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O Refúgio das Lembranças e as Sombras do Controle

A estrada que serpenteava em direção à propriedade rural da família de Emanuel era ladeada por jacarandás e ipês, cujas flores forravam o asfalto como um tapete natural. O ar condicionado do SUV de luxo trabalhava no máximo para combater o calor do interior, mas a tensão dentro do veículo era impossível de resfriar. Emanuel dirigia em silêncio, os dedos tamborilando no volante de couro. Ao seu lado, Sara usava óculos escuros de grife e um conjunto de linho que, apesar de caro, era curto demais para uma visita à sogra, exibindo as pernas bronzeadas e o brilho constante de suas joias.

No banco de trás, Eduarda parecia querer fundir-se ao estofado. Ela vestia um vestido de laise azul-claro, o cabelo castanho preso em uma trança lateral, e segurava um livro de poesias que não conseguia ler. A ideia de passar o fim de semana na casa de Dona Irene, a mãe de Emanuel, era seu único consolo diante das brigas recentes, mas a presença de Sara tornava tudo uma prova de resistência.

— Espero que sua mãe tenha reforçado o estoque de vinho, Manu — comentou Sara, retocando o batom enquanto se olhava no espelho do quebra-sol. — Esse clima de fazenda me dá uma sede terrível. E, sinceramente, não sei como você aguenta esse silêncio todo.

— Minha mãe gosta de sossego, Sara. E eu também, de vez em quando — Emanuel respondeu, a voz rouca. Ele olhou pelo retrovisor, buscando os olhos de Eduarda. — Tudo bem aí atrás, pequena?

— Tudo bem, Manu — Eduarda respondeu com um sorriso tímido. — Estou ansiosa para ver a Dona Irene. Ela me prometeu que íamos ver as mudas de orquídeas novas.

Sara soltou uma risada nasalada, sem desviar os olhos do espelho.

— Orquídeas. Que emocionante. Eu prefiro ver se a piscina está limpa. Preciso manter o bronzeado em dia, já que o trabalho no estúdio tem me deixado pálida.

Emanuel não respondeu. Ele entrou pelo portão de ferro forjado que ostentava o brasão da família. A casa de campo era uma construção colonial imponente, com varandas largas e redes preguiçosas balançando ao sabor do vento. Dona Irene já os esperava nos degraus da entrada. Era uma mulher de sessenta anos, elegante em sua simplicidade, com olhos que carregavam a mesma intensidade de Emanuel, mas temperados por uma sabedoria que o filho ainda não possuía.

Assim que o carro parou, Eduarda foi a primeira a descer. Ela correu para os braços de Irene, que a recebeu com um abraço genuíno e um beijo na testa.

— Que saudade, minha querida — disse Irene, afastando-se para olhar o rosto de Eduarda. — Você está um pouco pálida. Emanuel tem te deixado estudar demais?

— É só o cansaço do semestre, Dona Irene — Eduarda sorriu, sentindo-se finalmente segura.

Emanuel aproximou-se e beijou a mão da mãe, enquanto Sara descia do carro com um andar calculado, estendendo a mão para um cumprimento formal que Irene aceitou com uma cortesia educada, mas distante.

— Dona Irene, cada vez mais conservada — disse Sara, os olhos percorrendo a fachada da casa com um ar de avaliação. — Esse ar do campo realmente faz milagres, embora eu ainda prefira o spa da cidade.

— O campo exige outro tipo de beleza, Sara. Uma que vem de dentro — Irene respondeu com um sorriso enigmático. — Entrem, o café está servido na varanda.

O café da tarde foi um exercício de diplomacia armada. Sara falava incessantemente sobre os novos contratos de patrocínio que estava negociando para os estúdios, tentando reafirmar sua importância na vida profissional de Emanuel. Eduarda permanecia quieta, aceitando os pedaços de bolo de fubá que Irene lhe oferecia com um carinho quase maternal.

Emanuel observava as duas, sentindo o peso da responsabilidade. Ele amava a energia vibrante de Sara, a forma como ela não recuava diante de nenhum desafio, mas a doçura de Eduarda era o que o impedia de desmoronar sob o estresse. No entanto, a recusa de Eduarda em se mudar para o seu loft ainda era uma ferida aberta em seu ego.

— Emanuel me contou que você está quase terminando a faculdade, Eduarda — disse Irene, servindo mais café. — História da Arte é um caminho lindo.

— É sim, Dona Irene. Estou escrevendo minha tese agora. É difícil, mas sinto que estou encontrando minha voz.

— E por falar em encontrar voz — Sara interveio, limpando o canto da boca com o guardanapo de linho —, a Duda também está encontrando muitas desculpas para não morar com o Emanuel. Ele está reformando o loft inteiro, Dona Irene. Criou um espaço só para ela, e a princesinha prefere o quarto de solteira na casa dos pais. Não é um desperdício?

O silêncio que se seguiu foi desconfortável. Eduarda baixou os olhos para o prato, os dedos brincando com a borda da toalha de mesa. Emanuel sentiu a irritação crescer.

— Sara, não é o momento para isso — ele advertiu, o tom de voz ficando perigosamente baixo.

— Ora, Manu, sua mãe é família. Ela sabe que você está estressado com isso. Um homem na sua posição não deveria ter que implorar pela companhia da namorada.

Irene colocou a xícara sobre o pires com um estalo seco, mas calmo.

— O tempo de cada um é sagrado, Sara. Nem todo mundo tem pressa de queimar etapas. Emanuel, por que você não leva a Sara para ver as cocheiras? Sei que ela gosta de ver o que é caro e bem cuidado. Eu e a Eduarda vamos caminhar pelo jardim.

Emanuel entendeu o comando da mãe. Ele se levantou, oferecendo a mão para Sara, que aceitou com um sorriso vitorioso, achando que havia ganhado um aliado no namorado ao expulsar a rival da mesa.

No jardim, o aroma de jasmim e terra molhada envolvia as duas mulheres. Irene caminhava devagar, com as mãos entrelaçadas nas costas, enquanto Eduarda a seguia em silêncio.

— Ele está te pressionando muito, não está? — perguntou Irene, sem olhar para trás.

Eduarda suspirou, os ombros caindo.

— Ele quer que tudo seja do jeito dele, Dona Irene. Eu o amo, de verdade. Mas sinto que, se eu for para aquele loft agora, vou desaparecer. A Sara já está lá, ela ocupa todos os espaços com aquela personalidade dela... e o Emanuel... ele é como um furacão.

Irene parou diante de uma roseira e podou um galho seco com uma tesoura que levava no bolso do avental.

— Meu filho herdou a teimosia do pai, mas com uma dose extra de controle. Ele acha que, se tiver você sob o mesmo teto, poderá te proteger do mundo. O que ele não entende é que, às vezes, a proteção dele é o que mais sufoca.

— Eu só queria que ele esperasse eu me formar — Eduarda disse, a voz embargada. — Queria sentir que tenho algo meu antes de me tornar parte do mundo dele.

— E você está certa, querida. Não deixe que ele apague o seu brilho com a luz dele. Vou falar com ele.

Mais tarde, enquanto o sol se punha em tons de laranja e violeta, Irene encontrou Emanuel sozinho no escritório da fazenda, revisando alguns e-mails no celular. Ela entrou sem bater e sentou-se na poltrona à frente dele.

— Deixe esse aparelho de lado, meu filho. Quero falar com você.

Emanuel suspirou e bloqueou a tela, focando a atenção na mãe. Ele sabia que aquele tom de voz não admitia interrupções.

— Você está sendo injusto com a Eduarda, Emanuel.

— Injusto, mãe? Eu dou tudo a ela. Proteção, conforto, um futuro... eu só quero que ela esteja comigo. A Sara mora lá e as coisas funcionam. Por que com a Eduarda tem que ser esse drama constante?

— Porque a Eduarda não é a Sara — Irene respondeu de forma incisiva. — A Sara é uma mulher que já se moldou ao seu mundo. Ela gosta do barulho, da ostentação, da disputa de poder. A Eduarda é uma alma delicada. Ela precisa de raízes, não de correntes.

— Eu não estou acorrentando ninguém! — Emanuel exclamou, levantando-se e começando a andar pela sala. — Eu só quero a minha família reunida. É pedir demais que as duas mulheres que eu amo vivam sob o meu teto?

— É, se uma delas sente que vai ser engolida pela outra. Você já parou para pensar no que é para a Eduarda conviver vinte e quatro horas por dia com a agressividade da Sara? E com a sua necessidade de controlar cada passo dela?

Emanuel parou diante da janela, olhando para a escuridão que começava a tomar conta do campo.

— Eu só quero cuidar dela, mãe. O mundo é perigoso, as pessoas são cruéis. No meu loft, ela estaria segura.

— O namoro é assim mesmo, Emanuel. Cada um na sua casa, ou pelo menos deveria ser até que ambos estejam prontos. Você está tentando forçar uma maturidade nela que ela ainda está construindo. Tenha paciência. Se você continuar puxando a corda dessa forma, ela vai arrebentar. E você vai acabar perdendo a única coisa que te traz paz.

— A senhora acha que eu vou perdê-la? — a voz de Emanuel vacilou pela primeira vez.

— Acho que você está empurrando ela para longe enquanto pensa que está trazendo para perto. A Eduarda te ama, mas ela tem medo de você. E o amor não pode florescer onde há medo do controle. Deixe-a terminar a faculdade. Deixe-a morar com os pais. Valorize os momentos que vocês têm, em vez de sofrer pelos que você acha que deveria ter.

Emanuel ficou em silêncio por um longo tempo. As palavras da mãe ecoavam em sua mente como um lembrete incômodo de sua própria arrogância. Ele pensou nos olhos marejados de Eduarda no shopping, na forma como ela se encolhia quando Sara a atacava, e na maneira como ele mesmo a pressionava contra a parede com suas exigências de moradia.

— A Sara não facilita as coisas — ele murmurou.

— A Sara faz o papel dela. Ela é territorialista. Mas você é o homem da situação, Emanuel. É você quem define os limites. Se você quer as duas, terá que aprender a ser o equilíbrio, não o peso que desestabiliza a balança.

Irene levantou-se e caminhou até o filho, colocando a mão em seu ombro.

— Seja o porto seguro dela, não a tempestade. Tenha paciência. O tempo dela não é o seu, e você precisa respeitar isso se quiser mantê-la.

Emanuel beijou a testa da mãe, sentindo uma leveza estranha no peito.

— Obrigado, mãe. Eu vou tentar.

Naquela noite, o jantar foi mais calmo. Emanuel manteve a mão sobre a de Eduarda durante quase toda a refeição, ignorando os olhares de soslaio de Sara. Quando a noite caiu de vez e os grilos começaram seu concerto, ele chamou Eduarda para uma caminhada até o lago da propriedade.

A lua refletia na água parada, criando um espelho de prata. Eles caminharam em silêncio até o pequeno deque de madeira.

— Minha mãe conversou comigo — disse Emanuel, quebrando o silêncio.

Eduarda sentiu um frio na barriga, temendo que a conversa tivesse gerado mais pressão.

— E o que ela disse?

Emanuel parou e a virou para si, segurando seu rosto com as duas mãos. A luz da lua suavizava os traços rudes do tatuador, revelando o homem que se importava profundamente por trás da máscara de controle.

— Ela disse que eu sou um teimoso insuportável. E que eu estou te sufocando.

Eduarda soltou uma risada curta, surpresa com a honestidade dele.

— Ela não está totalmente errada, Manu.

— Eu sei. E eu quero te pedir desculpas, pequena. Eu fico cego pela vontade de ter você por perto o tempo todo. O loft parece vazio sem você, e a ideia de você estar na casa dos seus pais, sob as regras deles, me irrita porque eu sinto que não tenho o controle total da sua segurança.

— Mas eu não preciso de controle, Manu. Eu preciso de apoio.

— Eu sei disso agora. Vou parar de te pedir para morar comigo. Pelo menos por enquanto. Termine sua faculdade, faça suas pesquisas, more com seus pais o tempo que precisar. Eu vou estar aqui, esperando o seu tempo.

Eduarda sentiu as lágrimas subirem, mas desta vez eram de alívio. Ela se jogou nos braços dele, apertando-o com força.

— Obrigada, Manu. De verdade. Isso significa o mundo para mim.

Eles se beijaram, um beijo lento e cheio de uma promessa de renovação. No entanto, enquanto Emanuel a abraçava, ele viu uma sombra se movendo perto da casa. Era Sara, observando-os da varanda, com uma taça de vinho na mão e uma expressão que não indicava nenhuma intenção de trégua.

Emanuel sabia que a batalha interna entre suas duas vidas estava longe de terminar. Ele tinha dado um passo atrás para manter Eduarda, mas Sara não daria nenhum passo para trás em sua busca por domínio. O refúgio na casa de sua mãe tinha lhe dado clareza, mas a realidade da volta para a cidade, para os estúdios e para a convivência tripla ainda pairava sobre eles como uma nuvem carregada.

— Vamos entrar? — perguntou Eduarda, alheia à presença de Sara na varanda. — Está ficando frio.

— Vamos — disse Emanuel, passando o braço pelos ombros dela, protegendo-a do vento e, em sua mente, de tudo o mais que pudesse feri-la.

Ao subirem os degraus da varanda, passaram por Sara. Ela não disse nada, apenas deu um gole em seu vinho e sorriu para Emanuel — um sorriso que dizia que ela tinha ouvido a promessa de paciência dele e que estava disposta a testar cada segundo dela.

Emanuel apenas apertou Eduarda contra si, sentindo o perfume de baunilha que o acalmava. Ele tentaria seguir o conselho da mãe, tentaria ser o equilíbrio. Mas, no fundo de sua alma prática e racional, ele sabia que manter um império e dois amores tão opostos exigiria mais do que apenas paciência; exigiria uma força que ele ainda não tinha certeza se possuía. Por aquela noite, no entanto, o silêncio do campo foi suficiente para abafar o barulho das tempestades que viriam.