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Entre o Brilho do Sucesso e a Poeira da Estrada
Oito meses haviam se passado desde o trauma na universidade, e a vida de Emanuel havia se transformado em um ciclo frenético de expansão e negociações internacionais. Seus estúdios de tatuagem agora eram marcas globais, e muito desse sucesso ele devia à mulher que, naquele momento, desfilava pelo closet da cobertura com a confiança de quem era dona do mundo.
Sara havia se tornado indispensável. Não apenas na cama, onde sua energia vulcânica e sua falta de inibições eram o contraponto perfeito para o estresse dele, mas principalmente nos negócios. Ela tinha um faro aguçado para o lucro e uma falta de escrúpulos que Emanuel, por vezes, achava fascinante.
— Os jatos estão confirmados para as seis da manhã, Manu — disse Sara, fechando uma mala de grife repletas de biquínis minúsculos e vestidos transparentes. — Minhas amigas já estão histéricas no grupo do WhatsApp. Vai ser a melhor semana da nossa vida naquela ilha.
Emanuel, sentado na beira da cama, observava a loira com um misto de orgulho e cansaço. Ele se aproximou e envolveu a cintura dela, sentindo a firmeza do corpo trabalhado.
— Você superou todas as expectativas com esse evento em Angra, Sara. O marketing que você criou atraiu exatamente o público que eu queria. Estou orgulhoso de você.
Sara virou-se nos braços dele, passando as unhas longas e bem feitas pela nuca de Emanuel.
— Eu sou o seu melhor investimento, querido. Eu entendo o que você precisa antes mesmo de você pedir. Sou sua parceira de verdade, não sou? — Ela sorriu, um sorriso que nunca alcançava totalmente os olhos, sempre calculando o próximo passo.
— Com certeza é — Emanuel respondeu, mas seu olhar desviou para o celular sobre a mesa de cabeceira.
— Ela ainda não respondeu? — Sara perguntou, o tom de voz mudando para uma civilidade ácida.
— Eduarda disse que está terminando de arrumar a mochila. Mas ela só vai ficar dois dias, Sara. Dois dias de uma semana inteira.
Sara soltou uma risada curta e voltou a organizar seus cremes caros.
— Oito meses, Emanuel. Oito meses desde que ela quase morreu e você prometeu protegê-la de tudo. E onde ela está? No quarto de infância dela, pedindo para você "esperar". Enquanto eu estou aqui, carregando o piano e dividindo o teto com você, a sua "bonequinha" prefere ir para uma festa de família no interior do que passar uma semana em uma ilha particular com o homem que diz amar.
Emanuel sentiu a mandíbula travar. Ele amava Eduarda com uma intensidade que o assustava, um sentimento de proteção que beirava a obsessão desde o atentado, mas a paciência dele estava no limite. Ele queria Eduarda ali, sob seus olhos, morando com ele, mas ela sempre recuava, dizendo que o ambiente da cobertura — e a presença constante e provocativa de Sara — ainda a sufocava.
***
A campainha tocou e, pouco depois, Eduarda entrou na sala. Ela parecia um raio de sol suave em meio à opulência agressiva do apartamento. Usava um vestido de algodão claro e trazia uma mochila pequena nas costas. Ao ver Sara, Eduarda forçou um sorriso educado.
— Oi, Sara. Oi, Manu.
— Ora, se não é a fugitiva — Sara comentou, cruzando os braços e exibindo o abdômen definido pelo top curto. — Veio trazer apenas uma mochila? Ah, é verdade... você nos abandona depois de amanhã para ir comer poeira no interior, não é?
Eduarda sentiu o rosto esquentar, mas manteve a voz mansa, embora firme.
— É o aniversário de oitenta anos da minha avó, Sara. É importante para a minha família que todos os netos estejam lá. Eu já expliquei isso para o Emanuel.
Emanuel caminhou até ela e a segurou pelos ombros. O contraste era gritante: de um lado, a loira siliconada e vibrante que era seu braço direito; do outro, a castanha tímida e manhosa que era seu coração.
— Duda, eu te pedi para reconsiderar. Meus amigos vão levar as namoradas, a Sara vai levar as amigas dela... vai ser uma festa constante. Eu queria você lá o tempo todo. Por que você não pode simplesmente dizer aos seus pais que tem um compromisso comigo?
— Mas eu tenho um compromisso com você, Manu — ela disse, aproximando-se e colando o corpo ao dele, buscando aquele refúgio que só o peito dele oferecia. — Eu vou passar os dois primeiros dias com você. Vou me dedicar inteiramente a você. Mas depois eu preciso ir. Meus pais já organizaram tudo e eu dei minha palavra. Por favor, não fica bravo... espera só mais um pouquinho, logo a faculdade entra em férias e eu vou ter mais tempo.
— "Mais um pouquinho" é a frase que eu mais ouço de você há meses, Eduarda — Emanuel suspirou, a voz carregada de uma irritação que ele não conseguia mais esconder. — Eu estou cansado de esperar. Eu quero uma mulher que esteja ao meu lado por inteiro, não alguém que eu precise agendar com os pais.
Eduarda sentiu uma pontada de dor no peito. Ela olhou para Sara, que assistia à cena com um ar de superioridade triunfante.
— Eu te amo, Manu. Mas eu não posso deixar de ser quem eu sou. Minha família me apoiou quando eu mais precisei. Eu não sou como a Sara, eu não consigo simplesmente ignorar as pessoas que me criaram.
— Querida — Sara interveio, aproximando-se com passos felinos —, ninguém está pedindo para você ignorar ninguém. Estamos falando de prioridades. O Emanuel é um homem rico, poderoso e ocupado. Ele não deveria ter que implorar pela companhia da namorada. Se você não consegue acompanhar o ritmo dele, talvez devesse ficar no interior de vez.
— Chega, Sara — Emanuel cortou, embora o brilho de orgulho que ele sentia pela eficiência dela ainda estivesse presente. — Eduarda, você vai com a gente amanhã. Mas saiba que eu estou muito decepcionado. Esses dois dias vão passar voando e eu vou passar o resto da viagem tendo que explicar por que você preferiu uma festa de interior a estar comigo.
Eduarda baixou os olhos, sentindo-se pequena. Ela se aconchegou no abraço de Emanuel, fazendo um dengo que costumava desarmá-lo.
— Desculpa, meu amor... eu vou compensar esses dois dias, eu juro. Vou ser todinha sua.
Emanuel a beijou no topo da cabeça, mas seus olhos encontraram os de Sara no reflexo do espelho. A loira deu um sorrisinho cúmplice. Ela sabia que, enquanto Eduarda escolhesse a família e a simplicidade, ela, Sara, continuaria ganhando terreno no que realmente importava para Emanuel: a vida real, o poder e a presença constante.
***
Na manhã seguinte, o grupo partiu. O clima na ilha particular era de pura ostentação. As amigas de Sara eram tão barulhentas e vulgares quanto ela, transformando o deck da piscina em um desfile de corpos esculturais, drinks coloridos e música alta.
Eduarda sentia-se um peixe fora d'água. Ela tentava se integrar, mas as conversas sobre procedimentos estéticos, bolsas de luxo e fofocas da alta sociedade a deixavam exausta. Ela preferia ficar sentada na areia, observando o mar e desenhando em seu caderno de esboços.
Emanuel estava dividido. Durante o dia, ele se divertia com a energia de Sara e dos amigos, mergulhado em conversas sobre novos negócios. Mas, à noite, era o corpo macio e o perfume suave de Eduarda que ele buscava.
Na segunda noite, após um jantar regado a champanhe, Emanuel levou Eduarda para uma caminhada na praia, longe do barulho da casa principal.
— Você está tão quieta, Duda — ele comentou, segurando a mão dela.
— É muita gente, Manu. Muita agitação. Eu gosto de estar aqui com você, mas sinto que não me encaixo nesse mundo da Sara.
— Não é o mundo da Sara, é o meu mundo — ele corrigiu, parando e ficando de frente para ela sob o luar. — E eu quero que seja o seu também. Por que é tão difícil aceitar isso? Eu te daria tudo. Você não precisaria se preocupar com nada, nem com faculdade, se não quisesse.
— Mas eu quero me preocupar, Manu! Eu amo a História da Arte, eu amo a minha vida simples. Eu não quero ser apenas um acessório nos seus negócios, como a Sara é.
Emanuel sentiu a pontada de ciúme que Eduarda tinha de Sara, e aquilo, de certa forma, o inflava.
— A Sara não é um acessório. Ela é uma peça fundamental. E é isso que me irrita... você vê o valor que ela agrega à minha vida, mas se recusa a ocupar o seu espaço. Amanhã você vai embora para aquela festa de família e eu vou ficar aqui, cercado de gente, mas sentindo a sua falta. Você percebe o quanto isso é egoísta?
— Egoísta é você querer que eu abra mão da minha essência para caber na sua rotina! — Eduarda rebateu, a voz embargada. — Eu te amo, Emanuel, mas eu tenho vinte anos. Eu ainda moro com meus pais porque eles são o meu porto seguro. Você quer que eu mude para aquela cobertura onde a Sara dita as regras? Onde eu sou tratada como uma criança incapaz?
— Se você morasse lá, as regras seriam nossas — ele insistiu, a voz subindo de tom. — Mas você prefere a segurança do seu quarto de menina.
Eles voltaram para a casa em silêncio. No corredor, encontraram Sara, que usava apenas um robe de seda entreaberto, segurando uma taça de vinho.
— Problemas no paraíso? — ela perguntou, com uma falsa preocupação. — Eduarda, o motorista que vai te levar para o aeroporto amanhã já está avisado. Ele passa aqui às seis da manhã. Uma pena que você tenha que ir... a festa de amanhã à noite vai ser épica. Tem uns investidores russos vindo só para conhecer o Emanuel.
Eduarda não respondeu. Ela entrou no quarto e começou a fechar sua mochila. Emanuel ficou na porta, observando-a.
— Você vai mesmo? — ele perguntou, uma última tentativa.
— Eu preciso ir, Manu. Minha avó não vai fazer oitenta anos de novo. E eu preciso de um pouco de ar.
***
Às seis da manhã, o sol ainda nem havia despontado totalmente quando o carro chegou. Emanuel acompanhou Eduarda até a porta, o rosto fechado, a irritação latente.
— Me liga quando chegar? — ele pediu, de forma seca.
— Ligo. Divirta-se na festa, Manu. E tente não deixar a Sara decidir tudo por você.
Ela o beijou rapidamente e entrou no carro. Emanuel ficou parado no deck, observando o veículo se afastar pela estrada de terra da ilha que levava ao heliponto.
— Ela já foi? — A voz de Sara surgiu atrás dele. Ela estava envolta em um lençol, com o cabelo loiro bagunçado e um sorriso satisfeito.
— Já, Sara. Já foi.
— Ótimo. Agora podemos focar no que importa. Os russos chegam às duas. Eu já preparei todo o material da apresentação. E depois... bem, depois a ilha é só nossa, sem horários de recolher, sem dramas familiares e sem crianças por perto.
Sara abraçou Emanuel por trás, colando o corpo ao dele. Ele suspirou. Sentia um vazio estranho com a partida de Eduarda, uma saudade que doía, mas, ao mesmo tempo, o conforto da presença de Sara era como uma droga anestésica.
— Você é incrível, Sara — ele murmurou, virando-se para ela.
— Eu sei, Manu. Eu sei.
Enquanto o carro de Eduarda levantava poeira na estrada, ela olhava pelo vidro traseiro, vendo a silhueta da casa luxuosa diminuir. Ela amava Emanuel com cada fibra de seu ser, mas, naquele momento, sentia que estava perdendo uma guerra silenciosa. Uma guerra onde as armas eram a vulgaridade versus a doçura, e onde o juiz, Emanuel, parecia cada vez mais inclinado a escolher o lado que lhe dava menos trabalho e mais lucro.
Eduarda pegou o celular e viu uma mensagem de sua mãe: "Estamos te esperando com seu bolo favorito, querida. Venha com cuidado."
Ela sorriu, as lágrimas escorrendo. Ali, no interior, ela era apenas a Duda. Na ilha, ela era apenas a sombra de uma namorada que nunca estava "pronta". E, enquanto Emanuel se perdia nos braços e nos negócios de Sara, Eduarda se perguntava quanto tempo mais aquele equilíbrio instável conseguiria se manter antes que tudo desmoronasse.