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O Pacto do Patriarca e a Fúria do Tatuador

A notícia da mudança definitiva de Eduarda para a cobertura de Emanuel deveria ter sido o ápice da vitória dele, o momento em que o controle sobre seu pequeno império pessoal seria absoluto. No entanto, o que Emanuel não previu foi a barreira intransponível de um homem que, embora não tivesse estúdios de tatuagem pelo mundo, possuía o título mais antigo de todos: o de pai.

Na manhã seguinte ao anúncio, a sala da residência dos pais de Eduarda parecia um tribunal. O ar estava pesado, carregado com o cheiro de café fresco e a tensão de um confronto iminente. Emanuel estava de pé, os braços cruzados sobre o peito, a postura rígida de quem estava acostumado a dar ordens e ser obedecido. À sua frente, sentado em uma poltrona de couro desgastada, estava o pai de Eduarda, um homem de olhar sereno, mas firme, que não se deixava intimidar pelo sucesso do genro.

— Você não vai levá-la, Emanuel. Não agora. É cedo demais, ela só tem vinte anos e ainda tem muito o que viver antes de se enfurnar naquela sua torre de vidro com... aquela mulher — disse o pai, com uma calma que irritava Emanuel mais do que qualquer grito.

— Eu não estou pedindo permissão, estou comunicando um fato — retrucou Emanuel, a voz subindo um tom, a veia em seu pescoço saltando. — A Eduarda precisa de mim, e eu preciso dela. Eu posso dar a ela tudo o que ela quiser. Segurança, conforto, um ateliê... tudo!

— Você pode dar a ela luxo, mas não pode dar a maturidade que o tempo exige — o pai respondeu, levantando-se. — Ela é sensível, Emanuel. Você vive uma vida de excessos, de exposição, e divide o teto com uma mulher que a vê como um incômodo. Eu não vou deixar minha filha ser triturada entre o seu ego e a vulgaridade da Sara.

Eduarda, sentada no sofá, encolhida entre almofadas, começou a chorar. Eram soluços baixos, manhosos, que sempre desarmavam Emanuel. Ela escondia o rosto nas mãos, os ombros tremendo sob o suéter de lã clara.

— Papai... por favor... — ela murmurou, a voz embargada. — Eu quero ir... eu quero ficar com o Manu...

Emanuel sentiu o sangue ferver. Ver Eduarda naquele estado de fragilidade, impedida de estar com ele, despertou seus instintos mais primitivos de posse e proteção.

— Chega! — Emanuel explodiu, dando um passo à frente. — Eu vou levar ela agora. Duda, pegue suas coisas. Eu não vou deixar você aqui sofrendo por causa de um capricho de proteção que já passou do tempo. Se for preciso, eu te levo à força, mas você vem comigo hoje!

— Tente passar por essa porta com ela e você descobrirá que o respeito que tenho por você tem limites bem curtos — o pai de Eduarda disse, a voz agora gélida, bloqueando o caminho para o corredor dos quartos.

A situação estava à beira do colapso físico. Emanuel, cego pela fúria de ter seu controle desafiado, parecia pronto para qualquer coisa. Foi o grito de Eduarda que parou o tempo.

— Parem! Vocês estão me tratando como se eu fosse um troféu! — Ela se levantou, caminhando até os dois homens, as bochechas coradas e os olhos castanhos transbordando lágrimas. — Manu, não fala assim com o meu pai... e papai, não fala do Manu como se ele fosse um monstro.

Ela se jogou nos braços de Emanuel, escondendo o rosto em seu peito, buscando o calor que a acalmava. Emanuel abraçou-a com uma força quase dolorosa, beijando o topo de sua cabeça, enquanto lançava um olhar de desafio ao sogro.

— Vamos conversar como homens, ou vamos continuar assustando a minha filha? — perguntou o pai, suspirando e apontando para a varanda.

Emanuel hesitou, sentindo a respiração errática de Eduarda contra seu corpo. Ele a guiou de volta ao sofá, limpando as lágrimas dela com o polegar de forma delicada, um contraste absurdo com a fúria de segundos atrás.

— Fica aqui, pequena. Eu vou resolver isso. Eu prometo — ele sussurrou.

— Não briga mais... por favor... — ela pediu, segurando a mão dele com força antes de soltá-lo.

Os dois homens saíram para a varanda. O silêncio durou longos minutos. O pai de Eduarda acendeu um charuto, observando o horizonte, enquanto Emanuel mantinha as mãos nos bolsos, a tensão ainda evidente em seus ombros largos.

— Eu sei que você a ama, Emanuel. Mas eu também sei que você é um homem que gosta de colecionar coisas raras. E a minha filha não é uma tatuagem para você exibir na sua galeria particular.

— Ela é a minha paz — Emanuel confessou, a voz baixa, despida da arrogância de antes. — A Sara... ela é o meu motor, mas a Duda é a minha âncora. Sem ela, eu me perco no meio de todo esse barulho. Eu não quero colecioná-la. Eu quero protegê-la do mundo, inclusive de mim mesmo.

O pai de Eduarda o olhou de lado, avaliando a sinceridade naquelas palavras.

— Você diz que quer protegê-la, mas a coloca no mesmo teto que a Sara. Aquela mulher é um furacão de veneno e ambição. Como você vai garantir que a Eduarda não vai murchar morando com alguém que a despreza abertamente?

— Eu vou cuidar disso. A Sara sabe os limites dela. Ela pode ser irônica, mas ela sabe que, se tocar em um fio de cabelo da Duda, ela perde tudo o que construiu comigo.

O pai soltou uma nuvem de fumaça, pensativo.

— Vamos fazer um acordo, Emanuel. Eu não vou deixar ela se mudar hoje. Mas, se em três meses você me provar que a Eduarda está feliz, que a faculdade dela não está sendo prejudicada e, principalmente, se você me provar que consegue impor respeito à Sara para que a minha filha tenha dignidade naquela casa... eu dou a minha bênção.

Emanuel cerrou os dentes. Três meses pareciam uma eternidade.

— Três meses é muito tempo. Ela está pronta agora.

— Se ela está tão pronta assim, três meses passarão rápido. É o meu termo final. Ou aceita, ou teremos uma guerra que vai acabar destruindo a ela, não a nós.

Emanuel olhou através do vidro da varanda. Eduarda estava sentada no chão, brincando distraidamente com a ponta do tapete, com uma expressão de profunda tristeza e carência. Ele sabia que, se forçasse a situação, quebraria algo dentro dela que talvez nunca pudesse consertar.

— Fechado — disse Emanuel, estendendo a mão. — Três meses. Mas ela vai passar os fins de semana comigo, sem interferências.

— Combinado. Mas se ela voltar chorando uma única vez por causa de humilhações da sua "namorada oficial", o acordo acaba e você não entra mais nesta casa.

Os dois apertaram as mãos. Era um pacto de homens que amavam a mesma mulher de formas diferentes: um pela posse e necessidade, o outro pela memória e cuidado.

Emanuel voltou para a sala e se ajoelhou diante de Eduarda. Ela imediatamente rodeou o pescoço dele com os braços, soltando um suspiro de alívio.

— E então? Eu já posso fazer as malas? — perguntou ela, com aquele tom manhoso que sempre o fazia querer carregar o mundo nas costas por ela.

— Ainda não, pequena — ele disse, beijando sua testa. — Vamos esperar um pouco mais. Seu pai e eu entramos em um acordo. Você vai ficar aqui por enquanto, mas vai passar todos os fins de semana na cobertura. Vamos fazer as coisas do jeito certo, para ninguém sair machucado.

— Ah, Manu... — ela fez um biquinho de decepção, encostando a cabeça no ombro dele. — Eu queria dormir com você hoje... eu tenho medo do escuro sem o seu braço por cima de mim.

— Eu sei, eu também sinto falta. Mas vai ser rápido, eu prometo. Eu vou preparar tudo para você. O ateliê vai estar pronto, e eu vou garantir que ninguém, absolutamente ninguém, tire esse sorriso do seu rosto.

Emanuel levantou-se, ainda sentindo a adrenalina da discussão. Ele saiu da casa sob o olhar vigilante do sogro e entrou em seu carro, onde a música clássica que ele costumava ouvir para se acalmar não surtiu efeito. Ele pegou o celular e discou para Sara.

— Oi, querido. Já posso mandar a decoradora para o quarto da "princesinha" ou o papai dela ainda está trocando as fraldas dela? — A voz de Sara veio carregada de um sarcasmo vibrante.

— Escuta bem, Sara — Emanuel disse, a voz fria como o aço de uma agulha de tatuagem. — A Eduarda vai se mudar em três meses. E, durante esse tempo, eu vou transformar aquela cobertura em um lugar onde ela se sinta a rainha. Se você tiver qualquer intenção de fazer os comentários irônicos que você adora, eu sugiro que comece a procurar um apartamento para você agora mesmo.

Houve um silêncio mortal do outro lado da linha. Sara nunca ouvira Emanuel falar com ela naquele tom de ameaça real, desprovido de qualquer afeição.

— Você está me ameaçando por causa dela, Emanuel? Depois de tudo o que eu fiz pela sua carreira?

— Eu estou estabelecendo a ordem, Sara. Eu amo você e preciso de você na administração e na minha vida. Mas a Eduarda é intocável. O pai dela só vai permitir a mudança se eu provar que ela está segura. E o perigo para ela, naquela casa, é você. Então, escolha: ou você aprende a ser, no mínimo, civilizada e acolhedora, ou você descobre como é gerir a sua vida sem o meu nome por trás.

— Você não teria coragem... — ela começou, mas a voz falhou.

— Tente a sorte — ele respondeu e desligou.

Emanuel acelerou o carro, sentindo o peso da responsabilidade. Ele estava jogando um jogo perigoso, equilibrando-se entre duas forças da natureza. Sara era o fogo que aquecia sua ambição, mas que poderia queimar tudo ao redor se não fosse contido. Eduarda era a água límpida, essencial para sua alma, mas que poderia evaporar se o calor fosse excessivo.

Naquela noite, na cobertura, o silêncio entre Emanuel e Sara foi absoluto. Ela estava no escritório, trabalhando furiosamente, descontando sua frustração nas planilhas, enquanto ele permanecia na varanda, desenhando no tablet. Ele não desenhava engrenagens ou padrões geométricos. Ele desenhava o rosto de Eduarda, a forma como ela chorava, a forma como ela sorria.

Ele percebeu que o acordo com o pai dela não era apenas sobre tempo; era sobre ele provar a si mesmo que era capaz de ser o homem que ambas precisavam, sem destruir nenhuma delas.

Longe dali, em seu quarto de solteira, Eduarda abraçava o gato Frederico, olhando para as estrelas.

— Vai dar certo, Fred — ela sussurrou para o animal, que ronronava pesadamente. — O Manu vai me buscar. Ele sempre vem me buscar.

Ela era manhosa, era tímida e era sensível, mas, no fundo de seu coração, Eduarda sabia que tinha vencido a primeira batalha. Emanuel tinha enfrentado o mundo — e a própria Sara — por ela. E, para uma menina que sempre se sentiu pequena, aquele era o maior poder que ela poderia desejar.

Os três meses de espera seriam longos, mas o tabuleiro estava montado. Emanuel era o rei, Sara era a torre que defendia o reino com garras e dentes, e Eduarda... Eduarda era a peça que o rei não podia perder, mesmo que isso significasse mudar todas as regras do jogo. A convivência forçada sob o mesmo teto estava se aproximando, e com ela, a certeza de que a cobertura de luxo no Itaim Bibi nunca mais conheceria o significado da palavra paz.