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O Labirinto de Vidro e a Promessa de Verão

O sol da tarde batia nas janelas do escritório de Emanuel, criando padrões geométricos sobre o couro escuro da poltrona onde ele estava afundado. Oito meses haviam se passado desde o incidente com a tia Odete, e embora o império de tatuagens de Emanuel tivesse se expandido para mais três capitais europeias, sua vida doméstica continuava sendo um equilíbrio precário entre duas forças opostas.

Eduarda ainda morava com os pais. A resistência dela em se mudar para a cobertura permanecia como uma ferida aberta no ego de Emanuel. Ele a amava com uma possessividade protetora, uma necessidade de tê-la sob seus olhos para garantir que o mundo não a machucasse. Mas havia Sara.

Sara, que agora ocupava o lado esquerdo da mesa de reuniões, era o pilar administrativo que Emanuel não podia — e não queria — perder. Ela era loira, exuberante, com curvas acentuadas pelo silicone e uma vulgaridade magnética que Emanuel aprendera a apreciar como uma forma de honestidade bruta. Ele amava Sara pelo caos compartilhado, pela ambição e pela forma como ela nunca o deixava confortável demais.

— Os jatos estão confirmados para o próximo fim de semana, Manu — disse Sara, fechando o MacBook com um estalo seco. Ela usava um vestido de seda vermelha tão justo que parecia uma segunda pele, e seus lábios estavam pintados de um carmesim provocante. — Ibiza nos espera. O pessoal da equipe de Berlim já confirmou, e o Victor Hugo vai ter um infarto quando vir as fotos da nossa festa no iate.

Emanuel massageou as têmporas. O plano era uma viagem de dez dias com seus amigos mais próximos e sócios. Uma celebração do sucesso estrondoso do último ano.

— E a Eduarda? — perguntou ele, a voz rouca.

Sara soltou uma risada curta e ácida, levantando-se para servir dois copos de whisky.

— A santinha? — Ela caminhou até Emanuel e sentou-se no braço da poltrona dele, deixando uma mão pousar no pescoço tatuado do namorado. — Você sabe a resposta, Manu. Ela ainda está pedindo permissão para respirar. Eu duvido que os pais dela a deixem passar dez dias em um barco comigo e com seus amigos "depravados".

— Eu não quero que ela peça permissão — rosnou Emanuel, sentindo a irritação crescer. — Eu quero que ela venha. Ela faz parte da minha vida tanto quanto você.

— Mas eu moro aqui, Emanuel — Sara lembrou, inclinando-se para beijar o canto da boca dele. — Eu administro seus estúdios. Eu durmo na sua cama todas as noites. Eu sou a namorada que o mundo vê. A Eduarda é o segredo doce que você visita no subúrbio. Se ela não vier nesta viagem, vai ficar claro para todo mundo quem realmente manda no seu coração.

Emanuel afastou Sara gentilmente e levantou-se. Ele pegou o celular e discou o número de Eduarda. Ela atendeu no segundo toque, a voz doce e levemente manhosa, como sempre.

— Oi, meu amor. Você está vindo me buscar?

— Duda, eu preciso de uma resposta sobre a viagem — disse ele, sem preâmbulos. — O iate está alugado. O grupo está fechado. Eu não vou aceitar um "não" desta vez.

Houve um silêncio do outro lado da linha. Emanuel podia imaginar Eduarda sentada em sua cama de solteiro, cercada por livros de História da Arte, mordendo o lábio inferior com insegurança.

— Manu... eu quero muito ir. Você sabe que eu quero estar com você — ela sussurrou. — Mas dez dias? Meus pais acham que é muito tempo. E eles sabem que a Sara vai estar lá. Minha mãe diz que essa dinâmica... que não é saudável para mim.

— O que é saudável para você é estar ao meu lado — Emanuel disse, a voz endurecendo. — Eu cansei de esperar, Eduarda. Oito meses. Eu te dei tempo, respeitei sua faculdade, respeitei sua tia beata. Mas agora eu quero você comigo. Se você não vier para Ibiza, eu vou entender que você não está pronta para o que eu tenho a oferecer.

— Não fala assim, por favor — ela pediu, e Emanuel ouviu o fungar característico que antecedia o choro. — Eu vou tentar falar com eles de novo. Vou dizer que é uma viagem de pesquisa, ou algo assim...

— Nada de mentiras, Eduarda — interrompeu Emanuel. — Ou você vem como minha namorada, assumida perante seus pais e meus amigos, ou não vem.

Ele desligou o telefone antes que ela pudesse argumentar. Sara, que observava tudo com um sorriso felino, aproximou-se e abraçou-o pelas costas.

— Você está sendo duro com ela, Manu. Mas eu gosto disso. Mostra que você ainda tem o controle.

— Eu não quero o controle, Sara. Eu quero a minha família reunida.

— Família? — Sara riu, a voz carregada de ironia. — Emanuel, nós somos um tatuador bilionário, uma administradora siliconada e uma estudante de arte virinal. Nós somos qualquer coisa, menos uma família tradicional.

***

Dois dias depois, Emanuel dirigiu até a casa de Eduarda. Ele precisava vê-la. Ao chegar, encontrou-a no jardim, regando as plantas sob o sol da tarde. Ela usava um vestido leve de algodão e parecia tão frágil e pura que, por um momento, Emanuel sentiu um aperto de culpa por querer arrastá-la para o seu mundo caótico.

Ao vê-lo, ela largou a mangueira e correu para seus braços. Emanuel a ergueu do chão, sentindo o perfume de flores que sempre emanava da pele dela.

— Você veio — ela disse, escondendo o rosto no pescoço dele.

— Eu vim buscar a minha resposta, Duda.

Eles entraram na casa. Helena e Roberto estavam na sala, e o clima ficou instantaneamente pesado. Eles respeitavam Emanuel, mas temiam a influência dele sobre a filha única.

— Boa tarde, Emanuel — disse Roberto, fechando o jornal. — Imagino que o assunto ainda seja a tal viagem para a Espanha.

— Exatamente, Roberto — Emanuel sentou-se, mantendo Eduarda ao seu lado, a mão dela presa na sua. — Eu amo a filha de vocês. E eu amo a Sara. Eu não escondo isso de ninguém. Eu quero levar a Eduarda para conhecer o mundo, para ver as galerias de Madri e as festas de Ibiza. Eu posso dar a ela uma segurança que ninguém mais pode.

— O problema não é o dinheiro, Emanuel — Helena interveio, a voz calma mas firme. — O problema é a exposição. Eduarda é sensível. Ela não é como a Sara. Ela não sabe lidar com o tipo de atenção que você atrai, ou com o tipo de ambiente que seus amigos frequentam. Dez dias em um iate com pessoas que ela não conhece... parece um exílio, não uma viagem.

— Eu estarei lá para protegê-la — Emanuel afirmou, os olhos fixos nos de Roberto. — Ninguém vai encostar um dedo nela. Ninguém vai faltar com o respeito.

— E a Sara? — perguntou Roberto. — Como ela vai se comportar? Ela não perde uma oportunidade de diminuir a Eduarda.

Emanuel sentiu uma pontada de verdade naquela acusação. Sara era competitiva e, muitas vezes, cruel em sua insegurança disfarçada de arrogância.

— Eu já falei com a Sara. Ela sabe que a Eduarda é intocável. Elas não precisam ser melhores amigas, mas precisam coexistir. E isso começa nesta viagem.

Eduarda olhou para os pais, os olhos suplicantes.

— Pai, mãe... eu quero ir. Eu preciso sair um pouco dessa redoma. Eu tenho vinte anos. Se eu não for agora, quando eu vou viver?

Helena suspirou, trocando um olhar longo com o marido. Eles sabiam que, se proibissem, poderiam empurrar Eduarda de vez para os braços de Emanuel. Se permitissem, poderiam estar abrindo as portas para uma dor que ela não estava pronta para suportar.

— Tudo bem — disse Roberto, finalmente. — Você pode ir. Mas com uma condição, Emanuel.

— Diga.

— Se em qualquer momento ela se sentir desconfortável, se ela quiser voltar, você a coloca no primeiro avião de volta para o Brasil. Sem discussões. Sem dramas.

— Eu dou a minha palavra — Emanuel prometeu, sentindo um alívio imenso.

***

A volta para a cobertura foi vitoriosa. Emanuel entrou no apartamento sentindo-se o dono do mundo. Sara estava na varanda, bebendo um coquetel e observando o pôr do sol.

— Ela vai — anunciou Emanuel, servindo-se de uma bebida.

Sara virou-se lentamente, a expressão indecifrável.

— Sério? Os velhos cederam?

— Eles entenderam que ela precisa de liberdade.

— Liberdade ou uma coleira mais longa, Manu? — Sara caminhou até ele, o quadril balançando. — Você sabe que isso vai ser um desastre, não sabe? No terceiro dia, ela vai estar chorando porque alguém falou um palavrão ou porque eu usei um biquíni pequeno demais.

— Você vai se comportar, Sara — Emanuel disse, segurando o queixo dela com firmeza. — Eu amo você pela sua força, pela sua inteligência e pelo fogo que você traz para a minha vida. Mas eu amo a Eduarda pela paz que ela me dá. Eu não vou deixar você destruir essa paz.

Sara sorriu, um sorriso triste que raramente mostrava.

— Você quer o impossível, Emanuel. Você quer o sol e a lua no mesmo céu. Mas esquece que, quando eles se encontram, acontece um eclipse. E alguém sempre fica no escuro.

— Ninguém vai ficar no escuro — ele garantiu, puxando-a para um beijo possessivo.

Naquela noite, Emanuel ficou sozinho no escritório por algum tempo. Ele olhava para as fotos das duas em seu celular. Sara em uma festa em Berlim, estourando uma garrafa de champanhe, rindo, brilhante e vulgar. Eduarda em um museu, observando uma tela de Monet, o rosto sereno e os olhos cheios de uma luz que ele queria guardar em uma caixa de joias.

Ele as amava de maneiras tão distintas que parecia ter dois corações batendo no mesmo peito. Com Sara, ele era o guerreiro, o homem de negócios, o tatuador que desafiava o mundo. Com Eduarda, ele era apenas Emanuel, o homem que queria ser cuidado e que queria cuidar.

O telefone vibrou. Era uma mensagem de Eduarda.

"Já comecei a fazer as malas. Estou com medo, Manu. Medo da Sara, medo dos seus amigos... mas estou feliz porque vou estar com você. Me promete que não vai me deixar sozinha?"

Emanuel começou a digitar a resposta: "Eu nunca vou te deixar sozinha, Duda. Você é minha. Para sempre."

Antes de enviar, Sara entrou no escritório, usando apenas uma camisa dele, aberta.

— Esquece o celular um pouco, Manu — ela sussurrou, sentando-se no colo dele e cobrindo o aparelho com a mão. — A viagem é só semana que vem. Hoje, você ainda é só meu.

Emanuel desligou a tela do celular. Ele beijou Sara com uma intensidade que beirava o desespero, tentando ignorar a voz no fundo de sua mente que dizia que aquela viagem seria o teste definitivo para o seu império de vidro.

***

O dia da partida chegou com um céu azul sem nuvens. O jato particular de Emanuel aguardava na pista do aeroporto executivo. Sara chegou primeiro, usando óculos escuros gigantescos, um conjunto de linho branco que revelava mais do que escondia e carregando uma bolsa de grife que custava mais do que um carro popular. Ela exalava poder e impaciência.

— Onde eles estão? — perguntou ela, batendo o pé. — O champanhe já está esquentando.

— Eles estão chegando — disse Emanuel, olhando para o portão.

Momentos depois, o carro do pai de Eduarda estacionou. Ela desceu, usando um vestido floral romântico e um chapéu de palha. Parecia que estava indo para um piquenique, não para Ibiza. Roberto e Helena se despediram dela com abraços apertados e olhares cautelosos para Emanuel.

Quando Eduarda se aproximou do avião, ela hesitou ao ver Sara parada na escada.

— Oi, Sara — disse ela, baixinho, apertando as alças da mochila.

— Oi, bonequinha — Sara respondeu, sem tirar os óculos. — Espero que tenha trazido protetor solar. O sol de Ibiza não perdoa pele de porcelana. E, por favor, me diga que tem algo mais... interessante do que esses vestidos de camponesa na sua mala.

— Sara! — Emanuel advertiu.

— O quê? Só estou dando dicas de moda — Sara deu de ombros e entrou no avião.

Emanuel pegou a mão de Eduarda. Ela estava gelada.

— Está tudo bem? — perguntou ele.

— Estou nervosa, Manu. Parece que estou entrando em um mundo que não é meu.

— Eu vou fazer ser seu — ele prometeu, guiando-a para dentro da aeronave.

O interior do jato era o ápice do luxo. Poltronas de couro creme, acabamento em madeira nobre e um bar completo. Três amigos de Emanuel já estavam lá: Marcos, um fotógrafo de moda excêntrico; Felipe, seu sócio nos estúdios da Europa; e a namorada de Felipe, uma modelo russa chamada Katia.

— Finalmente! — exclamou Marcos, levantando uma taça. — A mítica Eduarda apareceu. Emanuel falava tanto de você que achamos que era uma lenda urbana.

Eduarda sorriu timidamente e sentou-se na poltrona mais afastada, encolhendo-se. Sara, por outro lado, já estava no centro das atenções, rindo alto de uma piada de Felipe e servindo-se de caviar.

A viagem de dez horas foi um microcosmo do que estava por vir. Sara bebia, falava alto e dominava a conversa com histórias de negócios e festas passadas. Eduarda permanecia em silêncio, lendo um livro ou observando as nuvens pela janela. Emanuel dividia seu tempo entre as duas, sentindo-se como um mediador em uma zona de guerra silenciosa.

Em um determinado momento, Emanuel sentou-se ao lado de Eduarda.

— Você está muito quieta, Duda.

— Eu só estou observando, Manu. Seus amigos são... intensos. E a Sara parece tão em casa aqui. Eu me sinto um peixe fora d'água.

— Você é a convidada de honra, pequena. Não se esqueça disso.

— Eu sei. Mas olhe para ela — Eduarda apontou discretamente para Sara, que estava sentada no colo de Emanuel momentos antes, rindo com os outros. — Ela brilha aqui. Eu sou só a sombra.

Emanuel acariciou o rosto dela.

— As sombras são necessárias para descansar os olhos do brilho excessivo, Duda. Eu preciso de você para manter a minha sanidade.

Quando o jato aterrissou em Ibiza, o calor do Mediterrâneo os atingiu como uma onda. Um comboio de carros pretos os levou até o porto, onde o iate "The Siren" estava ancorado. Era uma embarcação de quarenta metros, com três andares, jacuzzi no deck e uma tripulação de seis pessoas.

— Meu Deus... — sussurrou Eduarda, olhando para a imensidão do barco.

— Bem-vinda ao paraíso, querida — disse Sara, passando por ela e jogando a bolsa para um dos tripulantes. — Agora, se me dão licença, eu vou colocar o meu biquíni e abrir a primeira garrafa de rosé. A festa começou!

Emanuel abraçou Eduarda pela cintura, observando Sara subir a passarela com a confiança de uma rainha. Ele sabia que os próximos dez dias seriam o maior desafio de sua vida. Ele tinha as duas mulheres que amava no mesmo barco, literalmente.

— Vamos? — perguntou ele.

Eduarda respirou fundo e assentiu.

— Vamos.

Enquanto o iate deixava o porto e ganhava as águas azul-turquesa, Emanuel sentiu uma mistura de triunfo e apreensão. Ele tinha tudo o que queria: seu império, seus amigos, sua loira explosiva e sua morena doce. Mas, no fundo de sua mente, ele se lembrava das palavras de Sara. No encontro entre o sol e a lua, alguém sempre ficava no escuro.

Ele olhou para Sara, que já estava no deck superior, brindando com os amigos. Depois olhou para Eduarda, que segurava o parapeito com força, olhando para o horizonte com uma mistura de medo e maravilha.

Emanuel apertou a mão de Eduarda e, por um momento, o mundo pareceu perfeito. Mas o mar de Ibiza era profundo e cheio de correntes ocultas, exatamente como a dinâmica daquela "família" improvável. E a viagem estava apenas começando.