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O Silêncio de Ouro e o Eco da Ausência

A serra de Minas Gerais tinha um perfume próprio, uma mistura de terra molhada, pinheiros e o cheiro doce de lenha queimada que subia das chaminés das propriedades vizinhas. Na casa da mãe de Sara, o tempo parecia ditar um ritmo de luxo e indulgência. Emanuel, envolto em um roupão de veludo escuro, observava a bruma matinal se dissipar sobre o vale. Por um momento, a tensão que costumava carregar nos ombros como uma armadura pesada parecia ter cedido.

Sara estava ao seu lado, a personificação da satisfação. Ela não era uma mulher de silêncios reflexivos; ela preenchia o espaço com sua presença vibrante, seus comentários ácidos e sua competência inegável. Durante as últimas quarenta e oito horas, Emanuel permitiu-se submergir no mundo dela. Eles discutiram a logística da nova filial em Milão, riram das fofocas da alta sociedade que sua sogra destilava com maestria e mergulharam em uma intimidade física que era, ao mesmo tempo, um campo de batalha e um porto seguro.

Com Sara, Emanuel não precisava ser o protetor cuidadoso que media cada palavra. Ela falava a língua dele: a língua do poder, do pragmatismo e do prazer imediato. Nesse redemoinho de vinho caro e lençóis de mil fios, a imagem de Eduarda — com sua doçura infantil e suas hesitações — acabou ficando guardada em uma gaveta mental, como um livro de poesia que se deixa de lado para ler um relatório financeiro urgente.

— No que você está pensando, Manu? — perguntou Sara, aproximando-se com duas xícaras de café expresso. Ela se encostou no parapeito da varanda, deixando o sol da manhã iluminar o loiro platinado de seu cabelo.

— Na eficiência de tudo isso — respondeu ele, aceitando o café. — Às vezes esqueço como é fácil estar aqui com você. Sem complicações.

Sara sorriu, um sorriso que carregava toda a sua autoconfiança.

— Eu sei. Eu sou o seu equilíbrio, querido. A Eduarda é o seu feriado, mas eu sou a sua realidade. E a realidade é muito mais interessante, não acha?

Emanuel não respondeu, mas o silêncio foi uma concordância tácita. Ele não sentia culpa por ter "esquecido" Eduarda por algumas horas. Para ele, seu coração era um território vasto o suficiente para comportar dois reinos distintos. Mas, conforme o domingo avançava e a hora de retornar a São Paulo se aproximava, a necessidade de reaver sua "bonequinha" começou a latejar.

***

Enquanto isso, no interior, o clima era de uma euforia muito menos contida. A festa de dezoito anos da prima Ritinha fora um sucesso, mas o espírito aventureiro da família de Eduarda não parava por ali.

Os pais de Eduarda, Eduardo e Helena, eram o que muitos chamariam de "jovens de espírito". Modernos, apaixonados por arte e história, eles viam a vida como uma sucessão de momentos a serem capturados. No café da manhã de domingo, entre pães de queijo e café coado, surgiu a ideia.

— Gente, estamos a apenas três horas de Ouro Preto — disse o pai de Eduarda, ajustando os óculos de leitura enquanto olhava o mapa no celular. — O dia está lindo. Por que não esticamos a viagem? Podemos ver as igrejas do Aleijadinho e jantar naquele restaurante de comida mineira que a Helena adora.

— Ah, pai! Seria maravilhoso! — exclamou Eduarda, os olhos brilhando.

Ela estava em um estado de leveza que a cidade grande raramente permitia. Ali, entre seus parentes, ela não era a namorada do "magnata das tatuagens" ou a convivente civilizada da "vulgar Sara". Ela era apenas a Duda.

— Mas e o Emanuel? — perguntou a mãe, Helena, com um olhar cúmplice. — Ele não estava esperando você voltar hoje à noite?

Eduarda fez um biquinho pensativo, o jeito manhoso aflorando naturalmente.

— Ah, o Manu está na serra com a Sara. Ele estava tão focado nos negócios e em relaxar com ela que nem me ligou hoje de manhã. Ele deve estar ocupado. E é só um dia a mais! Amanhã é segunda, minhas aulas na faculdade só começam à tarde. Vai ser uma aventura de última hora!

Na cabeça de Eduarda, a lógica era simples: Emanuel tinha a companhia de Sara, então ele não estaria sozinho. Ela não via necessidade de um relatório detalhado de cada passo seu, especialmente quando a empolgação da viagem em família a envolvia como um abraço quente.

— Vamos logo, então! — disse ela, já se levantando. — Se eu for avisar agora, ele vai começar com aquele interrogatório de "onde, com quem, que horas volta", e eu só quero aproveitar o caminho!

Ela pegou o celular para enviar uma mensagem rápida, mas o sinal na fazenda estava instável. "Manu, vou esticar com meus pais para Ouro Preto. Volto amanhã. Te amo!", ela digitou. O ícone de carregamento girou e girou, até que ela o guardou na bolsa, distraída pelo chamado do pai para carregar o porta-malas. Ela não percebeu que a mensagem ficara retida na fila de envio, pendente de uma conexão que não vinha.

***

O retorno de Emanuel para São Paulo foi marcado por uma impaciência crescente. Ele deixou Sara em seu apartamento — onde ela morava oficialmente com ele — e imediatamente começou a checar o relógio. Já passava das sete da noite. Eduarda deveria estar chegando à casa dos pais, ou quem sabe já estaria a caminho da cobertura dele, como haviam combinado vagamente por mensagens na noite anterior.

Ele ligou para o celular dela. Caixa postal.

— Estranho — murmurou ele, jogando o celular sobre a mesa de centro.

— O que foi? A bonequinha se perdeu na estrada de terra? — perguntou Sara, saindo do banho enrolada em uma toalha, secando o cabelo.

— Ela não atende. Deve estar sem sinal.

— Ou deve estar se divertindo tanto com os primos que esqueceu da existência do dono dela — provocou Sara, sem maldade real, mas gostando de ver Emanuel perder a compostura.

Uma hora se passou. Duas. O silêncio de Eduarda começou a corroer a paciência de Emanuel. Ele ligou para a casa dos sogros. Ninguém atendeu. Ligou para o celular de Eduardo, o pai. Caixa postal.

A possessividade de Emanuel era um monstro que se alimentava de silêncio e falta de informação. Na sua mente, ele já criava cenários: um acidente na estrada, um pneu furado em um lugar deserto, ou, o que era pior para o seu ego, ela decidira ficar mais tempo por vontade própria sem consultá-lo.

— Eu vou lá — disse ele, levantando-se e pegando as chaves do carro.

— Emanuel, você enlouqueceu? É uma viagem de três horas! — Sara exclamou. — Ela está com os pais, homem! O que você acha que aconteceu? Eles foram sequestrados por um bando de violeiros?

— Eu não gosto de não saber onde ela está, Sara. Você sabe disso.

— Eu sei que você é um maníaco por controle. Deita aí e relaxa. Ela deve ligar a qualquer momento.

Mas Emanuel não relaxou. Ele passou a noite em claro, andando de um lado para o outro na sala luxuosa que, sem a presença doce e o jeito manhoso de Eduarda, parecia subitamente fria e impessoal demais.

***

Enquanto isso, em Ouro Preto, Eduarda estava maravilhada. As ladeiras de pedra, a iluminação amarelada refletindo nas fachadas coloniais e o frio gostoso da noite mineira a deixavam em um estado de quase transe.

— É tão lindo, mãe — disse ela, abraçando o próprio corpo enquanto caminhavam pela Praça Tiradentes. — Parece que o tempo parou aqui.

— É a magia das cidades históricas, querida — respondeu Helena. — Você devia tirar umas fotos para mostrar ao Emanuel. Ele gosta de estética, vai apreciar.

Eduarda pegou o celular e viu que ainda estava sem sinal. O hotel onde se hospedaram era um casarão antigo com paredes de pedra tão grossas que o Wi-Fi mal chegava aos quartos.

— Eu tento mandar mais tarde — disse ela, despreocupada. — Agora eu só quero comer aquele tutu com lombo que o papai prometeu.

Ela estava feliz. Pela primeira vez em meses, ela não sentia o peso de ser "vigiada". Ela amava Emanuel, amava o cuidado dele, mas a liberdade de decidir, de última hora, que veria o pôr do sol em uma cidade histórica sem ter que justificar a logística para um homem que planejava a vida em planilhas, era revigorante.

***

Segunda-feira de manhã. Emanuel entrou em seu escritório principal com uma expressão que fazia seus funcionários evitarem contato visual. Ele não havia dormido. Sara tentara acalmá-lo, mas até ela desistira diante da carranca dele.

Finalmente, às dez da manhã, o celular dele vibrou.

— Emanuel? — A voz de Eduarda soou doce, sonolenta e terrivelmente calma do outro lado da linha.

— Eduarda? Onde diabos você está? Eu liguei cinquenta vezes! Eu estava prestes a ligar para a polícia!

Houve um pequeno silêncio do outro lado. Então, veio aquele tom manhoso, aquela voz de quem sabe que está em apuros, mas tenta desarmar o oponente com doçura.

— Ai, Manu... não briga comigo. Eu estou em Ouro Preto!

— Ouro Preto? — Emanuel quase gritou, atraindo olhares curiosos através da parede de vidro do escritório. — O que você está fazendo em Ouro Preto? Você deveria estar em casa ontem à noite!

— Meus pais resolveram vir de última hora, Manu! Foi tão de repente, não deu tempo de avisar direito. Eu tentei mandar uma mensagem, mas o sinal na fazenda estava horrível e aqui no hotel também não funciona bem. É tudo tão lindo aqui, você não tem ideia... as igrejas, as ladeiras...

— Eu não quero saber das igrejas, Eduarda! Eu quero saber por que você achou que podia simplesmente desaparecer sem me dar uma satisfação! Você tem noção da noite que eu tive?

— Mas Manu... — ela alongou a vogal, o tom ficando cada vez mais manhoso, quase como um gatinho pedindo desculpas. — Você estava com a Sara na serra. Eu achei que você estivesse ocupado sendo feliz com ela. Eu não queria atrapalhar o seu fim de semana de negócios e champagne com uma mensagem sobre viagem de família. Eu só queria aproveitar um pouquinho com o meu pai e a minha mãe... você sabe que eu quase não vejo eles com a faculdade e com o tempo que passo com você.

Emanuel sentiu a raiva lutar contra a lógica dela. Ele se lembrou de como ele mesmo havia se deixado levar pelo mundo de Sara durante o final de semana. Ele se lembrou de como ele "esqueceu" de mandar mensagens para Eduarda enquanto discutia investimentos. Mas, na cabeça dele, o seu esquecimento era justificado pela sua posição; o dela era uma falha de lealdade.

— Não é a mesma coisa, Eduarda. Eu sou o seu namorado. Eu me preocupo.

— Eu sei que se preocupa, meu protetor — disse ela, e ele podia quase ver o sorriso tímido e os olhinhos brilhantes através do telefone. — Mas eu estou bem. Estou segura. E eu trouxe um presente para você. Uma escultura de pedra sabão que é a sua cara.

Emanuel sentou-se na cadeira, soltando o ar com força. A manha dela era sua criptonita. Ele queria continuar bravo, queria exigir que ela pegasse o primeiro ônibus de volta, mas a imagem dela, pequena e feliz explorando uma cidade histórica, começou a amolecer sua rigidez.

— Que horas você volta? — perguntou ele, o tom ainda severo, mas já cedendo.

— Vamos sair depois do almoço. Devo chegar em São Paulo no final da tarde. Você me busca na casa dos meus pais? Eu quero dormir com você hoje. Senti saudade do seu cheiro, Manu. A cama do hotel era dura e eu fiquei imaginando o seu braço me apertando.

Emanuel fechou os olhos. Ele estava sendo manipulado da forma mais doce possível, e ele sabia disso.

— Vou te buscar. Mas Eduarda... nunca mais faça isso. Se você for para a lua, eu quero saber o nome da cratera onde você vai pousar. Entendido?

— Entendido, meu capitão! — respondeu ela, soltando uma risadinha aliviada. — Te amo. Tchau!

Ele desligou o telefone e encontrou Sara parada na porta do escritório, observando-o com um sorriso cínico.

— Ela te dobrou de novo, não foi? — perguntou a loira, entrando e sentando-se na beira da mesa, cruzando as pernas. — Ouro Preto? A bonequinha tem estilo, eu admito. Trocou o seu mau humor por um tour histórico.

— Ela só foi com os pais, Sara. Foi um imprevisto.

— Sei. Um imprevisto muito bem aproveitado. Emanuel, você tem que entender uma coisa: a Eduarda pode ser tímida e manhosa, mas ela tem uma vontade própria que você ainda não conseguiu domar. E quer saber? Eu acho ótimo. Alguém tem que te dar trabalho, senão você fica muito mimado.

Emanuel olhou para Sara. Ela tinha razão, como quase sempre tinha em assuntos práticos. A dinâmica entre eles três era um equilíbrio instável de forças. Sara era a âncora que o mantinha no chão da realidade; Eduarda era o vento que, às vezes, soprava para direções que ele não conseguia prever.

No final da tarde, Emanuel estava estacionado em frente à casa dos pais de Eduarda. Quando ele a viu sair do carro do pai, usando um casaco de lã e com o rosto corado pelo frio da viagem, toda a sua irritação desapareceu.

Ela correu até o carro dele e, assim que entrou, jogou-se em seus braços, cobrindo seu rosto de beijos.

— Desculpa, desculpa, desculpa! — dizia ela entre os beijos, o corpo pequeno e macio pressionado contra o dele. — Eu senti tanta saudade, Manu! Ouro Preto é lindo, mas não tem você.

Emanuel a apertou com força, sentindo o cheiro de estrada e de baunilha que ela exalava. A possessividade dele foi saciada pelo contato físico.

— Você é um problema, Eduarda — murmurou ele, beijando-a com uma urgência que dizia tudo o que ele não conseguia colocar em palavras.

— Sou o seu problema favorito — respondeu ela, aninhando-se no banco do passageiro e pegando a mão dele para entrançar seus dedos. — Agora me leva para casa? Eu quero que você me conte tudo sobre a serra e eu vou te contar sobre o fantasma que dizem que mora na igreja de São Francisco.

Emanuel deu a partida no carro, sentindo que o equilíbrio fora restaurado. Ele tinha Sara esperando na cobertura com um relatório de vendas e uma garrafa de vinho, e tinha Eduarda ao seu lado, contando histórias de fantasmas e apertando sua mão com um carinho que ele não trocaria por nada.

Ouro Preto fora um lembrete necessário: ele podia ser um homem rico e poderoso, mas o coração de Eduarda não era um território que ele podia simplesmente cercar e controlar. Ele precisava conquistá-lo todos os dias, entre uma ladeira histórica e um pedido de desculpas manhoso. E, para Emanuel, esse era o desafio que tornava sua vida, ao lado daquelas duas mulheres tão diferentes, a obra de arte mais complexa e fascinante que ele já criara.