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O Triunfo da Seda e a Sombra da Castidade
O salão da nova galeria temporária de Emanuel ainda cheirava a tinta fresca, verniz e ao perfume caro das centenas de convidados que haviam lotado o espaço na noite anterior. O evento "Corpo e Cânone" não fora apenas um sucesso; fora um fenômeno. A crítica de arte do principal jornal da cidade descrevera a curadoria como "um diálogo sensível e erudito entre a brutalidade da agulha e a delicadeza do Renascimento".
Emanuel estava em seu escritório, no mezanino da cobertura, observando os números que Sara projetava na tela da TV de oitenta polegadas. O retorno financeiro era impressionante, mas o ganho de imagem para a marca de seus estúdios era incalculável.
— Os acessos ao nosso site triplicaram, Manu — disse Sara, vestindo um blazer branco sem nada por baixo, o decote profundo exibindo o bronzeado perfeito. — As reservas para o estúdio de São Paulo estão esgotadas pelos próximos seis meses. Eu cuidei da logística dos contratos de patrocínio e, honestamente, fiz milagres com o orçamento que você me deu.
Emanuel acenou positivamente, mas seus olhos estavam fixos em uma foto de Eduarda que circulava nas redes sociais. Na imagem, ela aparecia explicando a relação entre uma gravura de Dürer e uma tatuagem geométrica para um grupo de colecionadores. Ela parecia radiante, embora visivelmente tímida.
— Você fez um trabalho administrativo impecável, Sara, como sempre — Emanuel disse, recostando-se na cadeira de couro. — Mas temos que admitir: o conceito foi dela. O público não veio aqui para ver planilhas. Eles vieram pela alma que a Eduarda colocou em cada parede.
Sara bufou, cruzando as pernas e balançando o salto agulha. A inveja brilhava em seus olhos, embora ela tentasse disfarçar com seu sarcasmo habitual.
— Alma não paga as contas, Emanuel. Eu transformei o "conceito" dela em dinheiro vivo. Sem a minha pressão nos fornecedores e a minha escolha do buffet de luxo, aquilo teria parecido uma feira de ciências de colégio católico. Aquela menina mal conseguia falar com os jornalistas sem ficar vermelha.
— E foi exatamente essa autenticidade que os conquistou — Emanuel retrucou, sua voz ganhando aquele tom protetor que sempre irritava a loira. — Eu estou orgulhoso. Ela provou que tem um lugar neste império por mérito próprio.
A porta do escritório se abriu e Eduarda entrou, carregando uma pequena caixa de papelão com seus pertences da galeria. Ela usava um vestido de linho bege, simples e recatado, e parecia exausta. Ao ver Emanuel, um sorriso doce e cansado iluminou seu rosto.
— Oi, meus amores — ela disse, colocando a caixa sobre uma poltrona.
— Olha só, a estrela do momento resolveu aparecer — provocou Sara, levantando-se e caminhando até ela com passos predatórios. — Parabéns, santinha. Você conseguiu o que queria. Agora o Manu acha que você é a nova Peggy Guggenheim.
Eduarda encolheu os ombros, aproximando-se de Emanuel e sentando-se no braço da cadeira dele, buscando o contato físico que era seu porto seguro.
— Eu só estou feliz que deu tudo certo, Sara. E obrigada por me ajudar com as contas, eu nunca teria conseguido organizar os pagamentos sozinha.
Emanuel puxou Eduarda para o seu colo, ignorando o olhar de desdém de Sara. Ele enterrou o rosto no pescoço da castanha, aspirando o cheiro de baunilha que o acalmava.
— Você foi incrível, Duda. Eu já mandei flores para a sua casa e um presente especial está a caminho.
Eduarda estremeceu levemente com o carinho, mas sua expressão mudou para algo mais hesitante, quase manhoso. Ela começou a brincar com os botões da camisa de Emanuel, evitando olhar nos olhos dele.
— Manu... sobre isso... eu preciso te contar uma coisa. Eu não vou poder ficar aqui na cobertura nos próximos dias. E acho que não vamos conseguir nos ver com tanta frequência.
Emanuel tensionou os músculos instantaneamente. A calmaria em sua voz desapareceu.
— O que você quer dizer com isso? O evento acabou, você deveria estar aqui comemorando comigo.
— É a minha tia Odete — Eduarda murmurou, fazendo um biquinho irresistível. — Ela é irmã da minha mãe, a mais velha. Ela é... bem, ela é muito religiosa, Manu. Muito conservadora. Ela mora no interior e vem passar dez dias na nossa casa para um tratamento de saúde.
Sara soltou uma gargalhada ruidosa, jogando a cabeça para trás.
— Não pode ser verdade! A tia beata vem para a cidade e a sobrinha tem que voltar para o convento? Isso é hilário, Emanuel!
— Sara, cala a boca — Emanuel rosnou, voltando sua atenção para Eduarda. — E o que a sua tia tem a ver com a gente? Você tem vinte anos, Eduarda.
— Você não conhece a tia Odete, Manu — disse ela, a voz ficando cada vez mais manhosa, os olhos grandes e suplicantes. — Ela acha que tatuagem é coisa do demônio. Se ela sonhar que eu namoro um homem que é dono de estúdios de tatuagem e que... bem, que vive com outra mulher... ela tem um infarto. E minha mãe pediu, por favor, para eu manter a discrição enquanto ela estiver lá. Ela não sabe de nada sobre a nossa "dinâmica".
Emanuel sentiu a irritação borbulhar. Ele odiava ser escondido, odiava que a vida de Eduarda fosse pautada por regras que ele considerava arcaicas.
— Então eu sou o segredo sujo agora? Depois de tudo o que fizemos, depois do sucesso de ontem, eu volto para a gaveta por causa de uma tia carola?
— Não é assim, meu amor — ela disse, passando as mãos pelo rosto dele, tentando suavizar as linhas de expressão. — É só por uns dias. Eu vou ter que ficar em casa, ajudar com as refeições, levar ela ao médico... Ela dorme no meu quarto, em uma cama extra. Eu nem vou poder falar ao telefone com você por muito tempo, ela vigia tudo.
Emanuel segurou os pulsos dela, sua possessividade aflorando.
— Dez dias, Eduarda? Você está me dizendo que vou ficar dez dias sem te tocar, sem te ver, porque você tem medo de uma velha religiosa?
— Eu não tenho medo, eu tenho respeito pela minha família — ela respondeu, os olhos começando a brilhar com lágrimas de frustração. — Por favor, não fica bravo. Eu vou sentir tanta saudade... Eu já estou sofrendo só de pensar.
— Ela está te manipulando, Manu — Sara interveio, aproximando-se e tocando o ombro de Emanuel de forma possessiva. — Ela usa essa carinha de anjo para fugir das responsabilidades de mulher. Enquanto ela brinca de "família tradicional" no subúrbio, quem vai estar aqui cuidando de você? Quem vai estar na sua cama? Sou eu. Sempre sou eu.
Eduarda olhou para Sara com uma mágoa profunda, mas não rebateu. Ela apenas se encolheu mais nos braços de Emanuel.
— Eu prometo que mando mensagens escondida — sussurrou ela. — Por favor, Manu... me entenda. É só um pouquinho mais de tempo.
— Eu odeio essa palavra. "Tempo" — Emanuel disse, a voz fria. — Mas se você prefere agradar sua tia a estar comigo, eu não posso te amarrar aqui. Ainda.
Eduarda selou os lábios dele com um beijo casto e rápido, sentindo a resistência dele.
— Eu te amo. Vou pensar em você cada segundo.
Ela se levantou, pegou sua caixa e saiu do escritório apressadamente, antes que Emanuel mudasse de ideia e a proibisse de sair.
O silêncio que ficou no escritório era denso. Sara caminhou até o bar e serviu dois copos de whisky, entregando um a Emanuel.
— Viu só? — disse ela, sentando-se no colo dele, ocupando o lugar que antes era de Eduarda. — Ela sempre vai escolher o mundinho dela. Ela é uma criança, Emanuel. Uma criança manhosa que precisa de permissão dos pais e da tia para respirar.
Emanuel tomou o whisky de um gole só, sentindo o líquido queimar sua garganta. Ele olhou para Sara, para a confiança agressiva que ela exalava, para o corpo que estava sempre disponível e para a mente que funcionava como a dele.
— Ela não é uma criança, Sara. Ela só tem princípios diferentes dos seus.
— Princípios que te deixam sozinho à noite — Sara rebateu, começando a desabotoar a camisa dele. — Esquece a tia beata. Esquece o subúrbio. Você tem a mim aqui. Eu não preciso me esconder de ninguém. Eu tenho orgulho de ser sua.
Emanuel deixou que ela o beijasse, mas sua mente estava longe. Ele imaginava Eduarda em um quarto fechado, sob o olhar vigilante de uma parente austera, escondendo o celular sob o travesseiro para ler suas mensagens. A ideia o irritava profundamente, mas também alimentava um desejo sombrio de resgatá-la, de corromper aquela pureza que a família dela tanto tentava preservar.
***
Três dias depois, a cobertura parecia maior e mais vazia. Emanuel estava mal-humorado, descontando sua frustração na equipe do estúdio. Sara tentava aproveitar a ausência de Eduarda para reafirmar seu domínio, organizando jantares íntimos e desfilando com lingeries cada vez mais provocantes, mas Emanuel parecia operando no piloto automático.
Seu celular vibrou às onze da noite. Era uma mensagem de Eduarda.
"Ela finalmente dormiu. Estou no banheiro com a luz apagada. Sinto tanto a sua falta, Manu. Meu corpo dói de saudade do seu toque. A tia Odete passa o dia falando que eu preciso encontrar um 'bom rapaz da igreja'. Mal sabe ela que meu coração pertence ao homem mais tatuado e pecaminoso do mundo. Queria estar aí com você e com a Sara, mesmo com as implicâncias dela. Me perdoa?"
Emanuel sorriu pela primeira vez em dias. A manha dela, mesmo por texto, tinha o poder de desarmá-lo. Ele começou a digitar a resposta, mas Sara entrou no quarto, usando apenas uma camisola de renda vermelha que deixava muito pouco para a imaginação.
— Ainda falando com a fugitiva? — perguntou ela, sentando-se na beira da cama e tirando o celular da mão dele.
— Devolve, Sara.
— Não — ela disse, colocando o aparelho dentro do decote. — Agora você é meu. Sem interrupções de parentes religiosas. Vamos fazer você esquecer que o subúrbio existe.
Sara o empurrou contra os travesseiros, iniciando um beijo voraz. Emanuel correspondeu, deixando que a intensidade de Sara abafasse a carência que Eduarda deixara. Mas, por um momento, enquanto as unhas de Sara cravavam em suas costas, ele fechou os olhos e imaginou o toque macio e hesitante de Eduarda.
Ele tinha o fogo de uma e a doçura da outra. Mas o isolamento forçado de Eduarda estava criando um monstro de possessividade dentro dele. Ele não esperaria dez dias.
No dia seguinte, Emanuel chamou Sara em seu escritório.
— Prepare o carro — ordenou ele, vestindo um terno escuro que escondia todas as suas tatuagens, exceto as que subiam pelo pescoço.
— Onde vamos? — perguntou Sara, confusa. — Temos reunião com os contadores.
— Vamos fazer uma visita — Emanuel disse, um sorriso sombrio nos lábios. — Quero conhecer a tia Odete. E quero ver até onde vai a discrição da Eduarda quando eu entrar por aquela porta.
Sara arregalou os olhos, mas logo um sorriso malicioso surgiu em seu rosto.
— Isso vai ser um desastre completo. Eu adoro! Vou me vestir para a ocasião. Algo bem... "comportado".
Emanuel sabia que estava prestes a explodir o mundo de Eduarda, mas ele não era um homem feito para as sombras. Se a tia Odete queria um "bom rapaz", ela conheceria o homem que era dono da alma da sobrinha dela. E ele levaria Sara a tiracolo, apenas para garantir que o caos fosse absoluto.
A guerra entre a castidade da família e o desejo de Emanuel estava apenas começando, e ele não pretendia fazer prisioneiros. Ele queria suas duas mulheres sob o seu teto, e se precisasse enfrentar uma tia beata e uma vizinhança inteira para isso, ele o faria com o mesmo prazer com que marcava a pele de seus clientes: de forma permanente e dolorosa.