D
Conflito de Interesses
A luz da manhã entrava pelas janelas do chão ao teto da cobertura, refletindo-se no mármore e no vidro, mas o brilho não parecia acalmar o humor de Emanuel. Ele estava debruçado sobre a mesa da sala de jantar, cercado por mapas digitais e roteiros de viagem em seu tablet. Ele havia planejado cada detalhe: uma semana em uma ilha privativa nas Bahamas. Sol, luxo, os melhores amigos e, finalmente, a chance de ter Sara e Eduarda juntas em um ambiente relaxado, longe das pressões do dia a dia.
— Você está com aquela cara de quem vai demitir alguém — comentou Sara, surgindo do corredor.
Ela usava um conjunto de academia neon que deixava claro cada centímetro de seu corpo trabalhado. O cabelo loiro estava preso em um rabo de cavalo alto, e ela segurava uma garrafa de água com um adesivo de um dos estúdios de Emanuel.
— Estou apenas garantindo que tudo seja perfeito — respondeu ele, sem desviar os olhos da tela. — Já falei com o pessoal do jato. Saímos na sexta à noite. Suas amigas já confirmaram?
— Claro que sim, Manu. A Bia e a Carol não perderiam isso por nada, especialmente se você estiver pagando o champanhe — Sara deu de ombros, aproximando-se e sentando-se no colo dele de forma possessiva. — Vai ser bom. A Duda precisa de um pouco de sol, aquela pele dela está quase transparente. E eu preciso de um tempo com você sem planilhas de Berlim ou Tóquio na minha frente.
Emanuel relaxou os ombros por um segundo, sentindo o perfume forte e caro de Sara.
— Eu só quero que todos se deem bem. Quero que a Eduarda veja que pode fazer parte do nosso mundo sem medo.
— Ela vai — disse Sara, com aquela confiança que beirava a arrogância. — Se ela sobreviver às minhas amigas, ela sobrevive a qualquer coisa.
O celular de Emanuel vibrou sobre a mesa. O nome no visor fez seu estômago dar um nó leve: "Eduardo - Pai da Duda". Emanuel tinha uma relação cordial com os pais de sua namorada mais jovem. Eles eram modernos, bem-sucedidos no mundo das artes e, de certa forma, pareciam entender a natureza complexa de Emanuel, embora ele nunca tivesse aberto o jogo totalmente sobre a presença constante de Sara.
— Preciso atender — disse ele, dando um beijo rápido no pescoço de Sara antes de se levantar.
— Não demora. Temos que revisar os custos da nova filial de Milão antes do almoço — lembrou ela, já pegando um tablet para começar o trabalho.
Emanuel foi para a varanda, buscando privacidade.
— Alô, Eduardo? Algum problema?
— Emanuel, meu caro! Como vai? — A voz de Eduardo era vibrante, carregada de um entusiasmo que Emanuel costumava admirar, mas que hoje o deixava em alerta. — Não, problema nenhum. Na verdade, liguei para dar uma notícia excelente e pedir um favor à sua paciência.
— Sou todo ouvidos — respondeu Emanuel, sentindo o pressentimento ruim crescer.
— Surgiu uma oportunidade de ouro para a nossa galeria em Roma. Uma negociação de acervo que estamos tentando há anos. Eu e a Helena decidimos que é o momento perfeito para levar os filhos. A Eduarda e os irmãos precisam começar a entender o peso das decisões, a curadoria de campo... enfim, o futuro da empresa estará nas mãos deles um dia, e quero que participem disso desde já. Vamos passar dez dias na Itália.
O silêncio de Emanuel foi pesado. Ele sentiu o sangue subir para o rosto, a irritação latejando em suas têmporas.
— Eduardo, eu planejei uma viagem para a Eduarda. Já está tudo pago. O jato, a ilha... nós saímos nesta sexta.
— Ah, eu sei, a Duda comentou por alto — disse o sogro, sem perder o tom amigável, mas com uma autoridade que Emanuel reconheceu como a de um pai que não aceitaria um "não". — Mas veja bem, Emanuel, a faculdade de História da Arte dela exige esse tipo de vivência. É uma viagem de negócios e aprendizado familiar. Ela é jovem, terá muitas outras oportunidades de ir para as Bahamas com você. Mas Roma, com acesso exclusivo aos depósitos do Vaticano e coleções privadas? Isso é único.
— Ela já aceitou? — perguntou Emanuel, a voz ficando mais fria, mais rígida.
— Ela está animada, claro. Ficou um pouco dividida por causa do seu convite, mas eu expliquei que você, como um homem de negócios tão bem-sucedido, entenderia a importância desse passo para a carreira dela. Conto com o seu apoio para incentivá-la, certo?
Emanuel mal conseguiu se despedir de forma educada. Ele desligou o celular e sentiu uma vontade súbita de arremessar o aparelho contra o vidro da varanda. O controle que ele tanto prezava estava escorrendo por entre seus dedos.
Ele voltou para a sala com passos pesados. Sara, que tinha um ouvido aguçado para o tom de voz dele, levantou os olhos do tablet.
— Pela sua cara, alguém morreu ou a "bonequinha" desistiu.
— O pai dela decidiu que ela vai para Roma — rosnou Emanuel, começando a andar de um lado para o outro. — Uma viagem de família. Negócios da galeria. Ele simplesmente decidiu que o futuro dela na empresa é mais importante do que os planos que eu fiz.
Sara soltou uma risada curta, mas parou ao ver o olhar furioso de Emanuel.
— Emanuel, calma. É o pai dela. O que você esperava? Ela tem vinte anos e mora na casa dele.
— Eu esperava que ela tivesse a decência de me dizer que não podia ir antes de o pai dela me ligar para "pedir minha paciência"! — Ele bateu com a mão na mesa. — Eu faço tudo por ela, Sara. Eu planejo, eu gasto, eu tento integrar ela na minha vida, e ela escolhe... Roma?
— Ela não escolheu Roma, Emanuel. O pai dela escolheu por ela. A Duda não tem espinha dorsal para dizer não para aquele homem, você sabe disso — Sara se levantou e caminhou até ele, colocando as mãos em seus ombros, tentando canalizar a raiva dele. — Deixa ela ir. Vamos nós dois com meus amigos. Vai ser até mais divertido, sem ter que ficar cuidando se ela está se sentindo "intimidada" ou "tímida" o tempo todo.
— Não é esse o ponto, Sara! — Ele se desvencilhou, a frustração transbordando. — Eu queria as duas lá. Eu queria que este fosse o momento de união. Agora, enquanto eu estiver em uma ilha, ela vai estar em museus com os pais, sendo a "filhinha perfeita", longe de mim, longe da realidade da nossa relação.
— E você está furioso porque perdeu o controle da agenda dela, ou porque ela vai estar longe do seu alcance? — Sara perguntou, arqueando uma sobrancelha, o sarcasmo voltando a aparecer.
— Os dois! — admitiu ele, a voz ecoando pela sala.
***
Duas horas depois, Eduarda chegou à cobertura. Ela entrou devagar, como sempre fazia, parecendo pedir licença ao ambiente. Usava uma saia florida e uma blusa de tricô leve, os cabelos castanhos presos em um coque frouxo que deixava alguns fios caírem sobre o rosto sensível.
Ao ver Emanuel sentado no sofá, com uma expressão que ela conhecia bem — a de quando algo no estúdio dava muito errado —, ela parou no meio do caminho.
— Manu? — sussurrou ela, aproximando-se com cautela.
Emanuel não se levantou. Ele apenas a observou, notando a doçura que normalmente o acalmava, mas que agora parecia uma barreira entre o que ele queria e o que ela estava disposta a dar.
— Seu pai me ligou — disse ele, direto.
Eduarda mordeu o lábio inferior, as mãos brincando com a alça da bolsa. Ela se sentou na beirada da poltrona em frente a ele.
— Ele me contou. Eu... eu ia te falar hoje à noite, Manu. Eu juro. Só que tudo aconteceu tão rápido. Ele recebeu o convite da galeria ontem à noite e disse que é fundamental para o meu futuro.
— E o nosso futuro, Eduarda? — Emanuel se inclinou para frente, os olhos fixos nos dela. — Eu planejei essa viagem há semanas. Eu queria que passássemos um tempo juntos, nós três, com as pessoas que fazem parte da minha vida.
— Eu sei, e eu sinto muito... — Ela estendeu a mão para tocar a dele, mas ele não retribuiu o gesto imediatamente. — Mas é o meu trabalho, Manu. É a minha família. Meus pais estão investindo em mim. Como eu posso dizer não para uma oportunidade de estudar obras que eu só vi em livros?
— Você poderia ter dito que já tinha um compromisso comigo — rebateu Emanuel, a voz carregada de uma irritação fria. — Você aceitou meu pedido de namoro, mas parece que suas prioridades continuam exatamente onde estavam antes: sob as ordens do seu pai.
— Isso não é justo! — Eduarda sentiu os olhos arderem. A sensibilidade dela era seu ponto fraco, e o tom duro de Emanuel a atingia como um golpe físico. — Eu tenho vinte anos, Emanuel. Eu ainda estou tentando construir meu caminho. Você já tem tudo, já é dono do seu império. Eu só estou começando.
Sara apareceu na porta da cozinha, segurando uma taça de vinho, observando a cena com um misto de tédio e diversão.
— O drama está ótimo, mas vocês não acham que estão exagerando? — interveio a loira. — Duda, vai para Roma. Compra umas roupas melhores por lá, traz uns vinhos. Emanuel, para de agir como se ela estivesse fugindo com um amante. É só uma viagem de museu.
— Não se meta, Sara — disse Emanuel, sem desviar o olho de Eduarda.
— Ah, eu me meto sim, porque se você continuar com esse humor de cão, quem vai ter que aguentar sou eu! — Sara caminhou até o sofá e se jogou ao lado de Emanuel, cruzando as pernas torneadas. — Deixa a menina ser a intelectual da família. A gente vai para as Bahamas, curte o sol, e quando ela voltar, ela vai estar morrendo de saudade e provavelmente vai ser muito mais... "agradecida" por você ter tido paciência.
Eduarda olhou para Sara, sentindo uma pontada de gratidão pela intervenção, mas também uma insegurança profunda. A ideia de Emanuel e Sara sozinhos em uma ilha, cercados por amigos que ela mal conhecia, enquanto ela estava do outro lado do oceano, a deixava angustiada.
— Você vai ficar bravo se eu for? — perguntou Eduarda, a voz quase sumindo.
Emanuel suspirou, fechando os olhos por um momento. O conflito interno era exaustivo. Ele queria ser o protetor, o homem que provia e decidia, mas a resistência silenciosa e manhosa de Eduarda o desarmava de uma forma que Sara nunca conseguia.
— Eu não estou bravo porque você quer estudar, Duda. Estou irritado porque você não impõe limites. Se eu não lutar por cada minuto do seu tempo, seu pai vai continuar preenchendo sua agenda até você não ter espaço para mim.
— Eu vou ter espaço para você. Eu sempre tenho — disse ela, levantando-se e indo até ele.
Desta vez, ela se ajoelhou entre as pernas dele e envolveu seu pescoço, encostando o rosto em seu peito. Era o gesto de rendição que ele sempre esperava.
— Por favor, Manu... não fica assim. Vai ser só uma semana. Quando eu voltar, eu prometo que passo o fim de semana inteiro aqui. Eu até... eu até posso tentar dormir aqui duas noites seguidas.
Emanuel sentiu a maciez dela, o cheiro de baunilha que parecia implorar por paz. A raiva começou a ser substituída por aquela necessidade automática de protegê-la, mesmo que fosse dele mesmo.
— Duas noites? — perguntou ele, a voz um pouco mais suave, embora ainda tensa.
— Duas noites — confirmou ela, olhando para ele com aqueles olhos grandes e suplicantes.
Sara revirou os olhos, tomando um gole generoso de vinho.
— Viu? Ela sabe como te dobrar, Emanuel. É impressionante.
Emanuel finalmente colocou as mãos na cintura de Eduarda, puxando-a para mais perto.
— Tudo bem. Vá para Roma. Mas eu quero relatórios diários. E não pense que eu esqueci das Bahamas. Vou remarcar uma viagem só para nós dois depois que o semestre da sua faculdade acabar. Sem pais, sem galerias.
— Combinado — disse Eduarda, sorrindo e selando o acordo com um beijo doce.
Emanuel retribuiu o beijo, mas por cima do ombro de Eduarda, ele encontrou o olhar de Sara. A loira deu um sorriso de canto, um olhar cúmplice que dizia que ela sabia exatamente quem ganharia a atenção dele no próximo final de semana.
Emanuel tinha o que queria, ou pelo menos uma versão disso. Ele mantinha a doçura de Eduarda sob promessas e a presença vibrante de Sara ao seu lado. Mas, no fundo, a irritação ainda deixava um gosto amargo. Ele odiava dividir a atenção de suas mulheres com qualquer outra pessoa, fosse um pai autoritário ou uma galeria em Roma.
— Bom — disse Sara, levantando-se e batendo palmas levemente. — Já que o melodrama acabou, podemos jantar? Estou morrendo de fome e a Bia quer saber se pode levar o novo namorado dela para a ilha. Emanuel, você vai ter que decidir se o jato aguenta mais um peso morto.
Emanuel soltou Eduarda e se levantou, a postura voltando a ser a do empresário controlador.
— O jato aguenta. Mas se o cara for um idiota, ele volta nadando.
Eduarda riu, uma risadinha tímida, e Sara soltou uma gargalhada alta, passando o braço pela cintura de Emanuel enquanto caminhavam para a cozinha. Por um momento, a harmonia parecia ter retornado, mas Emanuel sabia que era uma paz frágil. Enquanto Eduarda não estivesse morando sob o seu teto, sob o seu olhar constante, ele sempre sentiria que o mundo lá fora estava tentando roubar um pedaço do que pertencia a ele.
E para Emanuel, nada era mais inaceitável do que perder o controle sobre o que ele amava. Roma seria um teste, para ela e para ele. E ele já estava planejando como garantir que, na próxima vez, a resposta dela fosse apenas uma: o lugar dela era ao lado dele, não importa o que o resto do mundo dissesse.