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O Labirinto de Tinta e o Brilho do Orgulho

O sol da manhã entrava pelas imensas janelas de vidro da cobertura, refletindo-se nas superfícies de mármore e aço escovado. Emanuel estava sentado à cabeceira da mesa de jantar, observando Sara. Ela usava um conjunto de seda preta que contrastava com seu cabelo loiro platinado, enquanto digitava furiosamente em um laptop, alternando entre planilhas e mensagens de voz.

— Eu já fechei a logística com os fornecedores de Madri, Manu — disse ela, sem tirar os olhos da tela. — Consegui um desconto de 15% nas tintas importadas só porque ameacei levar nosso contrato para a concorrência. Eles sabem que, se perdermos o interesse, o mercado europeu deles despenca.

Emanuel tomou um gole de café preto, sentindo uma pontada de genuíno orgulho. Sara era, muitas vezes, o caos em pessoa dentro de casa, com sua vulgaridade calculada e suas provocações, mas no trabalho, ela era uma máquina. Ela não apenas administrava; ela protegia o império dele com unhas e dentes.

— Você é implacável, Sara — comentou Emanuel, um leve sorriso surgindo em seu rosto severo. — Eu sabia que colocar você na frente dessa negociação seria a escolha certa. O pessoal da equipe técnica me disse que você foi incrível na apresentação de ontem.

Sara finalmente fechou o laptop e olhou para ele, um sorriso vitorioso e preenchido de batom nude cintilante nos lábios. Ela se levantou e caminhou até ele, sentando-se de forma ousada em seu colo, passando os braços pelo pescoço dele.

— Eu sou o seu braço direito, Manu. E o esquerdo também, se você me deixar — ela sussurrou, a voz carregada de segundas intenções. — Eu gosto de ver você orgulhoso de mim. Isso me dá... ideias.

Emanuel segurou a cintura dela, sentindo a firmeza do corpo que ela tanto exibia.

— Você merece uma recompensa por Berlim e Madri. Peça o que quiser.

— O que eu quero você ainda não me deu — ela disparou, o tom ficando subitamente sério. — Quero aquela menina morando aqui. O clima nesta casa está pesado com você indo e vindo daquele subúrbio. Se ela estivesse aqui, eu poderia colocar as mãos nela e transformá-la em algo útil para a empresa também. História da Arte? Ela podia estar catalogando nossos designs icônicos em vez de ficar choramingando pelos cantos.

Emanuel suspirou, a menção a Eduarda sempre trazendo aquela tensão familiar.

— Não comece, Sara. Já falamos sobre isso.

Antes que a discussão pudesse escalar, o celular de Emanuel vibrou sobre a mesa. Era uma notificação interna de um dos seus estúdios principais em São Paulo. Ele franziu o cenho ao ler o relatório de inteligência de mercado que sua equipe de marketing havia enviado.

— O que foi? — perguntou Sara, notando a mandíbula dele travar.

— O Victor Hugo — respondeu Emanuel, referindo-se ao seu maior rival no mundo da tatuagem, um homem que tentava copiar cada passo de Emanuel há anos. — Ele fechou uma parceria com a Faculdade de Belas Artes. Vai organizar um evento de "Arte Viva" no novo estúdio dele.

Sara soltou uma risada debochada.

— E o que isso tem de mais? Ele está sempre tentando desesperadamente ganhar relevância.

— O problema não é o evento, Sara — Emanuel disse, sua voz ficando baixa e perigosa. — O problema é que a faculdade selecionou os dez melhores alunos de História da Arte para organizar a curadoria e a recepção do evento. E o nome da Eduarda está no topo da lista.

O silêncio caiu sobre a sala. Sara arqueou uma sobrancelha, enquanto Emanuel sentia uma queimação desconfortável no peito. Não era apenas rivalidade comercial; era uma possessividade instintiva que ele não conseguia controlar. A ideia de Eduarda, sua doce e ingênua Duda, trabalhando para o homem que vivia tentando derrubá-lo, era insuportável.

— Ah, isso é maravilhoso! — Sara exclamou, levantando-se e batendo palmas ironicamente. — A santinha vai trabalhar para o seu maior inimigo. Será que ela sabe quem ele é? Ou ela é tão "lenta" que nem percebeu o nome no contrato?

— Ela não assinou nada ainda — Emanuel levantou-se abruptamente, pegando as chaves do carro. — Vou buscá-la na faculdade agora mesmo.

***

O campus da faculdade estava ensolarado. Eduarda estava sentada em um dos gramados, cercada por pastas de couro e catálogos de arte. Ela usava um vestido de algodão azul claro e prendia o cabelo castanho em um coque frouxo, parecendo a própria personificação da inocência que Emanuel tanto tentava proteger.

Quando o imenso SUV preto de Emanuel estacionou de forma imponente na frente do prédio, ela sorriu, mas o sorriso vacilou ao ver a expressão sombria no rosto dele.

— Manu! Que surpresa — disse ela, levantando-se e limpando a grama do vestido. Ela se aproximou e se aninhou no peito dele, buscando o abraço que ele sempre lhe dava. — Você não disse que vinha.

Emanuel a abraçou, mas seus olhos vasculhavam o redor como se esperasse ver Victor Hugo espreitando em cada esquina.

— Precisamos conversar, Eduarda. No carro.

— Aconteceu alguma coisa? — ela perguntou, a voz ficando manhosa e preocupada. — Você está com aquela cara de quando um tatuador seu estraga um desenho.

— É pior do que isso — ele disse, abrindo a porta para ela.

Assim que entraram no carro e o ar-condicionado isolou o som do mundo exterior, Emanuel se virou para ela.

— Que história é essa de você organizar um evento para o estúdio do Victor Hugo?

Eduarda arregalou os olhos castanhos, que brilharam com uma mistura de surpresa e confusão.

— Ah... você soube? O coordenador me chamou hoje de manhã! É uma oportunidade incrível, Manu. Ele disse que o meu olhar para a arte clássica ajudaria a dar um tom mais sofisticado para as tatuagens do estúdio... Eu achei que você ficaria orgulhoso. É o meu primeiro trabalho real na área!

Emanuel sentiu o coração apertar. O entusiasmo dela era legítimo, o que tornava tudo mais difícil.

— Eduarda, você tem ideia de quem é Victor Hugo? — ele perguntou, tentando manter a voz calma, embora a irritação transbordasse. — Aquele homem passou os últimos cinco anos tentando sabotar meus estúdios. Ele suborna meus fornecedores, tenta roubar meus artistas... e agora ele quer usar a minha namorada para promover o evento dele?

Eduarda baixou o olhar, as mãos pequenas brincando com a alça da bolsa.

— Eu... eu não sabia que era tão sério assim. Eu achei que era só competição de negócios. Ele foi tão educado com a coordenação...

— Ele é um manipulador, Duda — Emanuel disse, batendo levemente no volante. — Ele sabe quem você é. Ele quer me atingir através de você. Ele quer que as pessoas vejam a namorada do "grande Emanuel" validando o trabalho dele.

Eduarda começou a fungar. Era o sinal de que a emoção estava assumindo o controle. Ela se inclinou para ele, encostando a cabeça em seu ombro, a voz saindo pequena e embargada.

— Mas eu queria tanto fazer isso, Manu... Eu queria mostrar para você que eu também posso ser útil, como a Sara é. Eu queria que você tivesse orgulho de mim por algo que eu fiz sozinha.

Emanuel fechou os olhos, sentindo o ciúme bobo e fofo lutar contra sua racionalidade. Ele odiava a ideia de outro homem, especialmente aquele homem, dando ordens a ela, olhando para ela, ou pior, recebendo o crédito pelo talento dela.

— Eu já tenho orgulho de você, pequena — ele murmurou, passando a mão pelos cabelos dela. — Mas eu não posso deixar você ir para a cova dos leões.

— Você está sendo mandão de novo — ela reclamou, fazendo um biquinho manhoso e olhando para ele com os olhos marejados. — Você sempre quer controlar tudo. É só um evento de três dias. Eu prometo que não vou falar com ele, só vou organizar as peças e os quadros.

— Não — Emanuel foi categórico. — Eu não quero você lá.

— Por favor, Manu... — ela insistiu, roçando o nariz no pescoço dele, usando a única arma que sabia que desarmava o controle dele: o afeto puro. — Eu fico tão triste quando você me proíbe de crescer. Eu sinto que você não confia em mim.

Emanuel suspirou, sentindo-se encurralado pela manha dela. Ele a amava demais para vê-la triste, mas era possessivo demais para deixá-la ir. Sua mente começou a trabalhar em uma solução que resolvesse ambos os problemas.

— Tudo bem — disse ele, finalmente. — Se você quer tanto organizar um evento, você vai organizar. Mas não para ele.

Eduarda se afastou um pouco, confusa.

— Como assim?

— Eu vou abrir uma galeria de arte temporária em um dos meus estúdios centrais — Emanuel declarou, o plano se formando rapidamente em sua mente. — Um espaço dedicado à relação entre a História da Arte e a Tatuagem Contemporânea. Vou doar toda a renda para uma instituição de caridade. E você será a curadora-chefe.

Eduarda abriu a boca, chocada.

— Você... você faria isso? Mas e o evento da faculdade?

— Eu vou ligar para o reitor agora mesmo. Vou oferecer o dobro do patrocínio que o Victor Hugo ofereceu, com a condição de que o evento oficial da faculdade seja transferido para o meu espaço. Todos os seus colegas de equipe virão trabalhar com você, mas sob a minha supervisão. E no meu território.

Eduarda soltou um grito de alegria e se jogou nos braços dele, cobrindo seu rosto de beijos.

— Você é louco, Emanuel! — ela ria entre os beijos. — Você é o homem mais ciumento e exagerado do mundo!

— Sou — ele admitiu, segurando-a firme. — Mas você é minha. E eu não divido o que é meu, nem profissionalmente.

***

Quando voltaram para a cobertura, Sara estava esperando por eles, bebendo um martini e observando a cena com desdém.

— Então, o resgate da princesa foi um sucesso? — perguntou ela, notando a expressão radiante de Eduarda.

— Emanuel vai abrir uma galeria para a faculdade, Sara! — Eduarda anunciou, correndo até a loira e, em um momento de empolgação rara, tentando segurar a mão dela. — Eu vou ser a curadora!

Sara puxou a mão de volta, olhando para Emanuel com uma sobrancelha arqueada.

— Você vai gastar uma fortuna em um evento de caridade só para tirar ela do estúdio do Victor? Emanuel, você é patético.

— Eu chamo isso de investimento estratégico, Sara — Emanuel respondeu, passando por ela e indo em direção ao bar. — E você vai ajudar na parte administrativa. Quero que esse evento seja impecável. Se a Eduarda vai assinar a curadoria, o nome dela tem que brilhar.

Sara revirou os olhos, mas Emanuel viu o brilho de aceitação neles. Ela gostava de um desafio, e organizar um evento do zero em tempo recorde era exatamente o tipo de coisa que a fazia se sentir poderosa.

— Ótimo — disse Sara, levantando-se e caminhando até Eduarda. Ela mediu a menina de cima a baixo com seu olhar crítico. — Se vamos fazer isso, vamos fazer direito. Mas já vou avisando, gracinha: se um único quadro estiver torto ou se o buffet atrasar, a culpa vai ser sua e eu vou fazer questão de que o Manu saiba.

Eduarda engoliu em seco, a timidez voltando por um momento, mas ela olhou para Emanuel, que lhe deu um aceno encorajador.

— Eu vou me esforçar, Sara. Eu prometo.

— Veremos — Sara bufou, mas logo em seguida pegou o celular. — Vou começar a listar os fornecedores de luxo. Manu, prepare o cartão de crédito. Se é para humilhar o Victor Hugo, vamos fazer isso com classe.

Emanuel observou as duas. Sara já estava dando ordens pelo telefone, enquanto Eduarda se sentava no tapete da sala com seus catálogos, os olhos brilhando de empolgação. O ciúme ainda estava lá, uma chama persistente em seu peito, mas ver as duas — cada uma à sua maneira — envolvidas em seu mundo, trazia uma satisfação profunda.

Ele se aproximou de Eduarda e sentou-se ao lado dela no chão, ignorando o conforto do sofá de design.

— Você está feliz? — perguntou ele, baixinho.

Eduarda se inclinou e apoiou a cabeça no ombro dele, manhosa.

— Estou. Mas você sabe que agora você me deve outra coisa, não sabe?

Emanuel riu, sabendo que a "manhã" dela sempre vinha com um preço.

— O que é agora, Duda?

— Você tem que prometer que, se o evento for um sucesso... você vai parar de me pressionar para morar aqui por pelo menos mais três meses. Eu quero provar que posso ser profissional antes de ser "moradora".

Emanuel sentiu a pontada de frustração, mas ao olhar para o rosto doce e determinado dela, ele soube que não podia vencer todas as batalhas no mesmo dia.

— Três meses — ele concordou, dando um beijo no topo da cabeça dela. — Mas depois disso, eu vou construir aquela galeria permanente que eu mencionei. E o escritório dela vai ser bem ao lado do meu.

Eduarda sorriu, fechando os olhos. Ela sabia que Emanuel nunca deixaria de tentar controlá-la, assim como sabia que Sara nunca deixaria de provocá-la. Mas ali, naquele momento, entre o orgulho que ele sentia por Sara e a proteção que ele oferecia a ela, Eduarda sentia que, talvez, aquele labirinto de tinta e luxo fosse exatamente o lugar onde ela deveria estar.

Sara, do outro lado da sala, gritava com um fornecedor de flores, mas parou por um segundo para olhar para os dois no chão. Ela soltou um suspiro, um meio sorriso surgindo em seu rosto carregado de maquiagem. O equilíbrio era precário, quase impossível, mas era o mundo deles. E, por enquanto, o império de Emanuel permanecia intacto, protegido por uma mulher de ferro e suavizado por uma mulher de seda.