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Entre Cinzas e Silêncios
O jato particular cortava os céus em direção à Europa, mas o clima dentro da cabine era de uma frieza que nenhum sistema de calefação conseguia dissipar. Emanuel estava sentado em sua poltrona de couro, os olhos fixos em um tablet que exibia planilhas financeiras, mas sua mente estava a quilômetros de distância, presa em uma sala de estar bem iluminada no subúrbio de São Paulo.
A conversa com Ricardo, o pai de Eduarda, ainda ecoava em sua cabeça. Emanuel esperava encontrar um carrasco, um homem retrógrado que queria trancafiar a filha por moralismo. Mas o que encontrou foi um pai calmo, cujos olhos refletiam uma preocupação genuína que Emanuel, em sua arrogância possessiva, não soube processar.
— Emanuel — Ricardo dissera, com uma serenidade que irritou o tatuador —, a Eduarda tem vinte anos. Ela mal descobriu quem é fora desta casa. Eu não estou proibindo vocês de ficarem juntos, mas eu não vou dar as bênçãos para ela se mudar para a sua cobertura como se fosse um acessório da sua vida. Ela tem planos, tem a faculdade, tem a nossa família. Ela não é um satélite que gira em torno de você.
O pior não fora a fala de Ricardo, mas o olhar de Eduarda. Ela não contestou. Pelo contrário, ela segurou a mão do pai e, com aquele jeito doce e manhoso, admitiu que sentia que era cedo demais. Que amava Emanuel, mas que não estava pronta para abandonar sua rotina, seus estudos e o porto seguro de seus pais apenas para satisfazer a urgência dele em tê-la sob controle vinte e quatro horas por dia.
Para Emanuel, aquilo foi uma traição. Uma rejeição ao seu "império" e à proteção que ele oferecia.
— Você está sendo patético, querido — a voz de Sara o trouxe de volta à realidade.
Ela estava sentada à sua frente, usando um conjunto de seda preta que ressaltava o brilho de seus cabelos loiros e o volume de seus seios siliconados, que ela fazia questão de deixar em evidência. Sara não tinha paciência para melancolia.
— Ela escolheu o papai e a mamãe em vez de uma suíte em Milão. Aceite — Sara continuou, servindo-se de uma dose generosa de conhaque. — A Eduarda é uma boneca de porcelana que gosta da prateleira onde foi colocada. Eu, por outro lado, estou aqui. Eu trabalho com você, eu viajo com você e eu não preciso de permissão para nada.
Emanuel olhou para ela. A vulgaridade de Sara era magnética, uma força bruta que não pedia desculpas por existir. Ele sentia uma gratidão irritada por ela ser tão fácil de lidar, tão pragmática.
— Vou recompensar você, Sara — disse Emanuel, a voz rouca. — Esta viagem será sobre nós. Quero que você cuide de tudo em Milão, e depois das reuniões, o tempo é seu. Pode comprar o que quiser na Via Montenapole. Considere um bônus pela sua... lealdade.
Sara sorriu, um sorriso predatório que iluminou seu rosto impecavelmente maquiado.
— Agora você está falando a minha língua. Deixe a pequena Duda com os livros de história da arte dela. Vamos viver a vida real.
***
Enquanto o avião cruzava o oceano, em São Paulo, Eduarda sentia o peso do silêncio de Emanuel. Ela olhava para o celular a cada cinco minutos, esperando uma mensagem, um sinal de que ele não estava mais furioso. Mas não havia nada. Apenas o "visto por último" de horas atrás.
Ela estava sentada em sua cama, rodeada por livros sobre o Renascimento. Suas lágrimas molhavam as páginas ocasionalmente. Ela se sentia dividida. Amava a intensidade de Emanuel, a forma como ele a fazia se sentir a mulher mais preciosa do mundo, mas o sufocamento que vinha com isso a assustava. Ela não era Sara. Ela não tinha aquela pele grossa, aquela autoconfiança inabalável.
— Filha? — Sua mãe, Helena, entrou no quarto com uma bandeja de chá. — Você ainda está assim por causa dele?
— Ele foi embora sem se despedir direito, mãe — sussurrou Eduarda, limpando o rosto. — Ele está me punindo porque eu não quis largar tudo para morar com ele agora. Ele acha que eu não o amo o suficiente.
Helena sentou-se ao lado da filha, acariciando seus cabelos castanhos.
— O Emanuel é um homem que conquistou o mundo muito cedo, Duda. Ele acha que tudo pode ser comprado ou controlado. Mas o amor não funciona assim. Se ele te ama, ele vai ter que aprender a respeitar o seu tempo. Não se sinta culpada por querer terminar sua faculdade e viver a sua idade.
— Eu sei... mas dói. E eu sei que a Sara está lá com ele. Ela é tão... tudo o que eu não sou.
— Ela é útil para os negócios dele, querida. Mas você é o descanso dele. Só que ele ainda é jovem demais para entender a diferença.
Eduarda respirou fundo. Ela decidiu que não ficaria em casa definhando. Naquela noite, seu curso de História da Arte teria uma aula prática especial: uma visita técnica noturna a um dos cemitérios mais antigos e artísticos da cidade, para estudar a simbologia das esculturas tumulares. Era algo que ela estava ansiosa para fazer há semanas.
***
Milão era um turbilhão de luzes e luxo. Sara estava em seu elemento, navegando pelas reuniões de negócios com uma competência que até Emanuel admirava. Ela era agressiva nos contratos, sedutora nas negociações e implacável com os fornecedores. À noite, ela se transformava na companhia perfeita para os jantares caros, usando vestidos que paravam o trânsito e rindo alto das piadas dos investidores italianos.
Emanuel, no entanto, sentia um vazio persistente. Ele tentava punir Eduarda com seu silêncio, mas quem se sentia punido era ele. A cada vez que via algo bonito, sua primeira reação era querer mostrar a ela, apenas para lembrar que ela estava do outro lado do mundo, provavelmente dormindo em seu quarto de solteira.
Na segunda noite em Milão, após um jantar exaustivo, Emanuel estava no bar do hotel com Sara. Ela estava sentada perto demais, sua mão deslizando pela coxa dele por baixo da mesa.
— Você está aqui, mas não está, Manu — disse ela, com um tom de voz que misturava deboche e carência. — Esquece ela um pouco. Olha para mim.
Emanuel suspirou e pegou o celular. Ele não resistiu e abriu o aplicativo de rastreamento que, em um momento de possessividade meses atrás, ele havia convencido Eduarda a instalar "por segurança".
Seus olhos se estreitaram. O ponto pulsante no mapa não estava na casa dela. Não estava na faculdade. Estava em um local escuro, uma vasta área verde no mapa de São Paulo.
— O que ela está fazendo em um cemitério às dez da noite? — rosnou Emanuel, a voz carregada de uma fúria súbita.
Sara se inclinou para ver a tela, soltando uma risada sarcástica.
— Um cemitério? Talvez ela esteja enterrando o relacionamento de vocês, querido. Ou talvez tenha finalmente encontrado algo mais morto que o seu humor hoje.
— Isso não tem graça, Sara — ele se levantou bruscamente, derrubando quase o copo. — Ela me disse que ia ficar em casa estudando. O que ela faz em um lugar desses, à noite, sem me avisar?
— Emanuel, senta. Ela deve estar com a turma da faculdade. Aqueles esquisitos da arte adoram essas coisas góticas.
Emanuel ignorou Sara. Ele discou o número de Eduarda imediatamente. O telefone tocou várias vezes antes de ela atender.
— Alô? Manu? — A voz dela era baixa, um sussurro que parecia vir de um lugar aberto e ventoso.
— Onde você está, Eduarda? — A voz dele era um chicote.
— Eu... eu estou na aula prática, Manu. No Cemitério da Consolação. Eu te mandei um cronograma da faculdade no mês passado, você não lembra? Estamos estudando a arte sacra e os mausoléus.
— Em um cemitério? À noite? Você perdeu o juízo? — Emanuel caminhava de um lado para o outro no bar luxuoso, atraindo olhares dos outros hóspedes. — Você sabe o quanto isso é perigoso? Qualquer um pode entrar ali!
— Tem segurança, Manu... e eu estou com o professor e mais trinta alunos. É um evento oficial. Por que você está gritando? Você nem falou comigo desde que viajou...
— Eu não falei porque estava esperando que você caísse na real! Mas pelo visto, você prefere estar em um lugar rodeada de mortos do que estar aqui comigo. Se você estivesse morando comigo, eu nunca permitiria que você saísse para um lugar desses a essa hora.
Do outro lado da linha, houve um silêncio pesado. Eduarda sentiu uma mistura de tristeza e uma faísca de algo que ela raramente sentia: irritação.
— Mas eu não moro com você, Emanuel — disse ela, com uma firmeza incomum. — E esse é exatamente o ponto. Você não pode controlar cada passo que eu dou. Eu estou em uma aula. Estou aprendendo. Estou feliz por estar aqui com meus amigos.
— Amigos? Que amigos? Aqueles moleques da faculdade que ficam te olhando como se você fosse uma obra de arte?
— Tchau, Emanuel. Boa viagem com a Sara.
A ligação caiu. Emanuel olhou para o celular, incrédulo. Ela havia desligado na cara dele.
Sara, que observava tudo com um prazer mal disfarçado, serviu-se de mais vinho.
— Uau. A bonequinha de porcelana tem dentes. Quem diria?
— Cala a boca, Sara! — Emanuel explodiu, socando a mesa.
— Não desconte em mim a sua incapacidade de domar uma menina de vinte anos — Sara se levantou, aproximando-se dele e colando seu corpo ao dele. — Você queria puni-la, não queria? Queria mostrar que a vida segue sem ela. Então faça isso. Pare de olhar o GPS como um psicopata e venha para o quarto. Eu sou a mulher que escolheu estar aqui. Eu sou a mulher que não te dá dor de cabeça.
Emanuel olhou para Sara. Ela exalava um perfume caro e uma promessa de distração carnal que ele desesperadamente precisava para calar a voz em sua cabeça que gritava o nome de Eduarda. Mas, mesmo enquanto ele a puxava para um beijo agressivo e possessivo, sua mente ainda estava naquela imagem do mapa: um ponto solitário e delicado no meio de um cemitério escuro, movendo-se para longe de seu controle.
***
Eduarda guardou o celular na bolsa, as mãos tremendo. Seus colegas de classe passavam por ela, maravilhados com as esculturas de anjos em mármore sob a luz da lua, mas ela não conseguia mais focar na beleza.
— Tudo bem, Duda? — perguntou um colega, aproximando-se. Era um rapaz de sua idade, com óculos de aros finos e um olhar gentil.
— Tudo bem, Leo. Só... problemas de comunicação.
— O seu namorado de novo? — Leo suspirou. — Ele parece ser um cara difícil. Você é tão leve, Duda. Não deveria deixar ninguém apagar esse seu brilho.
Eduarda sorriu fraco. Ela olhou para os mausoléus imponentes ao seu redor. Ali, cercada pelo silêncio da morte, ela sentiu uma clareza estranha. Emanuel a amava, ela sabia, mas era um amor que exigia que ela deixasse de ser ela mesma. E Sara... Sara era como aquelas estátuas de bronze: forte, fria e feita para ser admirada de longe, mas sem a suavidade que Eduarda sabia que Emanuel secretamente buscava.
Naquela noite, enquanto Emanuel se perdia nos braços de Sara em um hotel de cinco estrelas em Milão, tentando provar para si mesmo que tinha o controle de tudo, Eduarda caminhava entre os túmulos, percebendo que as correntes que Emanuel tentava colocar nela eram feitas de um material que ela não estava mais disposta a carregar.
A viagem de Emanuel com Sara era para ser uma lição para Eduarda. Mas, no fim das contas, a lição estava sendo aprendida por ele, no silêncio que se seguia após os gritos de prazer com Sara: a percepção de que, quanto mais ele tentava segurar Eduarda com força, mais ela se tornava como o mármore das estátuas que estudava — bela, eterna, mas inalcançável para mãos que só sabiam apertar.