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O Pecado da Inocência e o Palco das Tentações

O retorno do fim de semana na praia havia deixado Emanuel com uma sensação renovada de posse. O sol do litoral parecia ter dourado a pele de Sara, tornando-a ainda mais magnética e eficiente na gestão dos negócios, enquanto a distância de Eduarda durante aqueles dois dias apenas aumentara a sede que ele sentia pela doçura da morena. No entanto, a rotina de São Paulo, com suas luzes de neon e asfalto quente, sempre trazia consigo novas variáveis que Emanuel não conseguia prever.

A notícia chegou em uma terça-feira chuvosa. Zuleide, a tia de Eduarda que parecia viver em um estado constante de ebulição emocional, estava prestes a completar trinta e nove anos. E, fiel ao seu estilo extravagante, ela não planejava apenas um jantar em família com bolo de coco e refrigerante.

— Duas festas, Manu! — Eduarda exclamou, sentada no sofá da cobertura de Emanuel, enquanto enrolava uma mecha de cabelo castanho no dedo, o rosto iluminado pela empolgação. — Uma vai ser no domingo, na casa da vovó, para todo mundo. Mas a de sábado... ah, a de sábado vai ser só para as mulheres!

Emanuel, que revisava alguns designs em seu tablet, arqueou uma sobrancelha.

— Só para as mulheres? E onde a sua tia pretende enfiar tanta mulher em um sábado à noite?

Eduarda hesitou por um segundo, fazendo aquele biquinho manhoso que ela usava sempre que sabia que a resposta não agradaria ao namorado.

— Ela... ela fechou o "Vênus Night Club".

Emanuel parou o que estava fazendo. O silêncio que se seguiu foi cortante. Sara, que passava pela sala carregando uma pasta de contratos, parou abruptamente e soltou uma gargalhada genuína, daquelas que faziam seus seios siliconados balançarem sob a blusa de seda.

— O Vênus? Aquele cabaré de luxo na zona sul? — Sara perguntou, limpando uma lágrima imaginária do canto do olho. — Sua tia fechou um puteiro para comemorar o aniversário? Isso é maravilhoso! Emanuel, eu retiro o que disse sobre ela ser apenas brega. Ela tem visão!

— Não é um "puteiro" agora, Sara! — Eduarda defendeu-se, o rosto ficando vermelho. — A tia Zuleide contratou gogo boys. Vai ser uma festa fechada. Só música, drinques e... apresentações.

— Gogo boys. — A voz de Emanuel saiu baixa, como um trovão distante. Ele largou o tablet e fixou os olhos em Eduarda. — Você está me dizendo que vai a um cabaré para ver homens sem nus dançando para você?

— Não é para mim, Manu! É para a tia! — Ela se aproximou dele, sentando-se em seu colo e passando os braços pelo seu pescoço, tentando suavizar a tensão que emanava dele. — É só uma brincadeira de mulher. A mamãe vai, a Bia vai, até a vovó disse que quer ver se "os rapazes têm saúde".

— Isso é vulgar, Eduarda. É de um mau gosto absoluto — Emanuel sentenciou, as mãos segurando a cintura dela com uma força que beirava a possessividade. — Eu não gosto da ideia de você em um ambiente desses.

— Ah, deixe a menina, Emanuel! — Sara interveio, encostando-se no batente da porta com um sorriso irônico. — O que tem de mais? Ela vai ver uns músculos besuntados em óleo, dar umas risadinhas e voltar para casa com mais vontade de você. Ou você está com medo da concorrência de um rapaz de tanga de leopardo?

— Não é concorrência, Sara. É respeito — Emanuel rebateu, embora a provocação de Sara tivesse atingido o alvo. — Eduarda é jovem, é influenciável.

— Eu não sou criança, Manu! — Eduarda protestou, afastando-se um pouco, embora ainda mantivesse o contato físico. — Eu quero ir. A tia Zuleide sempre foi boa para mim. E vai ser engraçado! Por favor, não fica com essa cara de bravo.

Emanuel suspirou. Ele sabia que, se proibisse terminantemente, Eduarda acabaria indo escondida ou ficaria amuada por semanas, e ele odiava quando ela se fechava. Além disso, o pai dela, Geraldo, já havia expressado sua indignação no grupo da família no WhatsApp, o que curiosamente fazia Emanuel querer ser o "namorado compreensivo" apenas para contrastar com o sogro conservador.

— Tudo bem — disse Emanuel, por fim. — Você vai. Mas eu quero o motorista te deixando na porta e te buscando no horário que eu determinar. E nada de fotos em redes sociais. Eu tenho uma reputação, Eduarda.

— Prometo! — Ela o beijou rapidamente, vitoriosa.

***

O sábado à noite chegou com uma aura de proibido. O "Vênus Night Club" estava transformado. Luzes vermelhas e roxas banhavam o ambiente luxuoso, onde poltronas de veludo e barras de pole dance de latão dourado brilhavam sob os holofotes.

Eduarda usava um vestido preto curto, mas elegante, que Emanuel havia escolhido pessoalmente para garantir que não fosse "ousado demais". No entanto, ao entrar no clube, ela se sentiu quase puritana. Zuleide estava vestida com um macacão de paetês dourados que deixava pouco para a imaginação, e as outras mulheres da família pareciam ter bebido doses generosas de coragem antes mesmo de chegarem.

— Duda! Chegou a nossa bonequinha! — Zuleide a puxou para o centro do salão, onde a música eletrônica batia forte. — Hoje você vai ver o que é vida, minha sobrinha! Esquece aquele seu namorado sério por umas horas!

A festa era um caos de risadas, fritos e drinques coloridos. Quando as luzes diminuíram e o primeiro gogo boy entrou no palco — um homem alto, com o corpo esculpido e vestido de bombeiro —, o lugar explodiu.

Eduarda, inicialmente tímida, sentou-se em uma das mesas de canto com a prima Bia.

— Olha aquilo, Duda! — Bia gritava no ouvido dela. — O Emanuel é gato, mas esse aí... meu Deus, eu chamaria para apagar qualquer incêndio!

Eduarda ria, sentindo a adrenalina do ambiente. Era libertador estar longe do olhar vigilante de Emanuel e da língua afiada de Sara. Ela tomou um Cosmopolitan, depois outro. A timidez começou a dar lugar a uma euforia leve. Ela aplaudia, gritava com as tias e, em certo momento, até permitiu que um dos dançarinos, vestido de policial, fizesse uma performance rápida perto de sua cadeira, fazendo-a rir até perder o fôlego enquanto ele girava o cassetete de borracha.

***

Enquanto isso, na cobertura, o clima era o oposto. Emanuel estava sentado no escritório, tentando trabalhar, mas seus olhos voltavam constantemente para o relógio. Sara estava na sala, assistindo a um reality show e bebendo vinho.

— Você vai furar o chão de tanto andar, Emanuel — Sara disse, aparecendo na porta do escritório. — Ela está bem. É só um bando de mulheres gritando para homens seminus.

— Eu não gosto disso, Sara. O Geraldo me ligou três vezes hoje. Ele está furioso porque a Clarice também foi.

— O Geraldo é um dinossauro. E você está agindo como o filho dele — Sara caminhou até ele, sentando-se na beira da mesa. — Por que você não relaxa? Eu estou aqui. Podemos fazer a nossa própria festa.

Emanuel olhou para Sara. Ela era linda, poderosa e sabia exatamente como manipulá-lo. Mas a imagem de Eduarda — sua doce, sensível e ingênua Eduarda — cercada por gogo boys em um cabaré o deixava possesso.

— Eu vou buscar ela — Emanuel disse, fechando o laptop com força.

— Emanuel, são apenas onze da noite! A festa mal começou! — Sara protestou, mas ele já estava pegando as chaves do carro. — Se você fizer isso, ela vai te odiar. Você vai parecer o pai dela, e não o namorado.

Emanuel parou. Sara tinha razão. Ele odiava admitir, mas a lógica dela era implacável. Se ele aparecesse lá agora, estragaria o aniversário da tia e passaria a imagem de um controlador inseguro.

— Droga — ele murmurou, voltando a sentar-se. — Mas se eu vir uma única foto comprometedora amanhã...

***

No Vênus, a festa atingia o clímax. Zuleide estava no palco, rindo enquanto dois dançarinos faziam uma coreografia ao redor dela. Eduarda estava na pista com as amigas, dançando de um jeito que nunca ousaria na frente de Emanuel. Ela se sentia leve, bonita e, pela primeira vez, dona de si mesma.

No entanto, a realidade bateu à porta na forma de uma chamada de vídeo. Era o pai dela, Geraldo. Eduarda, em um momento de embriaguez e coragem, atendeu.

— Oi, papai! — ela gritou, tentando sobrepujar a música.

— EDUARDA! QUE BARULHO É ESSE? ONDE VOCÊ ESTÁ? — A voz do pai saía distorcida pelo alto-falante. — EU ESTOU VENDO AS POSTAGENS DA SUA TIA! ISSO É UM ABSURDO! VOLTE PARA CASA AGORA!

— Ah, pai, para de ser chato! — Eduarda riu, girando o celular para mostrar o salão. — Está todo mundo feliz! A mamãe está ali bebendo batida de coco!

Nesse momento, um gogo boy passou por trás de Eduarda, sem camisa, e deu uma piscadela para a câmera.

— O QUE FOI ISSO? QUEM É ESSE SUJEITO? — Geraldo berrava do outro lado. — EU VOU LIGAR PARA O EMANUEL! ELE PRECISA SABER QUE TIPO DE MULHER ELE ESTÁ SUSTENTANDO!

Eduarda desligou o celular, a risada morrendo. A menção a Emanuel trouxe de volta a realidade. Ela olhou ao redor e, de repente, o brilho das luzes pareceu excessivo, o cheiro de suor e perfume barato tornou-se enjoativo.

— Bia... eu acho que vou embora — Eduarda disse, puxando o braço da prima.

— Agora? Mas a melhor parte vai começar! O "Show do Fogo"!

— Não, meu pai vai ligar para o Manu. Eu não quero que ele fique mais bravo do que já está.

Eduarda saiu do clube, sentindo o ar frio da noite bater em seu rosto. O motorista de Emanuel já estava lá, como uma sentinela silenciosa. Durante o trajeto de volta, ela tentou ajeitar o cabelo e limpar o excesso de brilho no rosto, sentindo a culpa começar a corroer a euforia.

Ao entrar na cobertura, o silêncio era denso. Emanuel estava sentado na poltrona da sala, no escuro, iluminado apenas pela luz da cidade que entrava pelas grandes janelas. Sara estava no sofá oposto, observando-o com um olhar de "eu te avisei".

— Oi... — Eduarda disse, a voz pequena, voltando ao seu estado natural de timidez. — Eu cheguei.

Emanuel levantou-se lentamente. Ele caminhou até ela, parando a uma distância mínima. O cheiro de álcool e do perfume do clube emanava dela.

— Seu pai me ligou, Eduarda — disse ele, a voz perigosamente calma. — Ele me descreveu cenas interessantes.

— O papai exagera, Manu... foi só uma festa — ela tentou se aproximar, mas ele manteve a postura rígida.

— Uma festa em um cabaré. Com homens seminus se esfregando em você.

— Ninguém se esfregou em mim! — ela protestou, os olhos começando a lacrimejar. — Eu só dancei com as minhas amigas!

— Emanuel, olhe para ela — Sara interveio, levantando-se e caminhando até os dois. Ela passou a mão pelo ombro de Eduarda, um gesto que parecia de conforto, mas que carregava um veneno sutil. — Ela está tremendo. Você a assustou. Mas admita, querida... você gostou, não gostou? Da atenção, dos músculos... é bem diferente do ambiente de História da Arte, não é?

— Cala a boca, Sara! — Eduarda gritou, soluçando. — Você não sabe de nada!

— Eu sei que o Emanuel passou a noite inteira em claro, preocupado com você, enquanto você estava se divertindo em um lugar que mulheres de classe não frequentam — Sara rebateu, o tom de voz calmo e superior. — Você é egoísta, Eduarda. Você usa essa sua carinha de anjo para fazer o que quer, mas no fundo, é tão vulgar quanto a sua tia.

— JÁ CHEGA! — Emanuel rugiu.

Ele olhou para as duas. Sara, a imagem da eficiência e da lealdade racional. Eduarda, a imagem da doçura e da inocência que, naquela noite, parecia ter sido manchada pelo mundo real.

— Sara, vá para o quarto — Emanuel ordenou.

— Emanuel, eu estou tentando te ajudar a ver que...

— Quarto. Agora.

Sara revirou os olhos, mas obedeceu, lançando um olhar de triunfo para Eduarda antes de desaparecer pelo corredor.

Emanuel voltou sua atenção para a morena. Ele a pegou pelos ombros e a puxou para perto, abraçando-a com uma força que quase a sufocava.

— Você me deixa louco, Eduarda — ele sussurrou contra o cabelo dela. — Eu odeio imaginar outros homens olhando para você. Eu odeio que você tenha me desobedecido.

— Eu não queria te magoar, Manu... — ela chorava contra o peito dele, as mãos apertando a camisa dele. — Eu só queria ser como as outras meninas por uma noite.

— Você não é como as outras meninas. Você é minha. E eu não vou permitir que você se exponha assim de novo. O seu pai está certo em uma coisa: você precisa de rédeas curtas.

Ele a afastou um pouco e limpou as lágrimas dela com o polegar.

— Amanhã, nós vamos à festa da sua avó. Você vai se comportar, vai pedir desculpas ao seu pai e vai mostrar que essa noite foi um erro que não vai se repetir. E, para garantir que você não tenha mais essas ideias de "liberdade", você vai passar a semana inteira aqui. Sem saídas, sem amigas. Só você, eu e a Sara.

Eduarda olhou para ele, sentindo o peso daquela proteção possessiva. Ela sabia que deveria protestar, que deveria lutar pela sua independência, mas o cansaço da noite e a necessidade de se sentir segura nos braços dele falaram mais alto.

— Tudo bem, Manu... — ela sussurrou, encostando a cabeça no ombro dele. — O que você quiser.

Emanuel a pegou no colo e a levou para o quarto, sentindo uma satisfação sombria. Ele a tinha de volta. O mundo lá fora, com seus cabarés e gogo boys, era uma ameaça que ele pretendia manter bem longe.

No dia seguinte, a festa na casa da avó foi um exercício de hipocrisia e tensão. Geraldo mal falava com a filha, lançando olhares de reprovação para Clarice, que parecia não se importar nem um pouco com a fúria do marido. Zuleide, a aniversariante, exibia fotos da noite anterior para quem quisesse ver, rindo alto.

Emanuel permanecia ao lado de Eduarda o tempo todo, uma mão possessiva em sua cintura, marcando território diante de toda a família. Sara, elegante em um vestido de grife, circulava entre os parentes de Eduarda com um sorriso condescendente, agindo como se fosse a verdadeira "mulher da casa".

— Sua família é... pitoresca, querida — Sara comentou com Eduarda quando Emanuel se afastou para falar com Geraldo. — Mas não se preocupe. Agora que você vai ficar trancada na cobertura conosco, eu vou te ensinar como uma mulher de verdade se comporta. Sem cabarés, sem gogo boys... apenas o mundo real, onde quem manda é quem tem o poder.

Eduarda olhou para Sara e depois para Emanuel, que discutia seriamente com seu pai sobre "segurança e limites". Ela percebeu que, embora tivesse se divertido no Vênus, o preço daquela alegria era a perda total de sua voz. Ela era a peça central de um jogo entre o controle de Emanuel, a ambição de Sara e o conservadorismo de seu pai.

Mas, enquanto observava a tia Zuleide rir e dançar no meio da sala, Eduarda sentiu uma pequena centelha de rebeldia ainda acesa em seu peito. Ela podia ser manhosa, podia ser tímida, mas a noite no cabaré havia lhe mostrado que existia um mundo além das regras de Emanuel. Um mundo que ela, talvez, ainda quisesse explorar, mesmo que tivesse que aprender a mentir melhor.

Por enquanto, ela voltou para o lado de Emanuel, aceitando o beijo possessivo que ele lhe deu na têmpora. A rotina voltaria ao normal, mas o segredo daquela noite de neon e música alta ficaria guardado em sua memória, como o primeiro passo de uma boneca de porcelana que estava começando a descobrir que podia, sim, quebrar as próprias correntes.