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O Brilho da Discórdia
A joalheria no coração do bairro nobre era um santuário de silêncio, veludo e luzes estrategicamente posicionadas para fazer cada faceta de diamante gritar seu valor. Emanuel caminhava pelo local com a familiaridade de quem já era um cliente VIP. Ele estava ali para buscar um relógio de edição limitada que havia encomendado, um acessório robusto que combinava com sua imagem de empresário e tatuador de renome.
Ao seu lado, Sara parecia em seu habitat natural. Ela usava um vestido de seda verde-esmeralda que abraçava cada curva de seu corpo, e o som de seus saltos sobre o tapete espesso era a única coisa que quebrava a quietude solene do estabelecimento. Seus olhos loiros e atentos varriam as vitrines com uma fome voraz, catalogando preços e quilates com a precisão de uma calculadora.
— Manu, olhe aquela gargantilha de safiras — comentou ela, deslizando a mão pelo braço dele, as unhas longas e impecáveis roçando o tecido da jaqueta dele. — Ficaria perfeita para o jantar de gala da semana que vem. Você sabe que eu sou a cara dos seus estúdios naqueles eventos. Preciso brilhar para que os investidores vejam que estamos no topo.
Emanuel assentiu distraidamente, mas sua atenção foi capturada por uma figura ao fundo da loja, em uma sala de atendimento privativo cujas portas de vidro estavam entreabertas. Ele estreitou os olhos, reconhecendo a postura ereta e o perfil sereno de Roberto, o pai de Eduarda.
Roberto estava debruçado sobre o balcão, conversando em voz baixa com o mestre joalheiro da casa. Entre eles, sobre uma bandeja de camurça preta, repousava uma peça que parecia emitir uma luz própria, destoando de tudo o que Sara vinha cobiçando nas vitrines externas.
— Aquele não é o pai da Eduarda? — Sara perguntou, sua voz subindo um tom, carregada de uma curiosidade ácida.
Emanuel não respondeu. Ele caminhou em direção à sala privativa, impulsionado por um instinto que nem ele mesmo sabia explicar. Era uma mistura de curiosidade e uma pontada súbita de possessividade.
— Roberto? — Emanuel disse ao se aproximar da porta.
O pai de Eduarda virou-se, surpreso, mas manteve o sorriso polido que sempre exibia.
— Emanuel! Que coincidência encontrar você aqui. E olá, Sara.
— Olá, Roberto — disse Sara, seus olhos cravando-se imediatamente na bandeja sobre o balcão. — Que peça... interessante. É para a Helena?
Roberto riu suavemente, balançando a cabeça.
— Não, desta vez é para a minha pequena. A Eduarda vai se formar no semestre que vem, e como ela tem se esforçado tanto com aquela pesquisa exaustiva sobre História da Arte, decidi mandar fazer algo especial. É uma peça única, desenhada por um artista que ela admira.
Emanuel aproximou-se do balcão, sentindo um peso estranho no estômago. Sobre a camurça, brilhava um colar de platina de uma delicadeza extrema. O pingente era uma representação estilizada de uma flor de lótus, cujas pétalas eram feitas de diamantes brancos e rosados tão minúsculos que pareciam pó de estrela. No centro, uma pérola natural perfeitamente esférica brilhava com um lustre iridescente. Era uma joia que gritava pureza, fragilidade e um valor inestimável — exatamente como Eduarda.
— É linda — murmurou Emanuel, mas sua voz saiu mais tensa do que ele pretendia.
— Linda? É um escândalo — interrompeu Sara, aproximando-se tanto que quase tocou a peça. Sua expressão era de pura inveja disfarçada de admiração técnica. — Roberto, essa pérola deve ter custado uma fortuna. E o trabalho de cravação... nunca vi nada tão minucioso. É um desperdício para alguém que quase não sai de casa, não acha? A Duda é tão... discreta.
Roberto manteve a elegância, embora o brilho em seus olhos tenha esfriado um pouco.
— Exatamente por ser discreta é que ela merece algo que brilhe por ela, Sara. A Eduarda não precisa de joias chamativas para ser notada, mas precisa saber que o pai dela reconhece o valor da mulher que ela está se tornando.
Emanuel sentiu uma pontada de ciúmes que o atingiu como um soco. Ele era o homem da vida de Eduarda. Ele era o provedor, o protetor, o homem rico que podia comprar o que quisesse. Ver Roberto presenteando a filha com algo tão significativo e caro o fazia sentir-se subitamente em segundo plano. Ele queria ser o único a dar esse tipo de luxo a ela. Queria que cada grama de ouro que ela usasse fosse um lembrete do poder dele.
— Eu poderia ter ajudado com isso, Roberto — disse Emanuel, a voz rígida. — Eu conheço os melhores fornecedores de pedras do mundo. Poderia ter conseguido algo ainda mais exclusivo.
— Eu agradeço, Emanuel — Roberto respondeu com calma —, mas há coisas que um pai deve fazer sozinho. Este é um presente de família. Um símbolo do nosso orgulho.
Emanuel apertou o balcão com tanta força que os nós de seus dedos ficaram brancos. Ele sabia que era irracional. Sabia que Roberto tinha todo o direito de presentear a própria filha. Mas a ideia de Eduarda recebendo algo tão valioso de outra pessoa — mesmo que fosse o pai — o irritava. Ele queria que ela dependesse dele para tudo, desde a segurança emocional até os adornos de seu corpo.
Sara, percebendo a tensão de Emanuel e alimentando sua própria frustração por não ser ela a destinatária de tal obra-prima, resolveu cutucar a ferida.
— Pois é, Manu. Parece que a sua "princesinha" não precisa tanto de você quanto você pensa. Ela tem o papai para dar os diamantes, e tem a faculdade para dar as desculpas para não morar com você. No fim das contas, o que sobra para você? Pagar o jantar?
— Chega, Sara — Emanuel sibilou, lançando-lhe um olhar gélido que a fez recuar um passo, embora o sorriso cínico permanecesse em seu rosto.
Roberto recolheu a joia, pedindo ao joalheiro que a colocasse em uma caixa de veludo azul-marinho.
— Bom, eu já terminei por aqui. Emanuel, nos vemos no domingo? Helena está planejando um almoço.
— Estaremos lá — respondeu Emanuel, embora sua mente já estivesse em outro lugar.
Assim que Roberto saiu da loja, o silêncio na sala privativa tornou-se pesado. O joalheiro, percebendo o clima, retirou-se discretamente para buscar o relógio de Emanuel.
— Você viu aquilo? — Sara explodiu, cruzando os braços sobre os seios siliconados. — Aquela joia vale mais do que o faturamento de uma semana do estúdio de Paris! E para quê? Para a Eduarda usar enquanto lê livros velhos no sofá? Emanuel, isso é um insulto. Você gasta fortunas com ela, tenta dar tudo, e o pai dela vem e faz uma cena dessas.
— Eu disse para calar a boca, Sara — Emanuel repetiu, mas desta vez sua voz estava cansada, sobrecarregada pelo estresse que ele tentava controlar.
— Não me mande calar a boca! — ela retrucou, os olhos brilhando de raiva. — Eu estou aqui, trabalhando com você, cuidando da sua administração, sendo a mulher que as pessoas admiram ao seu lado. E o que eu ganhei hoje? Um relógio que você veio buscar para você mesmo. Enquanto isso, a santinha ganha uma peça de museu do papai. Você é cego? Eles estão te diminuindo, Emanuel. Estão mostrando que ela não precisa de você.
Emanuel virou-se para ela, sua presença física tornando-se imponente e ameaçadora.
— A Eduarda é minha namorada. O que o pai dela dá ou deixa de dar não muda o fato de que ela me pertence. Se eu estou irritado, é porque eu queria ter dado aquela joia. Eu queria que ela olhasse para aquele colar e lembrasse de mim, não de uma formatura.
— Então dê algo melhor! — provocou Sara. — Compre algo que faça aquele colar parecer bijuteria. Ou melhor ainda... faça ela escolher entre o que o papai quer e o que você quer.
Emanuel não respondeu. O joalheiro voltou com o relógio, mas o entusiasmo de Emanuel pela compra havia desaparecido completamente. Ele pagou a conta em silêncio, ignorando os comentários contínuos de Sara sobre como a peça de Roberto era "exagerada para o tipo físico da Eduarda".
Durante o trajeto de volta para o loft, o silêncio no carro era cortante. Emanuel dirigia com uma mão só, a outra massageando a têmpora. Ele estava tentando processar o ciúme irracional. Ele sabia que Roberto amava a filha, mas em sua mente possessiva, o amor de qualquer outra pessoa por Eduarda era uma competição. Ele queria ser o sol em torno do qual ela orbitava.
— Você vai ao almoço de domingo, não vai? — Sara perguntou, enquanto desciam do carro na garagem do prédio.
— Vou. E você também.
— Ah, eu não perderia por nada — ela sorriu, um plano já se formando em sua mente. — Quero ver a cara da Eduarda quando receber o presente. E quero ver se ela vai ter coragem de recusar a sua proposta de mudança depois de ganhar algo tão caro do pai. Afinal, se ela é "adulta" para ganhar diamantes, é adulta para morar com o namorado.
Emanuel entrou no loft e foi direto para o bar, servindo-se de uma dose generosa de uísque. Ele olhou para a vista da cidade através das grandes janelas de vidro. Em algum lugar naquela metrópole, Eduarda estava estudando, alheia à tempestade que se formava.
Ele pegou o celular e discou o número dela.
— Manu? — a voz dela veio suave, um pouco sonolenta, o que o fez relaxar os ombros por um segundo.
— O que você está fazendo, pequena?
— Lendo sobre o barroco italiano... minha cabeça está fritando. Por que sua voz está assim? Aconteceu algo?
Emanuel fechou os olhos, ouvindo a respiração dela.
— Nada. Só senti sua falta. Eu te vi hoje... ou melhor, vi seu pai.
Houve uma pequena pausa do outro lado da linha.
— Meu pai? No shopping?
— Na joalheria, Eduarda. Ele estava comprando o seu presente de formatura.
— Ah... — ela suspirou, e Emanuel pôde jurar que ela estava sorrindo. — Ele me disse que faria uma surpresa. Ele é tão fofo, não é? Ele sabe o quanto eu estou nervosa com o fim do curso.
— É — disse Emanuel, o tom de voz voltando a ficar rígido. — É muito generoso da parte dele. Mas eu também tenho algo para você, Duda. Algo que eu quero te dar no domingo.
— Manu, você não precisa me dar nada... o sapato do outro dia já foi demais...
— Eu decido o que é demais, Eduarda — ele a interrompeu, a autoridade voltando com força. — No domingo, depois do almoço, nós vamos conversar de novo sobre o loft. Eu não quero mais ouvir que você não está pronta. Se você pode aceitar joias de família, pode aceitar a vida que eu projetei para nós dois.
— Manu, por favor, não vamos brigar por telefone...
— Não estamos brigando. Estou apenas te avisando. Durma bem, pequena.
Ele desligou antes que ela pudesse responder. Emanuel sabia que estava sendo duro, mas a visão daquele colar de platina havia despertado nele uma urgência febril. Ele sentia que estava perdendo o controle sobre a narrativa da vida de Eduarda, e para um homem como ele, o controle era tão vital quanto o ar.
Sara apareceu na porta do escritório, usando apenas uma lingerie preta provocante, segurando uma taça de vinho.
— Você foi duro com ela — comentou ela, aproximando-se e sentando-se no braço da poltrona dele. — Gosto quando você fica assim. Dominante.
Emanuel olhou para ela, a luxúria e a irritação se misturando. Sara era fácil de entender. Ela queria poder, dinheiro e status. Ela era transparente em sua vulgaridade e em sua competência. Já Eduarda era um labirinto de emoções e recuos, uma criatura que ele sentia que precisava domar e proteger ao mesmo tempo.
— No domingo, Sara, eu quero que você se comporte — disse ele, puxando-a para perto pela cintura. — Não quero ataques gratuitos contra a Eduarda na frente dos pais dela.
— Eu serei um anjo, Manu — ela prometeu, beijando o pescoço dele. — Mas não posso prometer que não vou brilhar mais do que aquela pérola ridícula que o Roberto comprou.
Emanuel não respondeu. Ele a beijou com uma intensidade que beirava a agressividade, tentando afogar o pensamento de que, não importa quantas joias ele comprasse ou quantas ordens ele desse, o coração de Eduarda ainda parecia uma fortaleza que ele não conseguia invadir totalmente.
O domingo prometia ser um campo de batalha disfarçado de almoço em família. De um lado, o orgulho de um pai que queria premiar a filha; do outro, a obsessão de um namorado que não aceitava nada menos do que a devoção total. E no meio de tudo, Sara, pronta para incendiar o pavio da primeira oportunidade que surgisse.
Emanuel terminou seu uísque, sentindo o calor do álcool queimar sua garganta. Ele teria Eduarda morando naquele loft, nem que para isso tivesse que comprar cada centímetro da liberdade que ela tanto prezava. Se diamantes eram a linguagem que a família dela entendia, ele falaria essa língua até que não houvesse mais nada a ser dito.