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O Despertar da Curiosidade sob o Olhar do Furacão

A manhã de sábado na cobertura de Emanuel tinha um sabor agridoce. Eduarda estava oficialmente instalada para o fim de semana, mas o clima de "castigo" imposto por Emanuel após o incidente no clube de strippers ainda pairava no ar. No entanto, para Eduarda, o castigo de Emanuel era quase uma recompensa: ele a cercava de mimos, atenção e uma possessividade que a fazia se sentir o centro do universo.

Emanuel estava no escritório, resolvendo uma crise em um de seus estúdios em Berlim, enquanto Sara havia saído para uma aula de pilates e uma reunião com fornecedores de tintas importadas. Eduarda, aproveitando o momento de solidão, estava na biblioteca, tentando se concentrar em um livro sobre a técnica de chiaroscuro de Caravaggio.

O silêncio foi interrompido pelo som do elevador privativo. Eduarda gelou. Emanuel não esperava ninguém. Quando as portas se abriram, a figura vibrante de Letícia surgiu, usando um vestido de linho mostarda e óculos escuros enormes.

— Tia? O que você está fazendo aqui? O Manu vai ter um colapso se te vir! — Eduarda levantou-se rapidamente, as mãos tremendo levemente.

— Ora, Duda, deixe de ser dramática. O Emanuel é um leão que ruge, mas eu sei lidar com feras — Letícia jogou a bolsa de grife sobre a mesa de carvalho e abraçou a sobrinha. — Vim ver como você está. O Ricardo me ligou ontem soltando fumaça pelas orelhas, disse que eu sou uma influência satânica. Achei um elogio.

Eduarda riu, apesar do nervosismo. Letícia tinha esse poder de tornar tudo mais leve.

— Ele está furioso, tia. E o Manu também. Ele me deixou de "castigo", mas é um castigo bom... ele fica me cuidando o tempo todo.

Letícia sentou-se na poltrona de leitura de Emanuel, cruzando as pernas de forma elegante.

— Esse é o problema, querida. Você gosta da gaiola porque o alpiste é de ouro. Mas me diga a verdade... e entre quatro paredes? O "chefe" é tão bom quanto parece ou ele é burocrático como um contrato de aluguel?

Eduarda sentiu o rosto queimar instantaneamente. Ela olhou para a porta da biblioteca, certificando-se de que Emanuel continuava em sua chamada de vídeo.

— Tia! Eu não posso falar disso. É... é íntimo.

— É íntimo e é fundamental, Duda. Você é toda manhosa, toda sensível, mas o Emanuel é um homem intenso. Se você não aprender a dominar o desejo dele, você vai ser sempre a "menininha" e a Sara vai continuar sendo a "mulher". Você quer isso?

Eduarda baixou o olhar. A insegurança sobre Sara era seu ponto mais sensível.

— Eu não sei o que fazer, tia. Eu sou tímida. Eu tenho vergonha até de acender a luz. O Manu é carinhoso, mas às vezes eu sinto que ele tem medo de me quebrar. E eu... eu queria que ele perdesse o medo.

Letícia sorriu, um brilho travesso nos olhos.

— Então você veio ao lugar certo. Ou melhor, eu vim até você. Vamos transformar essa sua timidez em uma arma de sedução em massa.

Letícia levantou-se e começou a andar pela biblioteca, gesticulando com as mãos.

— Primeiro: o olhar. Você tem esses olhos de corça assustada. Use isso! Mas não para fugir, e sim para atrair. Quando ele estiver por cima de você, não feche os olhos. Encare-o. Mostre que você está vendo o homem que ele é.

Eduarda ouvia tudo hipnotizada.

— E as mãos, Duda! — Letícia continuou, empolgada. — Suas mãos são muito quietas. Você precisa explorar. O corpo de um homem como o Emanuel é um mapa. Toque nas tatuagens dele como se estivesse lendo uma história. E não tenha medo de ser um pouco... exigente.

— Exigente como? — sussurrou Eduarda, a curiosidade vencendo a vergonha.

— Peça o que você quer. Se você quer que ele aperte mais forte, diga. Se quer que ele pare, diga. Mas o segredo está na voz. Use esse seu tom manhoso para dar ordens disfarçadas de pedidos. Homens controladores como ele adoram achar que estão no comando, quando na verdade estão apenas seguindo o roteiro que nós escrevemos.

Letícia então se aproximou de Eduarda e começou a demonstrar posições de coluna e movimentos de quadril que ajudariam na "performance".

— Imagine que você é uma gata, Duda. Flexível, macia, mas com garras escondidas. Tente fazer esse movimento aqui com as costas... arqueie assim.

Eduarda, movida por uma súbita coragem, começou a imitar os movimentos da tia. Letícia a corrigia, rindo e fazendo comentários cada vez mais explícitos sobre anatomia e prazer.

— Isso! Agora, imagine que ele está aqui na sua frente. Você morde o lábio, inclina a cabeça e...

— O QUE SIGNIFICA ISSO? — A voz de Emanuel explodiu no ambiente como um trovão.

As duas deram um pulo. Emanuel estava parado no arco da porta, o rosto lívido, os olhos arregalados de puro choque e indignação. Ele segurava um iPad, que quase escorregou de suas mãos.

Eduarda ficou paralisada na posição sugerida pela tia — as costas arqueadas e as mãos nas coxas — parecendo uma estátua de mármore flagrada em um momento pecaminoso.

Letícia, por outro lado, nem sequer se abalou. Ela se recompôs com uma calma irritante e ajeitou o cabelo.

— Ah, Emanuel! Você sempre com essa mania de entrar sem bater nos lugares. Quase matou a sua namorada de susto.

— Letícia, saia da minha casa. Agora! — Emanuel caminhou até o centro da sala, a respiração pesada. — Eduarda, o que você estava fazendo? Que tipo de baixaria é essa?

Eduarda finalmente conseguiu se mexer. Ela se endireitou, o rosto tão vermelho que parecia que ia entrar em combustão.

— Manu... não é o que você está pensando! A tia só estava... me dando dicas.

— Dicas? — Emanuel rugiu, olhando de uma para a outra. — Dicas de quê? De como se comportar como uma... uma...

— Uma mulher que sabe o que quer, Emanuel — Letícia o interrompeu, cruzando os braços. — Eu estava apenas ensinando à Duda que ela não precisa ser uma boneca de pano na sua cama. Estávamos praticando linguagem corporal. Algum problema com a educação da sua namorada?

Emanuel passou a mão pelo rosto, tentando manter a sanidade. Ver a tia de Eduarda — uma mulher que ele considerava o caos encarnado — ensinando "posições" para sua doce e inocente Eduarda era um pesadelo que ele nunca imaginou ter.

— Você não tem vergonha, Letícia? — ele perguntou, a voz vibrando de frustração. — Vir aqui, na minha casa, e perverter a Eduarda desse jeito?

— Perverter? — Letícia soltou uma gargalhada genuína. — Emanuel, querido, a Eduarda tem vinte anos. Ela não é feita de açúcar. E, pelo que eu vi, ela é uma aluna muito dedicada. Você deveria me agradecer. O jantar de hoje à noite seria inesquecível se você não tivesse estragado o clima com esse seu complexo de pai autoritário.

Emanuel olhou para Eduarda, que estava encolhida perto de uma estante de livros, olhando para os próprios pés.

— Eduarda, vá para o nosso quarto. Agora.

— Mas Manu... — ela começou, com a voz manhosa.

— Agora, Eduarda!

Ela não discutiu. Pegou seu livro e saiu quase correndo, lançando um olhar de "socorro" para a tia.

Quando ficaram sozinhos, Emanuel voltou toda a sua fúria para Letícia.

— Eu não sei o que você pretende, Letícia. Mas se você acha que vai transformar a Eduarda em uma cópia sua, você está muito enganada. Eu a amo justamente porque ela é diferente de mulheres como você... e como a Sara.

Letícia aproximou-se dele, o olhar ficando sério pela primeira vez.

— Você a ama porque ela é fácil de controlar, Emanuel. Mas deixe-me te contar um segredo: até as corças se cansam de ser caçadas. Se você não deixar que ela descubra a própria força e o próprio desejo, um dia ela vai acordar e perceber que a proteção que você oferece é, na verdade, uma prisão. E nesse dia, nem todo o seu dinheiro ou suas tatuagens vão segurá-la.

Emanuel ficou em silêncio, as palavras de Letícia atingindo um nervo exposto.

— Agora, eu vou embora — Letícia pegou sua bolsa. — Mas pense no que eu disse. E, por favor, tente não ser tão careta. A Duda estava ficando ótima naquele movimento de quadril.

Ela piscou para ele e saiu da biblioteca com a mesma energia com que entrou.

Emanuel permaneceu parado por longos minutos. Ele sentia uma mistura de raiva, ciúme e uma curiosidade perturbadora. Ele caminhou até o quarto e encontrou Eduarda deitada na cama, de bruços, o rosto escondido nos travesseiros.

Ele sentou-se ao lado dela e colocou a mão em suas costas. Ela estava tremendo levemente.

— Duda... olhe para mim.

Ela se virou devagar, os olhos vermelhos de choro e vergonha.

— Você está muito bravo comigo, não está? Eu sei que foi feio... a tia é doida, Manu. Ela começou a falar aquelas coisas e eu... eu só queria saber como te agradar mais.

Emanuel sentiu seu coração amolecer. A vulnerabilidade de Eduarda era sua ruína.

— Eu não estou bravo com você, pequena — disse ele, a voz suavizando. — Eu estou bravo com ela por se meter onde não é chamada. Você não precisa de "dicas" de ninguém para me agradar. Você me agrada apenas por existir.

— Mas eu queria ser... mais — ela sussurrou, sentando-se e puxando a mão dele para o seu colo. — Eu queria que você perdesse o fôlego quando olhasse para mim, do mesmo jeito que acontece com a Sara.

Emanuel sentiu uma pontada de culpa. Ele nunca quis que Eduarda se sentisse inferior a Sara, mas a dinâmica dos três naturalmente criava essas comparações.

— Você não precisa ser a Sara, Eduarda. Se eu quisesse que você fosse como ela, eu não estaria com você. Eu amo a sua doçura, a sua calma...

— Mas a tia disse que eu posso ser as duas coisas — Eduarda insistiu, a voz ganhando uma pitada daquela rebeldia que Letícia plantara. — Ela disse que eu posso ser doce e... poderosa.

Emanuel observou-a em silêncio. Ele percebeu que, por mais que tentasse, não conseguiria manter Eduarda em uma bolha para sempre. O furacão Letícia havia passado e deixado sementes.

— Tudo bem — disse ele, puxando-a para um abraço. — Se você quer aprender coisas novas, aprenda comigo. Não com ela.

— Você me ensina? — ela perguntou, olhando-o com uma mistura de inocência e malícia que ele nunca vira antes.

Emanuel sorriu, um sorriso sombrio e carregado de desejo.

— Eu te ensino tudo o que você quiser saber, Eduarda. Mas sob as minhas regras.

Naquela noite, a dinâmica na cobertura mudou. Sara, ao retornar, percebeu o olhar diferente entre Emanuel e Eduarda durante o jantar. Havia uma eletricidade nova, um jogo de olhares que ela não reconhecia.

— O que eu perdi enquanto estava fora? — perguntou Sara, servindo-se de vinho. — O clima aqui está mais pesado que o normal.

— A Letícia esteve aqui — respondeu Emanuel, sem tirar os olhos de Eduarda.

Sara soltou uma gargalhada.

— Ah, agora tudo faz sentido. O furacão passou por aqui, não foi? E pelo visto, deixou alguns estragos interessantes.

Eduarda não baixou o olhar. Ela deu um pequeno gole em seu suco e, lembrando-se da dica da tia, encarou Emanuel com uma firmeza que o fez perder o raciocínio por um segundo.

— Foi uma tarde muito educativa, Sara — disse Eduarda, com uma voz suave, mas decidida.

Emanuel sentiu um calafrio percorrer sua espinha. Ele percebeu que o controle que ele tanto prezava estava começando a se transformar em algo novo, algo que ele não conseguia mais prever totalmente. Eduarda ainda era sua pequena, sua manhosa, mas agora havia uma faísca de curiosidade que ele mesmo teria que alimentar — ou correr o risco de que Letícia voltasse para incendiar o resto da casa.

A noite terminou com o trio em uma harmonia tensa, mas produtiva. Emanuel, entre a força estratégica de Sara e a nova e florescente curiosidade de Eduarda, sentia que seu império pessoal estava se tornando um labirinto cada vez mais complexo de navegar. Mas, enquanto observava as duas mulheres que amava, ele soube que não trocaria aquele caos por nenhuma paz no mundo.

Letícia, em seu apartamento nos Jardins, brindava sozinha com uma taça de champanhe. Ela sabia que tinha aberto uma porta que Emanuel nunca conseguiria fechar totalmente. E o espetáculo, ela tinha certeza, estava apenas começando.