar conosco.
Eduarda escondeu o rosto no peito dele, aspirando o perfume amadeirado.
— Eu adoro quando você faz essas coisas... mas me sinto tão pequena perto delas. As amigas da Sara me olham como se eu fosse um bicho estranho.
— Você não é pequena, Eduarda. Você é o meu equilíbrio. A Sara é o fogo, a intensidade que eu preciso para os negócios e para certas partes da minha vida. Mas você... você é a minha paz. E eu não vou deixar ninguém, nem a Sara, nem as amigas dela, diminuírem isso.
— Você promete? — ela perguntou, olhando para cima com aqueles olhos grandes e expressivos.
— Prometo.
Emanuel a beijou com uma ternura que raramente demonstrava em público. Ele sabia que a convivência entre as duas estava longe de ser ideal, e que o episódio da joia traria consequências. Sara não deixaria aquilo passar barato; ela provavelmente tentaria "compensar" a afronta de alguma forma impulsiva ou cara.
Mais tarde, quando finalmente se juntaram ao grupo no iate, o clima estava carregado. Sara estava sentada na proa, bebendo um coquetel colorido, rindo alto de uma piada de um dos amigos. Quando viu Emanuel e Eduarda subirem a bordo, ela não disse nada, mas seus olhos brilharam com uma determinação perigosa.
— Manu! Finalmente! — gritou um dos amigos, Ricardo. — A Sara estava quase saindo sem você.
— Eu não saio sem o que é meu, Ricardo — disse Sara, levantando-se e caminhando até Emanuel. Ela passou o braço pela cintura dele de forma possessiva. — Só estava dando um tempo para ele terminar o momento "romance de época" com a Duda.
Eduarda sentiu o sarcasmo de Sara como uma alfinetada, mas dessa vez, ela não baixou a cabeça. Ela sentia o peso da safira em seu peito, um lembrete constante de que Emanuel a valorizava de uma forma que Sara nunca entenderia.
— A joia é realmente linda, Sara — disse Eduarda, com uma voz suave, mas firme. — O Manu tem muito bom gosto, não acha?
O silêncio caiu sobre o deque do iate. Sara estreitou os olhos. Ela não esperava que a "santinha" respondesse.
— O gosto do Emanuel é eclético, querida — retrucou Sara, com um sorriso irônico. — Ele gosta de clássicos, mas também gosta de... variedades. O importante é saber qual peça usar em cada ocasião. Uma safira é boa para um chá da tarde. Para uma festa de verdade, a gente precisa de algo com mais brilho.
— Eu prefiro o que tem significado, não apenas brilho — rebateu Eduarda, surpreendendo a si mesma.
Emanuel observava a troca de farpas com um misto de irritação e admiração. Ele odiava os conflitos, mas ver Eduarda se defendendo, mesmo que de forma tímida, dava a ele uma satisfação estranha.
— Chega de joias por hoje — interveio Emanuel, colocando-se entre as duas. — Vamos aproveitar o mar. Sara, vá ligar o som. Duda, venha comigo ver os peixes ali atrás.
O resto do dia passou entre mergulhos e conversas superficiais, mas a tensão era uma corrente elétrica que percorria o barco. Sara fazia questão de ser o mais vulgar e chamativa possível, sentando-se no colo de Emanuel, falando alto e exibindo seu corpo de forma provocativa para irritar Eduarda. Eduarda, por sua vez, mantinha-se calma, agindo de forma manhosa com Emanuel sempre que tinha oportunidade, pedindo para ele passar protetor em suas costas ou para buscar uma água, testando a paciência de Sara.
Ao cair da tarde, quando o iate retornou para o cais e o sol começou a se pôr em tons de laranja e roxo, Emanuel sentiu o peso do cansaço mental. Ele amava as duas, mas o cabo de guerra emocional era exaustivo.
Enquanto os convidados se dispersavam para se arrumarem para o jantar, Sara puxou Emanuel para um canto da sala de estar da mansão.
— Aquilo foi ridículo, Emanuel — sibilou ela, sem filtros agora que estavam "sozinhos". — Você me fez parecer uma idiota na frente das minhas amigas. Dando uma joia exclusiva para aquela... aquela menina, na minha frente?
— Eu dou o que eu quiser para quem eu quiser, Sara — respondeu ele, a voz fria como gelo. — Eu te dou tudo o que você pede. Joias, viagens, roupas. A Eduarda nunca me pede nada. Eu quis dar aquilo para ela.
— Porque você quer comprar a entrada dela nessa casa! — acusou Sara. — Você acha que um colar vai fazer ela aceitar morar comigo? Ela tem medo de mim, Emanuel. E ela tem razão. Eu não vou facilitar as coisas para uma garota que age como se tivesse doze anos.
— Ela não tem medo de você, ela tem medo da sua agressividade. E se você continuar assim, só vai me afastar.
— Ou talvez eu só esteja mostrando quem realmente manda aqui — Sara se aproximou, o rosto a centímetros do dele. — Você pode dar todos os diamantes do mundo para ela, mas no final da noite, é na minha cama que você busca o que ela não tem coragem de te dar.
Emanuel segurou o queixo de Sara com firmeza.
— Não confunda desejo com prioridade, Sara. Eu amo as duas. E se você não conseguir conviver civilizadamente, talvez a gente precise rever essa "prioridade".
Ele a soltou e caminhou em direção às escadas, deixando Sara fervendo de raiva. No corredor, ele encontrou Eduarda, que estava saindo do banho, envolta em um roupão felpudo, com os cabelos úmidos e um olhar de preocupação.
— Manu? Está tudo bem? Ouvi vozes...
Emanuel suspirou, abraçando-a e sentindo o calor do seu corpo.
— Está tudo bem, pequena. Só o estresse de sempre.
— Eu não quero ser motivo de briga entre vocês — disse ela, manhosa, escondendo o rosto em seu pescoço. — Se a joia causou isso, eu posso devolver...
— Nem pense nisso — ele a cortou, beijando o topo de sua cabeça. — Aquela joia é sua. E você vai usá-la hoje no jantar.
Eduarda sorriu, sentindo-se protegida. Ela sabia que a batalha com Sara estava longe de terminar, e que a loira provavelmente prepararia um contra-ataque para o jantar. Mas naquele momento, nos braços de Emanuel, ela sentia que, pela primeira vez, estava ganhando espaço.
O jantar foi uma coreografia de sorrisos falsos e olhares cortantes. Sara apareceu usando um vestido dourado tão justo que parecia uma segunda pele, com um decote que desafiava a gravidade. Ela agia como se nada tivesse acontecido, sendo a anfitriã perfeita, mas cada vez que seus olhos batiam na safira no pescoço de Eduarda, suas unhas cravavam na palma das mãos.
Emanuel, sentado na cabeceira, observava as duas mulheres de sua vida. Uma era o sol escaldante que o queimava e o mantinha alerta; a outra era a lua suave que o acalmava e o trazia de volta à terra. Ele sabia que queria as duas morando com ele, sob seu controle, sob seu teto. Mas também começava a perceber que, para ter isso, teria que lidar com um fogo cruzado que nenhuma joia ou viagem conseguiria apagar totalmente.
A noite em Angra terminou com o som do mar, mas na mansão de Emanuel, o silêncio era apenas a calmaria antes da próxima tempestade. E ele, o tatuador que marcava a pele das pessoas para sempre, sabia que as marcas que estava deixando nos corações de Sara e Eduarda eram muito mais profundas e permanentes do que qualquer tinta.