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D

O Preço da Escolha

A cobertura de Emanuel nunca pareceu tão sufocante quanto naquela manhã. O ar condicionado, geralmente silencioso, parecia emitir um zumbido acusador, e o brilho do sol nas superfícies de mármore feria os olhos. Emanuel estava parado no centro da sala, os braços cruzados, observando Sara.

Ela estava sentada no sofá de couro branco, cercada por malas de grife abertas, mas não estava fazendo as malas. Ela estava bebendo. Uma taça de gim puro às dez da manhã.

— Você não pode estar falando sério, Manu — disse ela, a voz rouca, os olhos azuis injetados de fúria e descrença. — Você vai me expulsar? Depois de tudo o que eu construí com você? Depois de Dubai, de Londres, de cada contrato que eu assinei com o meu próprio sangue para te deixar rico?

Emanuel não desviou o olhar. Ele parecia uma estátua de gelo, a postura firme de quem já havia tomado uma decisão da qual não havia retorno.

— Eu não estou te tirando da empresa, Sara. Pelo menos não agora — respondeu ele, a voz baixa e controlada. — Seus dividendos e sua posição como sócia administrativa permanecem intocados, desde que você mantenha o profissionalismo. Mas esta casa? Este é o meu lar. E eu não quero mais você aqui.

Sara soltou uma risada estridente, que beirava a histeria. Ela se levantou, caminhando até ele com passos instáveis, o perfume caro misturado ao cheiro de álcool.

— Lar? Você chama aquele projeto de família de "lar"? Você vai trazer aquela garota de subúrbio para cá? Aquela sonsa que engravidou para te dar o golpe final? Emanuel, você é mais burro do que eu pensava!

— Chega! — Emanuel rugiu, e o som de sua voz fez os cristais da mesa de centro vibrarem. — Você não vai falar da Eduarda. E você não vai falar do meu filho. Você teve todas as chances de ser uma parceira civilizada, mas escolheu a guerra. Escolheu humilhá-la, escolheu tentar sabotar a única coisa que me traz paz.

— Paz não paga as contas, Emanuel! Paz não fecha negócios com russos! — Ela tentou segurar o rosto dele, mas ele se esquivou com nojo. — Quando você estiver trocando fraldas e ouvindo o dengo irritante dela enquanto os seus estúdios entram em colapso porque não tem ninguém com culhão para gerenciar o marketing, você vai se lembrar de mim.

— Eu prefiro o colapso à sua presença — sentenciou ele. — O caminhão de mudança chega em duas horas. Suas coisas que não couberem serão enviadas para o hotel onde fiz sua reserva por um mês. Depois disso, você está por conta própria quanto à moradia.

Sara o olhou com um ódio tão puro que parecia palpável. Ela pegou a taça de gim e a arremessou contra a parede de vidro. O cristal se estilhaçou em mil pedaços, um reflexo do relacionamento deles.

— Você vai se arrepender, Emanuel. Eu vou fazer da vida de vocês um inferno jurídico e profissional. Você acha que ela é forte? Ela vai quebrar na primeira pressão. E eu estarei lá para assistir aos pedaços dela caírem no chão.

Sem dizer mais uma palavra, Emanuel deu as costas e entrou no escritório, trancando a porta. Ele ouviu os gritos de Sara, o som de objetos sendo derrubados e, finalmente, o bater violento da porta principal.

O silêncio que se seguiu foi a coisa mais doce que ele já havia experimentado naquela cobertura.

***

Três dias depois, o ambiente era completamente diferente.

Eduarda estava parada no hall de entrada, segurando uma pequena mala e observando a vastidão da sala. Ela parecia minúscula naquele ambiente de luxo agressivo. Usava um vestido de malha leve, cores pastéis, e seus cabelos castanhos estavam soltos, emoldurando um rosto que ainda carregava os traços da palidez da gravidez inicial.

Emanuel se aproximou dela por trás, envolvendo sua cintura com uma delicadeza que ele raramente mostrava ao mundo.

— Está tudo bem, pequena? — sussurrou ele no ouvido dela. — Agora é a nossa casa. Só nossa.

Eduarda suspirou, recostando a cabeça no ombro dele. Ela ainda se sentia como se estivesse caminhando em solo sagrado e perigoso ao mesmo tempo.

— É tudo tão... grande, Manu. E tão frio. Eu sinto o cheiro dela aqui ainda.

Emanuel apertou o abraço, sentindo a suavidade da pele dela.

— Eu mandei uma equipe de limpeza pesada. Troquei todos os lençóis, as toalhas, até o purificador de ar. Nada dela sobrou aqui, Duda. Eu quero que você mude o que quiser. Pinte as paredes, traga seus quadros, mude os móveis de lugar. Esse lugar precisa da sua alma.

Eduarda virou-se nos braços dele, fazendo aquele dengo que sempre o desarmava, roçando o nariz no dele.

— Você tem certeza de que quer isso? Seus pais ficaram preocupados... eles acham que eu estou vindo para a toca do lobo.

— Seus pais são protetores, e eu respeito isso — disse Emanuel —, mas o lobo aqui sou eu, e eu só quero proteger vocês dois. Eu não suportaria ficar mais um dia longe de você, sabendo que você está passando mal e eu não estou lá para segurar sua mão.

Eduarda sorriu timidamente, sentindo a primeira onda de segurança real desde que descobriu a gravidez. Ela caminhou até a varanda, observando a vista da cidade.

— Eu quero colocar muitas plantas aqui — disse ela, apontando para os cantos minimalistas. — E um balanço. E o quarto do bebê... eu quero que seja o lugar mais colorido desta casa.

Emanuel sorriu, observando-a. O contraste era gritante. Onde antes havia a vulgaridade de Sara, agora havia a delicadeza de Eduarda. Onde havia o cheiro de álcool e fumaça, agora havia a promessa de vida nova.

— O que você quiser, meu amor. O que você quiser.

***

A primeira semana de convivência foi um aprendizado para ambos. Emanuel, acostumado com a independência agressiva de Sara, teve que aprender a lidar com a sensibilidade de Eduarda. Ela chorava por coisas pequenas — um prato quebrado, um enjoo matinal mais forte, ou simplesmente porque sentia falta da mãe.

Mas, em contrapartida, ela trazia uma paz que ele nunca conhecera. À noite, em vez de festas e discussões sobre margens de lucro, eles ficavam deitados no sofá, com ela lendo livros sobre História da Arte em voz alta enquanto ele desenhava novos projetos de tatuagem.

No entanto, a sombra de Sara ainda pairava sobre eles como uma tempestade no horizonte.

Na segunda-feira, Emanuel chegou ao estúdio e encontrou sua mesa coberta de notificações judiciais. Sara havia entrado com uma série de processos trabalhistas e pedidos de auditoria nas contas da empresa, alegando má gestão e uso de fundos corporativos para fins pessoais.

— Ela não vai parar, não é? — perguntou Beatriz, que havia passado no estúdio para levar algumas vitaminas para a prima.

Emanuel jogou os papéis de lado, a mandíbula travada.

— Ela está tentando me sufocar financeiramente para que eu precise dela novamente. Ela acha que eu não consigo gerir o lado burocrático sem ela.

— E você consegue? — Beatriz perguntou, direta como sempre.

— Eu vou aprender. Ou vou contratar alguém que não queira destruir minha família. Mas não conte nada disso para a Duda. Ela está sensível, e o médico disse que o estresse pode ser perigoso para o bebê.

— Você sabe que ela vai descobrir, Emanuel. A Sara não é do tipo que ataca pelas sombras. Ela quer que a Eduarda saiba que ela está causando dor.

***

O confronto aconteceu mais cedo do que Emanuel esperava.

Eduarda estava no supermercado gourmet próximo à cobertura, escolhendo frutas. Ela estava se sentindo bem naquele dia, com uma disposição que não sentia há tempos. Ao virar no corredor de vinhos, ela deu de cara com Sara.

Sara estava impecável, como se estivesse pronta para uma sessão de fotos, mas seus olhos brilhavam com uma malícia perversa.

— Olha só quem saiu da toca — disse Sara, bloqueando o caminho de Eduarda com o carrinho de compras. — A pequena camponesa tentando brincar de dona de casa de luxo.

Eduarda sentiu o coração disparar, mas tentou manter a calma que Beatriz sempre lhe ensinava.

— Com licença, Sara. Eu só quero passar.

— Ah, você quer passar? — Sara deu um passo à frente, diminuindo a distância entre elas. — Você passou por cima da minha vida, da minha casa e do meu relacionamento. Você acha que essa barriga vai te dar tudo o que eu conquistei em cinco anos?

— Eu não quero o que você conquistou, Sara — Eduarda respondeu, a voz trêmula, mas firme. — Eu só quero o Emanuel. E ele me escolheu.

— Ele escolheu uma obrigação, querida. Emanuel é um homem de deveres. Ele está com você por culpa e por causa desse feto. Mas adivinha quem ele chama quando os negócios apertam? Quem ele vai procurar quando perceber que você não entende nada sobre o mundo real?

— Ele não vai procurar você — disse Eduarda, sentindo uma pontada de dor no ventre pelo nervosismo. — Ele te tirou de casa por um motivo.

Sara deu uma risada fria e se inclinou, sussurrando perto do ouvido de Eduarda.

— Aproveite o seu tempo na cobertura, Duda. Eu já entrei com os processos. Vou sangrar as contas do Emanuel até ele não ter mais dinheiro para pagar esse seu estilo de vida romântico. E quando ele estiver na lama, eu vou oferecer a mão... e você vai ser a primeira coisa que ele vai descartar para se salvar.

Eduarda sentiu as lágrimas subirem aos olhos. Ela tentou desviar, mas Sara a segurou pelo braço.

— Me solta! — Eduarda exclamou.

— O que está acontecendo aqui? — A voz de Emanuel ecoou pelo corredor.

Ele havia acabado de entrar no mercado para encontrar a namorada e presenciou a cena. Em dois passos, ele estava entre as duas, afastando Sara com um empurrão firme.

— Você tocou nela, Sara? — Emanuel perguntou, a voz num tom tão baixo e perigoso que até os outros clientes pararam para olhar.

— Eu só estava dando as boas-vindas à vizinhança, Manu — disse Sara, ajeitando o casaco com desdém. — Sua namorada é um pouco sensível demais, não acha?

Emanuel não respondeu. Ele se virou para Eduarda, que estava pálida e segurava a barriga.

— Você está bem? Vamos sair daqui.

— Emanuel, os papéis da auditoria chegam amanhã — Sara gritou enquanto eles se afastavam. — Espero que sua "paz" consiga pagar os advogados!

***

De volta ao apartamento, Eduarda desabou no choro. O medo que ela sentia de Sara não era apenas físico, era o medo de que a loira estivesse certa — de que o mundo de Emanuel fosse pesado demais para ela.

— Ela disse que você vai me odiar quando o dinheiro acabar — soluçou Eduarda, sentada na cama enquanto Emanuel passava um pano úmido em seu rosto.

— Escuta aqui, Eduarda — Emanuel disse, segurando o rosto dela com as duas mãos, forçando-a a olhar para ele. — Eu tenho estúdios em três continentes. Eu tenho investimentos que ela nem conhece. Ela acha que é a dona do meu sucesso, mas eu sou o artista. O talento é meu. O nome é meu. Ela é apenas uma administradora que esqueceu o seu lugar.

— Mas e os processos? Ela parecia tão certa de que ia te destruir...

Emanuel deu um sorriso curto, um brilho de determinação que Eduarda raramente via.

— Deixe que ela tente. Eu já contratei a melhor equipe jurídica do país. E quer saber de uma coisa? Eu estou feliz que ela esteja fazendo isso. Sabe por quê? Porque isso me dá o motivo legal que eu precisava para tirá-la definitivamente da sociedade por conduta desleal. Ela acabou de cavar a própria cova profissional.

Eduarda respirou fundo, sentindo o peso sair de seus ombros. Ela se inclinou para frente, buscando o refúgio do peito dele.

— Eu só quero que nosso filho cresça em paz, Manu.

— Ele vai — prometeu Emanuel. — Eu vou transformar este lugar em uma fortaleza para vocês.

***

Nas semanas seguintes, a transição se completou. Emanuel começou a trazer o trabalho para casa com mais frequência, querendo estar perto de Eduarda. A cobertura, antes um monumento ao ego e à sofisticação fria de Sara, estava irreconhecível.

Havia flores em todos os cantos. O escritório de Emanuel agora dividia espaço com cavaletes e telas de Eduarda. O cheiro de terebentina e tinta a óleo misturava-se ao aroma de comida caseira que a mãe de Eduarda vinha preparar para eles quase todos os dias.

Eduarda, embora ainda tímida, começou a se impor. Ela não tentava ser uma mulher de negócios, mas tornou-se a guardiã da sanidade de Emanuel. Quando ele chegava estressado com as manobras de Sara, era Eduarda quem o desarmava com um abraço manhoso e uma xícara de chá, lembrando-o de que a vida era muito mais do que números em uma tela.

Uma noite, enquanto observavam o horizonte da varanda, Emanuel sentiu o bebê chutar pela primeira vez. Ele ficou paralisado, a mão grande cobrindo o ventre de Eduarda.

— Ele é forte — murmurou Emanuel, os olhos brilhando.

— Ele tem a quem puxar — brincou Eduarda, encostando a cabeça no ombro dele.

Longe dali, em um apartamento de hotel, Sara observava as redes sociais. Ela viu uma foto postada por um dos amigos de Emanuel: a cobertura iluminada, com plantas na varanda e uma atmosfera de lar. Ela viu a silhueta de Eduarda ao fundo.

Sara apertou o copo de gim, mas, pela primeira vez, não sentiu a fúria abrasadora. Sentiu um vazio gélido. Ela percebeu que, ao tentar destruir o que Emanuel amava, ela apenas o empurrou mais fundo para os braços de Eduarda. Ela tinha os processos, tinha o dinheiro da sociedade, mas tinha perdido o homem.

Emanuel finalmente tinha o que queria. As duas mulheres não dividiam mais o mesmo teto, mas o preço fora alto. Ele perdera uma sócia brilhante, mas ganhara uma família. E, enquanto observava Eduarda adormecer tranquilamente em sua cama, ele percebeu que a "vulgaridade" do sucesso de Sara nunca chegaria aos pés da "fragilidade" poderosa de Eduarda.

A porcelana, afinal, era muito mais valiosa do que o latão banhado a ouro. E Emanuel, o homem que vivia de marcar peles, finalmente entendera que a marca mais importante era aquela que ele estava construindo ali, entre paredes que agora, finalmente, tinham o cheiro de amor e a promessa de um futuro.