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O Sal da Pele e o Gosto do Negócio

As semanas seguintes ao episódio do gato Frederico foram marcadas por uma trégua silenciosa, mas carregada de uma tensão que Emanuel sentia vibrar no ar toda vez que as duas mulheres de sua vida cruzavam o mesmo ambiente. O Beach Park tinha sido um teste de resistência, e a rotina em São Paulo não era diferente. Emanuel sentia-se como um mediador de um conflito internacional onde uma das partes usava sarcasmo como arma nuclear e a outra usava o silêncio e a carência como tática de guerrilha.

Naquela manhã de sábado, o sol de São Paulo estava atipicamente generoso. Emanuel havia planejado um almoço de negócios que, na verdade, era um encontro social estratégico. Ele e Sara receberiam um casal de amigos de longa data: Ricardo, um investidor imobiliário que estava ajudando Emanuel a encontrar o ponto perfeito para o novo estúdio nos Jardins, e sua esposa, Letícia.

— Emanuel, você viu onde deixei meu batom nude da Chanel? — A voz de Sara ecoou do closet, vindo acompanhada do som de saltos batendo contra o piso de madeira.

Emanuel estava terminando de dar o nó em sua gravata, embora estivesse apenas de camisa social e calça de alfaiataria, mantendo o estilo sério que o sucesso lhe impusera.

— Deve estar na bolsa que você usou ontem, Sara. Você trocou três vezes de acessório antes de sairmos.

Sara apareceu na porta do quarto, deslumbrante em um vestido de linho bege, justo o suficiente para mostrar que cada centavo investido em seu corpo valia a pena, mas elegante o bastante para um almoço de negócios. Ela segurava o batom com um sorriso vitorioso.

— Achei. Hoje preciso estar impecável. A Letícia é uma víbora quando o assunto é aparência, e o Ricardo só fecha contratos se sentir que está lidando com gente do mesmo nível estético.

Emanuel aproximou-se e envolveu a cintura dela, sentindo o perfume caro e marcante.

— Você está perfeita. Como sempre.

— Eu sei — ela respondeu, dando-lhe um selinho rápido. — E a Eduarda? Ela finalmente entendeu que hoje é um dia de adultos ou ainda vai ligar chorando porque o gato espirrou?

Emanuel soltou um suspiro pesado, soltando-a.

— Ela foi para o Guarujá com as amigas da faculdade. Um grupo de meninas da História da Arte. Ela disse que precisava de um tempo para "respirar" e ver o mar.

Sara soltou uma risadinha anasalada enquanto retocava os lábios diante do espelho.

— Respirar? Ela mora em uma bolha de algodão-doce, Emanuel. O que ela precisa é de um choque de realidade. Mas fico feliz que ela tenha ido. Menos uma distração para você hoje. Ela ia ficar num canto, com aquela cara de quem foi obrigada a ler um dicionário, enquanto nós falamos de milhões.

Emanuel não defendeu Eduarda. No fundo, ele sentia uma pontada de irritação por ela ter escolhido viajar justamente no fim de semana em que ele queria que ela estivesse por perto, talvez para provar a Sara que Eduarda também podia ser uma presença social. Mas Eduarda era avessa a essas formalidades. Ela preferia o pé na areia, o cabelo bagunçado pelo sal e a liberdade de não ter que impressionar ninguém.

***

Enquanto o carro de Emanuel deslizava em direção ao restaurante de luxo no Itaim Bibi, a quilômetros dali, Eduarda sentia o sol queimar suavemente seus ombros. Ela estava sentada em uma canga colorida na Praia das Astúrias, cercada por livros de teoria da arte e cadernos de desenho. Suas amigas riam e bebiam cerveja gelada, mas Eduarda estava em seu próprio mundo.

— Duda, para de olhar esse celular! — exclamou Bia, sua melhor amiga. — O Emanuel não vai sumir se você ficar duas horas sem responder.

— Eu sei, Bia... — Eduarda guardou o aparelho na bolsa de palha, fazendo um biquinho. — É que ele fica tão tenso com esses almoços de negócios. Eu queria estar lá para acalmar ele, mas ao mesmo tempo... eu me sinto tão pequena perto daquelas pessoas que a Sara frequenta.

— Você não é pequena, você é real — Bia disse, sentando-se ao lado dela. — A Sara é uma boneca de plástico que o Emanuel usa para assinar contratos. Você é quem ele procura quando precisa de um abraço. Relaxa, aproveita o mar.

Eduarda sorriu, mas sua mente viajou para o restaurante. Ela imaginou Emanuel sentado à cabeceira, sério, controlador, e Sara ao seu lado, brilhando como um troféu. Uma insegurança familiar apertou seu peito. "Será que um dia ele vai se cansar da minha simplicidade?", pensou.

***

O almoço no restaurante transcorria exatamente como Sara previra. O vinho era excelente, a comida era autoral e a conversa fluía entre projeções de mercado e fofocas da alta sociedade paulistana.

— Então, Emanuel — Ricardo disse, cortando um pedaço de seu bife wagyu —, o ponto na Oscar Freire é seu se você assinar até segunda. Mas eu preciso de uma garantia de que a administração vai ser tão impecável quanto a dos seus estúdios na Europa.

— Você sabe que eu não brinco em serviço, Ricardo — Emanuel respondeu, sua voz firme transmitindo a autoridade que o tornara rico aos 25 anos.

— E ele tem a mim — Sara interveio, inclinando-se para frente, deixando o decote propositalmente em evidência enquanto exibia um sorriso profissional. — Eu já fiz o levantamento de fluxo de caixa para os primeiros dezoito meses. O ROI é garantido.

Letícia, a esposa de Ricardo, observava Sara com um olhar clínico.

— Você é muito eficiente, Sara. É raro ver uma mulher tão dedicada aos negócios do parceiro. E a outra? A moça mais jovem... como é o nome dela? Eduarda?

O clima na mesa mudou instantaneamente. Emanuel sentiu os músculos das costas retesarem. Sara manteve o sorriso, mas seus olhos brilharam com uma faísca de malícia.

— Ah, a Duda... — Sara disse, fazendo um gesto vago com a mão. — Ela é uma fofa. Está na praia hoje com as amiguinhas da faculdade. Ela estuda História da Arte, sabe? É muito... lúdica.

— História da Arte? — Letícia arqueou uma sobrancelha. — Que interessante. Mas ela ajuda o Emanuel em algo prático?

— Ela ajuda ele a relaxar — Sara disparou, o tom carregado de uma ironia fina que só quem a conhecia bem conseguia identificar como um insulto. — Ela é o nosso "suporte emocional". Enquanto eu cuido das planilhas e dos investidores, ela cuida para que o Emanuel não esqueça como é ser um adolescente sem preocupações.

Emanuel apertou o copo de cristal com mais força do que o necessário.

— A Eduarda é muito inteligente, Letícia — ele disse, sua voz soando como um trovão baixo. — Ela tem uma visão sobre estética e simbolismo que muitos dos meus tatuadores não têm. Ela não é apenas "suporte emocional".

— Claro, querido, ninguém disse o contrário — Sara retrucou, tocando o braço dele com as unhas compridas. — Só estamos dizendo que cada uma tem o seu papel. Eu sou a estrutura, ela é o enfeite. E está tudo bem, não está? Você sempre diz que gosta desse equilíbrio.

Ricardo riu, tentando aliviar a tensão.

— Bom, se o equilíbrio funciona para você, quem sou eu para julgar? Mas confesso, Emanuel, que não sei como você aguenta. Eu mal consigo lidar com uma Letícia, imagine com duas personalidades tão opostas.

— É uma questão de controle — Emanuel respondeu, embora sentisse que, naquele momento, o controle estava escorregando por entre seus dedos.

***

No Guarujá, o final da tarde trazia um céu alaranjado. Eduarda caminhava pela beira da água, deixando as ondas molharem seus pés. Ela decidiu ligar para Emanuel. Precisava ouvir a voz dele, precisava de um pouco daquela segurança que só ele passava.

O celular de Emanuel vibrou no bolso bem no momento em que o garçom servia o café. Ele pediu licença e se afastou da mesa, indo para um canto mais reservado do restaurante.

— Oi, Duda.

— Manu... — A voz dela veio acompanhada do som do vento e das ondas. — Eu estava com saudade. Como está o almoço?

Emanuel fechou os olhos por um segundo, sentindo o contraste entre a agressividade passiva de Sara e a suavidade de Eduarda.

— Está indo bem. Estamos fechando o contrato do novo estúdio.

— Que bom! Eu sabia que você ia conseguir. Você é o melhor no que faz. — Houve uma pausa. — Você está bravo porque eu não fui?

— Eu queria você aqui, Eduarda. Você sabe disso. Eu queria que essas pessoas vissem quem você é.

— Elas nunca veriam quem eu sou em um lugar desses, Manu. Elas só veriam o que eu não tenho. — A voz dela ficou embargada. — Eu estou feliz aqui. Desenhei muito hoje. Desenhei você.

Emanuel sentiu a raiva se dissipar, substituída por aquela proteção quase instintiva que Eduarda despertava nele.

— Me manda a foto depois. Eu preciso voltar para a mesa.

— Tá bom. Te amo, urso.

— Também amo você, pequena. Juízo nessa praia.

Quando ele voltou para a mesa, Sara o observava com um olhar inquisidor.

— Era ela, não era? — perguntou Sara, sem se importar com a presença do outro casal. — Aposto que estava contando sobre as conchinhas que achou na areia.

— Sara, agora não — Emanuel disse, o tom de aviso sendo claro.

— O que foi? Eu só acho engraçado como ela sempre consegue te tirar do foco no meio de algo importante — Sara continuou, agora se dirigindo a Letícia. — É o dom dela. Ser uma interrupção constante.

Emanuel sentou-se e encarou Sara. O conflito que ele tentava evitar estava ali, exposto sob as luzes sofisticadas do restaurante.

— A Eduarda não é uma interrupção, Sara. Ela é o motivo pelo qual eu ainda quero voltar para casa depois de lidar com pessoas como vocês o dia inteiro.

O silêncio caiu sobre a mesa como uma pedra pesada. Ricardo e Letícia trocaram olhares desconfortáveis. Sara empalideceu levemente, a primeira rachadura em sua armadura de confiança aparecendo.

— Pessoas como "nós"? — Sara repetiu, a voz perigosamente baixa. — Você quer dizer as pessoas que fazem você ser quem você é? As pessoas que constroem o seu império?

— Eu quero dizer pessoas que só veem números e aparências — Emanuel retrucou, levantando-se. — Ricardo, o contrato está de pé. Falamos na segunda. Sara, eu vou para casa. Você pode pegar um Uber ou ir com eles.

Ele não esperou resposta. Saiu do restaurante com passos largos, sentindo o ar frio da tarde de São Paulo atingir seu rosto.

Dentro do carro, Emanuel não dirigiu para sua cobertura luxuosa onde Sara reinava. Em vez disso, ele pegou a rodovia em direção ao litoral. Ele precisava do cheiro de lavanda, do cabelo desarrumado e daquela vulnerabilidade que, embora o irritasse às vezes, era a única coisa que parecia real em sua vida de plástico.

Sara, no restaurante, pediu mais uma taça de vinho, as mãos tremendo levemente. Ela olhou para Letícia e forçou um sorriso irônico.

— Viram? Eu disse que ela era o suporte emocional. Ele não aguenta duas horas de conversa séria sem precisar ir atrás da "dose de doçura" dele. É patético, não acham?

Mas, no fundo, Sara sentiu uma pontada de medo. Ela sabia administrar empresas, sabia seduzir investidores e sabia ser a mulher mais marcante de qualquer sala. Mas ela não sabia como competir com o mar, com o sal na pele e com uma menina que não precisava de nada disso para ser amada.

Naquela noite, sob o luar do Guarujá, Emanuel encontrou Eduarda sentada na areia, olhando para o horizonte escuro. Ele não disse nada, apenas sentou-se ao lado dela e puxou-a para o seu colo.

— Você veio — ela sussurrou, aninhando-se nele.

— Eu vim — ele respondeu, enterrando o rosto no pescoço dela. — O gato está bem?

Eduarda soltou uma risadinha doce.

— O Frederico está ótimo. Ele ficou com a minha mãe.

Emanuel olhou para o mar e depois para a garota em seus braços. Ele sabia que amanhã teria que lidar com a fúria de Sara, com as planilhas atrasadas e com o caos de sua vida tripla. Mas, por enquanto, o silêncio da praia era a única coisa que fazia sentido. Ele tinha o céu e o chão, mas, naquela noite, ele só queria sentir a areia entre os dedos e a paz que só a sua "pequena" conseguia lhe dar.