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O Veneno sob a Doçura
A luz da manhã filtrava-se pelas persianas automatizadas do loft, desenhando listras de ouro sobre o lençol de fios egípcios. Emanuel sentia o peso leve e morno de Eduarda sobre seu peito. Ela dormia com o rosto aninhado em seu pescoço, uma das mãos espalmada sobre o coração dele, como se estivesse reivindicando a posse de cada batimento. O cheiro de baunilha e pele jovem era quase entorpecente.
Emanuel tentou se mover para alcançar o celular na mesa de cabeceira, mas Eduarda soltou um murmúrio dengoso, apertando-o com mais força.
— Não vai, Manu... — sussurrou ela, a voz rouca de sono, os olhos ainda fechados. — Fica aqui só mais um pouquinho. Está tão frio lá fora e você é tão quentinho.
— Eu preciso trabalhar, pequena — disse ele, a voz suavizada por um instinto de proteção que só ela conseguia despertar. — Tenho uma reunião com os fornecedores de tinta de Berlim daqui a uma hora.
Eduarda abriu os olhos lentamente, aquelas orbes castanhas e úmidas que pareciam carregar toda a inocência do mundo. Ela se ergueu sobre os cotovelos, deixando que a alça da camisola de seda caísse pelo ombro, revelando a pele alva.
— O trabalho sempre vem primeiro — disse ela, fazendo um biquinho adorável e triste. — Eu achei que, agora que eu moro aqui, a gente ia ter manhãs de verdade. Mas você já quer fugir para os seus estúdios... e para a Sara.
Emanuel sentiu aquela pontada de culpa que Eduarda sabia manejar com a precisão de um cirurgião. Ele acariciou o rosto dela, descendo o polegar pelos lábios entreabertos.
— A Sara cuida da administração, Duda. Você sabe disso. Ela já deve estar lá embaixo revisando os contratos.
— Eu sei — Eduarda suspirou, deitando a cabeça novamente no peito dele, desenhando círculos imaginários em suas tatuagens. — Ela é tão eficiente, não é? Tão... profissional. Às vezes eu me sinto tão inútil aqui. Eu sou só a menina dos livros de arte, enquanto ela é a mulher que ajuda você a ganhar milhões.
— Você não é inútil — Emanuel rebateu prontamente, caindo na armadilha. — Suas sugestões para os novos designs de estilo neoclássico salvaram a coleção de inverno. Você tem um olhar que ninguém mais tem, pequena.
Eduarda ergueu o rosto, com um brilho tímido nos olhos.
— Você acha mesmo? — Ela se aproximou, roçando o nariz no dele. — Então... se meu olhar é tão importante, você podia me deixar cuidar de toda a curadoria artística dos novos estúdios de Madri, não podia? Eu andei estudando os murais espanhóis e tenho ideias que fariam os seus clientes chorarem de emoção.
— É uma responsabilidade grande, Duda.
— Eu sei. Mas eu faria com tanto carinho... — Ela começou a beijar o maxilar dele, subindo em direção à orelha. — Só que tem uma coisa, Manu... eu queria que fosse algo nosso. Só meu e seu. Eu não queria que a Sara desse palpites. Ela é tão prática, tão... agressiva com a arte. Ela ia querer transformar tudo em algo comercial e vulgar. Promete que nessa parte ela não se mete? Promete que essa vai ser a nossa pequena bolha de beleza?
Emanuel sentiu o calor do corpo dela contra o seu. O pedido, feito com aquela voz manhosa e submissa, parecia inofensivo, quase um apelo por proteção. Ele não percebeu que, ao concordar, estava entregando a Eduarda o controle sobre a única área que Sara ainda não dominava: a essência criativa do império.
— Está bem — murmurou ele, rendendo-se ao beijo dela. — Madri é sua, pequena. Eu aviso a Sara para não interferir na curadoria.
Eduarda sorriu contra a pele dele, um sorriso que Emanuel não viu, mas que carregava uma satisfação gelada. Ela o beijou com uma intensidade nova, manipulando o desejo dele até que a reunião com Berlim se tornasse uma preocupação distante.
***
Horas mais tarde, no andar de baixo, o clima era de uma paz armada. Sara estava na cozinha, usando um conjunto de academia que deixava pouco para a imaginação, bebendo um café forte enquanto revisava planilhas no tablet. Ela levantou os olhos quando Emanuel e Eduarda desceram.
Eduarda usava um de seus vestidos de algodão claro e trazia um livro de História da Arte sob o braço. Ela caminhava com uma timidez quase exagerada, escondendo-se levemente atrás do ombro de Emanuel.
— Bom dia, pombinhos — disse Sara, a voz carregada de um sarcasmo que era sua marca registrada. — A reunião com Berlim foi cancelada, Emanuel? Ou a cama estava mais interessante do que o faturamento do trimestre?
— Eu tive que resolver uns assuntos internos — Emanuel respondeu, sentando-se à mesa com uma expressão neutra. — E por falar nisso, Sara, a Eduarda vai assumir a curadoria artística total dos estúdios de Madri. Quero que você foque apenas na parte burocrática e financeira dessa unidade. A palavra final sobre estética é dela.
Sara paralisou com a xícara a caminho da boca. Seus olhos loiros e afiados dispararam em direção a Eduarda, que estava sentada ao lado de Emanuel, servindo-se de uma fatia de mamão com uma delicadeza angelical.
— Curadoria total? — Sara riu, uma risada seca. — Emanuel, Madri é o nosso maior investimento do ano. Você vai deixar na mão de alguém que nunca pisou em um estúdio para trabalhar de verdade? Ela sabe o que é custo de pigmento? Sabe o que é prazo de entrega de mobiliário técnico?
— Eu sei o que é arte, Sara — Eduarda disse, a voz baixa e trêmula, como se estivesse fazendo um esforço enorme para se defender. — O Manu confia em mim. Ele sabe que eu quero o melhor para ele. Eu só não quero que as coisas fiquem... pesadas. Arte precisa de leveza.
— Arte precisa de lucro! — Sara rebateu, batendo o tablet na mesa. — Emanuel, isso é ridículo. Você está deixando o seu ego ser massageado por essa carinha de santa e vai colocar milhões em risco.
— A decisão está tomada, Sara — Emanuel disse, o tom de voz subindo, sinalizando que a discussão estava encerrada. — Foque no seu trabalho e deixe a Eduarda fazer o dela. Eu quero paz nesta casa.
Sara bufou, levantando-se e saindo da cozinha com passos pesados. Eduardo, por sua vez, baixou os olhos, parecendo magoada.
— Desculpa, Manu... — murmurou ela, tocando a mão dele. — Eu não queria causar briga. Se você achar melhor, eu desisto de Madri. Eu não quero ser um problema entre você e ela.
— Não — Emanuel apertou a mão dela. — Você vai fazer Madri. E ela vai respeitar.
Eduarda deu um sorriso tímido, sentindo a vitória correr por suas veias. Ela sabia que, ao isolar Sara da parte criativa, estava tirando dela a conexão emocional com o trabalho de Emanuel. Sara agora era apenas a contadora; ela, Eduarda, era a alma.
***
À tarde, Eduarda anunciou que iria visitar os pais.
— Eu prometi para a mamãe que ia ajudar a organizar umas fotos antigas, Manu — disse ela, pegando sua bolsa pequena. — Não demoro, prometo.
— Quer que eu mande o motorista? — perguntou ele, sem tirar os olhos do computador.
— Não precisa, meu amor. Vou de Uber, quero sentir um pouco de liberdade. Volto logo para a gente jantar, está bem?
Emanuel assentiu. No início, ele apreciou o silêncio do loft. Sara tinha saído para uma reunião externa e ele pôde focar em seus desenhos. Mas, conforme as horas passavam, o silêncio começou a incomodá-lo.
Às seis da tarde, ele mandou a primeira mensagem: "Tudo bem aí, pequena?".
Eduarda respondeu dez minutos depois: "Tudo ótimo, Manu! Mamãe fez aquele bolo de cenoura que eu amo. Estamos conversando tanto... sinto sua falta!".
Às sete e meia, a irritação de Emanuel começou a aflorar. Ele odiava perder o controle sobre o paradeiro dela. Ele ligou. Ela não atendeu.
Sara chegou ao loft por volta das oito, encontrando Emanuel andando de um lado para o outro na sala de estar, o celular na mão.
— Ainda não voltou? — Sara perguntou, jogando as chaves no balcão e servindo-se de um uísque. — Que surpresa. A menina que "não estava pronta para morar aqui" parece que ainda sente muita falta do ninho dos pais. Ou talvez ela só esteja gostando de ver você nesse estado.
— Cala a boca, Sara — Emanuel rosnou.
Ele ligou novamente. Dessa vez, Eduarda atendeu no quarto toque.
— Oi, Manu... — a voz dela estava calma, quase etérea, com o som de risadas ao fundo.
— Onde você está, Eduarda? Já são oito horas. Eu disse que queria jantar com você.
— Ah, meu amor... desculpa. A conversa fluiu e eu acabei perdendo a noção do tempo. O papai abriu um vinho e estamos lembrando de quando eu era pequena.
— Eu quero você em casa agora — ele disse, a voz rígida, a possessividade transbordando. — Eu mando o carro te buscar.
— Não precisa, meu amor... — ela disse, com aquele tom manhoso que parecia um carinho, mas que era uma barreira intransponível. — Eu já estou me despedindo. Calma, meu amor, eu já vou para casa. Não fica bravo com sua pequena, fica? Eu estou morrendo de saudade do seu abraço.
Emanuel sentiu a raiva lutar contra a necessidade de ser o protetor dela.
— Vinte minutos, Eduarda. Nem um segundo a mais.
— Está bem, Manu... beijo.
Ele desligou o telefone e sentou-se no sofá, sentindo-se exausto. Sara, observando-o do bar, deu um gole no uísque e sorriu.
— Você é patético, Emanuel. Ela te manipula com esse jeito de criança e você acha que tem o controle. Ela sabe exatamente como te deixar louco. Ela te dá a "paz" que você quer, mas só nos termos dela.
— A Eduarda é sensível, Sara. Ela tem uma ligação forte com a família. Não é como você, que venderia a própria mãe por um contrato exclusivo.
— Pode ser — Sara deu de ombros, aproximando-se dele. — Mas eu sou a única que te diz a verdade. Ela está te cercando, Emanuel. Madri, o loft, o seu tempo... ela está te transformando em um satélite que orbita em volta das vontades dela. E o pior é que você gosta.
Emanuel não respondeu. Ele ficou olhando para a porta, esperando o som do elevador. Quando Eduarda finalmente chegou, quase quarenta minutos depois, ela entrou no loft com um sorriso doce e os olhos levemente brilhantes pelo vinho.
Ela ignorou Sara completamente e foi direto para os braços de Emanuel, aninhando-se em seu peito como se fosse o único lugar seguro no mundo.
— Desculpa a demora, meu amor... — sussurrou ela, as mãos subindo pela nuca dele, os dedos brincando com os fios curtos do cabelo dele. — O papai não queria me deixar vir. Ele diz que você me roubou deles. Mas eu disse que meu lugar é aqui. Com você.
Emanuel, que estava pronto para explodir em um sermão, sentiu a raiva derreter diante da fragilidade dela. Ele a apertou com força, aspirando o cheiro de baunilha que parecia ter sido substituído pelo leve aroma de vinho tinto.
— Eu não gosto que você demore — ele murmurou, a voz menos firme.
— Eu sei... eu prometo que vou ser uma boa menina — ela disse, puxando-o para um beijo lento e profundo, bem na frente de Sara.
Sara desviou o olhar, sentindo um gosto amargo na boca. Ela via a manipulação, via as cordas invisíveis que Eduarda estava amarrando no pescoço de Emanuel, mas via também que ele era um prisioneiro voluntário.
Naquela noite, enquanto Emanuel dormia o sono pesado de quem fora "recompensado" por sua paciência, Eduarda permaneceu acordada, observando o teto do loft. Ela sabia que Sara estava no quarto ao lado, remoendo a perda de poder sobre Madri. Sabia que os pais estavam satisfeitos por ela ainda ser a "filhinha querida" que os visitava. E sabia, acima de tudo, que Emanuel estava exatamente onde ela queria: preso entre a necessidade de protegê-la e o vício em sua doçura.
Ela se aconchegou mais ao corpo dele, um sorriso imperceptível surgindo em seus lábios. A timidez era sua armadura; a manha, sua arma. E no império de Emanuel, a pequena rainha de seda estava apenas começando a ditar as regras. Ela não precisava de gritos ou de planilhas para dominar; bastava um sussurro, um biquinho e a promessa de que, no fim da noite, ela sempre voltaria para casa. Porque agora, a casa de Emanuel era o seu tabuleiro, e ela não tinha intenção de perder nenhuma peça.