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O Dilema do Interior e o Peso da Possessividade

A manhã de quinta-feira começou com o som rítmico de Emanuel socando o saco de pancadas na academia privativa da cobertura. Cada golpe carregava a frustração acumulada de uma semana exaustiva gerenciando estúdios em três fusos horários diferentes. Para ele, o controle era a única forma de manter a sanidade, e o controle de sua vida pessoal passava por um plano específico para o fim de semana: levar suas duas mulheres para a casa de campo da mãe de Sara.

Ele imaginava o cenário: o isolamento das montanhas, Sara relaxando na piscina e Eduarda, com sua doçura, lendo em uma rede enquanto ele finalmente tinha as duas sob seu olhar constante, sem interferências externas, sem o trabalho da galeria e sem a sombra protetora dos pais dela.

— Você vai acabar estourando o couro desse saco, Manu — disse Sara, encostada no batente da porta.

Ela segurava dois copos de suco verde, vestindo um robe de seda preta que mal escondia as curvas que Emanuel conhecia tão bem. O cabelo loiro estava preso em um coque despojado, mas sua expressão era afiada.

— Preciso descarregar — respondeu Emanuel, parando o movimento e aceitando o copo que ela lhe estendia. Ele bebeu o líquido de um gole só. — Já confirmou com a sua mãe? Ela não vai se importar de receber a gente no sábado?

— Minha mãe adora uma plateia, você sabe. Ela já mandou o caseiro abastecer a adega com aquele Chardonnay que você gosta e já preparou o quarto de hóspedes mais silencioso para a "bonequinha". Ela está animada para conhecer a Eduarda oficialmente.

Emanuel assentiu, sentindo um peso sair de seus ombros.

— Vai ser bom para a Duda. Ela anda estressada com a faculdade. Aquele ar puro vai fazer bem.

— Se ela aceitar ir, claro — Sara comentou, com um sorriso irônico que fez Emanuel franzir o cenho. — Você sabe que ela é imprevisível quando o assunto é a "família perfeita" dela.

— Ela vai. Eu já decidi.

***

Mais tarde, no final da tarde, Eduarda chegou à cobertura. Ela trazia consigo uma energia diferente, um brilho nos olhos que Emanuel não via há semanas. Ela deixou sua bolsa de lona sobre o sofá e correu para os braços de Emanuel, que estava sentado no escritório revisando alguns contratos.

— Manu! Você não sabe da novidade! — disse ela, aninhando-se no colo dele e espalhando aquele perfume de baunilha que sempre o desarmava.

— Novidade? — Emanuel perguntou, passando a mão pelos cabelos castanhos dela, aproveitando a maciez. — Eu também tenho uma. Vamos passar o fim de semana na casa da mãe da Sara. Vai ser tranquilo, só nós três, montanhas e descanso.

Eduarda congelou por um milésimo de segundo. O sorriso dela vacilou, mas não desapareceu totalmente. Ela se afastou um pouco para olhar nos olhos dele, adotando aquele jeito manhoso que costumava usar quando precisava dar uma notícia difícil.

— Ah, Manu... a casa da mãe da Sara soa maravilhoso, de verdade. Eu adoraria conhecer ela e ver as montanhas com você... mas eu não posso.

Emanuel sentiu o maxilar travar instantaneamente.

— Como assim, não pode, Eduarda?

— É o aniversário de dezoito anos da minha prima, a Ritinha! — explicou ela, as mãos gesticulando com empolgação. — Vai ser lá no interior, na fazenda da minha tia. A família toda vai estar lá. Eu prometi para ela desde o ano passado que eu iria. Vai ter festa junina fora de época, fogueira, quadrilha... eu estou tão animada, Manu! Eu até comprei um vestido novo.

Emanuel respirou fundo, tentando conter a irritação que subia como uma maré quente.

— Eduarda, você está falando sério? Você quer trocar um fim de semana de luxo, paz e a nossa companhia por uma festa de dezoito anos no interior com fogueira e quadrilha?

— Não é "trocar", Manu — disse ela, fazendo um biquinho e acariciando o rosto dele com os dedos delicados. — É família. Você sabe como meus pais valorizam esses momentos. Eles já contam comigo no carro amanhã à noite. Por favor, não fica bravo. Vem comigo! Meus pais iam adorar te ter lá, e você ia se divertir, eu juro.

— Eu não vou para o interior participar de quadrilha, Eduarda — Emanuel disse, a voz ficando fria e rígida. — Eu planejei algo para nós. Para as minhas duas mulheres. Eu quero você comigo, não em uma fazenda cheia de parentes que eu mal conheço.

Eduarda sentiu os olhos arderem. A sensibilidade dela era sua maior virtude e seu maior fardo.

— Mas é importante para mim, Manu... — sussurrou ela, a voz falhando. — Eu sinto falta do cheiro de terra, do bolo de milho da minha tia... e a Ritinha é como uma irmã. Você não pode ter um pouco de paciência e entender que eu tenho uma vida fora desta cobertura?

— A sua vida deveria ser aqui, comigo! — Emanuel se levantou, fazendo com que ela tivesse que se equilibrar para não cair. Ele começou a andar de um lado para o outro. — Eu faço tudo para te integrar, para te dar o melhor, e você prefere... o interior?

Sara apareceu na porta, observando a cena com um misto de diversão e desdém. Ela usava um conjunto de cetim champanhe e segurava uma taça de vinho.

— O drama da roça começou cedo hoje — comentou Sara, encostando-se no batente. — Duda, querida, você realmente vai trocar um Chardonnay de cinco mil reais por quentão de bacia?

— Não é sobre o valor das coisas, Sara! — Eduarda exclamou, virando-se para ela com lágrimas nos olhos. — É sobre afeto. É sobre as minhas raízes.

— Raízes são para árvores, bonequinha — Sara retrucou, aproximando-se e parando ao lado de Emanuel. — Mulheres inteligentes preferem as flores colhidas e colocadas em vasos de cristal. Emanuel, deixa ela ir. Se ela prefere o mofo da fazenda ao frescor da serra, o problema é dela. Nós vamos e nos divertimos o dobro.

Emanuel olhou para Sara, depois para Eduarda. O conflito interno o estava dilacerando. Ele amava Sara pela sua competência, pela sua vulgaridade magnética e pela forma como ela administrava sua vida sem drama. Mas ele amava Eduarda por aquela fragilidade, por aquela manha que o fazia sentir que ele era o centro do universo dela. No entanto, naquele momento, o centro do universo de Eduarda parecia ser uma prima de dezoito anos no interior.

— Eu não quero ir sem ela, Sara — Emanuel disse, a voz baixa e carregada de uma possessividade sombria.

— Então obriga ela a ir — Sara deu de ombros. — Você é o homem da relação, não é?

Eduarda soltou um soluço baixo e caminhou até Emanuel, pegando as mãos dele e levando-as ao seu rosto.

— Manu, por favor... não faz assim. Eu te amo tanto. Eu passo a semana que vem inteirinha aqui com você, eu juro. Eu até trago bolo de rolo para você e para a Sara. Mas me deixa ir nessa festa. É só um final de semana.

Emanuel sentiu o toque macio das mãos dela e a umidade das lágrimas em sua pele. A raiva começou a ser substituída por aquela necessidade automática de protegê-la, mesmo que o motivo do choro fosse a própria teimosia dele.

— Você sempre faz isso, Eduarda — ele murmurou, a voz suavizando apesar da frustração. — Você usa essa sua carinha de anjo para conseguir o que quer.

— Eu não uso nada... eu só quero ser feliz com você e com a minha família também — disse ela, abraçando-o com força, escondendo o rosto em seu peito.

Emanuel olhou por cima da cabeça de Eduarda e encontrou o olhar de Sara. A loira revirou os olhos e tomou um gole de vinho, sabendo que tinha perdido aquela batalha para a "manhosa".

— Tudo bem — Emanuel cedeu, sentindo-se derrotado pela própria afeição. — Vá para a sua fazenda. Vá para a sua quadrilha.

Eduarda deu um pulo de alegria, beijando o rosto dele repetidamente.

— Obrigada, Manu! Você é o melhor namorado do mundo! Eu juro que vou sentir sua falta a cada segundo!

— Mas — Emanuel interrompeu, segurando-a pelos ombros e olhando-a com seriedade —, você vai me ligar todas as noites. E não quero saber de nenhum primo ou "amigo de infância" chegando perto de você. Se eu souber que algum caipira tentou a sorte, eu vou buscar você de jato e acabo com a festa.

Eduarda riu, uma risadinha doce e aliviada.

— Pode deixar, meu ciumento. Só vai ter tio e primo de segundo grau que usa dentadura.

***

Na manhã de sexta-feira, o clima na cobertura era de uma trégua armada. Sara estava terminando de arrumar sua mala de grife para a serra, enquanto Eduarda fechava uma mochila pequena com roupas leves e o tal vestido novo.

Emanuel estava no telefone, resolvendo um problema em um dos estúdios de Berlim, mas seus olhos não saíam de Eduarda. Ele odiava a ideia de se separar dela, mesmo que fosse por apenas quarenta e oito horas. Para ele, a separação parecia uma perda de território.

— Já vai, bonequinha? — Sara perguntou, saindo do quarto com um óculos escuros imenso na cabeça.

— Já sim. Meu pai está estacionando lá embaixo — respondeu Eduarda, aproximando-se de Sara. Com um gesto hesitante, ela deu um beijo rápido na bochecha da loira. — Divirtam-se na serra. E cuida do Manu, ele está muito tenso.

Sara ficou surpresa com o gesto, mas não demonstrou.

— Eu sempre cuido, Duda. É a minha especialidade. Traz um queijo bom de lá, pelo menos.

Eduarda sorriu e correu para Emanuel, que tinha acabado de desligar o telefone. Ela se jogou nos braços dele para um beijo de despedida que durou mais do que o necessário.

— Eu te amo — sussurrou ela.

— Eu também te amo. Juízo — ele respondeu, apertando a cintura dela uma última vez.

Quando a porta se fechou, o silêncio caiu sobre a cobertura. Emanuel sentou-se na poltrona, sentindo um vazio imediato.

— Você está parecendo um cachorro que caiu do caminhão de mudança, Manu — disse Sara, sentando-se no braço da poltrona e passando a mão pelo ombro dele. — Esquece a roça. Temos um final de semana de luxo pela frente. Minha mãe contratou um chef particular para o jantar de amanhã.

— Eu sei, Sara. Só... é estranho sem ela.

— É, eu sei que é. Ela tem esse efeito de "algodão-doce" que faz falta — Sara admitiu, surpreendendo a si mesma. — Mas agora você tem a mim. E eu garanto que vou fazer você esquecer que o interior existe.

Emanuel puxou Sara para o seu colo, sentindo a diferença imediata. Onde Eduarda era suavidade e hesitação, Sara era fogo e certeza. Ele a beijou com uma intensidade que carregava toda a irritação e o desejo reprimido da manhã.

***

No sábado à tarde, a casa da mãe de Sara era o epítome da sofisticação campestre. Localizada no alto de uma montanha, com vista para um vale coberto de neblina, a propriedade era cercada por pinheiros e silêncio.

Emanuel estava na varanda, segurando um copo de uísque, enquanto Sara conversava com a mãe na sala de estar. O celular dele vibrou no bolso. Era uma mensagem de vídeo de Eduarda.

Ele abriu o arquivo. No vídeo, Eduarda estava rindo, com o cabelo levemente bagunçado pelo vento, usando um chapéu de palha e o vestido xadrez que ela tanto queria. Ao fundo, era possível ouvir música sertaneja de raiz e o som de muitas pessoas conversando e rindo.

— Manu! Olha só como está lindo aqui! — dizia ela na gravação, girando a câmera para mostrar uma fogueira imensa sendo montada. — A Ritinha mandou um beijo! Eu queria muito que você estivesse aqui para ver as estrelas. Elas são tão brilhantes... eu te amo! Beijo para a Sara também!

Emanuel assistiu ao vídeo três vezes. Ele sentiu uma pontada de inveja daquela simplicidade, daquela alegria genuína que Eduarda emanava. Ele olhou para a vista luxuosa à sua frente e, por um momento, o Chardonnay e o chef particular pareceram pálidos perto da fogueira e do bolo de milho.

— Ela mandou notícias? — Sara perguntou, aproximando-se e olhando para a tela do celular.

— Mandou um vídeo. Estão montando a fogueira.

Sara olhou para a imagem de Eduarda sorridente.

— Ela parece feliz. É irritante o quanto ela consegue ser feliz com tão pouco, não é?

— Não é pouco para ela, Sara — Emanuel disse, guardando o celular. — Para ela, aquilo é tudo.

— E para você, Manu? O que é tudo? — Sara perguntou, ficando de frente para ele, os olhos azuis fixos nos dele.

Emanuel a puxou pela cintura, trazendo-a para perto.

— Tudo é ter vocês duas. Do jeito de vocês. Sem que nada mude.

— Você é um homem ambicioso, Emanuel — Sara sorriu, passando os braços pelo pescoço dele. — Mas eu gosto disso. Só não espere que eu use chapéu de palha em nenhum momento da minha vida.

Emanuel riu, a primeira risada sincera do dia.

— Eu nunca esperaria isso de você, Sara.

A noite caiu na serra, fria e elegante. Emanuel e Sara jantaram sob a luz de velas, discutindo os novos projetos de expansão para a Europa e rindo das histórias ácidas da mãe de Sara. Era o ambiente onde Emanuel se sentia no controle, onde ele era o rei de seu império.

No entanto, antes de dormir, ele enviou uma última mensagem para Eduarda: "Aproveite a fogueira, pequena. Mas não esqueça que o seu lugar é aqui, no meu braço. Volte logo."

A resposta veio minutos depois, em uma foto de Eduarda deitada em uma cama antiga, com um cobertor de retalhos até o queixo e um sorriso sonolento: "Eu nunca esqueço, Manu. Me busca amanhã à noite? Quero dormir na nossa cama."

Emanuel desligou o celular com um sorriso de satisfação. Ele podia não ter tido o controle total do fim de semana, e Eduarda podia ter sua liberdade no interior, mas no final, todas as estradas levavam de volta a ele. E para um homem como Emanuel, saber que ele era o destino final era a maior vitória de todas.

Ele se deitou ao lado de Sara, que já dormia profundamente, e fechou os olhos. O império estava em paz, dividido entre a sofisticação da serra e a simplicidade do interior, mas unido sob o poder de um homem que não aceitava nada menos do que o amor absoluto de suas duas mulheres.