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O Labirinto das Aparências e o Caos no Vênus

As semanas seguintes ao episódio do gato Frederico foram marcadas por uma trégua silenciosa, mas carregada de uma tensão que Emanuel sentia vibrar no ar toda vez que as duas mulheres de sua vida cruzavam o mesmo ambiente. Emanuel sentia-se como um mediador de um conflito internacional onde uma das partes usava o sarcasmo como arma nuclear e a outra usava o silêncio e a carência como tática de guerrilha.

Sara estava em seu elemento, dominando a administração dos estúdios e garantindo que o império de Emanuel crescesse dez por cento apenas naquele trimestre. Ela era impecável, eficiente e, acima de tudo, presente. Já Eduarda permanecia em seu refúgio na casa dos pais, aparecendo na cobertura apenas quando Emanuel a buscava, o que gerava crises de ciúmes possessivos nele e comentários ácidos em Sara.

— Você percebe que ela está te fazendo de motorista particular, não é, querido? — Sara comentou certa manhã, enquanto ajeitava a gravata de Emanuel. — Uma mulher de verdade estaria aqui, dividindo o fardo com você, não escondida atrás das saias da mãe esperando ser paparicada.

— Ela não está pronta, Sara. Já conversamos sobre isso — Emanuel respondeu, embora a irritação em sua voz mostrasse que o argumento de Sara encontrava eco em seus próprios desejos.

O que Emanuel não imaginava era que a "segurança" da casa dos pais de Eduarda seria o estopim para o evento mais caótico de sua vida até então.

Tudo começou em uma tarde de quinta-feira. Eduarda estava na cozinha ajudando sua mãe, Dona Clarice, a organizar umas receitas, quando sua tia, a impetuosa Tia Zuleide, entrou em casa como um furacão, os olhos vermelhos de choro e uma chave de fenda na mão.

— Aquele desgraçado! Aquele filho de uma égua! — gritava Zuleide, jogando a bolsa sobre a mesa. — Eu sabia que aquela "reunião de sindicato" era mentira! Ele está no Motel Vênus, Clarice! Eu vi o GPS do carro dele!

— Zuleide, pelo amor de Deus, acalme-se! — pediu Clarice, embora já estivesse pegando o avental e a chave do carro. — Você tem certeza?

— Absoluta! Ele disse que ia resolver um problema no condomínio, mas o carro dele está parado na porta da suíte 14 faz meia hora! Eu vou lá e vou quebrar aquele lugar inteiro!

Eduarda, vendo a mãe e a tia em um estado de histeria competitiva, tentou intervir.

— Mãe, tia, não façam isso! Vamos ligar para ele, ou esperar ele chegar...

— Esperar nada, Eduarda! — Clarice disparou, os olhos brilhando com uma adrenalina que a filha nunca vira. — Hoje nós vamos mostrar para o seu tio o que acontece com quem mexe com as mulheres da nossa família. E você vem junto! Se houver briga, precisamos de testemunha e de alguém para segurar a bolsa!

Antes que pudesse protestar, Eduarda foi arrastada para o banco de trás do utilitário da mãe. O que se seguiu foi uma das cenas mais surreais da vida da jovem estudante de História da Arte. Dona Clarice, normalmente uma motorista prudente, transformou-se em uma piloto de fuga. Ela cortava o trânsito, subia em calçadas e ignorava sinais vermelhos enquanto Zuleide, no banco do passageiro, gritava instruções de guerra e brandia a chave de fenda.

— Vai, Clarice! Ele vai fugir! Dobra à esquerda! — berrava a tia.

Eduarda, agarrada à alça de segurança do teto, sentia o estômago dar voltas.

— Mãe, você vai ser multada! O Emanuel tem rastreador no meu celular, se ele vir que eu estou correndo desse jeito vai achar que fui sequestrada!

— Deixe o Emanuel para lá, Duda! Isso aqui é assunto de família! — respondeu a mãe, fazendo uma curva fechada que fez os pneus cantarem.

Apesar do medo, Eduarda sentiu uma risada nervosa subir pela garganta. Ver sua mãe, sempre tão contida, agindo como se estivesse em um filme de ação, era absurdamente engraçado.

Quando chegaram ao Motel Vênus — um estabelecimento de fachada neon rosa berrante e estátuas de gesso descascadas —, o caos atingiu o ápice. Clarice não parou na guarita; ela simplesmente buzinou até que o funcionário, assustado, abrisse a cancela.

— Ali! A suíte 14! — Zuleide saltou do carro antes mesmo que ele parasse totalmente.

As três mulheres invadiram o pátio privativo da suíte. Zuleide começou a esmurrar a porta de madeira com a chave de fenda, enquanto Clarice gritava ofensas que Eduarda nunca imaginou que a mãe conhecesse.

— SAIA DAÍ, SEU COVARDE! TRAGA ESSA PIRANHA PARA FORA! — berrava a tia.

A porta se abriu de repente. O tio de Eduarda apareceu apenas de toalha, com uma expressão de puro pânico. Atrás dele, uma mulher tentava se esconder com um lençol. O que se seguiu foi uma confusão generalizada: Zuleide avançou no marido, Clarice começou a jogar os vasos de planta do motel na direção da amante, e Eduarda, tentando separar a briga, acabou tropeçando em um balde de gelo e caindo em cima de uma mesa de vidro, que se estilhaçou com um estrondo cinematográfico.

O barulho foi tão alto que os seguranças do motel chamaram a polícia imediatamente. Quando as sirenes começaram a ecoar, a cena era digna de um quadro surrealista: Zuleide segurava a toalha do marido como se fosse um troféu, Clarice discutia com o gerente sobre a qualidade dos vasos quebrados, e Eduarda estava sentada no chão, rindo histericamente da própria desgraça, com o cabelo cheio de pedaços de gelo.

— Todos para a delegacia! — ordenou o policial, ignorando os protestos de "mulher traída" de Zuleide.

***

Na cobertura, Emanuel estava em uma reunião de vídeo com investidores de Miami. Sara estava ao seu lado, anotando dados em um tablet, quando o celular de Emanuel, configurado para alertas de emergência do rastreador de Eduarda, começou a apitar freneticamente.

Emanuel olhou para a tela. O ponto vermelho piscava em cima do Motel Vênus.

— Mas que inferno é esse? — ele murmurou, interrompendo o investidor no meio da frase.

— Algum problema, Emanuel? — perguntou Sara, notando a palidez súbita do namorado.

— A Eduarda. Ela está em um motel. No Motel Vênus.

Sara arqueou uma sobrancelha, um sorriso maldoso surgindo em seus lábios perfeitamente pintados.

— No Vênus? A santinha? Bem, parece que a timidez dela tem limites geográficos, não é? Quem diria que ela gosta de neon e lençóis de poliéster.

— Cala a boca, Sara! — Emanuel levantou-se bruscamente, fechando o notebook. — Tem algo errado. Ela não faria isso.

— Ah, querido, homens traídos sempre dizem isso. Vamos lá ver o show? Eu faço questão de dirigir.

***

Na delegacia, o clima era de uma comédia de erros. O pai de Eduarda já estava lá, sentado em um banco, com a cabeça entre as mãos, exalando um ódio silencioso e mortal. Ele fora chamado pela polícia por ser o proprietário do veículo de Clarice.

— Eu não acredito nisso — dizia o pai, sem olhar para a esposa. — Clarice, você tem cinquenta anos! Perseguição de carro? Invasão de motel?

— Ele mereceu, Geraldo! — respondeu Clarice, ajeitando o cabelo desgrenhado. — E a Duda foi uma ótima copiloto!

Eduarda, sentada ao lado da mãe, não conseguia parar de rir baixo.

— Pai, você precisava ver a curva que a mãe fez na Avenida Brasil... o pneu quase saiu do chão! Foi incrível!

— Engraçado, não é, Eduarda? — A voz fria de Emanuel ecoou pelo saguão da delegacia, fazendo o riso da jovem morrer instantaneamente.

Emanuel entrou no local como um deus da vingança. Suas tatuagens estavam à mostra, o rosto era uma máscara de fúria controlada. Logo atrás dele, Sara desfilava com seus saltos agulha, olhando para o ambiente com um nojo indisfarçável.

— Mas que cheiro de gente pobre e desespero — comentou Sara, tirando um lenço da bolsa para limpar o banco antes de se sentar. — Olhe só para você, Eduarda. Desgrenhada, suja de gelo... e em uma delegacia por causa de um motel. Que classe.

Emanuel caminhou até o sogro, ignorando as mulheres por um momento.

— O que aconteceu aqui, Geraldo? — perguntou Emanuel, a voz vibrando de tensão.

— Uma palhaçada, Emanuel. Minha esposa e minha cunhada resolveram brincar de detetive e arrastaram a minha filha para o meio — respondeu o pai, levantando-se. — Agora o delegado quer que alguém pague a fiança pelos danos materiais no motel antes de liberá-las.

Emanuel virou-se para Eduarda. Ele a pegou pelo braço, não com força, mas com uma firmeza que indicava que ela não teria escapatória.

— Um motel, Eduarda? Você tem noção do que eu pensei quando vi o rastreador? Eu quase sofri um acidente vindo para cá!

Eduarda olhou para ele, e a diversão da perseguição ainda brilhava em seus olhos, o que o irritou ainda mais.

— Manu, foi engraçado! A tia Zuleide arrancou a toalha do tio e ele saiu correndo pelo corredor! A mãe parecia o piloto de Fuga de Nova York!

— Engraçado? — Emanuel rugiu, fazendo alguns policiais olharem. — Você poderia ter se machucado! Você está em uma delegacia, Eduarda! Sua imagem, o meu nome... você tem noção de como a Sara vai usar isso contra você para o resto da vida?

— Ah, eu com certeza vou — interrompeu Sara, aproximando-se com um sorriso triunfante. — Imagine só quando os amigos do Emanuel souberem que a "namorada doce" dele foi presa em um motel barato numa briga de família. É de uma vulgaridade sem tamanho. Você é um desastre, garota.

Eduarda sentiu a picada do comentário de Sara, mas a adrenalina da tarde ainda a deixava corajosa.

— Pelo menos eu tenho uma família que se apoia, Sara. Pode ter sido um desastre, mas eu nunca me diverti tanto com a minha mãe. Você não entenderia isso, já que sua única família são suas próteses de silicone e sua conta bancária.

Sara abriu a boca, chocada com a audácia, mas Emanuel interveio antes que o barraco recomeçasse.

— Chega! Geraldo, eu pago essa fiança. Mas a Eduarda vem comigo. Agora.

— Ela vai para casa comigo, Emanuel — o pai dela rebateu. — Já chega de confusão por hoje.

— Ela vai comigo — Emanuel insistiu, os olhos fixos nos do sogro. — Ela provou que não pode ficar um minuto sem supervisão. Se ela estivesse morando comigo, nada disso teria acontecido.

Depois de alguns minutos de discussão e do pagamento da fiança — uma quantia que Emanuel jogou sobre o balcão com um desprezo aristocrático —, o grupo foi liberado.

Emanuel arrastou Eduarda para o seu carro, ignorando os protestos dela de que queria ir com a mãe para "comentar os detalhes da perseguição". Sara foi no banco do passageiro, retocando o batom e rindo baixinho.

— Sabe, Emanuel — disse Sara, enquanto o carro acelerava —, eu até simpatizo com a Eduarda agora. Ela é uma fonte inesgotável de entretenimento. Primeiro o gato, agora o motel... o que será o próximo? Um assalto a banco com a avó?

— Fica quieta, Sara — Emanuel ordenou, mas sua mão apertava o volante com força.

No banco de trás, Eduarda olhava pela janela, ainda sorrindo ao lembrar da cara do tio.

— Manu... não fica assim. Foi uma aventura.

— Uma aventura que quase te deu um registro criminal, Eduarda — ele respondeu, olhando-a pelo retrovisor. — Você não tem noção do perigo. Você é ingênua demais, manhosa demais... e agora eu vejo que sua família é um perigo para a sua segurança.

— Minha família é o que eu tenho de mais real, Emanuel! — ela rebateu, perdendo o sorriso. — Você quer que eu seja uma boneca de vidro como a Sara, mas eu não sou assim.

— Exatamente — Sara interveio, virando-se para trás com um olhar predatório. — Você é um caos, querida. E homens como o Emanuel odeiam o caos que não podem controlar. Aproveite seus últimos momentos de "diversão", porque depois de hoje, ele vai te trancar em uma torre e jogar a chave fora.

Emanuel não disse nada, mas o silêncio dele era uma concordância tácita. Ele estava decidido: o prazo de espera havia acabado. Depois daquela noite, ele usaria todo o seu poder e influência para forçar Eduarda a se mudar para a cobertura. Ele a queria sob seus olhos, longe das perseguições de carro da mãe e das loucuras da tia.

Ao chegarem na cobertura, Sara desceu do carro com elegância, lançando um último olhar irônico para Eduarda.

— Boa noite, "copiloto". Tente não quebrar nada no quarto de hóspedes. O cristal ali é legítimo, não é de motel.

Eduarda entrou na casa sentindo o peso da proteção de Emanuel se fechar ao seu redor como uma armadura pesada demais. Ela sabia que a diversão da tarde teria um preço alto. Emanuel a amava, mas seu amor era uma gaiola de ouro, e Sara era a carcereira que adorava polir as grades apenas para ver o próprio reflexo.

Naquela noite, enquanto Emanuel limpava um pequeno corte no joelho de Eduarda com uma delicadeza que beirava a obsessão, ele sussurrou:

— Você nunca mais vai sair sem mim, pequena. Nunca mais.

Eduarda suspirou, voltando ao seu jeito manhoso, buscando o peito dele. Ela amava aquela proteção, mas, por um breve momento, enquanto fechava os olhos, ela ainda conseguia ouvir o som dos pneus cantando e o grito de guerra de sua mãe, e sentia uma saudade estranha daquela liberdade caótica que Emanuel jamais permitiria que ela tivesse novamente.