D
Entre o Medo e o Silêncio
O caminho de volta para casa foi turvo para Eduarda. As lágrimas teimavam em escapar, borrando a visão das ruas arborizadas que levavam ao bairro tranquilo onde morava com os pais. No banco do passageiro, o livro sobre a história da tatuagem, que ela havia escolhido com tanto carinho, parecia agora um objeto pesado e sem sentido. As palavras de Emanuel ecoavam como marteladas em sua mente: "Ou você entra de vez na minha vida, ou vai acabar ficando do lado de fora dela".
Ao cruzar o portão de casa, o aroma de café fresco e o som suave da voz de sua mãe ao telefone trouxeram um alívio imediato, mas também uma pontada de culpa. Emanuel chamava aquilo de "prisão infantil", mas para ela, era o único lugar onde o mundo não exigia que ela fosse uma mulher fatal, uma administradora implacável ou uma peça de xadrez em um jogo de poder.
— Ele não entende — sussurrou Eduarda para si mesma, fechando a porta do quarto e jogando-se na cama. — Eu só tenho vinte anos. Qual é o crime em querer viver cada fase no seu tempo?
Desta vez, algo dentro dela mudou. O hábito de pegar o celular para mandar uma mensagem de desculpas, de dengo, de submissão emocional, foi substituído por uma resistência silenciosa. Ela não tinha feito nada errado. Cuidar do pai doente não era um erro. Valorizar o teto dos pais enquanto terminava a faculdade não era um "atraso de vida". Se Emanuel não conseguia enxergar a diferença entre a lealdade dela e a ambição de Sara, talvez o problema não fosse Eduarda.
Decidida, ela desligou as notificações do celular. Pela primeira vez em dois anos de namoro, ela não seria a primeira a ceder.
***
Enquanto isso, na cobertura, o clima era de celebração e eficiência. Emanuel observava Sara terminar de se arrumar em frente ao espelho monumental do closet. Ela usava um conjunto de alfaiataria branco, justo o suficiente para ser profissional e curto o suficiente para ser provocante, destacando o bronzeado perfeito e as curvas que o silicone esculpira com precisão.
— Pronta, Manu? — perguntou ela, aplicando uma camada generosa de gloss. — Minha mãe está ansiosa pelo almoço. Ela quer saber todos os detalhes de como eu fechei o contrato de Dubai. Você sabe como ela é... adora um sucesso.
Emanuel terminou de abotoar os punhos da camisa preta. Ele estava exausto, a conversa com Eduarda ainda pesava em seus ombros, mas a energia vibrante de Sara era contagiosa, quase obrigatória.
— Vamos. Eu preciso mesmo sair um pouco desse escritório — respondeu ele, embora sua mente estivesse, involuntariamente, buscando o sinal de alguma mensagem no celular que ele sabia que não chegaria.
O almoço na casa da mãe de Sara foi exatamente o que Emanuel esperava: barulhento, luxuoso e focado em conquistas materiais. A mãe de Sara era uma versão mais velha e ainda mais ambiciosa da filha. As duas conversavam sobre investimentos, imóveis e a expansão dos estúdios de Emanuel como se estivessem planejando uma invasão militar.
— Você precisa de uma mulher assim ao seu lado, Emanuel — disse a sogra, servindo-lhe mais vinho. — Alguém que entenda o peso do seu sobrenome e a escala dos seus negócios. Sara é o seu braço direito. Imagine se você estivesse com alguém que ainda pede permissão para sair de casa? Seria um desastre para a sua imagem.
Sara sorriu, vitoriosa, e apertou a mão de Emanuel por cima da mesa.
— O Manu sabe disso, mãe. Ele só é um pouco sentimental às vezes. Mas ele está começando a ver as coisas como elas realmente são.
Emanuel forçou um sorriso, mas o vinho parecia ter um gosto amargo. Ele olhou para o relógio. Duas da tarde. Eduarda provavelmente estaria na faculdade agora, assistindo a alguma aula sobre o Renascimento, com aquele olhar sonhador que costumava acalmá-lo. Ele sentiu uma pontada de irritação por sentir falta dela em um momento em que deveria estar celebrando seu próprio sucesso.
***
O campus da faculdade de História da Arte era um refúgio de prédios antigos e jardins bem cuidados. Eduarda caminhava pelo corredor principal, carregando seus cadernos, tentando se concentrar na prova de Iconografia. O silêncio da biblioteca era o que ela precisava para abafar o barulho da briga com Emanuel.
De repente, o silêncio foi estraçalhado.
Um estrondo seco, seguido de gritos agudos, ecoou pelo pátio central. Eduarda parou, o coração saltando no peito. No início, pensou ser algo da construção vizinha, mas o segundo estalo foi inconfundível.
— Corram! Ele está armado! — alguém gritou no corredor.
O pânico se espalhou como fumaça. Alunos corriam em todas as direções, derrubando cadeiras e livros. Eduarda sentiu as pernas fraquejarem. Sua natureza sensível e avessa a conflitos a paralisou por alguns segundos preciosos. Ela viu um homem de casaco escuro, o rosto transfigurado pelo ódio, empunhando uma pistola no final do corredor.
— Todo mundo no chão! Agora! — a voz do agressor era um trovão de insanidade.
Eduarda recuou, entrando na primeira sala que encontrou aberta — o laboratório de restauração. Outros cinco alunos entraram logo atrás, soluçando e tremendo. Um deles trancou a porta e apagou as luzes.
— O que está acontecendo? — sussurrou Eduarda, as mãos geladas comprimindo o peito.
— É um atirador... eu o vi entrar pelo portão lateral — respondeu uma colega, as lágrimas escorrendo pelo rosto. — Ele está atirando em quem vê pela frente.
Eduarda encolheu-se debaixo de uma das bancadas de mármore. O cheiro de solvente e tinta, que normalmente a confortava, agora parecia sufocante. Ela tateou a bolsa em busca do celular. Seus dedos tremiam tanto que ela quase o deixou cair.
Ela viu as chamadas perdidas de sua mãe. Viu o silêncio de Emanuel.
"Manu, por favor... tem um homem armado na faculdade. Eu estou escondida. Eu te amo, me perdoa por tudo", ela começou a digitar, mas não enviou. O medo de que o som da notificação ou a luz da tela revelassem sua posição era maior que a necessidade de despedida.
Lá fora, o som de mais tiros e o grito de agonia de alguém próximo fizeram Eduarda fechar os olhos com força, desejando desaparecer.
***
No restaurante de luxo, a sobremesa acabara de ser servida. Sara ria de uma piada da mãe, enquanto Emanuel, por puro tédio, pegou o celular para conferir o valor das ações na bolsa.
Uma notificação de um portal de notícias local brilhou no topo da tela.
"URGENTE: Invasão e tiroteio na Universidade de Artes. Homem armado mantém estudantes como reféns. Há relatos de vítimas."
O sangue de Emanuel gelou instantaneamente. O mundo ao seu redor — o tilintar dos talheres de prata, a risada estridente de Sara, o perfume caro — desapareceu.
— Emanuel? O que foi? Você ficou pálido — disse Sara, estendendo a mão para tocá-lo.
Ele não respondeu. Seus dedos voaram para o aplicativo de mensagens. A última visualização de Eduarda tinha sido há quarenta minutos.
— A faculdade da Eduarda — ele disse, a voz saindo como um sussurro rouco e carregado de pavor. — Tem um atirador lá.
Sara mudou de expressão, mas não foi a expressão de choque que Emanuel esperava. Foi um misto de irritação e impaciência.
— Ah, Manu, essas notícias sempre exageram. Deve ser algum protesto ou briga de alunos. Não interrompa o almoço por causa disso. Ela deve estar bem, escondida em algum lugar, fazendo drama.
Emanuel levantou-se tão bruscamente que a cadeira caiu para trás, atraindo os olhares de todos no restaurante.
— Drama, Sara? Estão atirando na faculdade dela! — ele rugiu, a autoridade gélida dando lugar a um desespero visceral.
— Emanuel, senta agora! — a mãe de Sara ordenou. — Você não pode sair assim, é um desrespeito à nossa hospitalidade. A menina sabe se cuidar, ou pelo menos os pais dela que tanto a protegem devem estar indo para lá.
Emanuel olhou para as duas mulheres à sua frente. Pela primeira vez, a eficiência de Sara lhe pareceu crueldade. A praticidade dela parecia falta de alma. Ele viu a vulgaridade não nas roupas ou no silicone, mas na incapacidade de sentir empatia por alguém que, teoricamente, fazia parte da vida deles.
— Se acontecer alguma coisa com ela... — Emanuel não terminou a frase.
Ele pegou a chave do carro e saiu correndo do restaurante. Sara gritou seu nome, furiosa, mas ele já não ouvia.
O trajeto que normalmente levava vinte minutos foi feito em dez. Emanuel dirigia como um louco, subindo em calçadas e ignorando sinais vermelhos. Seu coração batia contra as costelas de uma forma que ele nunca experimentara. Ele, o homem que se orgulhava do controle, estava desmoronando.
"Por favor, pequena... por favor, esteja viva", ele implorava mentalmente. "Eu não ligo para onde você mora. Eu não ligo para horários. Só esteja viva."
Ao chegar às proximidades do campus, o cenário era de guerra. Viaturas de polícia, ambulâncias com sirenes ligadas e centenas de pais desesperados eram contidos por fitas de isolamento. Emanuel saltou do carro antes mesmo de estacionar.
— Senhor, você não pode passar! — um policial o barrou.
— Minha namorada está lá dentro! — Emanuel tentou empurrar o oficial, os olhos injetados. — Eduarda! O nome dela é Eduarda!
— Estamos em operação tática, senhor. Afaste-se!
Emanuel recuou, mas não saiu de perto. Ele ficou ali, entre a multidão, sentindo o estresse acumulado de meses explodir em uma angústia paralisante. Ele olhou para o próprio braço, cheio de tatuagens que contavam histórias de força e resiliência, e sentiu-se o homem mais fraco do mundo. De que adiantava o dinheiro, os estúdios em Dubai, o sucesso que Sara tanto exaltava, se a doçura que dava sentido a tudo aquilo estava em perigo?
Do outro lado da rua, ele viu os pais de Eduarda. O pai dela, o homem que Emanuel considerava "limitador", estava abraçado à esposa, ambos em prantos, rezando em voz baixa. Não havia modernidade ou limites ali, apenas o amor bruto e desesperado de quem poderia perder o que tinha de mais precioso.
Emanuel sentiu uma vergonha profunda. Ele tinha inveja daquela conexão. Ele tinha tentado arrancar Eduarda daquele núcleo por puro egoísmo, por querer que ela fosse uma extensão de sua própria vontade.
De repente, um movimento no portão principal chamou a atenção de todos. Os policiais da SWAT começaram a escoltar grupos de alunos para fora.
— Estão saindo! — alguém gritou.
Emanuel vasculhou cada rosto. Jovens cobertos de poeira, chorando, alguns feridos sendo levados para macas. Cada segundo era uma eternidade de agonia.
Então, ele a viu.
Eduarda estava sendo amparada por um socorrista. Ela parecia menor do que nunca, seu vestido floral estava rasgado no ombro e seu rosto estava pálido como mármore, manchado de fuligem e lágrimas. Ela tremia de forma incontrolável.
— EDUARDA! — o grito de Emanuel rasgou o ar.
Ela levantou os olhos, perdidos e nublados pelo choque. Quando o viu, suas pernas finalmente cederam. Emanuel rompeu o cordão de isolamento, ignorando os gritos dos policiais, e a alcançou antes que ela atingisse o chão.
Ele a pegou nos braços, apertando-a contra o peito com uma força que quase a sufocava. O cheiro de pólvora e medo impregnava os cabelos dela, mas ela estava ali. Estava viva.
— Manu... — ela soluçou, enterrando o rosto em seu pescoço. — Ele... ele matou o professor... eu ouvi... eu tive tanto medo...
— Shhh... eu estou aqui. Eu estou aqui, pequena — Emanuel murmurava, as lágrimas finalmente caindo, misturando-se à sujeira no rosto dela. — Eu nunca mais vou deixar nada acontecer com você. Me perdoa... por favor, me perdoa.
Os pais de Eduarda chegaram logo em seguida, envolvendo os dois em um abraço coletivo de puro alívio. Emanuel, o homem prático e racional, não sentiu vontade de se afastar. Ele precisava daquele calor humano tanto quanto ela.
Longe dali, no silêncio de sua cobertura luxuosa, Sara olhava para o iPad, vendo as imagens da TV que mostravam Emanuel abraçado a Eduarda diante de todas as câmeras. Ela tomou um gole de seu vinho, a expressão fria e calculista voltando ao rosto.
— Você venceu essa rodada, bonequinha — murmurou ela para a tela. — Mas o medo passa. E quando passar, o Emanuel vai lembrar que você é um problema. E eu... eu sou a solução.
Mas, naquela tarde, sob o sol pálido que iluminava o caos da universidade, Emanuel não pensava em soluções. Ele apenas segurava Eduarda como se ela fosse a única coisa sólida em um mundo que acabara de descobrir ser perigosamente frágil. A guerra entre o fogo e a água ainda não tinha terminado, mas, por um breve momento, a paz — por mais manchada de sangue que estivesse — era a única coisa que importava.