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O Eco do Silêncio e a Nova Vida

O ar na cobertura de Emanuel estava mais pesado do que o normal naquela manhã de terça-feira. O sol de São Paulo entrava pelas imensas vidraças, refletindo-se no mármore polido e nos detalhes em metal dos móveis de design. Emanuel estava debruçado sobre a bancada da cozinha, uma caneca de café preto esquecida entre suas mãos. Seus olhos estavam fixos em um ponto qualquer do horizonte urbano, mas sua mente estava presa no último encontro com Eduarda.

— Você parece um fantasma hoje, Manu. — A voz de Sara surgiu vinda do corredor, acompanhada pelo som rítmico de seus saltos agulha.

Ela entrou na cozinha vestindo um conjunto de academia de marca, extremamente justo, que realçava cada curva de seu corpo esculpido. O cabelo loiro estava preso em um rabo de cavalo perfeito, e o brilho do colar de diamantes que ele lhe dera ainda adornava seu pescoço, mesmo naquela situação informal.

— É só cansaço, Sara — respondeu ele, sem se virar. — Muitos estúdios para gerenciar, muitos problemas para resolver.

— Problemas que eu resolvo metade, se você me deixar — ela retrucou, aproximando-se e colocando a mão sobre o ombro dele. — Mas você prefere ficar aí, remoendo o que a "bonequinha" disse ou deixou de dizer. Ela ligou?

— Não. Não nos falamos desde o jantar no bistrô.

Sara soltou uma risada curta, carregada de um sarcasmo que ela não fazia questão de esconder.

— Típico. Ela faz esse jogo de silêncio para você ir rastejando atrás dela. É tão previsível, Emanuel. Uma mulher de verdade estaria aqui, te apoiando nos negócios, dividindo o peso. Mas ela... ela prefere ficar lá, sendo mimada pelos pais e pintando quadros que ninguém vê.

Emanuel sentiu a irritação borbulhar, mas não tinha energia para discutir. Sara tinha razão em um ponto: o silêncio de Eduarda era ensurdecedor. Geralmente, ela mandava mensagens de bom dia, fotos de seus esboços ou áudios manhosos dizendo que sentia sua falta. Mas, nos últimos três dias, nada.

— Eu vou ao estúdio central — disse ele, afastando-se do toque de Sara. — Preciso tatuar um cliente importante à tarde.

— Não se atrase para o jantar com os fornecedores italianos à noite — Sara gritou enquanto ele caminhava em direção à porta. — Eu já confirmei sua presença!

***

O estúdio de Emanuel era um santuário de arte e precisão. O cheiro de tinta, álcool e o som constante das máquinas de tatuagem costumavam acalmá-lo, mas hoje, nada parecia funcionar. Ele terminou uma sessão complexa de realismo em um jogador de futebol famoso, mas sua mão parecia mais pesada que o normal.

Quando o cliente saiu, Emanuel sentou-se em sua cadeira de couro e pegou o celular. Estava prestes a ligar para Eduarda quando a porta da frente do estúdio se abriu. Não era um cliente. Era Beatriz, a prima de Eduarda.

Emanuel sentiu um aperto no peito. Beatriz não vinha ao seu estúdio por cortesia. Ela caminhou pelo corredor com sua postura atlética e olhar severo, parando diante dele com os braços cruzados.

— Onde ela está, Beatriz? — perguntou ele, levantando-se.

— Ela está em casa, Emanuel — respondeu a prima, a voz desprovida de qualquer emoção. — Mas ela não quer falar com você. E, honestamente, eu não deveria estar aqui. Mas a Eduarda é sensível demais para o seu próprio bem, e eu não aguento ver ela definhando pelos cantos.

— O que aconteceu? Ela está doente? — A preocupação de Emanuel era genuína e imediata.

Beatriz soltou um suspiro pesado, olhando para as paredes repletas de prêmios e fotos de celebridades tatuadas por ele.

— Ela passou mal na faculdade ontem. Desmaiou no meio de uma aula de restauração. Os pais dela tiveram que buscá-la.

Emanuel sentiu o sangue fugir do rosto. Ele pegou o casaco, pronto para sair.

— Por que ninguém me ligou? Eu sou o namorado dela!

— Você é o namorado que viaja para as Maldivas quando ela precisa de você — Beatriz cortou, gélida. — Você é o namorado que mora com uma mulher que a humilha. Ela não queria te preocupar, ou talvez, ela só não quisesse ouvir que o desmaio dela era "drama" ou "falta de maturidade".

— Chega, Beatriz! — ele rugiu. — Eu vou para lá agora.

— Vá. Mas esteja preparado. O mundo de porcelana que você acha que ela vive acabou de ganhar uma rachadura que você não vai conseguir esconder com diamantes.

***

Emanuel dirigiu como um louco até o bairro de Eduarda. O sol já estava se pondo, pintando o céu de um laranja melancólico. Ele estacionou o carro e, antes mesmo de tocar a campainha, a porta se abriu. O pai de Eduarda estava saindo, com uma expressão cansada.

— Emanuel — disse o homem, surpreso. — Ela está no quarto. Vá falar com ela. Nós... nós estamos tentando processar tudo.

Emanuel não fez perguntas. Ele subiu as escadas dois degraus por vez e parou diante da porta de madeira clara. Ele bateu suavemente.

— Duda? Sou eu.

Um silêncio curto se seguiu, e então um "entra" quase inaudível.

O quarto de Eduarda era o oposto da cobertura de Emanuel. Havia cores suaves, cheiro de baunilha, livros de arte empilhados e uma luz quente. Ela estava sentada na cama, envolta em um cobertor, apesar do calor da tarde. Seus olhos castanhos estavam inchados e sua pele parecia ainda mais pálida contra o cabelo escuro.

— Manu... — ela sussurrou, e a voz dela quebrou o coração dele.

Ele caminhou até a cama e se ajoelhou no chão, pegando as mãos dela. Elas estavam geladas.

— Me desculpa, pequena. Eu não sabia que você tinha passado mal. A Beatriz me contou. Por que não me ligou? Eu largaria tudo para estar aqui.

Eduarda olhou para ele, e uma lágrima solitária escorreu por seu rosto. Ela parecia tão frágil, tão pequena, que Emanuel sentiu uma vontade avassaladora de escondê-la do resto do mundo.

— Eu estava com medo, Manu — ela disse, a voz trêmula. — Eu ainda estou com medo.

— Medo de quê? É alguma coisa grave? O que os médicos disseram?

Eduarda respirou fundo, puxando as mãos das dele para abraçar as próprias pernas. Ela olhou para um ponto na parede, onde um esboço que ele fizera para ela estava emoldurado.

— Eu não estou doente, Manu. Pelo menos, não da forma que você imagina.

Emanuel franziu a testa, a confusão nublando seus pensamentos.

— Então o que é?

Eduarda voltou o olhar para ele. Havia uma mistura de terror e uma esperança desesperada em seus olhos. Ela esticou a mão para a mesa de cabeceira e pegou um pequeno objeto, entregando-o a ele com os dedos tremendo.

Emanuel pegou o item. Era um teste de farmácia. Duas linhas rosadas, claras e definitivas, brilhavam sob a luz do abajur.

O mundo pareceu parar. O som dos carros lá fora, o tique-taque do relógio, até mesmo sua própria respiração sumiu. Ele olhou para o teste e depois para Eduarda.

— Você... você está...

— Eu estou grávida, Manu — ela completou, começando a chorar de soluçar. — Eu estou com tanto medo. O que a gente vai fazer? Você queria que eu morasse com você, mas a Sara está lá... e meus pais... eles ainda não sabem como reagir. Eles estão em choque.

Emanuel sentiu um turbilhão de emoções. Primeiro, o choque puro. Depois, um instinto de proteção tão primitivo que o fez se levantar e sentar na cama ao lado dela, puxando-a para o seu colo com uma força possessiva.

— Shhh... calma. Eu estou aqui — ele murmurava, beijando o topo da cabeça dela. — Eu estou aqui.

— Você está bravo? — ela perguntou entre os soluços, agarrando-se à camisa dele como se fosse sua única tábua de salvação. — Você sempre diz que a sua vida é tão planejada, tão prática... um bebê não é prático, Manu. A Sara vai odiar isso. Ela vai fazer da minha vida um inferno.

O nome de Sara agiu como um choque de realidade em Emanuel. Ele fechou os olhos, visualizando a reação da loira. Sara, que odiava interrupções, que via crianças como obstáculos ao sucesso e à estética, que considerava Eduarda uma rival insignificante. Um filho de Emanuel com Eduarda mudaria tudo. Mudaria a estrutura da empresa, a dinâmica da cobertura, o equilíbrio de poder que Sara tanto prezava.

— A Sara não importa agora, Eduarda — disse Emanuel, embora soubesse que estava mentindo. — O que importa é você. E esse bebê.

— Meus pais disseram que eu posso ficar aqui — ela continuou, a voz manhosa e infantilizada pelo trauma. — Eles disseram que vão me ajudar. Mas eu queria que você ficasse feliz. Você está feliz?

Emanuel afastou-a um pouco para olhar em seu rosto. Ele viu a doçura que sempre o cativou, agora carregando a responsabilidade de uma nova vida. Ele sentiu um orgulho estranho, uma sensação de que, apesar de todo o seu dinheiro e sucesso, aquele era o seu maior projeto.

— Eu estou em choque, Duda. Mas eu nunca deixaria você passar por isso sozinha. Nunca.

— Você vai me pedir para morar lá de novo? — ela perguntou, o medo voltando aos olhos. — Eu não posso, Manu. Não agora. Eu não posso levar um bebê para um lugar onde a Sara mora. Ela é vulgar, ela é maldosa... ela vai tentar me machucar.

— Eu vou resolver a situação da Sara — Emanuel afirmou, embora não tivesse a mínima ideia de como faria isso sem destruir a estrutura de seus negócios que ela gerenciava. — Mas agora, você precisa descansar. Você precisa comer.

— Você fica comigo hoje? — ela pediu, fazendo aquele dengo que ele nunca conseguia recusar. — Só hoje? Não volta para lá.

Emanuel olhou para o celular, que vibrava no bolso com mensagens de Sara sobre o jantar com os italianos. Ele o desligou e o jogou sobre a mesa.

— Eu não vou a lugar nenhum, pequena.

***

Enquanto Emanuel adormecia abraçado a uma Eduarda mais calma, a quilômetros dali, na cobertura, Sara caminhava de um lado para o outro. O jantar com os italianos fora um desastre. Ela teve que inventar uma desculpa esfarrapada para a ausência de Emanuel, sentindo a humilhação queimar em suas veias.

— Onde você está, Emanuel? — ela sibilou para o celular desligado.

Ela entrou no escritório dele, procurando por algum rastro, alguma pista de onde ele poderia ter ido. Sobre a mesa, viu o livro raro de História da Arte que Eduarda esquecera semanas atrás. Com um gesto de fúria, Sara jogou o livro contra a parede.

— Ela não vai ganhar essa — murmurou para si mesma, os olhos azuis brilhando com uma determinação cruel. — Eu construí este império com ele. Eu não vou deixar uma garotinha sensível e sua família de subúrbio roubarem o que é meu por direito.

Sara pegou uma garrafa de gim e serviu-se de uma dose generosa. Ela conhecia Emanuel. Sabia que, se ele estava com Eduarda a essa hora, algo grande havia acontecido. E ela não descansaria até descobrir o que era e como usar isso a seu favor.

***

A manhã seguinte trouxe uma luz pálida e uma realidade inevitável. Emanuel acordou com o som dos pássaros no jardim dos pais de Eduarda. Ele olhou para a jovem ao seu lado, que ainda dormia com uma expressão serena, a mão repousando inconscientemente sobre o ventre ainda plano.

Ele levantou-se silenciosamente e desceu para a cozinha. Os pais de Eduarda já estavam lá. O clima era de uma tensão cordial.

— Emanuel — disse a mãe de Eduarda, servindo-lhe café. — Nós amamos a nossa filha. E vamos apoiá-la em qualquer decisão. Mas você precisa entender que a Eduarda não é a Sara. Ela não tem a casca grossa daquela mulher. Se você pretende trazê-la para o seu mundo, você precisa garantir que ela não seja destruída no processo.

— Eu sei disso — respondeu Emanuel, sentindo o peso da responsabilidade. — Eu vou tomar as providências necessárias.

— Que providências? — perguntou o pai, cruzando os braços. — Você vai tirar a Sara da sua casa? Vai tirar ela da sua empresa? Porque, enquanto ela estiver lá, a Eduarda nunca estará segura.

— Eu preciso de tempo para organizar as coisas — Emanuel disse, embora soubesse que o tempo era um luxo que ele não tinha mais.

Ele saiu da casa dos sogros sentindo-se dividido. Uma parte dele queria gritar para o mundo que seria pai, a outra parte estava em modo de guerra, planejando como desmantelar a influência de Sara sem causar um colapso financeiro.

Ao entrar na cobertura, o cheiro de cigarro e álcool o recebeu. Sara estava sentada no sofá, ainda com a roupa de academia do dia anterior, os olhos fixos na porta.

— Onde você estava? — perguntou ela, a voz rouca.

— Com a Eduarda. Houve uma emergência.

Sara levantou-se, caminhando até ele com um sorriso predatório.

— Emergência? Deixe-me adivinhar. Ela desmaiou? Teve um ataque de pânico? Ou será que ela finalmente encontrou uma forma definitiva de te prender, Manu? Porque eu conheço o tipo dela. Elas usam a fragilidade como arma.

Emanuel olhou para ela, e pela primeira vez, sentiu uma repulsa profunda pela vulgaridade de Sara, pela forma como ela via o mundo apenas como uma disputa de poder.

— Ela está grávida, Sara.

O silêncio que se seguiu foi absoluto. Sara paralisou. O copo em sua mão tremeu levemente, mas ela não o deixou cair. Sua expressão passou do choque para uma frieza calculista em segundos.

— Grávida — repetiu ela, como se a palavra fosse um insulto. — Que conveniente. Justo quando você estava começando a perceber que ela é um atraso na sua vida.

— Não fale assim — Emanuel avisou, o tom de voz perigoso.

— Eu falo como eu quiser! — Sara explodiu, aproximando-se dele, o rosto vermelho de raiva. — Você acha que isso muda alguma coisa? Você acha que um bebê vai transformar aquela menina em uma mulher capaz de estar ao seu lado em Dubai? Em Londres? Ela vai ser um fardo ainda maior! E você, Emanuel, vai acabar odiando o dia em que decidiu que o "dengo" dela valia mais do que a minha lealdade.

— A sua lealdade tem um preço, Sara. O amor da Eduarda, não — Emanuel disse, passando por ela. — Eu vou para o meu escritório. Não me interrompa.

Sara ficou sozinha na sala, olhando para o vazio. Ela não chorou. Sara não era de chorar. Ela era de agir. Ela pegou o celular e discou um número que raramente usava.

— Preciso de um favor — disse ela, quando atenderam. — Preciso de tudo o que puder encontrar sobre a faculdade da Eduarda e sobre a família dela. Especialmente qualquer coisa que possa ser usada como pressão. Se o Emanuel quer brincar de família feliz, ele vai descobrir que o preço da entrada é muito mais caro do que ele imagina.

Enquanto isso, no quarto de hospital onde fizera os exames complementares naquela manhã, Eduarda olhava para a ultrassonografia inicial. Um pequeno ponto na tela. Ela sentia medo, sim, mas também uma força nova, algo que vinha das raízes de sua família e da doçura que Emanuel tanto amava.

Ela sabia que a guerra com Sara estava longe de terminar. Na verdade, ela estava apenas começando. Mas agora, Eduarda não estava mais lutando apenas por si mesma. Ela tinha um motivo para ser forte, para deixar de ser apenas a menina manhosa e tornar-se a mulher que Emanuel precisava, mesmo que isso significasse enfrentar a tempestade que Sara estava prestes a desencadear.

O equilíbrio instável havia sido quebrado. O ouro de Sara e a porcelana de Eduarda estavam prestes a colidir, e Emanuel, o tatuador que marcava a pele dos outros para sempre, estava prestes a descobrir que as marcas mais profundas são aquelas que a vida grava na alma, sem agulhas, apenas com o peso de nossas escolhas.