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O Despertar do Furacão e a Dança do Caos

A manhã seguinte ao jantar com Letícia foi marcada por um silêncio tenso na cobertura. Emanuel não conseguia tirar da cabeça a imagem de Eduarda sob a influência daquela mulher. Letícia era o oposto de tudo o que ele pregava: ela era o caos, a falta de filtros, a liberdade que beirava a inconsequência. No entanto, ela cumprira sua parte. Ricardo, o pai rígido de Eduarda, ligara para Emanuel naquela manhã, com uma voz resignada e surpreendentemente calma.

— Letícia me convenceu, Emanuel — disse Ricardo, embora o tom deixasse claro que ele ainda não aprovava a situação. — Eduarda pode passar as noites de sexta e sábado na sua casa, desde que você a busque e a traga pessoalmente. E nada de festas estranhas. Ela vai para estudar e descansar.

Emanuel desligou o telefone com uma sensação de triunfo, mas o gosto era agridoce. Ele sabia que o preço daquela concessão era a porta aberta para Letícia circular na vida de sua "pequena".

Eduarda chegou no fim da tarde de sexta-feira, trazendo consigo o perfume suave de baunilha e aquela aura de doçura que desarmava qualquer um. Emanuel a recebeu com um abraço possessivo, enterrando o rosto em seu pescoço.

— Achei que você nunca mais voltaria para mim depois daquela noite com sua tia — sussurrou ele, apertando-a contra o corpo.

— Ah, Manu... — Eduarda respondeu, com aquela voz manhosa que o derretia por completo. — Foi divertido, mas eu senti tanto a sua falta. A tia Letícia é um furacão, ela me deixa tonta. Eu só queria o meu lugar aqui, com você.

Ela continuava a mesma. A experiência no cabaré não a transformara em uma mulher fatal; ela ainda era a menina sensível que buscava proteção nos braços dele. Emanuel sentiu um alívio imenso. Sara, que observava a cena da porta da cozinha com uma taça de vinho na mão, apenas soltou um risinho irônico.

— Aproveite o ninho, passarinho — disse Sara, cruzando as pernas. — Porque se eu conheço bem a sua tia, o próximo round já está sendo planejado.

Sara tinha razão. No sábado pela manhã, enquanto o trio tomava café na varanda com vista para o skyline de São Paulo, o celular de Eduarda vibrou. Era Letícia.

— Oi, tia... — Eduarda atendeu, já ficando um pouco vermelha sob o olhar atento de Emanuel. — Hoje? Mas eu ia ficar com o Manu... O quê? Não, eu não acho que...

— Me dá isso aqui — Emanuel estendeu a mão, mas Eduarda se encolheu, negando com a cabeça.

— Ela quer me levar para uma "festa de celebração da feminilidade", Manu — explicou Eduarda, desligando o telefone e fazendo um biquinho carente. — Ela disse que é importante. Que vai ter música, dança e que é uma forma de eu aprender a... a apimentar as coisas entre nós.

— Que tipo de festa, Eduarda? — Emanuel perguntou, a voz ficando perigosamente baixa.

— Ela não deu detalhes... só disse que é uma noite exclusiva para mulheres.

Emanuel olhou para Sara, que deu de ombros, claramente achando graça da situação.

— Se é para mulheres, por que você está com essa cara de quem vai ter um infarto, Emanuel? — provocou Sara. — Deixe a menina ir. Talvez ela aprenda um truque ou dois para não ficar só na manha o tempo todo.

O que nenhum deles sabia era que a "festa de celebração" de Letícia era, na verdade, uma noite temática em um clube privado com apresentações de gogo boys de elite. Letícia sabia exatamente o que estava fazendo: ela queria ver o circo pegar fogo.

No quarto de hóspedes, enquanto se arrumava, Eduarda sentia o coração acelerado. Ela não queria ir. A ideia de ver homens seminus dançando a deixava envergonhada e desconfortável. Mas Letícia fora implacável ao telefone: "Duda, você precisa ver o que é desejo de verdade para saber como comandar o Emanuel. Se você ficar sempre nesse papel de protegida, ele vai acabar se entediando. Mostre que você conhece o jogo".

Eduarda saiu da cobertura usando um vestido de seda preta, curto e elegante, que Letícia a obrigara a comprar. Emanuel a olhou com desconfiança, mas o beijo manhoso que ela lhe deu antes de sair o acalmou momentaneamente.

— Eu volto logo, Manu. Prometo que vou pensar em você o tempo todo.

***

O clube era um labirinto de luzes neon roxas e música pulsante. Quando Eduarda entrou, guiada pela mão firme de Letícia, ela quase quis dar meia-volta. O palco central estava ocupado por homens esculturais, vestindo apenas calças de couro e óleo corporal, movendo-se com uma sensualidade agressiva que fazia as mulheres ao redor gritarem e aplaudirem.

— Tia, eu não posso ficar aqui! — Eduarda gritou por cima da música, o rosto em brasas. — O Manu vai me matar! O meu pai... se ele souber...

— Relaxa, Duda! — Letícia riu, pedindo dois coquetéis coloridos no bar. — Olhe para eles como se fossem estátuas gregas em movimento. É arte, querida! E veja como aquelas mulheres estão se divertindo. Você não precisa tocar em ninguém, só precisa entender o poder que a beleza masculina exerce e como você pode usar isso a seu favor.

Eduarda sentou-se em um sofá de veludo, sentindo-se a pessoa mais deslocada do mundo. Ela tentava não olhar para o palco, mas a música e a energia do lugar eram hipnotizantes.

Enquanto isso, na cobertura, o clima era de guerra fria. Emanuel não conseguia se sentar. Ele andava de um lado para o outro, até que seu celular tocou. Era um número desconhecido.

— Emanuel? É o Ricardo.

O tom de voz do pai de Eduarda estava carregado de uma fúria vibrante que Emanuel nunca ouvira antes.

— O que aconteceu? — Emanuel perguntou, já sentindo o estômago dar um nó.

— Eu recebi uma foto anonima! — gritou Ricardo. — A minha filha está em um clube de strippers, Emanuel! No "Lust & Leather"! Eu sabia que você era uma má influência, mas permitir que a Letícia a levasse para um lixo desses sob a sua vigia? Eu estou indo para lá agora mesmo e, se você tiver um pingo de dignidade, vai me ajudar a tirar minha filha daquele antro antes que eu chame a polícia!

Emanuel sentiu o sangue ferver. A proteção que ele sentia por Eduarda transformou-se em uma possessividade cega. Ele não esperou por Sara. Pegou as chaves do carro e saiu como um raio.

***

O "Lust & Leather" estava no auge da noite quando a porta principal foi praticamente arrombada. Emanuel entrou primeiro, sua postura de 1,90m de altura e os braços cobertos de tatuagens abrindo caminho como um trator. Logo atrás dele, Ricardo, com o rosto vermelho de indignação, parecia um juiz bíblico prestes a lançar uma praga.

Eles não precisaram procurar muito. Letícia estava em pé perto de uma mesa VIP, rindo e conversando com um dos dançarinos que fizera uma pausa. Eduarda estava encolhida no sofá ao lado, as mãos cobrindo parte do rosto, parecendo que queria ser engolida pelo veludo.

— EDUARDA! — O grito de Ricardo cortou a música, fazendo várias pessoas pararem de dançar.

Eduarda deu um pulo, os olhos transbordando lágrimas de susto. Ao ver o pai e Emanuel caminhando em sua direção, ela sentiu que o mundo ia acabar.

— Pai! Manu! — ela soluçou, levantando-se e correndo em direção a eles, mas suas pernas tremiam tanto que ela quase caiu.

Emanuel chegou primeiro. Ele não disse uma palavra. Seus olhos estavam fixos em Letícia com um ódio mortal, mas sua ação foi imediata para com Eduarda. Ele a segurou pela cintura com uma força bruta, impedindo que ela desse mais um passo.

— Você perdeu o juízo, Letícia? — rosnou Emanuel, a voz vibrando de ódio.

— Ah, deixem de ser dramáticos! — Letícia respondeu, cruzando os braços e exibindo um sorriso vitorioso. — Ela estava apenas olhando. Ninguém morreu por ver um abdômen definido.

Ricardo aproximou-se, apontando o dedo para a irmã.

— Você está morta para mim, Letícia! E você, Emanuel... eu confiei em você!

— Eu vou resolver isso — disse Emanuel, sua voz agora fria e definitiva.

Sem dar tempo para Eduarda reagir ou para Ricardo continuar o sermão, Emanuel inclinou-se e, em um movimento rápido e vigoroso, jogou Eduarda sobre o ombro. Ela era leve, pequena, e ele a carregou como se fosse um troféu ou uma criança travessa.

— Manu! Me coloca no chão! — Eduarda pediu, mas sua voz não tinha autoridade.

Na verdade, por trás do medo e da vergonha, Eduarda sentiu uma onda avassaladora de alívio e uma estranha excitação. Ser carregada daquela forma, sentindo a força dos músculos de Emanuel contra seu corpo, a fazia se sentir exatamente como ela gostava: totalmente protegida e pertencente a ele. Ela enterrou o rosto nas costas dele, deixando os braços pendurados, rendida.

Emanuel caminhou para fora do clube com passos pesados. Ricardo o seguia, ainda gritando ameaças, mas Emanuel não parou até chegar ao estacionamento. Ele a colocou no banco do passageiro do carro com firmeza, fechando a porta com um estrondo.

Ricardo parou diante do carro, ofegante.

— Isso não acabou, Emanuel. Eu vou levá-la para casa e ela nunca mais põe os pés na sua cobertura!

— Não, Ricardo — Emanuel disse, encarando o sogro de igual para igual. — Ela está sob a minha responsabilidade este fim de semana. Você mesmo deu a palavra. Eu vou levá-la para casa, vou cuidar dela e amanhã, e somente amanhã, eu a levo de volta para você. Agora, saia da frente do meu carro antes que eu faça algo de que nós dois vamos nos arrepender.

A autoridade de Emanuel era tão esmagadora que Ricardo, pela primeira vez, recuou. Ele sabia que, naquele estado, Emanuel era perigoso.

***

O trajeto de volta para a cobertura foi feito em silêncio absoluto. Eduarda choramingava baixinho, encolhida no banco, lançando olhares manhosos para o perfil rígido de Emanuel. Quando chegaram, ele a levou para dentro quase a arrastando pelo pulso, mas sem machucá-la.

Sara estava na sala, assistindo TV calmamente. Ao ver os dois entrarem — Eduarda descabelada e com o rímel borrado, e Emanuel parecendo um vulcão prestes a explodir — ela apenas sorriu.

— Vejo que a noite de garotas foi um sucesso — comentou Sara, irônica.

— Quarto. Agora — ordenou Emanuel para Eduarda.

Ela obedeceu imediatamente, correndo para o quarto de Emanuel. Ele se virou para Sara.

— Eu vou cuidar dela. Não me interrompa.

— Vá em frente, "paizão" — disse Sara, voltando a atenção para a TV. — Mas não seja duro demais. Ela só faz o que mandam.

Emanuel entrou no quarto e trancou a porta. Eduarda estava sentada na beira da cama, soluçando.

— Eu sinto muito, Manu... a tia me convenceu, ela disse que era para o nosso bem, que eu precisava aprender a...

— Cala a boca, Eduarda — ele disse, aproximando-se e ajoelhando-se entre as pernas dela.

Ele segurou o rosto dela com as duas mãos, obrigando-a a olhar para ele.

— Você tem noção do perigo que correu? Do que seu pai poderia ter feito?

— Eu fiquei com tanto medo... — ela se jogou nos braços dele, escondendo o rosto em seu peito. — Mas quando você apareceu e me carregou... eu me senti segura de novo. Eu odeio aquele lugar, Manu. Eu odeio a tia Letícia por ter me levado lá.

Emanuel suspirou, sentindo a raiva se dissipar diante daquela fragilidade. Ele a abraçou com força, embalando-a.

— Você é minha, Eduarda. Entendeu? Minha. Eu não quero você vendo outros homens, eu não quero você em lugares que eu não frequento. Se você quer aprender a me provocar, aprenda comigo, não com gogo boys ou com a sua tia maluca.

— Eu prometo, Manu... eu prometo que nunca mais vou com ela a lugar nenhum sem você — ela disse, com a voz manhosa, esfregando o rosto na camisa dele. — Você me perdoa? Por favor, não fica bravo comigo.

Emanuel olhou para ela, para aquele rosto doce e suplicante. Ele sabia que ela era emocionalmente dependente dele, e uma parte sombria de sua alma adorava isso. Ele a beijou com uma intensidade que a deixou sem fôlego, uma mistura de punição e desejo.

— Eu te perdoo, pequena. Mas você vai ficar de castigo. Amanhã, você não sai deste quarto. Vai ficar aqui comigo, onde eu possa te ver a cada segundo.

— Tudo bem — ela sussurrou, com um sorriso tímido surgindo nos lábios. — Eu gosto de ficar aqui com você.

Enquanto isso, no clube, Letícia terminava seu coquetel, observando a confusão que deixara para trás com um brilho de puro divertimento nos olhos.

— Missão cumprida — murmurou ela para si mesma. — O Emanuel agora vai ficar tão obcecado em protegê-la que vai acabar trazendo-a para morar com ele de vez. E a Duda... bem, a Duda descobriu que gosta de ser dominada. No fim, todos ganham.

A noite terminou com Emanuel e Eduarda emaranhados nos lençóis, a tensão do conflito transformada em uma paixão possessiva. Sara, na sala ao lado, ouvia o silêncio do quarto e sabia que a dinâmica do trio acabara de se consolidar. Emanuel tinha o controle, Eduarda tinha a proteção, e ela... ela tinha a administração de tudo aquilo, garantindo que o império continuasse crescendo, enquanto a vida pessoal de Emanuel se tornava o labirinto de seda que ele sempre quisera construir.

O furacão Letícia passara, deixando destruição, mas também unindo os laços de forma que ninguém mais poderia desatar. Emanuel finalmente tinha Eduarda onde queria: sob seu teto, sob seu comando e, mais do que nunca, sob sua pele.