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O Peso da Ausência e o Brilho da Eficiência
O escritório de Emanuel na cobertura era um santuário de minimalismo e poder. Paredes cinza-chumbo, iluminação embutida e uma vista de tirar o fôlego para as luzes da cidade que nunca dormia. Sobre a mesa de carvalho negro, vários tablets exibiam gráficos de crescimento e projeções financeiras. Emanuel massageava as têmporas, sentindo a pulsação do estresse acumulado, mas havia um brilho de satisfação em seus olhos enquanto olhava para a mulher à sua frente.
Sara estava impecável. Usava um conjunto de alfaiataria branco, com um decote profundo que exibia o bronzeado perfeito e um colar de ouro grosso. Ela não estava ali apenas como a namorada loira e exuberante; ela estava ali como a administradora que, quando decidia trabalhar, o fazia com uma agressividade brilhante.
— Os números não mentem, Manu — disse ela, deslizando um relatório impresso sobre a mesa. — Se implementarmos essa reestruturação logística nos estúdios da Ásia e focarmos no marketing de influência que eu desenhei, o faturamento líquido sobe 15% no primeiro trimestre. Eu já entrei em contato com os fornecedores de pigmentos em Tóquio e consegui reduzir os custos de importação em 10%.
Emanuel pegou o relatório, folheando-o com atenção. Ele sempre soube que Sara era inteligente, mas a forma como ela havia mergulhado naquele projeto nos últimos dias o impressionara.
— Isso está... excepcional, Sara — admitiu ele, levantando-se e caminhando até ela. — Eu sabia que você tinha visão, mas esse plano de expansão é cirúrgico. Você economizou meses de reuniões com consultores externos.
Sara sorriu, um sorriso vitorioso e cheio de si. Ela se levantou, envolvendo o pescoço de Emanuel com os braços, deixando que o perfume caro e inebriante fizesse o seu trabalho.
— Eu te disse, querido. Eu sou muito mais do que um rosto bonito e um corpo perfeito — ela murmurou, a voz carregada de uma ironia sedutora. — Eu entendo o seu império tanto quanto você. E eu cuido do que é nosso.
Emanuel a beijou com uma intensidade que misturava desejo e respeito profissional. Por um momento, a dinâmica entre eles era de puro poder. Sara era a parceira que ele podia exibir no topo do mundo, a mulher que não apenas morava com ele, mas que construía o futuro ao seu lado.
— Estou orgulhoso de você — disse ele, afastando uma mecha do cabelo loiro dela. — Vou pedir para o financeiro começar a rodar as diretrizes amanhã mesmo.
— Ótimo — respondeu ela, afastando-se para pegar sua taça de espumante. — Agora, por que você não relaxa um pouco? Você está tenso desde que a "pequena" saiu para a faculdade.
O nome de Eduarda agiu como um balde de água fria no humor de Emanuel. Ele olhou para o relógio de pulso. Já passava das dez da noite. Eduarda deveria ter chegado da faculdade há pelo menos uma hora, mas o rastreador do carro que ele dera a ela — e que ela insistia em não usar, preferindo o transporte por aplicativo para "não dar trabalho" — não lhe dava respostas.
— Ela ainda não chegou — comentou Emanuel, a voz tornando-se rígida.
— Que surpresa — debochou Sara, sentando-se na beirada da mesa e cruzando as pernas. — A santinha está ganhando asas, Manu. Ou talvez ela só esteja cansada de você cobrando que ela mude as malas para cá dia sim, dia também.
Emanuel não respondeu. Ele pegou o celular e discou o número de Eduarda. Chamou até cair na caixa postal. A raiva começou a borbulhar sob sua pele. Naquela tarde, antes de ela sair, eles haviam tido mais uma discussão sobre a mudança. Ele havia sido claro: queria que ela morasse na cobertura. Oferecera um ateliê só para ela, motorista particular, tudo para que ela estivesse sob sua proteção constante.
A resposta de Eduarda fora a mesma de sempre: um olhar úmido, um beijo suave no seu rosto e aquele tom manhoso que costumava dobrá-lo, mas que agora só o irritava. "Manu, por favor, tenha paciência... eu não estou pronta para deixar a casa dos meus pais, me sinto segura lá. Espera só mais um pouquinho, tá?".
Ele esperara. Mas sua paciência estava no limite.
Cerca de meia hora depois, o som do elevador privativo anunciou uma chegada. Emanuel estava parado no meio da sala, de braços cruzados, a mandíbula travada. Sara permanecia no bar, observando a cena como se assistisse a um espetáculo de entretenimento gratuito.
Eduarda entrou. Ela parecia exausta, mas havia um brilho diferente em seus olhos. Usava um vestido de algodão simples e carregava uma pasta de desenhos. Ao ver Emanuel, ela estancou, sentindo imediatamente a eletricidade pesada no ar.
— Oi, Manu... — disse ela, a voz doce e vacilante. — Você ainda está acordado?
— Onde você estava, Eduarda? — A pergunta saiu como um chicote.
Eduarda piscou, confusa. Ela caminhou até ele, tentando reduzir a distância física para acalmá-lo.
— Eu estava na faculdade, amor. Teve um evento surpresa, uma palestra com um curador do MASP que eu admiro muito. Foi incrível, eu aprendi tanto sobre...
— Por que você não me avisou? — ele a interrompeu, ignorando o entusiasmo dela. — Eu liguei dez vezes. Você sabe que eu não gosto que você fique na rua até tarde sem que eu saiba onde está. É perigoso, é irresponsável.
— Ah, Manu, não seja tão dramático — interveio Sara, soltando uma risadinha por trás da taça. — Deixe a menina ter uma vida social. Nem todo mundo quer ficar trancado aqui sendo vigiado por você.
— Fica fora disso, Sara — rosnou Emanuel, sem desviar os olhos de Eduarda.
Eduarda sentiu os olhos marejarem. O tom de voz dele a assustava, mas ela tentou manter a calma, aproximando-se e tocando o braço dele com as pontas dos dedos, de forma manhosa.
— Desculpa, Manu... meu celular descarregou no meio da palestra. E eu avisei para os meus pais que ia chegar mais tarde. Achei que não teria problema.
— Avisou aos seus pais? — Emanuel soltou uma risada seca, desprovida de qualquer humor. — Eduarda, eu sou seu namorado. Eu sou o homem que cuida de você. O fato de você avisar aos seus pais e me deixar aqui, no escuro, preocupado, é um insulto.
— Mas eles são meus pais, Manu... eu moro com eles — respondeu ela com uma ingenuidade que, para Emanuel, soou como uma provocação deliberada.
— Exatamente! — explodiu ele, afastando-se do toque dela. — Você mora com eles porque quer! Porque se recusa a assumir seu lugar aqui. Eu te peço todas as semanas para trazer suas coisas, para vivermos como uma família, e você me responde com "paciência". Paciência para quê? Para você ir a eventos à noite sem me dar satisfação?
Eduarda recuou um passo, o lábio inferior tremendo.
— Não é assim... eu só não estou pronta para essa vida tão... exposta. Aqui é tudo tão grande, tão barulhento. Eu gosto do meu cantinho.
— O seu cantinho é onde eu estou! — Emanuel deu um passo à frente, a altura dele intimidando a figura pequena de Eduarda. — Eu trabalho como um louco para dar o melhor para vocês duas. A Sara está aqui, ela se esforça, ela contribui, ela faz parte da minha rotina. E você? Você age como se estivéssemos brincando de namoro de escola.
Eduarda olhou para Sara, que sustentava um olhar de superioridade. A comparação doeu mais do que a bronca. Ela se sentia insuficiente, uma criança perdida em um mundo de adultos poderosos.
— Eu não sou a Sara, Manu — sussurrou Eduarda, as lágrimas finalmente rolando. — Eu não sei falar de negócios, eu não sei ser... assim. Eu só queria que você me entendesse.
Ela se aproximou novamente, tentando abraçá-lo, buscando o refúgio que ele sempre fora.
— Por favor, não fica bravo comigo... eu sou sua pequena, lembra? Eu só me perdi no horário porque estava feliz com a palestra. Me perdoa?
Emanuel sentiu o coração apertar. O jeito manhoso dela, a fragilidade estampada naquele rosto delicado, sempre fora sua fraqueza. Mas desta vez, a raiva era mais profunda. Ele se sentia desrespeitado e, acima de tudo, sentia que estava perdendo o controle sobre ela.
Ele não a abraçou de volta. Manteve os braços rígidos ao lado do corpo.
— Não, Eduarda. Dessa vez a sua "manha" não vai resolver. Eu estou cansado de ser o último a saber das coisas na sua vida. Eu estou cansado de implorar para você morar comigo.
— Manu... — ela soluçou, tentando segurar a mão dele.
— Vá para o quarto de hóspedes — disse ele, a voz fria e autoritária. — Eu não quero conversar agora. Vou terminar de revisar os projetos com a Sara.
Eduarda sentiu como se tivesse levado um tapa. Ela olhou para Sara, que deu um sorriso de lado, vitorioso, e depois para Emanuel, que já lhe dava as costas, voltando para a mesa de escritório.
Sem dizer mais nada, Eduarda pegou sua pasta e caminhou em direção ao corredor, o som de seus passos abafado pelo tapete luxuoso. Ela se sentia minúscula naquela cobertura monumental.
Assim que ela saiu da sala, Sara caminhou até Emanuel e colocou as mãos em seus ombros, massageando a tensão acumulada.
— Você fez o certo, querido — sussurrou ela no ouvido dele. — Ela precisa entender que o mundo não gira em torno dos desenhos dela. Ela precisa crescer.
Emanuel fechou os olhos, suspirando pesadamente.
— Eu só quero que ela esteja aqui, Sara. Por que é tão difícil para ela entender isso?
— Porque ela é mimada, Manu. E você a mima ainda mais. Mas não se preocupe... eu estou aqui. E eu não vou a lugar nenhum sem te avisar.
Emanuel puxou Sara para o seu colo, buscando nela a solidez e a racionalidade que lhe faltavam naquele momento. Mas, no fundo de sua mente, a imagem de Eduarda chorando e pedindo perdão de forma manhosa continuava a assombrá-lo.
No quarto de hóspedes, Eduarda deitou-se na cama king-size, sentindo-se perdida nos lençóis de fios egípcios. Ela tocou o pingente de safira que Emanuel lhe dera em Angra, o objeto que deveria ser um símbolo de conexão, mas que agora parecia pesado demais. Ela amava Emanuel com cada fibra de seu ser, mas o medo de ser engolida por aquela vida, pela personalidade de Sara e pelas exigências de Emanuel, a paralisava.
Ela pegou o celular, que agora estava carregando, e viu as mensagens dos pais perguntando se ela já estava com Emanuel. Ela não respondeu. Apenas se encolheu, abraçando um travesseiro, esperando que o dia seguinte trouxesse o perdão dele, mas sabendo, lá no fundo, que a corda estava prestes a arrebentar.
Enquanto isso, no escritório, o som de gelo batendo no cristal e o murmúrio de vozes falando sobre lucros e expansão continuavam. Emanuel tentava se concentrar nos números de Sara, mas seus olhos sempre voltavam para a porta por onde Eduarda havia saído. Ele era um homem que tinha tudo, mas naquela noite, sentia que o que ele mais queria — a união perfeita de suas duas metades — estava escapando por entre seus dedos tatuados.
A coexistência civilizada entre as duas, que ele tanto prezava, estava sendo testada. Sara havia provado seu valor como parceira de negócios e mulher de confiança. Eduarda, em sua ingenuidade e resistência, havia provado que ainda era um pássaro que temia a gaiola, por mais dourada que ela fosse.
A raiva de Emanuel não era apenas pela falta de aviso; era pela percepção de que, talvez, ele nunca conseguisse possuir Eduarda da mesma forma que possuía Sara. E para um homem como ele, que construiu um império baseado no controle e na marca permanente, a ideia de uma alma que se recusava a ser totalmente domada era o maior dos tormentos.