D
O Peso da Ausência e o Miado do Descontentamento
Oito meses haviam se passado desde a viagem ao Ceará, e o império de Emanuel não parava de crescer. O ritmo era frenético: novos estúdios em Londres e Tóquio, uma linha de tintas exclusivas e a gestão de uma marca que agora era sinônimo de luxo no mundo da modificação corporal. No centro desse furacão logístico estava Sara. Ela não era apenas a namorada que morava com ele; ela se tornara seu braço direito indispensável.
Emanuel observava Sara através do vidro de seu escritório particular. Ela estava na sala de reuniões, gesticulando com unhas impecáveis enquanto explicava a planilha de custos para os contadores. Usava um terninho branco ajustado, sem nada por baixo, exalando uma autoridade vulgarmente elegante que só ela possuía. Ele sentia um orgulho genuíno. Sara era prática, rápida e não exigia explicações duas vezes. O amor que sentia por ela era sólido, forjado na parceria e na adrenalina do sucesso.
Entretanto, o silêncio do escritório o fazia pensar na outra ponta de sua vida. Eduarda.
Se Sara era o motor que fazia a máquina girar, Eduarda era o óleo que impedia as peças de Emanuel de entrarem em colapso por atrito. Mas, ultimamente, esse óleo parecia estar ficando retido na prateleira.
Emanuel suspirou, pegando o celular. Eles haviam planejado um dia inteiro em um parque de diversões temático que acabara de inaugurar nos arredores de São Paulo. Seria um evento: ele, as duas namoradas, os amigos tatuadores e a comitiva de amigas barulhentas da Sara. Ele precisava desse respiro. Queria ver Eduarda rindo em um carrossel, sentindo o vento no rosto, agarrada ao seu braço com aquele jeito manhoso que o fazia sentir o homem mais poderoso do mundo.
A porta do escritório se abriu e Sara entrou, jogando uma pasta sobre a mesa e sentando-se no colo dele sem pedir licença.
— Os números de Tóquio subiram 15% este mês, querido — disse ela, selando os lábios dele com um beijo com gosto de gloss de cereja. — Eu sou um gênio, admita.
— Você é incrível, Sara. Eu não sei o que faria sem você na administração. — Emanuel apertou a cintura dela, sentindo a firmeza de suas curvas.
— Eu sei. Por isso, mereço muita diversão amanhã. Minhas amigas já compraram os looks. Vai ser icônico. A "bonequinha" já confirmou se vai conseguir sair da saia da mamãe? — O tom de Sara era o de sempre: uma ironia ácida, mas sem o veneno mortal de outrora. Ela aceitara Eduarda como um "mal necessário" para a felicidade de Emanuel, desde que ela continuasse sendo a rainha do castelo.
— Vou ligar para ela agora — respondeu Emanuel, sentindo uma pontada de ansiedade.
Ele discou o número. Eduarda atendeu no terceiro toque. A voz dela soava chorosa, o que imediatamente ativou o modo de alerta de Emanuel.
— Manu... — O fungar do outro lado da linha partiu o coração dele.
— O que aconteceu, Duda? Você está bem? Alguém te machucou?
— É o Frederico, Manu... Ele está muito mal. Eu levei ele ao veterinário e o doutor disse que o fígado dele está sobrecarregado por causa do peso. Ele não consegue nem levantar para ir à caixinha de areia... Eu não posso deixar ele sozinho, ele está miando tão baixinho, parece que está sofrendo.
Emanuel fechou os olhos e massageou as têmporas. Frederico era o gato de Eduarda, um felino enorme, de pelagem cinza, que mais parecia uma almofada de luxo do que um animal de estimação.
— Duda, eu entendo que o gato está doente. Mas nós planejamos isso há semanas. Seus pais não podem ficar com ele?
— Meus pais saíram, Manu! Você sabe como eles são. Foram para aquele festival de jazz em Paraty e só voltam na segunda. Eu estou sozinha com ele. Ele precisa tomar o remédio de quatro em quatro horas e eu tenho que ajudar ele a se posicionar. Eu não posso ir, meu amor... Por favor, não fica bravo com a sua pequena.
Emanuel sentiu a irritação subir como uma maré quente. Não era raiva do gato — ele até gostava do bicho, apesar de achá-lo um tanto inútil —, mas era a frustração acumulada.
— Eduarda, nós quase não nos vemos. Você estuda o dia todo, mora longe, se recusa a vir para cá definitivamente e, quando temos um dia inteiro juntos, acontece isso?
— Você está sendo insensível! — A voz dela subiu um tom, carregada de emoção. — Ele é minha família! Se eu estivesse doente, você me deixaria sozinha para ir a uma montanha-russa?
— É um gato, Eduarda! Um gato obeso! — Emanuel exclamou, esquecendo-se por um momento de Sara, que assistia a tudo com um sorriso de canto de boca, bebendo um café.
— Para mim, ele é importante! — Eduarda começou a soluçar. — Se você não consegue entender o meu amor pelo Frederico, talvez você não entenda nada sobre mim. Eu vou desligar, o soro dele está acabando.
O sinal de chamada encerrada ecoou no ouvido de Emanuel como um insulto. Ele jogou o celular sobre a mesa de carvalho.
— Problemas no paraíso das fadas? — Sara perguntou, levantando-se e caminhando até o barzinho do escritório para se servir de uma água tônica. — Deixa eu adivinhar: a vovó ficou gripada? O pneu da bicicleta furou? Ou ela simplesmente percebeu que não tem roupa para andar com gente grande?
— O gato está doente — rosnou Emanuel. — Frederico. O gato obeso.
Sara soltou uma gargalhada alta, genuína, jogando a cabeça para trás.
— Um gato! Ela está trocando você, o dono de metade das tatuagens desta cidade, por um saco de pelos com colesterol alto? Emanuel, querido, você realmente tem um gosto peculiar para mulheres. Uma te ajuda a faturar milhões, a outra te troca por um felino com insuficiência hepática.
— Chega, Sara. Não ajuda.
— Eu estou ajudando! Estou mostrando a realidade. Eu vou estar lá amanhã, linda, gostosa e pronta para te fazer esquecer que essa menina existe. Se ela quer ser a enfermeira de pets, deixe-a. Mas não desconte o seu mau humor em mim.
Emanuel não respondeu. Ele saiu do escritório, pegou as chaves do seu carro e dirigiu até a casa dos pais de Eduarda. Ele precisava olhar para ela. Precisava entender se aquela resistência em estar com ele era realmente sobre o gato ou se era o abismo entre os mundos deles que estava ficando largo demais.
A casa dos pais de Eduarda era em um bairro arborizado, uma construção moderna com grandes janelas de vidro. Os pais dela, um casal de arquitetos de quarenta e poucos anos, eram o oposto do que Emanuel esperava de "sogros". Eram jovens de espírito, usavam roupas de linho, ouviam vinis e tratavam a relação poliamorosa de Emanuel com uma naturalidade que às vezes o desconcertava.
Ele estacionou e entrou. A porta estava encostada.
No meio da sala, sobre um tapete felpudo, Eduarda estava sentada no chão. Ela usava um pijama de flanela com estampas de ursinhos e o cabelo estava preso em um coque bagunçado. À sua frente, o imenso gato cinza estava deitado sobre um travesseiro ortopédico, com um pequeno acesso na pata dianteira.
Eduarda passava um pano úmido na testa do gato, sussurrando palavras de conforto. Quando viu Emanuel na porta, seus olhos se encheram de lágrimas novamente, mas ela não se levantou.
— Você veio brigar comigo pessoalmente? — perguntou ela, a voz pequena.
Emanuel caminhou até ela e se agachou, sentindo o peso do estresse nos joelhos. Ele olhou para o gato. Frederico parecia realmente abatido, os olhos amarelados opacos.
— Eu não vim brigar, Duda. Eu só... eu fico frustrado. Sinto que estou sempre em segundo plano. Primeiro são seus pais, depois a faculdade, agora o Frederico.
— Não é segundo plano, Manu — ela disse, pegando a mão dele e levando-a até o seu rosto, buscando o calor da palma dele. — É responsabilidade. Eu amo você, mas eu não posso ser como a Sara. Eu não consigo simplesmente ignorar as coisas que precisam de mim para focar só no que é divertido ou lucrativo. O Frederico não tem ninguém além de mim.
— Você tem a mim — ele disse, a voz ficando mais rouca. — Por que você ainda mora aqui? Se estivesse na minha casa, eu teria trazido o melhor veterinário do país para cuidar dele lá. Teríamos enfermeiros. Você não precisaria abrir mão de nada.
Eduarda baixou o olhar.
— Porque na sua casa, Manu, tudo é seu. A Sara é sua, os móveis são seus, as regras são suas. Aqui, eu ainda sou a Eduarda. Se eu mudar para lá agora, com você tão irritado porque eu não sou "prática" como você quer, eu vou acabar virando apenas um acessório. E eu sou sensível demais para ser um acessório.
Emanuel sentiu um nó na garganta. Ele queria retrucar, queria usar a lógica que Sara tanto admirava, mas o jeito que Eduarda o olhava — como se ele fosse seu mundo, mas um mundo perigoso — o desarmava.
— Eu sinto falta de você — ele confessou, a rigidez de seus ombros cedendo.
— Eu também sinto. — Ela se inclinou e encostou a testa na dele. — Vai com a Sara amanhã. Aproveita com seus amigos. Eu vou ficar aqui cuidando do meu gordinho. E, quando ele estiver melhor, eu prometo que passo o fim de semana inteiro grudada em você, fazendo tudo o que você quiser.
— Tudo? — Ele esboçou um sorriso fraco.
— Tudo, meu urso... — Ela fez um biquinho manhoso e o beijou suavemente. — Mas agora, me ajuda a trocar a fralda dele? Ele não consegue levantar.
Emanuel, o homem que comandava centenas de funcionários e era respeitado em convenções internacionais de tatuagem, viu-se segurando as patas traseiras de um gato de dez quilos enquanto sua namorada trocava uma fralda geriátrica adaptada. Se Sara visse aquela cena, ela riria por uma década.
***
No dia seguinte, o sol brilhava forte sobre o parque de diversões. O clima era de euforia. Sara estava deslumbrante em um conjunto de top e minissaia de couro sintético rosa choque, cercada por três amigas que pareciam saídas de um videoclipe de pop. Elas bebiam coquetéis coloridos e tiravam selfies a cada passo.
Emanuel estava com seu grupo de amigos, homens grandes e tatuados que contrastavam com a estética vibrante do parque. No entanto, sua mente estava longe. Ele checava o celular a cada dez minutos.
— Dá para largar esse aparelho? — Sara disse, aproximando-se e passando o braço pelo pescoço dele. — Você está aqui fisicamente, mas sua alma está lá na troca de fraldas felinas. Credo, Emanuel, tenha um pouco de dignidade.
— Eu só estou vendo se ela precisa de algo, Sara.
— Ela precisa de um psicólogo e de uma ração light, isso sim. — Sara deu um gole em seu drink e olhou para as amigas, que riam de algo no celular. — Escuta, eu sei que você gosta daquele jeito "vulnerável" dela. Faz você se sentir o grande protetor, o macho alfa. Mas olha ao seu redor. Olha o que construímos. Você precisa de energia, não de alguém que te puxa para o chão toda vez que um bicho de estimação espirra.
— A Eduarda não me puxa para o chão, Sara. Ela é o meu chão — Emanuel respondeu, surpreendendo a si mesmo com a firmeza da frase.
Sara arqueou uma sobrancelha perfeitamente desenhada. O sarcasmo sumiu de seu rosto por um breve segundo, dando lugar a uma expressão de avaliação fria.
— O chão é onde as pessoas pisam, Emanuel. Eu sou o seu céu. É para cima que você deveria estar olhando.
Ela se afastou, voltando para o círculo de amigas, deixando-o sozinho com seus pensamentos.
Emanuel olhou para a montanha-russa à frente. O carrinho subia lentamente, acumulando energia potencial antes da queda inevitável. Ele se sentia exatamente assim. Ele amava Sara pela sua força, pela sua competência e pela forma como ela desafiava o mundo. Mas ele amava Eduarda pela sua fragilidade, pela sua humanidade e pela forma como ela o obrigava a parar e sentir, em vez de apenas executar.
Seu celular vibrou. Uma foto.
Era Eduarda, deitada no tapete ao lado do gato Frederico. O gato parecia um pouco mais alerta, com a cabeça apoiada no braço dela. Eduarda sorria para a câmera, mas seus olhos estavam inchados de sono. A legenda dizia: "Ele comeu um pouquinho hoje! Estamos mandando beijos para o papai Manu. Divirta-se por nós."
Emanuel sentiu uma onda de ternura que quase o sufocou. Ele olhou para Sara, que agora estava no topo de um brinquedo, gritando de alegria e jogando os braços para o alto, a personificação da liberdade e do descompromisso.
Ele percebeu que nunca teria o controle total que desejava. Ele nunca teria as duas morando juntas em perfeita harmonia, porque elas habitavam dimensões diferentes de sua alma. Sara era a sua realidade pública, o seu sucesso, o fogo que o mantinha aquecido. Eduarda era a sua vida privada, o seu segredo, a água que o impedia de queimar até as cinzas.
— Emanuel! Vem logo! — Sara gritava lá de cima. — A queda vai começar!
Ele guardou o celular no bolso e caminhou em direção ao brinquedo. Ele viveria aquele momento com Sara, entregaria a ela a adrenalina que ela exigia. Mas, em seu íntimo, ele já estava contando as horas para voltar para a casa silenciosa, para o cheiro de lavanda e para o peso de uma responsabilidade que não rendia lucro nenhum, mas que o mantinha humano.
O carrinho da montanha-russa despencou. O vento açoitou seu rosto e o grito de Sara preencheu seus ouvidos. Por um instante, o controle realmente sumiu. E, estranhamente, Emanuel não se importou. Ele tinha o céu e tinha o chão. O problema era apenas o cansaço de tentar estar nos dois lugares ao mesmo tempo.