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Caos de Algodão-Doce e Salto Agulha

O sol de sábado brilhava intensamente sobre as torres coloridas do parque de diversões, um dos maiores do país. Emanuel, vestindo uma camiseta preta básica que destacava suas tatuagens nos braços e óculos escuros de grife, observava a movimentação com uma mistura de expectativa e um pressentimento de desastre iminente. Ele havia fechado uma área VIP e comprado passes expressos para todos, querendo garantir que suas duas namoradas e o grupo de amigos tivessem o máximo de conforto.

Ao seu lado, Sara era a visão da extravagância urbana. Ela usava um microshort jeans, um top que deixava à mostra a barriga negativa e um par de tênis de plataforma que, embora esportivos, pareciam caros demais para serem usados em qualquer lugar com areia ou pipoca. Suas amigas, Bia e Carol, eram extensões de sua personalidade: loiras, barulhentas e exalando perfumes importados que lutavam contra o cheiro de churros no ar.

— Manu, querido, se eu quebrar uma unha naquele simulador de queda livre, você vai me levar direto para a manicure mais cara da cidade — avisou Sara, retocando o batom vermelho enquanto se olhava na tela do celular. — E espero que a bonequinha chegue logo. Minhas pernas já estão cansadas de ficar paradas aqui.

— Ela está chegando, Sara. Teve um imprevisto — respondeu Emanuel, checando o relógio.

O imprevisto em questão surgiu no horizonte dois minutos depois. Eduarda vinha caminhando com seu jeito leve, usando um vestido de sarja suave e tênis brancos, parecendo uma estudante de arte em um dia de folga. Mas ela não estava sozinha. Puxando sua mão com uma energia que parecia capaz de alimentar uma pequena usina elétrica, estava uma menina de cerca de oito anos, com Maria-chiquinhas desalinhadas e um olhar que transbordava travessura.

— Oi, Manu! Desculpa o atraso! — Eduarda disse, aproximando-se e dando um beijo casto na bochecha de Emanuel, enquanto se encolhia um pouco ao notar o olhar julgador de Sara. — Meus pais tiveram uma emergência na galeria e eu tive que trazer a Juju.

Emanuel olhou para a pequena Julia, que já estava analisando as tatuagens no braço dele com curiosidade científica.

— Sem problemas, Duda. Oi, Julia.

— Oi, moço das figuras! — Julia respondeu, mas seus olhos logo se desviaram para Sara. A menina inclinou a cabeça, observando a loira de cima a baixo. — Por que você está vestida assim? Parece que vai gravar um clipe de funk, não que vai num brinquedo.

Houve um silêncio súbito. Bia e Carol arregalaram os olhos. Sara piscou, processando a audácia daquela miniatura de gente.

— Escuta aqui, garota — Sara começou, cruzando os braços e fazendo o silicone estufar sob o top —, isso aqui se chama estilo. Coisa que você vai entender quando crescer e parar de usar esses elásticos de cabelo de pompom.

Julia não se intimidou. Ela deu um sorriso que mostrava a falta de dois dentes laterais.

— Minha mãe diz que estilo é o que a Duda tem. Você parece que está com calor e esqueceu de colocar o resto da roupa.

Emanuel soltou uma tosse seca para disfarçar o riso que ameaçava escapar. Ele sentiu a tensão subir, mas decidiu intervir antes que Sara decidisse entrar em um debate filosófico com uma criança de oito anos.

— Vamos entrar. O passe VIP já está liberado.

O grupo começou a caminhar, e o inferno pessoal de Sara e suas amigas oficialmente começou.

Na primeira parada, um carrossel clássico onde Sara insistiu em tirar fotos para o Instagram, Julia decidiu que era o momento perfeito para testar a paciência da "administradora favorita" de Emanuel. Enquanto Sara tentava fazer uma pose sensual montada em um cavalo de madeira, Julia, que estava no cavalo logo atrás, começou a chutar levemente a estrutura.

— Ei! Para com isso, sua pestinha! Está tremendo a minha foto! — reclamou Sara.

— Eu não estou fazendo nada! É o cavalo que está galopando de verdade! — mentiu Julia com a maior cara de pau do mundo.

— Eduarda, controla essa miniatura de monstro! — gritou Bia, que tentava ajeitar o cabelo para uma selfie, apenas para ter Julia passando correndo entre suas pernas e derrubando sua bolsa.

— Juju, comporte-se! — pediu Eduarda, mas sua voz era doce demais para ter qualquer efeito. Ela olhou para Emanuel com um ar de "me ajude", e ele apenas deu de ombros, achando a situação minimamente cômica.

O ápice do caos aconteceu na fila para a Montanha-Russa de Madeira. O calor estava aumentando, e Sara estava começando a ficar impaciente. Ela e as amigas reclamavam do suor, da luz e de como o ambiente era "popular demais".

— Ai, Manu, eu devia ter ficado no ar-condicionado da cobertura — resmungou Sara, abanando-se com a mão. — Olha o estado do meu cabelo.

Nesse momento, Julia apareceu com um enorme cone de algodão-doce azul e rosa, que parecia maior que a própria cabeça dela.

— Cuidado com isso, garota! — avisou Carol, a amiga de Sara. — Se encostar esse açúcar no meu vestido da Gucci, eu juro que...

Julia não esperou o fim da frase. Ela tropeçou propositalmente — ou talvez não, era difícil dizer com ela — e o algodão-doce voou direto, colando-se como uma teia de aranha pegajosa no braço de Sara e na bolsa de Carol.

— MEU DEUS! — gritou Sara, olhando para o borrão azul grudado em sua pele. — ESTÁ COLANDO! ESTÁ COLANDO TUDO!

— Ah, não! — Julia fez um biquinho falso, com os olhos brilhando de diversão. — Meu doce! Você estragou meu doce com o seu braço cheio de creme!

— EU estraguei? — Sara parecia prestes a explodir. — Emanuel, faça alguma coisa! Essa menina é um perigo público!

Emanuel se aproximou, pegando um lenço umedecido da mochila de Eduarda. Ele começou a limpar o braço de Sara, mas não conseguia parar de rir por baixo dos óculos escuros.

— É só açúcar, Sara. Relaxa.

— Relaxa? Emanuel, eu estou parecendo um Smurf atropelado! — Sara bufou, enquanto Julia já corria para os braços de Eduarda, fingindo estar assustada com os gritos da loira.

— Duda, ela está sendo malvada comigo — choramingou a menina, escondendo o rosto no vestido da irmã.

Eduarda, intuitiva como sempre, sabia exatamente o que estava acontecendo. Ela acariciou o cabelo da irmã, tentando manter a face séria.

— Juju, peça desculpas para a Sara. Agora.

— Desculpa, moça do silicone — disse Julia, com uma voz tão angelical que era quase insultuosa.

Sara travou. Ela olhou para Emanuel, depois para Eduarda, e finalmente para a menina.

— Como é que é? Quem te ensinou essa palavra?

— Eu ouvi o papai falando no telefone que o Emanuel tinha bom gosto para tatuagem, mas que a namorada loira era toda de plástico — respondeu Julia, com a inocência mais letal que Emanuel já vira.

Desta vez, Emanuel não conseguiu se segurar. Ele soltou uma gargalhada alta, que atraiu a atenção de outras pessoas na fila. Sara, vermelha de raiva e vergonha, olhou para as amigas, que não sabiam se riam ou se mostravam indignação.

— Eu vou matar o Eduardo — murmurou Emanuel entre risos, referindo-se ao sogro.

— E eu vou matar essa família toda! — declarou Sara, embora, no fundo, até ela estivesse começando a ver o absurdo da situação.

O dia prosseguiu com Julia sendo o pesadelo pessoal das "patricinhas". Ela "acidentalmente" espirrou água nelas no brinquedo do Splash, insistiu que Emanuel ganhasse um urso de pelúcia gigante para ela (o que forçou Sara a carregar o trambolho por meia hora enquanto Emanuel atendia uma ligação de Milão) e ainda conseguiu convencer as amigas de Sara a entrarem na Casa do Terror, onde ela passou o tempo todo dando sustos nelas por trás, fazendo-as gritar mais do que com os atores do parque.

Ao final da tarde, o grupo estava exausto. Sentados em uma área de alimentação mais reservada, Sara estava com os pés para fora dos sapatos, o cabelo já sem o brilho matinal e uma mancha azul teimosa ainda visível no braço. Eduarda estava sentada ao lado de Emanuel, com a cabeça no ombro dele, enquanto Julia, finalmente sem energia, dormia profundamente com a cabeça no colo da irmã.

— Eu nunca... nunca mais... vou a lugar nenhum com uma criança — decretou Sara, tomando um copo de água mineral como se fosse a última gota de vida no deserto. — Manu, você me deve um dia inteiro de spa. E o direito de escolher o próximo destino de viagem sem interferência externa.

— Você sobreviveu, Sara — disse Emanuel, passando o braço pelos ombros dela e mantendo o outro braço ao redor de Eduarda. — E admita, foi engraçado ver a Bia cair no chão quando a Julia gritou "barata" no meio do labirinto.

— Não foi engraçado, Emanuel! Foi traumático! — Bia exclamou, embora estivesse comendo um hambúrguer com gosto.

Eduarda olhou para Emanuel com um sorriso tímido e culpado.

— Desculpa, Manu. Eu avisei que ela era... intensa.

Emanuel olhou para as três mulheres — a pequena peste adormecida, a doce e manhosa Eduarda, e a vulcânica e desgrenhada Sara. Pela primeira vez em muito tempo, ele não sentiu a necessidade de controlar cada detalhe. O caos provocado por Julia havia feito algo que ele não conseguia: quebrar a barreira de gelo e formalidade entre elas. Sara não odiava Eduarda, ela apenas não sabia como lidar com aquele mundo oposto ao seu. E Julia, com sua falta de filtros, tinha forçado todas a estarem no mesmo nível de desordem humana.

— Sabe de uma coisa? — disse Emanuel, observando o pôr do sol sobre a roda-gigante. — Eu acho que foi a melhor tarde que tivemos em meses.

Sara olhou para ele, pronta para retrucar, mas viu o brilho de satisfação nos olhos dele. Ela suspirou, encostando-se no outro ombro de Emanuel.

— Você é louco. E tem um gosto péssimo para entretenimento familiar.

— Mas você me ama mesmo assim — ele provocou.

— Amo. Mas se essa menina acordar e me chamar de "moça do silicone" mais uma vez, eu vou ensinar para ela palavras que ela não vai poder repetir para o pai dela até os dezoito anos.

Eduarda soltou uma risadinha, sentindo-se, pela primeira vez, verdadeiramente parte daquele grupo estranho. O controle de Emanuel podia ser rígido, a vulgaridade de Sara podia ser chocante e o tempo de Eduarda podia ser lento, mas ali, entre restos de algodão-doce e pés cansados, havia uma convivência que, por mais torta que fosse, funcionava.

Emanuel sorriu, fechando os olhos por um momento. Ele ainda queria as duas morando com ele. Ele ainda queria o controle total. Mas, por hoje, ele aceitava o caos. Especialmente se o caos viesse com gosto de açúcar e a certeza de que, apesar de tudo, elas ainda estavam ali, ao lado dele.