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O Labirinto das Aparências e o Caos no Vênus

A rotina na cobertura de Emanuel havia recuperado uma espécie de normalidade armada. Após o ultimato que ele dera a Sara e o pacto de três meses com o pai de Eduarda, as águas pareciam ter baixado, ainda que o fundo do oceano continuasse revolto. Emanuel, imerso em seus projetos internacionais, redescobriu o quanto a presença de Sara era vital. Ela não apenas geria seus estúdios com uma mão de ferro calçada em luvas de seda, mas também preenchia seus espaços vazios com uma energia vibrante e uma sensualidade que o desafiava.

— Emanuel, os contratos de licenciamento da linha de tintas na Coreia acabaram de chegar — disse Sara, entrando no escritório de casa com o andar de uma pantera. Ela usava um conjunto de cetim preto que deslizava por suas curvas, o cabelo loiro caindo em ondas perfeitas sobre os ombros. — Eu já revisei as cláusulas de exclusividade. Estão perfeitas, mas exigi um bônus por volume de vendas.

Emanuel levantou os olhos do tablet de desenho e a observou. O brilho de inteligência e ambição nos olhos dela era algo que ele admirava profundamente. Ele se levantou, caminhando até ela e puxando-a pela cintura.

— Você é implacável, Sara. Às vezes eu me pergunto como eu conseguia respirar antes de você assumir a administração — confessou ele, a voz rouca.

— Você não respirava, querido. Você apenas sobrevivia entre uma tatuagem e outra — ela respondeu com um sorriso vitorioso, encostando o rosto no peito dele. — Eu sei que você tem seus momentos de "doçura" com a princesinha, mas admita... é comigo que você constrói o mundo.

Emanuel não negou. Ele a beijou com uma intensidade que falava de reconhecimento e dependência mútua. Ele amava Sara; amava a força dela, a vulgaridade refinada que ela exalava e a maneira como ela nunca recuava. Eles eram sócios na vida e no poder.

Enquanto isso, no mundo de Eduarda, a vida seguia um ritmo muito mais caótico e menos glamouroso. Ela estava terminando um trabalho de faculdade sobre o barroco mineiro quando seu celular começou a tocar freneticamente. Era sua prima, Bianca, uma mulher de temperamento vulcânico e pouca paciência.

— Duda! Pelo amor de Deus, sai de casa agora! Eu estou passando aí em cinco minutos! — Bianca gritava, o som de soluços e fúria se misturando ao fundo.

— Bia? O que foi? Aconteceu alguma coisa com a tia? — perguntou Eduarda, já se levantando e sentindo o coração disparar.

— O Rodrigo, Duda! Aquele desgraçado! Eu peguei o rastreador do carro dele e ele está no Motel Vênus! Eu sabia! Eu sabia que aquela "reunião de condomínio" era mentira! Você vem comigo, eu não vou entrar naquele antro sozinha!

— No motel? Bia, eu não... eu não posso ir num motel! O Emanuel vai ficar furioso se souber! — Eduarda gaguejou, a timidez gritando em seus ouvidos.

— O Emanuel não manda em você ainda! E eu sou sua prima, sua carne e sangue! Se você não vier, eu vou entrar lá com uma chave de roda e vou acabar presa, e a culpa vai ser sua! — Bianca desligou na cara dela.

Eduarda, em um estado de pânico puro e lealdade familiar, pegou sua bolsa de palha e desceu as escadas correndo. Cinco minutos depois, ela estava no banco do passageiro do carro de Bianca, que dirigia como se estivesse em uma prova de Fórmula 1, buzinando para cada pedestre que ousasse cruzar seu caminho.

— Bia, por favor, vai devagar... — pedia Eduarda, segurando-se na alça do teto, o rosto pálido.

— Devagar nada! Eu vou pegar aquele infeliz no flagra! E se a piranha for quem eu estou pensando, eu vou arrancar cada fio de megahair daquela cabeça! — Bianca socava o volante, os olhos injetados.

O Motel Vênus era um estabelecimento de fachada neon rosa e estátuas de gesso descascadas que tentavam, sem sucesso, simular a Grécia antiga. Bianca não hesitou na entrada. Ela simplesmente jogou o carro para dentro, ignorando o funcionário da guarita que tentava perguntar sobre a suíte.

— Ali! O carro dele está na frente da Suíte Imperial! — Bianca freou bruscamente, fazendo os pneus cantarem.

— Bia, vamos embora... liga para ele, termina por telefone... — Eduarda implorava, sentindo que ia desmaiar a qualquer momento.

Mas Bianca já estava fora do carro. Ela não bateu na porta; ela usou o ombro para forçar a entrada que, por sorte ou azar, não estava trancada por dentro. Eduarda, temendo que a prima cometesse um homicídio, correu logo atrás.

O que se seguiu foi uma cena digna de uma comédia de erros de baixo orçamento. O quarto estava na penumbra, iluminado por luzes estroboscópicas vermelhas. Rodrigo estava de cueca samba-canção, segurando uma taça de espumante barato, enquanto uma mulher de lingerie de oncinha tentava se esconder atrás de um vaso de plantas artificial.

— SEU CANALHA! — O grito de Bianca ecoou, e antes que Rodrigo pudesse dizer "oi", ela já estava em cima dele, distribuindo tapas e bolsas no peito do homem.

— Bianca! Calma! Não é o que parece! — gritava Rodrigo, tentando se defender enquanto tropeçava nos próprios pés.

— Não é o que parece? Você está de cueca num motel com a Sheila da academia e não é o que parece? Eu vou te matar! — Bianca pegou um abajur de cerâmica e o arremessou. O objeto se espatifou na parede, errando por milímetros a cabeça de Rodrigo.

Eduarda, em meio aos gritos e ao som de coisas quebrando, tentava desesperadamente segurar a prima.

— Bia, para! Você vai se machucar! Rodrigo, sai daqui! — Eduarda puxava o braço de Bianca, mas a prima tinha a força de dez homens movida pelo ódio.

A mulher de oncinha, vendo uma brecha, tentou correr em direção à porta, mas Bianca a viu pelo canto do olho.

— E VOCÊ? VAI AONDE, SUA PROSTITUTA DE QUINTA? — Bianca se soltou de Eduarda e pulou em cima da mulher. As duas caíram na cama redonda, que começou a girar automaticamente devido ao impacto, criando um redemoinho de pernas, braços e lingerie.

— Socorro! Alguém me tira daqui! — gritava a amante, enquanto Eduarda tentava separar as duas, acabando por ser puxada para o meio da confusão.

Nesse momento, a segurança do motel e alguns hóspedes curiosos, atraídos pelo barulho de demolição, começaram a se aglomerar na porta. Eduarda, com o cabelo desgrenhado e a blusa de renda levemente rasgada no ombro, estava no topo da cama redonda, tentando segurar as mãos de Bianca enquanto Rodrigo tentava puxar a amante pelos pés.

— Parem! Por favor, parem com isso! — Eduarda gritava, as lágrimas de nervoso escorrendo.

Foi nesse exato momento que o celular de Eduarda, que havia caído no chão durante a briga, começou a tocar. No visor, a foto de Emanuel brilhava sob a luz vermelha do motel.

Emanuel estava no estúdio, terminando uma sessão, quando estranhou o fato de Eduarda não ter respondido suas mensagens de "boa tarde". Ele sabia que ela estava em casa estudando. Movido por uma intuição que ele chamava de controle e os outros de obsessão, ele abriu o aplicativo de rastreio que instalara no celular dela "por segurança".

Quando o ponto piscante indicou o Motel Vênus, Emanuel sentiu o mundo girar. O sangue subiu para sua cabeça com tal força que ele quase quebrou a máquina de tatuar que segurava.

— Sara! — ele rugiu, saindo da sala de atendimento. — Onde está a Eduarda?

— Como eu vou saber, querido? No museu? Na biblioteca? — Sara respondeu, sem tirar os olhos do computador.

— Ela está num motel. No Vênus. Agora.

Sara parou o que estava fazendo. Um sorriso lento e incrédulo surgiu em seu rosto.

— A santinha? No Vênus? Emanuel, eu sempre disse que as quietas são as piores, mas isso... isso supera minhas expectativas.

— Cala a boca e pega a chave do carro! — Emanuel não esperou. Ele saiu do estúdio como um furacão, com Sara logo atrás, rindo internamente da ironia da situação.

A viagem até o motel foi feita em silêncio absoluto e mortal. Emanuel segurava o volante com tanta força que os nós de seus dedos estavam brancos. Ele não conseguia processar a ideia. Eduarda? Sua pequena, doce e tímida Duda, em um motel de beira de estrada? A traição doía, mas a quebra da imagem de pureza que ele construíra dela o enfurecia ainda mais.

Quando o carro de Emanuel freou na porta da suíte, a cena era de pós-guerra. Bianca estava sentada no chão, chorando e segurando um tufo de cabelo loiro que claramente não era dela. Rodrigo estava trancado no banheiro, gritando que ia chamar a polícia. E Eduarda estava sentada na beira da cama redonda, soluçando, com a roupa desalinhada e o olhar perdido.

A porta foi escancarada com um estrondo. Emanuel entrou primeiro, sua presença preenchendo o quarto com uma aura de ameaça pura. Sara vinha logo atrás, parando na porta e cruzando os braços, observando o cenário com um prazer indisfarçável.

— Mas o que é isso? Uma festa temática de baixo nível? — Sara perguntou, a voz carregada de sarcasmo. — Emanuel, olha a sua "camponesa". Acho que ela aprendeu rápido demais como a vida funciona.

Emanuel não olhou para Sara. Ele caminhou até Eduarda, que ao vê-lo, soltou um grito de alívio e tentou se levantar para abraçá-lo.

— Manu! Graças a Deus você chegou! Foi horrível, a Bia... o Rodrigo...

Emanuel a segurou pelos ombros, mas não com carinho. Ele a afastou para olhá-la de cima a baixo.

— O que você está fazendo aqui, Eduarda? — A voz dele era um sussurro perigoso. — Eu te dou tudo. Eu te coloco num pedestal. E você vem para um lugar imundo desses?

— Manu, você não está entendendo! — Eduarda tentava explicar, as mãos tremendo. — A Bia... o Rodrigo estava traindo ela... eu vim para ajudar!

— Ajudar? — Sara interveio, aproximando-se da cama e pegando uma peça de lingerie de oncinha que estava jogada ali. — Ajudar como, querida? Fazendo o revezamento? Olha só o estado desse quarto. Olha o seu estado.

— Cala a boca, Sara! — Eduarda gritou, surpreendendo a todos com a súbita explosão de coragem. — Você não sabe de nada! Você só quer me ver por baixo!

Emanuel olhou para Bianca no chão, para o rastro de destruição e para a amante que tentava se cobrir com um lençol no canto do quarto. A lógica começou a se assentar em sua mente, mas a fúria pela exposição e pelo susto não diminuiu.

— Eu não quero saber de desculpas — disse Emanuel, pegando Eduarda pelo pulso de forma firme. — Você vai sair daqui agora. E você, Bianca, resolva sua vida sem arrastar a minha mulher para a lama.

— Emanuel, me solta! Você está me machucando! — Eduarda reclamou, tentando se soltar.

— Você não viu o que é machucar ainda — ele rosnou, arrastando-a para fora.

Sara seguiu os dois, passando por Bianca e pela amante com um olhar de profundo nojo.

— Da próxima vez, fofa, escolham um lugar com lençóis de pelo menos 400 fios. Esse poliéster dá alergia — Sara disse, antes de sair e bater a porta.

O trajeto de volta para a cobertura foi um pesadelo. Eduarda chorava no banco de trás, tentando explicar a história toda, mas Emanuel permanecia em um silêncio gélido. Sara, no banco do passageiro, retocava o batom, olhando-se no espelho do quebra-sol.

— Sabe, Emanuel — começou Sara, com uma voz aveludada —, isso prova o que eu sempre disse. Ela pode ser manhosa, mas ela não tem discernimento. Ela é uma criança brincando de ser adulta, e acaba se metendo em situações vulgares. Você realmente quer esse tipo de drama na sua vida?

— Eu disse para você ficar quieta, Sara — Emanuel respondeu, mas sem a mesma força de antes. Ele estava exausto.

Ao chegarem na cobertura, Emanuel mandou Eduarda direto para o banho. Ele ficou na sala, bebendo um uísque puro, tentando processar a imagem de sua pequena Duda no meio daquela baixaria.

Horas depois, Eduarda saiu do quarto, usando um dos moletons de Emanuel que ficavam enormes nela. Ela parecia ainda menor e mais frágil. Ela se aproximou dele no sofá e, com aquele jeito manhoso que era sua marca registrada, sentou-se no chão, entre as pernas dele, e apoiou a cabeça em seus joelhos.

— Manu... não fica bravo comigo. Eu juro que só fui porque a Bia estava desesperada. Eu nunca faria nada para te envergonhar...

Emanuel passou a mão pelo cabelo úmido dela. A raiva estava sendo substituída por aquela possessividade doentia. Ele odiava que ela tivesse sido vista naquele lugar, odiava que outros homens tivessem olhado para ela naquele estado.

— Você foi imprudente, Eduarda. Você se colocou em risco. Se aquele cara tivesse reagido de outra forma? Se a polícia tivesse chegado? — Ele segurou o queixo dela, forçando-a a olhá-lo. — Você é minha. E o que é meu não frequenta motéis de quinta categoria.

— Eu sei... desculpa — ela sussurrou, fechando os olhos e aproveitando o toque dele. — Eu tive tanto medo... eu só queria que você aparecesse e me tirasse de lá.

Sara apareceu na porta da sala, observando a cena de reconciliação. Ela sentiu uma pontada de irritação ao ver como, mais uma vez, a carícia e o choro de Eduarda estavam dobrando a vontade de Emanuel.

— Que cena tocante — disse Sara, encostando-se no batente da porta. — A pequena transgressora e seu salvador. Emanuel, você vai mesmo cair nessa história de "boa samaritana do motel"?

Emanuel olhou para Sara. Ele via a eficiência dela, a beleza agressiva, e via a vulnerabilidade de Eduarda em seus joelhos.

— Ela cometeu um erro de julgamento, Sara. Mas ela é minha responsabilidade. E a partir de amanhã, as coisas vão mudar.

— Mudar como? — Eduarda perguntou, olhando para ele com expectativa.

— Você não vai mais para a faculdade sozinha. E esses três meses de pacto com seu pai... eu vou encurtá-los. Você vem para cá agora. Eu não vou deixar você solta por aí para ser arrastada para confusões de terceiros.

Eduarda sentiu um frio na espinha. Ela queria estar com ele, mas o tom de Emanuel não era de convite, era de sentença. Sara, por sua vez, deu um sorriso de lado.

— Bem-vinda ao hospício, querida — disse Sara. — Espero que o seu gato não tenha medo de altura, porque a partir de agora, a vista aqui de cima vai ser a única coisa que você vai ver por um bom tempo.

Emanuel apertou o ombro de Eduarda, ignorando o comentário de Sara. Ele tinha as duas sob seu teto, sob seu olhar e sob seu controle. O episódio do motel fora um susto, mas ele o usaria para selar as paredes de seu labirinto particular. Entre a razão afiada de Sara e a carência manipuladora de Eduarda, Emanuel sentia que, finalmente, o jogo estava em suas mãos. Mas ele esquecia que, em um quarto com duas rainhas, o rei é muitas vezes apenas o prêmio de uma guerra que ninguém realmente vence.