Voltar ao resumo

D

O Preço do Impulso e o Exílio da Doçura

— Você tem certeza de que quer fazer isso, Manu? — Sara perguntou, ajeitando o batom no espelho do elevador enquanto desciam para a garagem. Ela usava um vestido tubinho preto, fechado até o pescoço, mas tão justo que cada curva de seu silicone parecia gritar sob o tecido. — Entrar na toca dos leões carolas pode ser divertido, mas você conhece o temperamento da Duda. Ela vai desmaiar de vergonha.

— Eu não me importo — Emanuel respondeu, a voz rouca de uma irritação que fermentava há dias. — Eu não sou um segredo. Eu não construí o que eu tenho para ser escondido como se fosse um erro de juventude. Se a família dela quer conhecer o "homem da vida dela", eles vão conhecer agora.

O trajeto até o bairro de classe média onde Eduarda morava foi feito em um silêncio tenso. Emanuel dirigia seu SUV preto como se estivesse indo para um campo de batalha. Ao estacionar na frente da casa de muros baixos e jardim bem cuidado, ele sentiu um deslocamento imediato. Aquele lugar exalava uma normalidade que o sufocava.

Ao tocarem a campainha, quem atendeu foi Helena, a mãe de Eduarda. Sua expressão de boas-vindas transformou-se em puro pavor ao ver Emanuel e, logo atrás dele, Sara, que exibia um sorriso predatório.

— Emanuel! O que... o que você está fazendo aqui? — Helena sussurrou, olhando nervosamente para trás. — Eu disse que não era um bom momento. A tia Odete está na sala!

— Eu vim visitar minha namorada, Helena — Emanuel disse, entrando na casa sem pedir licença. — E trouxe minha sócia para conhecer a família.

A sala de estar estava mergulhada em um silêncio sepulcral. No sofá principal, sentada de forma ereta como se tivesse uma tábua nas costas, estava uma mulher de cabelos grisalhos presos em um coque apertado, usando um vestido cinza que parecia vir de outra década. Eduarda estava sentada ao lado dela, lendo o que parecia ser um folheto religioso.

Ao ver Emanuel, Eduarda deixou o folheto cair. Seu rosto, antes pálido, ficou instantaneamente vermelho, e depois branco novamente.

— Manu? — ela arqueou a voz, o tom subindo em puro pânico.

— Então este é o rapaz? — A voz da tia Odete era como o som de papel de lixa esfregando em madeira seca. Ela ajustou os óculos e olhou para as tatuagens que subiam pelo pescoço de Emanuel com um nojo indisfarçável. — Helena, você não me disse que sua filha estava envolvida com um... um homem marcado.

— Tia Odete, este é o Emanuel — Eduarda disse, levantando-se e caminhando até ele com as pernas trêmulas. Ela tentou segurar a mão dele, mas Emanuel a puxou para um abraço possessivo, beijando-a na frente de todos. — Ele é... ele é um artista.

— Um artista de circo, imagino — Odete disparou, voltando seus olhos para Sara. — E esta criatura? Ela também faz parte do "espetáculo"?

Sara deu um passo à frente, cruzando os braços e fazendo seus seios saltarem no decote do vestido justo.

— Eu sou a Sara, querida. Cuido da administração e de tudo o que o Emanuel não tem paciência para lidar. Inclusive da paciência dele com visitas inconvenientes.

O desastre foi imediato. A tia Odete levantou-se com uma dignidade ofendida que parecia irradiar frio pelo ambiente. O que Emanuel não sabia — e que Eduarda tentara explicar em suas mensagens ignoradas — era que Odete não era apenas uma tia beata; ela era a principal investidora da galeria de arte do pai de Eduarda e detinha as hipotecas de duas propriedades da família.

— Helena, Roberto — Odete chamou os pais de Eduarda, que apareceram na sala parecendo condenados à morte. — Eu vim aqui para ajudar a restaurar a saúde desta família, mas vejo que a podridão já se instalou. Eduarda, arrume suas malas. Agora.

— O quê? — Emanuel deu um passo à frente, sua presença física intimidando o espaço. — Ela não vai a lugar nenhum com você.

— Ela vai, ou seu pai perderá o financiamento da nova exposição amanhã cedo — Odete disse, a voz gélida e sem emoção. — Eu não permitirei que minha sobrinha continue sob a influência de um homem que exibe os pecados na pele e de uma mulher que se veste como uma meretriz de luxo.

Eduarda começou a chorar. Não era um choro de raiva, mas aquele choro manhoso e desesperado que sempre quebrava Emanuel.

— Manu, por favor, vai embora — ela soluçou, escondendo o rosto nas mãos. — Você estragou tudo! Eu disse para você esperar!

— Eu não vou deixar ela te levar, Duda! — Emanuel tentou segurá-la, mas Roberto, o pai de Eduarda, interveio, colocando-se entre eles com uma expressão de súplica.

— Emanuel, por favor... por nossa família. A Odete tem o poder de arruinar tudo o que construímos. Deixe-a ir. São só alguns dias na fazenda dela, para acalmar os ânimos.

Emanuel olhou para Eduarda, esperando que ela lutasse, que dissesse que ficaria com ele apesar de tudo. Mas Eduarda apenas soluçava, buscando o apoio da mãe. Ela era frágil demais, dependente demais da aprovação daquela linhagem que ele desprezava.

— Se você sair por aquela porta com ela, Eduarda — Emanuel disse, a voz baixa e perigosa —, eu não vou atrás de você.

Eduarda olhou para ele com os olhos marejados, o rosto inchado.

— Você não entende... você nunca entende que nem tudo se resolve com o seu dinheiro e o seu controle. Eu tenho que ir. Meus pais precisam de mim.

Sara puxou o braço de Emanuel, um sorriso de "eu te avisei" escondido nos cantos da boca.

— Vamos embora, Manu. Deixa a santinha ir para o convento. Se ela prefere a tia beata a você, ela não te merece.

Emanuel saiu daquela casa sentindo um vazio que se transformava em uma fúria cega. Ele chutou o pneu do carro e dirigiu de volta para a cobertura em uma velocidade suicida.

***

Os dias seguintes foram um inferno na cobertura. Emanuel estava insuportável. Ele quebrou dois tablets no escritório, gritou com o gerente do estúdio de Tóquio e mal tocava na comida. Sara tentava tirar proveito da situação, circulando pela casa com roupas mínimas e tentando seduzi-lo a cada cinco minutos, mas Emanuel a afastava com uma rispidez que beirava a crueldade.

— Você está agindo como um adolescente mimado, Emanuel! — Sara gritou, jogando uma pasta de documentos sobre a mesa de carvalho. — Ela foi embora! Aceita! Ela escolheu a família dela e aquela velha asquerosa. Por que você não foca em quem realmente está aqui, trabalhando para manter o seu império de pé?

— Porque você é apenas negócio, Sara! — Emanuel rugiu, levantando-se. — A Eduarda era a única coisa que não tinha um preço nesta casa!

— Ah, por favor! — Sara riu, histérica. — Ela teve um preço sim! O preço da galeria do papai dela! Ela se vendeu por menos do que você gasta em uma noite de festa!

Emanuel sentiu vontade de mandar Sara embora também, mas ele sabia que precisava dela para a administração. Ele estava preso entre a necessidade e o desejo, e o silêncio de Eduarda o estava matando.

No interior, na fazenda de Odete, o cenário era de uma rigidez monástica. Eduarda passava os dias usando vestidos longos, sem maquiagem, ajudando na horta e ouvindo sermões sobre a "decência feminina". Ela tinha permissão para usar o celular apenas dez minutos por dia, sob supervisão.

Em um desses momentos, ela conseguiu se trancar no banheiro e ligar para Emanuel.

— Manu? — a voz dela saiu bem baixinha, carregada de manha e de choro contido.

— Eduarda! Onde você está? Eu vou buscar você agora, eu não me importo com a sua tia, eu compro a dívida do seu pai, eu compro a galeria, eu compro a cidade inteira se for preciso!

— Não, Manu... não faz isso — ela soluçou. — A tia Odete é influente. Ela disse que se você aparecer aqui, ela vai usar os contatos dela na prefeitura para fechar os seus estúdios por irregularidades sanitárias. Ela é louca, Manu. Ela tem ódio de você.

— Eu não tenho medo dela, Duda. Eu tenho ódio de estar sem você. A Sara está me deixando louco, a casa está um caos...

— Eu sinto tanta saudade... — Eduarda murmurou, e Emanuel podia imaginar o biquinho que ela fazia. — Aqui é tão frio, e a cama é dura. Eu sinto falta do seu cheiro, de como você me aperta... a tia Odete me faz rezar o terço três vezes por dia por causa dos "pecados da carne".

Emanuel soltou uma risada amarga.

— Se ela soubesse o que eu quero fazer com você agora, ela teria um AVC.

— Manu, não fala assim, eu fico com vergonha... — ela disse, voltando ao seu tom manhoso habitual. — Me espera? Por favor? Eu vou dar um jeito de convencer ela de que você é uma boa pessoa. Eu disse que você é um artista plástico respeitado internacionalmente e que as tatuagens são apenas "pinturas modernas".

— Pinturas modernas? — Emanuel bufou. — Eduarda, eu sou um tatuador premiado, não um decorador de interiores.

— É o único jeito dela não me trancar em um sótão! — Eduarda se desesperou. — Eu ouvi passos, tenho que desligar. Eu te amo, meu tatuado... tchau!

A ligação caiu. Emanuel olhou para o celular e sentiu uma vontade imensa de arremessá-lo contra a parede de vidro.

— O que a ratinha de biblioteca queria? — Sara perguntou, entrando no escritório com uma taça de vinho. Ela vira a expressão dele suavizar por um segundo durante a chamada e aquilo a corroía.

— Ela está sendo mantida como prisioneira por uma lunática — Emanuel disse, massageando as têmporas. — E a culpa é sua. Você não precisava ter ido lá com aquele vestido e aquela atitude.

— Ah, agora a culpa é minha? — Sara se aproximou, sentando-se no braço da cadeira dele e passando as unhas longas pelo pescoço tatuado dele. — Eu fui lá para te apoiar. Se aquela família é um bando de hipócritas que vivem de aparências, o problema não é meu. Eu sou real, Emanuel. Eu estou aqui. E eu estou cansada de ser a segunda opção enquanto você sofre por uma menina que não tem coragem de enfrentar uma tia de oitenta anos.

Sara inclinou-se e beijou-o com força, um beijo que exigia atenção, que reivindicava o território. Emanuel, exausto da solidão e da tensão, não a afastou de imediato, mas seu corpo estava rígido.

Enquanto isso, na fazenda, Odete entrou no banheiro sem bater.

— Com quem você estava falando, Eduarda? — a mulher perguntou, os olhos pequenos e inquisidores brilhando sob a luz fraca.

— Com ninguém, tia... eu estava apenas... rezando em voz alta — Eduarda mentiu, escondendo o celular dentro da toalha.

— Pois reze mais alto — disse a tia. — Porque amanhã o filho do meu vizinho, o Dr. Augusto, virá almoçar conosco. Ele é um advogado brilhante, de boa família, e não tem uma única mancha na pele ou na reputação. É de um homem assim que você precisa para esquecer aquele marginal e aquela mulher vulgar com quem ele vive.

Eduarda sentiu um frio na espinha. Ela conhecia aquele tipo de plano. A tia Odete não queria apenas "limpar" sua imagem; ela queria casá-la com alguém que pudesse controlar, afastando-a de Emanuel para sempre.

Naquela noite, Eduarda não conseguiu dormir. Ela olhava para o teto de madeira do quarto colonial e pensava em Emanuel. Pensava na forma como ele a olhava, como se ela fosse a coisa mais preciosa do mundo, e pensava em Sara, que apesar de tudo, era a mulher que estava lá, respirando o mesmo ar que ele.

Ela pegou o celular escondido e mandou uma última mensagem para Emanuel antes da bateria acabar:

"Manu, ela quer me apresentar para um advogado amanhã. Por favor, não faz nada louco, mas saiba que eu prefiro morrer a deixar outro homem me tocar. Eu sou sua. Só sua."

Quando Emanuel leu a mensagem na manhã seguinte, ele não gritou. Ele não quebrou nada. Ele apenas se levantou, vestiu sua jaqueta de couro e pegou as chaves do carro.

— Onde você vai com essa cara de quem vai matar alguém? — Sara perguntou, aparecendo no corredor, ainda de pijama.

— Vou buscar o que é meu, Sara — ele disse, a voz gelada como o aço de suas agulhas. — E se a tia dela tentar me impedir, eu vou mostrar para ela por que as pessoas têm medo de homens "marcados".

— Emanuel, você vai arruinar a família dela! — Sara gritou, mas ele já estava no elevador.

A viagem para o interior seria longa, mas Emanuel tinha uma determinação que beirava a insanidade. Ele não se importava com as dívidas do pai de Eduarda, com a influência de Odete ou com as convenções sociais. Ele queria sua menina manhosa de volta, e ele a teria, nem que precisasse carregar Eduarda nos ombros enquanto a fazenda ardia em chamas metafóricas atrás dele.

O império de Emanuel fora construído sobre dor e tinta, e ele estava pronto para derramar um pouco de ambos para garantir que sua paz — e seu caos — voltassem para casa. A guerra contra a tia Odete estava prestes a se tornar física, e Emanuel nunca perdia uma briga quando o prêmio era o coração de Eduarda.