D
O Peso das Correntes Invisíveis
O silêncio na cobertura de Emanuel era denso, quase sólido, interrompido apenas pelo estalar do gelo no copo de uísque que ele segurava com força excessiva. A euforia da noite anterior, a sensação de vitória sobre o conservadorismo do pai de Eduarda, havia evaporado como fumaça. No fim das contas, a "permissão" fora um mal-entendido, uma concessão momentânea que Ricardo, o pai da jovem, fizera questão de revogar assim que o sol nasceu.
Eduarda não havia se mudado. Suas malas, que Emanuel já visualizava preenchendo o closet, continuavam vazias no quarto de sua infância.
— Ele disse que eu só saio de lá casada, Manu... — a voz de Eduarda veio através do viva-voz do celular, embargada, carregada daquela manha que normalmente o derretia, mas que agora só servia para aumentar sua frustração. — Ele chorou, disse que a mamãe estava sendo negligente e que ele não ia perder a "menininha" dele para um estilo de vida que ele não entende.
Emanuel fechou os olhos, massageando as têmporas.
— Você tem vinte anos, Duda. Vinte. Ele não pode te trancar em um quarto.
— Eu sei, mas... você sabe como eu sou. Eu não consigo simplesmente bater a porta e ver ele passando mal. Ele é meu pai. Por favor, não fica bravo comigo.
— Eu não estou bravo com você, pequena. Estou bravo com a situação — mentiu ele. A verdade era que uma parte dele, a parte controladora e possessiva que o fizera construir um império antes dos vinte e cinco, estava furiosa com a passividade dela.
— Eu vou dar um jeito — ele afirmou, embora não soubesse qual. — Tenho que desligar agora. A Sara está me chamando para a reunião da viagem de Milão.
— Tudo bem... eu te amo.
— Também te amo.
Emanuel desligou e jogou o aparelho sobre a mesa de mármore. Sara entrou na sala logo em seguida, o som de seus saltos agulha ecoando como pequenas explosões. Ela usava um conjunto de alfaiataria branco, extremamente justo, que realçava cada curva de seu corpo esculpido. Seus cabelos loiros estavam presos em um rabo de cavalo alto e impecável.
— Pela sua cara, a Cinderela não vai ganhar o sapatinho de cristal tão cedo — debochou Sara, sentando-se à mesa e abrindo o notebook. — Eu te avisei, Emanuel. Homens como o pai dela não cedem com discursos bonitos. Eles cedem com fatos consumados. Você deveria ter trazido ela à força e deixado o velho gritar no portão.
— Ela não é como você, Sara — Emanuel retrucou, a voz fria. — Se eu forçasse a barra, ela quebraria. A Eduarda precisa de suavidade.
— A Eduarda precisa de um choque de realidade, isso sim — Sara deu de ombros, digitando rapidamente. — Mas enfim, negócios. O jato está confirmado para sexta-feira. Ficaremos dez dias entre Milão e Roma. Temos três inaugurações de estúdios e aquele jantar com os investidores da linha de cosméticos. Eu já organizei tudo. A suíte master do Palazzo Parigi é maravilhosa.
Emanuel suspirou, sentindo o peso da responsabilidade. A viagem era essencial. Seus estúdios na Europa estavam expandindo e Sara, com sua competência administrativa agressiva, era a única pessoa em quem ele confiava para lidar com a burocracia pesada enquanto ele cuidava da parte artística e estratégica.
— A Duda vai amar a Itália — comentou Emanuel, mais para si mesmo do que para Sara.
Sara parou de digitar e olhou para ele com uma expressão que misturava pena e ironia.
— Emanuel, querido... você falou com ela sobre as datas?
— Ainda não detalhei, mas ela sabe que eu viajo agora. Por quê?
— Porque eu vi o post da prima dela no Instagram hoje de manhã. O "casamento do ano" no interior de Minas Gerais. É exatamente no próximo sábado. E você conhece a Duda... ela é a dama de honra, ou algo do tipo.
Emanuel sentiu um nó se formar em seu estômago. Ele pegou o celular novamente e ligou para Eduarda.
— Duda, a viagem para a Itália. Sexta-feira agora. Você já organizou suas coisas?
Houve um silêncio do outro lado da linha. Um silêncio que dizia tudo.
— Manu... eu... eu achei que você lembrasse. É o casamento da Ritinha. Eu sou a madrinha. Eu prometi para ela desde o ano passado, antes mesmo de a gente começar a namorar sério.
— Eduarda, eu estou falando de uma viagem de negócios internacional. Eu reservei tudo para nós três. Eu quero você lá comigo. Quero te mostrar a Galeria Uffizi, quero que você veja as obras que estuda na faculdade ao vivo.
— Eu quero muito ir, Manu! De verdade, meu coração está apertado — a voz dela ficou fina, aquele tom choroso e manhoso que buscava proteção. — Mas eu não posso desapontar minha família de novo. Meu pai já está furioso por causa daquela conversa ontem. Se eu faltar ao casamento da sobrinha favorita dele para viajar com você... ele nunca mais vai me deixar te ver.
— Então você está escolhendo um casamento de interior em vez de estar comigo? — a voz de Emanuel subiu um tom, a rigidez de sua personalidade assumindo o controle.
— Não é uma escolha, é uma obrigação! — Eduarda exclamou, começando a chorar. — Por que você tem que ser tão difícil? Por que não podemos ir na outra semana?
— Porque eu tenho compromissos, Eduarda! Eu tenho uma agenda. Eu não sou um estudante que pode mudar as datas conforme o humor do pai.
— Eu sinto muito... eu realmente sinto muito.
Emanuel desligou o telefone sem se despedir. O estresse acumulado das últimas semanas parecia prestes a explodir. Ele olhou para Sara, que assistia a tudo com um sorriso de canto, bebendo um gole de água mineral.
— Que cena dramática — comentou ela, fechando o notebook. — Ela é uma fofa, Emanuel, mas ela é uma criança presa em um corpo de mulher. E você é um homem que precisa de parceiras, não de dependentes que pedem permissão para respirar.
— Cale a boca, Sara — rosnou ele, mas sem convicção.
— Não calo. Eu sou a única aqui que te diz a verdade porque não tenho medo do seu humor. Você quer a Eduarda porque ela é doce e te faz sentir como um deus protetor. Mas a vida real exige logística. Eu vou estar no avião na sexta-feira. Com ou sem ela.
***
Os dias que antecederam a viagem foram um inferno de silêncios tensos e mensagens curtas. Eduarda enviava fotos de vestidos de madrinha, tentando incluir Emanuel em sua rotina, mas ele respondia apenas com monossílabos. Ele estava punindo-a, e sabia disso, mas não conseguia evitar. O fato de ela não enfrentar o pai para estar com ele o fazia sentir-se em segundo lugar.
Na quinta-feira à noite, véspera da viagem, Eduarda apareceu no estúdio principal de Emanuel. Ela estava usando um vestido floral leve, os cabelos castanhos presos em uma trança lateral, parecendo uma pintura de Botticelli em meio às paredes pretas e luzes de neon do estúdio de tatuagem.
— Manu? — ela chamou baixinho, aproximando-se da mesa dele.
Emanuel estava revisando alguns desenhos. Ele não levantou a cabeça de imediato.
— Oi, Eduarda.
Ela deu a volta na mesa e sentou-se no colo dele, passando os braços pelo seu pescoço. Emanuel tentou manter a postura rígida, mas o calor do corpo dela e o cheiro de baunilha começaram a desarmar suas defesas.
— Não vai embora brigado comigo — ela pediu, encostando o rosto no dele. — Eu vou sentir tanto a sua falta. Dez dias longe de você... eu vou morrer de saudade.
— Você poderia estar indo comigo — disse ele, a voz um pouco mais suave, mas ainda carregada de mágoa. — Eu queria te apresentar como minha mulher em Milão.
— Eu sou sua mulher, Manu. Em qualquer lugar do mundo — ela beijou o canto da boca dele, de forma manhosa, deslizando as mãos pelo peito dele. — Quando você voltar, eu prometo que vou enfrentar o meu pai de novo. Eu vou tentar levar minhas coisas para a sua casa aos poucos. Só não me deixa triste agora.
Emanuel suspirou, segurando a cintura dela. Eduarda tinha esse poder; ela o desarmava com sua fragilidade. Ele a beijou com intensidade, uma mistura de desejo e posse.
Nesse momento, Sara entrou na sala. Ela carregava uma pasta de couro e parou ao ver a cena. Não havia ciúme em seu olhar, apenas uma observação clínica.
— Ah, a despedida dos amantes — disse Sara, caminhando até o frigobar e pegando uma bebida energética. — Duda, querida, você vai mesmo perder as trufas brancas de Alba para comer salgadinho de casamento em Minas? Que desperdício de potencial.
Eduarda se encolheu um pouco no colo de Emanuel, sentindo-se intimidada pela presença vibrante e vulgar de Sara.
— É importante para a minha família, Sara.
— Família é quem a gente escolhe, boneca. Mas enfim, Emanuel, o motorista passa às cinco da manhã. Espero que você não se atrase por causa de... — ela olhou para Eduarda e sorriu de forma provocativa — ...atividades extracurriculares.
Sara saiu da sala com um balançar de quadris exagerado, deixando um rastro de perfume importado e tensão no ar.
— Ela me assusta às vezes — sussurrou Eduarda.
— Ela é só... a Sara — Emanuel respondeu. — Ela não tem filtros. Mas ela tem razão em uma coisa: eu queria você lá.
***
A manhã de sexta-feira foi cinzenta. No hangar particular, o vento soprava frio. Emanuel estava parado ao pé da escada do jato, observando os funcionários carregarem as malas. Sara já estava lá dentro, provavelmente bebendo champanhe e dando ordens a alguém pelo telefone.
Seu celular vibrou. Era uma mensagem de Eduarda.
"Já estou no carro com meu pai indo para o interior. Meu coração ficou aí no hangar com você. Boa viagem, meu amor. Me liga quando pousar? Amo você."
Emanuel não respondeu. Ele sentia uma irritação profunda, uma sensação de que estava sendo deixado para trás por uma estrutura familiar que ele desprezava. Ele subiu os degraus e entrou na cabine luxuosa.
Sara estava acomodada em uma poltrona de couro bege, com as pernas cruzadas, exibindo as coxas torneadas através de uma fenda generosa em sua saia. Ela olhou para ele e ergueu uma taça.
— Sozinhos, enfim — disse ela, com um brilho malicioso nos olhos. — Não fique com essa cara, Emanuel. Você tem a mim para cuidar de todos os seus desejos na Itália. A Duda vai estar ocupada demais segurando a cauda do vestido da prima para sentir sua falta.
— Não comece, Sara — Emanuel sentou-se na poltrona à frente dela, apertando o cinto.
— Eu não estou começando nada. Só estou dizendo que, pelos próximos dez dias, eu sou a sua única prioridade. E você é a minha. Vamos focar nos negócios... e no prazer que Milão pode nos proporcionar. Sem horários para voltar, sem pais rígidos e sem timidez.
O jato começou a taxiar pela pista. Emanuel olhou pela janela, vendo a cidade diminuir. Ele pensou em Eduarda, em sua doçura e em como ela provavelmente estaria chorando no banco de trás do carro do pai naquele momento. Mas então olhou para Sara, que era a imagem da eficiência e da sedução desavergonhada.
— Você trouxe os contratos da unidade de Brera? — perguntou ele, tentando focar no trabalho.
— Estão bem aqui — Sara deu um tapinha na pasta ao seu lado. — Mas eles podem esperar até cruzarmos o Atlântico. Agora, eu quero que você relaxe. Você está muito tenso, Emanuel.
Ela se levantou e caminhou até ele, sentando-se no braço de sua poltrona. Suas mãos, perfeitamente manicuradas, começaram a massagear os ombros dele.
— Sabe o que é o seu problema? — ela sussurrou perto de seu ouvido. — Você quer controlar tudo. Mas às vezes, o melhor é deixar o que pesa para trás e aproveitar o que está ao seu alcance.
Emanuel fechou os olhos. A ausência de Eduarda era um buraco em seu peito, mas a presença constante e dominante de Sara era um preenchimento imediato. Ele sabia que a viagem seria um sucesso profissional, mas a divisão em seu coração estava se tornando cada vez mais perigosa.
Enquanto o avião ganhava altitude, cruzando as nuvens, Emanuel sentiu que estava se afastando não apenas de São Paulo, mas de uma parte de si mesmo que Eduarda mantinha viva. E, ao mesmo tempo, ele se entregava àquela que nunca o deixava sozinho, que não precisava de permissão para ser dele e que, apesar de sua vulgaridade e agressividade, era o pilar que sustentava seu império.
A guerra entre a paz que ele encontrava em Eduarda e a força que ele compartilhava com Sara estava longe de acabar. Mas, naquela viagem, apenas uma delas estaria ao seu lado quando as luzes de Milão brilhassem no horizonte. E Emanuel, em sua fúria silenciosa contra o mundo que o impedia de ter tudo, decidiu que não seria ele quem sofreria pela ausência de ninguém.
— Sirva-me um pouco disso — disse ele, apontando para o champanhe.
Sara sorriu, vitoriosa.
— Com prazer, meu amor. Com todo o prazer do mundo.