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Promessas Esquecidas e Sombras no Escuro

O sol da tarde entrava pelas janelas do estúdio, iluminando a poeira que dançava no ar enquanto Emanuel finalizava o traço de uma fênix nas costas de um cliente. O som da máquina era um mantra que o mantinha focado, longe do caos administrativo que Sara gerenciava com punho de ferro na sala ao lado. Quando o cliente saiu, Emanuel sentiu o peso dos ombros descer um pouco, mas a paz durou pouco.

O celular sobre a bancada vibrou. Era uma chamada de vídeo de Eduarda. Ao atender, o rosto doce e iluminado da namorada surgiu na tela. Ela estava na biblioteca da faculdade, com o cabelo castanho preso em um coque frouxo e alguns fios caindo sobre o rosto.

— Manu! — ela sussurrou, com aquele tom manhoso que sempre o desarmava. — Eu acabei de ver que entrou em cartaz aquele filme francês que eu te falei... sobre a pintora russa. Você prometeu que me levaria, lembra?

Emanuel limpou as mãos em um papel toalha, tentando organizar a agenda mentalmente. O cansaço turvava seus pensamentos.

— O filme da pintora... claro, Duda. Eu lembro.

— Tem uma sessão às dezenove horas naquele cinema antigo perto da Paulista. Eu posso ir indo na frente para comprar os ingressos e pegar um lugar bom? Você me encontra lá na entrada? — Ela fez um biquinho adorável, os olhos brilhando em expectativa. — Por favor, eu preciso relaxar um pouco.

— Tudo bem, pequena. Vá na frente. Eu só preciso organizar umas coisas aqui e te encontro às sete em ponto.

— Promete? — ela perguntou, com a insegurança típica de quem valoriza cada segundo de atenção dele.

— Prometo. Beijo, Duda.

Emanuel desligou e voltou ao trabalho mecânico de limpar seus equipamentos. Sua mente, porém, estava no "automático". Ele estava operando em um nível de exaustão onde as palavras entravam e saíam sem criar raízes profundas na memória.

Vinte minutos depois, a porta do estúdio se abriu com o costumeiro estrondo de confiança. Sara entrou, exalando poder. Ela usava um conjunto de alfaiataria branco, extremamente justo, que realçava seu corpo curvilíneo e seus seios fartos. O batom vermelho era a única cor forte em seu rosto impecável.

— Prontinho, meu rei — disse ela, jogando-se na cadeira giratória dele e girando uma vez. — Fechei o contrato de exclusividade com os fornecedores de tinta da Alemanha. Economizamos trinta por cento no frete anual. Mereço um prêmio, não acha?

— Você é incrível, Sara. Sério — Emanuel respondeu, aproximando-se e dando um beijo casto em sua testa.

— Ótimo, porque eu reservei aquela mesa no "L’Essence" para as vinte horas. Você sabe que é quase impossível conseguir lugar lá na sexta-feira, mas eu usei meu charme com o gerente. — Ela se levantou, passando as mãos pelo peito dele, sentindo os músculos sob a camiseta preta. — Vamos comemorar nosso sucesso.

Emanuel paralisou por um segundo. Um flash de Eduarda no cinema passou por sua mente, mas foi rapidamente abafado pela presença avassaladora de Sara e pelo lembrete do jantar que, agora ele recordava vagamente, eles haviam planejado há semanas para celebrar a nova fase da empresa.

— O jantar... — ele murmurou.

— Sim, o jantar que você disse que era prioridade — Sara arqueou uma sobrancelha, o tom de voz ficando perigosamente afiado. — Não me diga que esqueceu.

— Não, claro que não esqueci — mentiu ele, a racionalidade sendo engolida pela necessidade de evitar um confronto com a loira. Sara não aceitaria ser "trocada" por um filme de arte, e Emanuel simplesmente não tinha energia para a explosão que viria se ele tentasse cancelar.

Ele pensou: "Vou ao jantar, fico uma hora, invento uma desculpa e corro para o cinema. O filme é longo, eu pego o final e busco a Duda."

O problema é que o mundo de Sara nunca era rápido.

***

No restaurante, o ambiente era sofisticado, com luzes baixas e música ambiente. Sara estava em seu elemento. Ela falava sobre projeções financeiras, ria alto de uma piada que o garçom fez e servia vinho para Emanuel com uma naturalidade possessiva.

— Você está meio distraído, querido — Sara comentou, cortando seu filé com precisão. — O que foi? Algum problema em Londres?

— Não, só cansaço, Sara. O dia foi longo.

— Relaxa. Você trabalha demais. — Ela esticou a perna por baixo da mesa, roçando o pé no tornozelo dele de forma provocante. — Depois daqui, eu tenho uma surpresa para você em casa. Comprei algo novo... de renda preta.

Emanuel sorriu, o vinho começando a fazer efeito e nublar ainda mais o compromisso com Eduarda. A conversa com Sara era estimulante, carregada de uma energia competitiva e vibrante que o prendia. Eles discutiram estratégias, riram de lembranças de viagens e, quando ele deu por si, já estavam pedindo a sobremesa.

O tempo, esse traidor, havia voado.

***

Enquanto isso, a quilômetros dali, Eduarda estava sentada no degrau de mármore do cinema antigo. O filme já havia começado há mais de uma hora. Ela segurava dois ingressos amassados em uma das mãos e um saco de pipoca murcha na outra.

Ela olhava para o celular a cada trinta segundos. Nenhuma mensagem. Nenhuma ligação perdida.

— Ele deve estar vindo — sussurrou para si mesma, sentindo o frio da noite atravessar seu cardigã leve. — O trânsito deve estar horrível. O Manu nunca me deixaria aqui.

As pessoas entravam e saíam para comprar refrigerante, e cada vez que a porta automática se abria, o coração de Eduarda saltava, esperando ver a silhueta alta e protetora de Emanuel. Mas ele não vinha.

A sessão terminou. As luzes do saguão se acenderam por completo e o fluxo de pessoas saindo da sala de cinema começou. Eduarda levantou-se, os olhos já vermelhos e inchados de segurar o choro. Ela esperou até que o último espectador saísse, até que o lanterninha começasse a fechar as portas de metal.

— Moça, a gente vai fechar — disse o funcionário, com pena.

— Ah... sim. Obrigada.

Ela caminhou até o ponto de ônibus, já que não queria gastar dinheiro com aplicativo e seus pais achavam que ela estava com Emanuel. O sentimento de abandono era uma dor física em seu peito, uma pressão que a fazia querer desaparecer.

***

Emanuel só "acordou" quando entrou no apartamento com Sara. Ela foi direto para o quarto, rindo e dizendo que o esperava em cinco minutos. Foi quando ele tirou o celular do bolso e viu a data e o horário.

Vinte e três horas e trinta minutos.

O sangue sumiu de seu rosto. As mensagens de Eduarda estavam lá, uma linha do tempo de sua desintegração emocional:

"Manu, já estou aqui! Comprei os ingressos." (18:50) "O filme vai começar, vou entrar e te espero na poltrona 12, tá?" (19:10) "Manu? Você está bem? Aconteceu algo no estúdio?" (19:45) "Ainda estou te esperando no saguão... está ficando frio." (21:00) "Estou indo para casa. Acho que você esqueceu de mim." (21:45)

— Meu Deus... — Emanuel murmurou, a náusea subindo pela garganta.

Ele não pensou. Não avisou Sara. Apenas pegou a chave do carro e saiu correndo, ignorando os gritos da loira que o chamava do quarto, vestida em sua surpresa de renda.

Ele dirigiu como um louco até a casa dos pais de Eduarda. As luzes do jardim estavam acesas. Ele sabia que ela não estaria dormindo. Eduarda não dormia quando estava magoada; ela se encolhia em um canto e sofria em silêncio.

Ele pulou o portão baixo — os pais dela eram modernos demais para cercas elétricas — e foi até a janela do quarto dela, no térreo. Ele bateu levemente no vidro.

— Duda? Duda, por favor, abre.

Demorou alguns minutos, mas a cortina se moveu. Eduarda apareceu, o rosto pálido, os olhos terrivelmente inchados. Ela abriu o vidro, mas não a tela de proteção.

— Vai embora, Emanuel — a voz dela era um fio, desprovida de sua doçura habitual.

— Me perdoa, pelo amor de Deus. O dia foi um caos, a Sara marcou um jantar de negócios, eu me confundi, o estúdio estava cheio...

— Você não se confundiu porque o estúdio estava cheio — ela o interrompeu, uma lágrima solitária descendo pelo rosto. — Você se confundiu porque eu não sou sua prioridade. A Sara é. O trabalho é. Eu sou só a menina que você visita quando quer um pouco de paz, mas que você esquece na calçada quando o brilho dela te chama.

— Não é verdade! Eu amo você, eu morreria por você, Duda! — Ele tentou alcançar a mão dela através da grade, mas ela recuou.

— Você prometeu, Manu. Eu fiquei lá sozinha. As pessoas me olhavam com pena. Eu me senti um nada.

— Vem morar comigo — ele implorou, o desespero tomando conta. — Se você morasse comigo, isso nunca aconteceria. Eu te levaria comigo para todo lugar, a gente estaria sempre junto. Por favor, Duda, diz que sim. Vem morar comigo e com a Sara, vamos acabar com essa distância.

Eduarda soltou uma risada amarga, um som que Emanuel nunca tinha ouvido vindo dela. Era um som de quebra.

— Morar com você? — ela perguntou, limpando o rosto com as costas da mão. — Emanuel, é por isso que eu nunca vou morar com você. Nunca.

— O quê? Do que você está falando?

— Se você me esquece em um cinema público quando eu moro com meus pais, o que você faria comigo trancada naquela cobertura com a Sara? — Ela se aproximou da grade, o olhar agora carregado de uma mágoa profunda. — Eu seria um fantasma naquela casa. Eu veria você e ela saindo para jantares "importantes" enquanto eu ficaria no quarto esperando uma migalha da sua atenção. Eu não vou aceitar o seu convite, Emanuel. Nem agora, nem daqui a pouco, nem nunca. Eu prefiro ficar aqui, onde eu existo para alguém.

— Você está dizendo isso porque está com raiva! — Emanuel explodiu, a frustração de perder o controle da situação fazendo sua voz subir. — Eu faço tudo por vocês duas! Eu trabalho como um condenado para dar tudo do bom e do melhor! Eu só quero as pessoas que eu amo perto de mim!

— Você quer posse, Emanuel. Você não quer proximidade — Eduarda disse, com uma lucidez que o atingiu como um soco. — Você quer que eu esteja lá para quando você cansar da Sara, e que a Sara esteja lá para quando você precisar de poder. Mas você não pensa no que eu sinto quando sou deixada para trás.

— Eduarda, para com essa manha! — ele gritou, batendo na parede da casa. — Foi um erro! Um erro humano!

— Um erro que mostra onde eu estou na sua lista — ela sussurrou. — Por favor, vai embora. Meus pais vão acordar e eu não quero que eles te vejam assim.

— Eu não vou embora até você me perdoar.

— Então você vai ficar aí a noite toda, porque hoje eu descobri que o lugar que você quer que eu ocupe na sua vida é pequeno demais para mim.

Ela fechou a janela de vidro e, em seguida, puxou a cortina pesada.

Emanuel ficou parado no jardim, o silêncio da noite pesando sobre ele. Ele sentia uma raiva cega — raiva de si mesmo, raiva de Sara por ser tão exigente, e, pela primeira vez, uma raiva irritada de Eduarda por ser tão "difícil" em sua fragilidade.

Ele chutou um vaso de flores decorativo, sentindo-se um gigante em uma loja de cristais que acabou de estraçalhar a peça mais valiosa.

Ele voltou para o carro, o peito arfando. Ao ligar o motor, viu uma mensagem de Sara no painel: "Onde você se meteu? A surpresa está esfriando e eu não gosto de esperar."

Emanuel socou o volante. Ele tinha tudo. Dinheiro, estúdios pelo mundo, duas mulheres incríveis que o amavam. E, no entanto, enquanto dirigia de volta para a cobertura luxuosa onde Sara o esperava com cobranças e sedução, ele nunca se sentira tão fracassado.

Ele queria o controle. Queria o império. Queria as duas. Mas, naquela noite, sob as luzes frias de São Paulo, ele percebeu que a doçura de Eduarda não era algo que ele pudesse simplesmente agendar. E o "nunca" que ela pronunciou ecoava em sua mente como a única tatuagem que ele jamais conseguiria apagar.