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O Brilho da Promessa e a Barganha de Platina
A manhã no loft de Emanuel começou com o som rítmico de Sara revisando planilhas de faturamento. Sentada à mesa de mármore, ela usava um robe de seda preta, os cabelos loiros impecavelmente presos, enquanto seus dedos ágeis digitavam no notebook. Emanuel, por outro lado, estava parado diante da imensa parede de vidro, observando o movimento da cidade lá embaixo. Ele segurava uma xícara de café preto, mas seu pensamento estava longe das cifras ou dos novos estúdios em Tóquio.
— Manu, os lucros do estúdio de Berlim subiram vinte por cento desde que implementamos o novo sistema de agendamento que eu sugeri — disse Sara, sem desviar os olhos da tela. — Eu sou um gênio, você deveria me dar um bônus. Ou talvez aquela bolsa da Prada que eu te mostrei ontem.
Emanuel soltou um suspiro pesado, o tipo de som que indicava que ele não tinha ouvido metade do que ela dissera.
— A Eduarda não atende o telefone de novo — murmurou ele, a voz carregada de uma irritação latente.
Sara parou de digitar e olhou para ele, um sorriso cínico curvando seus lábios.
— Deixe-me adivinhar: ela encontrou uma nova artesã que faz botões de madrepérola em alguma caverna esquecida por Deus? Manu, você deu corda para aquela aventura do vestido e agora ela acha que pode fazer o que quiser.
— Não é isso — Emanuel virou-se, os olhos estreitados. — Ela está obcecada com esse evento da galeria. Ela diz que o vestido de seda precisa de algo que "converse" com a alma da peça. Seja lá o que isso signifique.
— Significa que ela quer mais atenção — sibilou Sara, fechando o notebook com um estalo seco. — Enquanto eu estou aqui garantindo que seu império não desmorone, ela está brincando de boneca. E você, como sempre, cai no jogo dela.
Antes que Emanuel pudesse responder, seu celular vibrou sobre o balcão. O nome de Eduarda brilhou na tela. Ele atendeu no primeiro toque.
— Eduarda? Onde você está?
— Oi, Manu... — a voz dela veio suave, arrastada, naquele tom manhoso que ele sabia que precedia um pedido impossível. — Você está calmo? Eu preciso que você esteja muito, muito calmo para me ouvir.
Emanuel fechou os olhos, massageando as têmporas.
— O que você fez agora?
— Eu não fiz nada! Ainda. Mas eu descobri um ourives, Manu. O nome dele é Sr. Arnaldo. Ele trabalha com filigrana de platina. É uma técnica quase extinta. O ateliê dele fica em Serra Azul.
— Serra Azul? — Emanuel quase gritou. — Eduarda, isso fica a quatro horas daqui! É no meio das montanhas! Você não vai a lugar nenhum.
— Mas Manu, escuta... o vestido de seda da Dona Zuleica é tão delicado... se eu usar uma joia comum, de shopping, vai parecer grosseiro. O Sr. Arnaldo tem uma peça que parece tecida com luz de lua. Eu vi as fotos no catálogo antigo dele.
— Não, Eduarda. Definitivamente não. Da última vez você quase se perdeu em Vila Velha do Monte. Eu não vou passar por isso de novo. Peça para o seu pai te levar se for tão importante.
Houve um silêncio do outro lado da linha. Emanuel podia imaginar o biquinho nos lábios dela, os olhos começando a brilhar com aquela umidade que sempre o vencia.
— Meu pai não pode, Manu... ele está com uma entrega de projeto imensa. E a mamãe está em um congresso. Eu ia de ônibus, mas...
— Ônibus?! — Emanuel interrompeu, a fúria subindo. — Você não vai pisar em um ônibus para ir para uma serra isolada sozinha. Esqueça esse ourives. Eu te compro qualquer joia da Tiffany, da Cartier, o que você quiser.
— Eu não quero algo que qualquer pessoa rica possa comprar, Emanuel — ela disse, e pela primeira vez, o tom manhoso deu lugar a uma seriedade cortante. — Eu quero algo que tenha história. Algo que combine comigo.
Emanuel estava prestes a desligar quando ela soltou a bomba.
— Se você me deixar ir... ou melhor, se você me levar e me apoiar nisso... eu faço o que você tanto quer.
Emanuel paralisou. Ele sentiu o coração falhar uma batida.
— O que você quer dizer com isso?
— Se você me ajudar a terminar esse conjunto para a galeria... se você respeitar esse meu desejo de ter algo especial... eu me mudo para o seu loft na semana que vem. Definitivamente. Eu trago minhas coisas, Emanuel. Eu prometo.
O silêncio que se seguiu no loft foi absoluto. Até Sara, que fingia não ouvir, parou de beber seu suco verde, os olhos arregalados de surpresa e desdém.
— Você está falando sério? — a voz de Emanuel saiu num sussurro. — Sem mais desculpas? Sem "não estou pronta"? Sem horários para voltar para a casa dos seus pais?
— Sem nada disso — Eduarda respondeu, a voz agora doce e firme ao mesmo tempo. — Eu serei sua, Manu. No seu espaço. Mas eu preciso desse dia. Preciso sentir que você confia no meu gosto e que me apoia, mesmo quando parece loucura.
Emanuel olhou para Sara, que agora o encarava com uma expressão de puro ódio. Ele sabia que trazer Eduarda para morar ali seria o início de uma guerra civil dentro daquelas paredes de concreto, mas era o que ele mais desejava no mundo. Ter as duas sob seu controle, sob sua proteção, sob seu teto.
— Esteja pronta em vinte minutos — Emanuel ordenou. — Eu vou te buscar.
***
A viagem para Serra Azul foi longa. O SUV de Emanuel subia as estradas sinuosas com potência, mas o clima dentro do carro era de uma expectativa silenciosa. Eduarda ia no banco do passageiro, olhando para as montanhas com um brilho de excitação nos olhos. Ela usava um vestido de algodão simples e um cardigã leve, parecendo a antítese do luxo que Emanuel representava.
— Você tem consciência da promessa que fez, não tem? — Emanuel perguntou, sem desviar os olhos da estrada. — Eu não vou aceitar que você mude de ideia na segunda-feira.
— Eu sei, Manu — ela disse, esticando a mão para tocar o braço dele, os dedos pequenos roçando a pele tatuada. — Eu estou pronta. Só precisava sentir que eu tinha um lugar no seu mundo que não fosse ditado pela Sara ou pelo seu trabalho. Esse vestido, essa joia... são a minha forma de entrar na galeria como a sua mulher, e não apenas como um acessório tímido.
Emanuel apertou o volante. Ele raramente via esse lado assertivo de Eduarda. Geralmente, ela se escondia atrás da timidez, mas quando se tratava de estética e de seu próprio valor, ela tinha uma firmeza que o surpreendia.
— A Sara não vai facilitar as coisas para você lá no loft — ele avisou.
— Eu sei lidar com a Sara, Manu. Você é quem não sabe lidar com nós duas ao mesmo tempo. Mas se eu estiver lá, você não vai precisar ficar correndo de um lado para o outro. Eu serei seu refúgio.
Quando chegaram ao ateliê do Sr. Arnaldo, o lugar parecia parado no tempo. Era uma pequena casa de pedra com uma chaminé que soltava uma fumaça clara. O cheiro de metal fundido e ervas secas pairava no ar. O ourives, um homem de mãos trêmulas mas olhos aguçados, recebeu-os com uma reverência antiga.
Eduarda moveu-se pelo ateliê com uma graça que Emanuel raramente via. Ela discutiu quilates, pureza de platina e o "caimento" do metal com uma propriedade que deixou o tatuador impressionado. Ela não era apenas uma menina mimada em busca de brilho; ela era uma estudante de arte buscando a perfeição técnica.
— Veja, Manu — ela disse, apontando para um par de brincos e um colar que pareciam feitos de teias de aranha metálicas, cravejados com pequenos diamantes brutos. — É isso. É a alma do barroco moderno.
Emanuel olhou para o preço no catálogo e nem piscou. Ele teria pago o triplo se isso significasse ter Eduarda em sua casa.
— Leve o que precisar — disse ele, entregando o cartão de crédito negro ao velho ourives.
O processo de ajuste levou horas. Emanuel esperou pacientemente, observando Eduarda através do vidro da oficina. Ela parecia em paz. Havia uma satisfação silenciosa nela que o fazia sentir que, pela primeira vez, ele não estava comprando o amor dela, mas financiando a identidade dela.
***
A volta para a cidade foi feita sob o manto da noite. Eduarda segurava a caixinha de veludo como se fosse um tesouro sagrado. Ela estava encostada no ombro de Emanuel, o cansaço começando a transparecer em seus olhos.
— Feliz? — ele perguntou, beijando o topo da cabeça dela enquanto paravam em um sinal vermelho já perto da metrópole.
— Muito feliz, Manu. Obrigada por me ouvir.
— Lembre-se do nosso trato, pequena. Amanhã começamos a levar suas coisas.
— Eu sei. Já até separei as caixas. Meus pais estão tristes, mas eu disse a eles que é o que eu quero. Que eu preciso estar com você.
Quando Emanuel estacionou o carro em frente à casa de Eduarda para deixá-la, ele sentiu uma vitória que nenhum contrato de estúdio jamais lhe dera. Ele a beijou com uma possessividade renovada, sentindo que finalmente o quebra-cabeça de sua vida estava se completando.
No entanto, ao entrar em seu loft, o cenário era outro.
Sara estava sentada no sofá, com uma garrafa de vinho quase vazia à sua frente. Ela não estava mais com o robe de seda; vestia um conjunto de lingerie provocante e um salto alto, mas sua expressão era de puro veneno.
— Então, a barganha foi feita? — Sara perguntou, a voz levemente arrastada pelo álcool. — Quanto custou o silêncio da princesinha? Um colar de platina? Dois?
— Não comece, Sara — Emanuel disse, jogando as chaves sobre a mesa. — A Eduarda vai se mudar na segunda-feira. Acabou o vai e vem.
Sara levantou-se, caminhando até ele com uma elegância predatória. Ela parou a centímetros do peito dele, o cheiro de vinho e perfume caro o atingindo.
— Você acha que vai ser fácil, não é? Acha que pode colocar uma pomba e uma víbora na mesma gaiola e esperar que elas cantem juntas? Emanuel, você é um gênio com as agulhas, mas é um idiota com as pessoas.
— Eu dou conta de vocês duas — ele retrucou, segurando o queixo dela com firmeza. — Eu sou o dono desta casa. Eu sou o dono deste império. E se eu quero vocês duas aqui, vocês estarão aqui.
— Ela não vai aguentar uma semana — sibilou Sara, aproximando os lábios do ouvido dele. — Eu vou fazer da vida dela um inferno tão refinado que ela vai implorar para voltar para o quarto cor-de-rosa na casa do papai. E você... você vai acabar vindo para o meu quarto toda noite, porque a "pureza" dela vai te entediar em quarenta e oito horas.
Emanuel a empurrou levemente, mas a provocação de Sara encontrou eco em suas próprias inseguranças. Ele amava a paz de Eduarda, mas dependia do fogo de Sara. Ele queria o conforto de uma e a adrenalina da outra.
— Veremos — disse ele, caminhando em direção ao próprio quarto. — Mas se você encostar um dedo nela, ou se eu souber que você a humilhou, você perde seu cargo na administração no mesmo dia.
Sara soltou uma risada seca e sonora que ecoou pelo loft vazio.
— Você não me demitiria, Manu. Você precisa de mim para limpar sua sujeira e contar seu dinheiro. A Eduarda serve para ser olhada. Eu sirvo para fazer você ser quem é.
Emanuel fechou a porta do quarto, o silêncio finalmente se instalando. Ele deitou na cama e olhou para o teto. Na segunda-feira, sua vida mudaria para sempre. Ele teria a doçura de Eduarda e a vulgaridade de Sara sob o mesmo teto. Ele teria o controle total. Ou, como sua mãe o avisara na fazenda, ele teria o pavio curto de uma explosão iminente.
***
A segunda-feira chegou com um céu cinzento e uma chuva fina que lavava as ruas de São Paulo. Emanuel não enviou o motorista; ele mesmo foi buscar Eduarda. Ele queria presenciar o momento em que ela cruzaria o limite de sua antiga vida.
Roberto e Helena estavam na calçada, as expressões melancólicas. Havia quatro malas grandes e várias caixas com livros de arte. Eduarda parecia pequena entre seus pertences, mas havia uma determinação em seu olhar que Emanuel nunca vira.
— Cuide bem dela, Emanuel — disse Roberto, o tom de voz sendo um aviso claro. — Se ela chorar uma única vez por causa daquela mulher que vive com você, eu venho buscá-la e você nunca mais a vê.
— Ela estará segura, Roberto. Eu prometo — Emanuel respondeu, embora soubesse que a "segurança" que ele oferecia era relativa.
O trajeto até o loft foi feito em um silêncio quase solene. Eduarda olhava para as malas no banco de trás, talvez processando o peso da promessa que fizera. Quando o elevador privativo se abriu diretamente na sala de estar do loft, a realidade as atingiu.
Sara estava lá. Ela estava sentada na poltrona de couro, lendo uma revista de moda, usando um vestido vermelho que parecia um grito de guerra. Ela não se levantou. Apenas baixou a revista e olhou para as malas de Eduarda como se fossem lixo acumulado.
— Bem-vinda ao hospício, querida — disse Sara, com um sorriso que não chegava aos olhos. — Espero que suas malas não ocupem muito espaço. Eu acabei de reorganizar o closet e, sinceramente, não sobrou muito lugar para roupas de... como dizer... estudante?
Eduarda respirou fundo. Ela olhou para Emanuel, que estava parado entre as duas, as mãos nos bolsos, observando a primeira colisão.
— Eu não ocupo muito espaço, Sara — disse Eduarda, a voz calma e surpreendentemente firme. — E o que eu ocupo, o Emanuel já me garantiu que é meu por direito.
Emanuel sentiu uma onda de orgulho, mas também de apreensão. Ele caminhou até Eduarda e colocou a mão em seu ombro.
— Leve suas coisas para o quarto de hóspedes por enquanto, Duda. Eu vou te ajudar com as caixas de livros.
— Quarto de hóspedes? — Sara riu. — Que romântico. Onde os indesejados ficam.
— Sara, chega! — Emanuel rosnou.
Eduarda não se abalou. Ela caminhou até a mesa onde Sara estava e colocou a caixinha de veludo do ourives sobre o mármore. Ela a abriu, revelando a joia de platina e diamantes brutos. O brilho da peça, sob a luz dicroica do loft, era hipnotizante.
— O Emanuel me deu isso como um presente de boas-vindas — mentiu Eduarda, olhando fixamente para Sara. — Ele disse que eu precisava de algo que combinasse com a nova fase da minha vida. É platina pura, Sara. Diferente do ouro comum que você gosta, a platina não perde o brilho, não importa o quanto seja testada.
Sara empalideceu levemente, os olhos cravados na joia que ela sabia valer uma fortuna. Ela olhou para Emanuel, buscando uma negação, mas ele apenas manteve o rosto neutro, embora estivesse surpreso com a audácia de Eduarda.
— É... bonitinha — Sara conseguiu dizer, embora sua voz tivesse falhado por um milésimo de segundo.
— É mais do que bonitinha — Emanuel interveio, aproximando-se. — É única. Assim como a Eduarda estar aqui agora.
Ele pegou as malas e começou a levá-las para o corredor. Eduarda o seguiu, mas antes de desaparecer, ela lançou um último olhar para Sara. Não era um olhar de ódio, mas de uma paciência infinita — a paciência de quem sabe que o jogo está apenas começando.
Naquela noite, o loft de Emanuel estava mais silencioso do que nunca, e ao mesmo tempo, mais barulhento de tensões não ditas. Emanuel jantou entre as duas. Sara falava sobre números, tentando reafirmar sua utilidade. Eduarda falava sobre o vestido e a galeria, reafirmando sua presença estética.
Emanuel sentia-se como um rei em um trono instável. Ele tinha a eficiência e o sexo de Sara. Ele tinha a doçura e a alma de Eduarda. Ele tinha o controle que sempre desejou, mas ao olhar para as duas mulheres à sua mesa, ele percebeu que o preço daquela convivência civilizada seria uma vigilância eterna.
Eduarda cumpriu sua promessa. Ela estava lá. Ela era dele. Mas, ao ver o brilho da platina refletido nos olhos ambiciosos de Sara, Emanuel soube que a joia de Eduarda não era apenas um adorno para o vestido de seda; era a armadura que ela usaria para sobreviver ao labirinto que ele mesmo havia construído. A rédea estava solta, mas o caminho era perigoso, e o evento na galeria seria o teste de fogo para o seu império de papel e pele.