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Lágrimas de Vidro e Punhos de Aço
O silêncio na cobertura de Emanuel era quase ensurdecedor, interrompido apenas pelo estalar ocasional do gelo no copo de uísque que ele segurava. Fazia exatamente um mês. Trinta dias desde que Eduarda fechara aquela janela na sua cara, e trinta dias desde que ela deixara de atender suas ligações, de responder suas mensagens e de permitir que ele sentisse o cheiro de baunilha que sempre emanava de sua pele. Emanuel estava no limite. O controle, que era sua marca registrada nos negócios, estava escorrendo por entre seus dedos como areia fina.
Ele olhou para a mala aberta sobre a cama de casal. Tinha planejado uma viagem para as Maldivas. Resort de luxo, bangalô sobre as águas, isolamento total. Seria o cenário perfeito para o perdão. Ele já visualizava Eduarda manhosa, aninhada em seu peito enquanto observavam o pôr do sol, e Sara, exuberante e bronzeada, administrando os detalhes do lazer com sua eficiência habitual. Mas o plano ruiu quando a resposta de Eduarda veio através de uma mensagem curta e fria, enviada pelo celular da mãe dela: "Não vou. Por favor, pare de mandar flores."
As flores. Ele tinha enviado orquídeas, lírios e rosas brancas todos os dias. O quarto dela devia estar parecendo um jardim botânico, e mesmo assim, nada.
A porta do quarto se abriu e Sara entrou, usando um conjunto de lingerie de seda preta sob um robe transparente. Ela caminhou com a confiança de uma pantera, os saltos batendo no piso de madeira com um ritmo que, normalmente, o deixaria excitado, mas que hoje apenas aumentava sua enxaqueca.
— Você ainda está olhando para essa mala, Emanuel? — Sara perguntou, cruzando os braços e encostando-se no batente da porta. — O jato decola em seis horas. Se a pequena não vem, o problema é dela. Vamos nós dois. Eu garanto que você não vai ficar entediado.
— Não é a mesma coisa, Sara — Emanuel rosnou, a voz rouca. — Eu quero as duas. Eu planejei isso para nós três.
Sara revirou os olhos, soltando uma risada curta e sarcástica. Ela se aproximou, sentando-se na beirada da cama e passando a mão pelas costas tensas de Emanuel.
— Você é um homem brilhante para tatuar e para ganhar dinheiro, mas é um idiota completo quando se trata de mulheres como a Eduarda — disse ela, o tom oscilando entre a provocação e uma estranha espécie de conselho. — Você está tentando comprar o perdão dela como se estivesse fechando um contrato em Tóquio. Orquídeas? Viagens de luxo? Ela tem vinte anos e o coração de uma boneca de porcelana. Ela não quer as Maldivas, Emanuel. Ela quer sentir que você está sofrendo tanto quanto ela.
Emanuel virou-se para ela, os olhos injetados.
— E o que você sugere? Que eu vá até lá e me ajoelhe na calçada? Eu já pedi desculpas! Eu reconheci o erro! O que mais ela quer?
— Ela quer manha, querido. Ela quer ser convencida de que é a única coisa que importa no seu mundo de máquinas e números — Sara deu de ombros, examinando as unhas perfeitas. — Se você quer que ela ceda, pare de agir como um CEO e comece a agir como o homem que ela acha que é o herói dela. Vá até lá sem avisar. Esqueça as flores. Leve algo que lembre o início, algo que a faça se sentir pequena e protegida. E, pelo amor de Deus, Emanuel, pare de gritar. Com a Eduarda, menos é mais.
Emanuel ficou em silêncio, processando as palavras de Sara. Ele odiava admitir, mas Sara entendia a psicologia feminina de uma forma que ele, em sua praticidade bruta, jamais entenderia. Sara não via Eduarda como uma ameaça, mas sim como um elemento que suavizava Emanuel, tornando-o mais maleável para ela mesma. Era uma simbiose complexa.
***
Enquanto isso, no subúrbio, Eduarda estava encolhida em sua cama, abraçada a um urso de pelúcia que Emanuel lhe dera no primeiro mês de namoro. O quarto estava, de fato, cheio de flores, mas o perfume delas a sufocava. Cada pétala era um lembrete do quanto ele tentava substituir a presença real por bens materiais.
Seu coração doía. Uma dor física, constante, que parecia apertar seus pulmões. Ela sentia uma saudade desesperada do toque dele, da segurança que sentia quando ele a envolvia com aqueles braços cobertos de tatuagens que contavam histórias de um mundo que ela ainda tinha medo de explorar. Ela queria o Manu que sussurrava promessas no seu ouvido, não o Emanuel que enviava assistentes para entregar joias como pedido de desculpas.
— Duda? — A mãe dela, uma mulher jovem e de aparência moderna, bateu na porta e entrou sem esperar. — Tem alguém lá embaixo. E ele não parece que vai embora.
Eduarda sentiu um calafrio.
— Eu disse que não queria ver ninguém, mãe.
— Ele não está com flores, querida. E não está de terno. Ele parece... bem, ele parece o rapaz por quem você se apaixonou antes de todo esse império subir à cabeça dele.
Eduarda hesitou. A curiosidade e a carência lutaram contra seu orgulho ferido. Ela se levantou, ajeitando o pijama de cetim claro e jogando um casaco por cima. Seus pés descalços não faziam barulho enquanto ela descia as escadas.
Emanuel estava na sala, parado perto da janela. Ele usava uma calça jeans gasta e uma camiseta preta simples, que deixava à mostra as tatuagens do pescoço e dos braços. Não havia relógios caros, não havia pastas de couro. Seus cabelos estavam bagunçados, e havia olheiras profundas sob seus olhos.
Quando ele a viu, sua expressão endureceu por um segundo, antes de se suavizar em uma vulnerabilidade que ele raramente mostrava.
— O que você está fazendo aqui, Emanuel? — ela perguntou, a voz trêmula, mantendo a distância.
— Eu mandei o jato de volta para o hangar. Cancelei as Maldivas — disse ele, a voz baixa.
Eduarda piscou, surpresa.
— Por quê? A Sara deve ter ficado furiosa.
— A Sara entende que, se você não está lá, o bangalô é apenas um monte de madeira sobre a água. — Ele deu um passo à frente, cauteloso. — Eu vim porque não aguento mais acordar e não ter uma mensagem sua me dando bom dia. Eu não aguento mais entrar no estúdio e não ter o seu desenho na minha mesa para me inspirar. Eu errei, Duda. Errei feio. E eu sei que as flores foram uma forma covarde de tentar não encarar a dor que eu te causei.
Eduarda sentiu as lágrimas subirem. Ela queria correr até ele, mas se manteve firme.
— Você me deixou sozinha, Manu. Você me trocou por um jantar e depois tentou me convencer de que a culpa era minha por não morar com você.
— Eu sei. Eu fui um idiota egoísta — ele admitiu, e a sinceridade em sua voz era palpável. — Eu quero você perto de mim porque eu tenho medo, Duda. Tenho medo de que, se você não estiver sob o meu teto, esse mundo lá fora te leve para longe de mim. Mas eu entendo agora. Você não é um dos meus estúdios. Eu não posso te administrar.
Ele tirou algo do bolso. Não era uma caixa de joia. Era um pequeno caderno de esboços, velho e com as bordas gastas.
— Eu encontrei isso no fundo da minha gaveta. São os desenhos que eu fiz de você quando a gente começou. Antes da Sara, antes da expansão, antes de tudo ser tão complicado. — Ele abriu em uma página onde havia um retrato dela dormindo, feito a lápis. — Eu só quero que você saiba que esse homem ainda está aqui. E ele está morrendo de saudade da menina dele.
Eduarda soltou um soluço baixo. A manha, aquela necessidade de carinho e proteção que era sua essência, transbordou. Ela caminhou lentamente até ele e, sem dizer uma palavra, encostou a testa em seu peito.
Emanuel fechou os olhos, soltando um suspiro de alívio que pareceu carregar todo o peso do último mês. Ele a envolveu em seus braços, apertando-a com força, mas com uma delicadeza infinita.
— Por favor, não faz mais isso — ela murmurou contra a camiseta dele, as mãos pequenas agarrando o tecido nas suas costas. — Eu me senti tão pequena, Manu. Tão descartável.
— Você é a coisa mais preciosa da minha vida, pequena. Nunca mais. Eu prometo.
Eles ficaram assim por um longo tempo, no silêncio da sala, enquanto os pais de Eduarda observavam discretamente da cozinha, sorrindo com a modernidade de um amor que, apesar de caótico, era real.
— Você vai viajar com a Sara? — Eduarda perguntou depois de um tempo, afastando-se apenas o suficiente para olhar nos olhos dele.
— Não. Eu vou ficar aqui. Vou levar você para jantar naquele lugar simples que você gosta. E depois vou te trazer para casa, no horário que você quiser — ele disse, passando o polegar pelo rosto dela para secar as lágrimas. — Mas, Duda... eu ainda quero que você pense na ideia de morar comigo. Não porque eu queira te controlar, mas porque a casa parece vazia sem o seu silêncio.
Eduarda suspirou, fazendo um biquinho manhoso.
— Eu ainda não estou pronta, Manu. A Sara é... ela é muito expansiva. Eu sinto que vou ser engolida por ela.
— A Sara gosta de você, do jeito estranho dela — Emanuel sorriu de lado. — Ela foi quem me disse para vir aqui hoje. Ela sabe que eu sou um desastre sem você para equilibrar as coisas.
Eduarda arregalou os olhos.
— A Sara disse isso?
— Palavras dela: "Vá buscar a sua boneca de porcelana antes que você quebre o resto da casa".
Eduarda soltou uma risadinha tímida, a primeira em semanas. O clima pesado começou a se dissipar.
— Tudo bem. Eu aceito o jantar. Mas você vai ter que se esforçar muito para eu te perdoar cem por cento.
— Eu tenho a vida toda para isso — Emanuel respondeu, beijando a ponta do nariz dela.
***
Horas mais tarde, Emanuel voltou para a cobertura. Eduarda estava em casa, prometendo encontrá-lo no dia seguinte. Sara o esperava no bar da sala, bebendo um martini. Ela o observou entrar e notou a mudança imediata em sua postura. A tensão nos ombros dele havia sumido.
— Pelo seu rosto, a "operação resgate" foi um sucesso — Sara comentou, girando a azeitona no palito.
— Ela ligou. Vamos jantar amanhã — Emanuel respondeu, servindo-se de uma dose de água. — Obrigado, Sara. Você tinha razão sobre o jeito de falar com ela.
Sara deu de ombros, levantando-se e caminhando até ele. Ela passou os braços pelo pescoço de Emanuel, colando seu corpo siliconado ao dele. O contraste entre a fragilidade de Eduarda e a vulgaridade sofisticada de Sara era o que mantinha Emanuel em equilíbrio. Ele precisava da paz de uma e do fogo da outra.
— Eu sempre tenho razão, querido. Agora que a sua consciência está limpa e a sua namoradinha está calma, você pode focar em mim? — Ela sussurrou no ouvido dele, a voz carregada de segundas intenções. — Eu ainda estou com aquela lingerie preta por baixo do robe. E eu não sou de perdoar tão fácil quanto a Eduarda se você me deixar esperando.
Emanuel sorriu, sentindo a adrenalina voltar ao corpo. Ele a pegou pela cintura, puxando-a para um beijo intenso e possessivo.
— Eu não vou deixar você esperando, Sara.
— Ótimo. Porque amanhã, depois do seu jantar romântico e fofo, eu quero que você me leve para aquele evento da galeria. Quero ser vista com o dono do império.
Emanuel assentiu. Ele sabia que a convivência civilizada entre as duas era um castelo de cartas, mas, por enquanto, ele era o rei daquele castelo. Ele tinha Sara para o mundo, para o poder e para o sexo voraz. E tinha Eduarda para o coração, para a arte e para a doçura que o impedia de se tornar um monstro frio.
No dia seguinte, o jantar com Eduarda foi exatamente como ela queria. Simples, calmo e cheio de carinhos. Emanuel a ouviu falar sobre seu curso, sobre as pinturas renascentistas e sobre como ela queria pintar um mural em um dos estúdios dele algum dia.
— Você faria isso? — ele perguntou, encantado com a ideia.
— Se você me deixar escolher as cores e não ficar me dando ordens... talvez — ela disse, com um olhar travesso.
— O estúdio é seu, Duda. Faça o que quiser.
Ao final da noite, enquanto a deixava na porta de casa, Eduarda o abraçou apertado.
— Manu?
— Oi, pequena.
— Eu vou tentar passar o próximo fim de semana na sua casa. Só o fim de semana. Para ver como eu me sinto.
O coração de Emanuel saltou. Era o pequeno passo que ele tanto esperava.
— Sério?
— Sim. Mas eu quero o meu próprio espaço para pintar. E não quero que a Sara entre sem bater.
— Combinado. Eu vou preparar tudo.
Emanuel voltou para casa sentindo que, finalmente, as peças do seu quebra-cabeça estavam começando a se encaixar. Ele sabia que o fim de semana seria um desafio. Sara e Eduarda sob o mesmo teto por quarenta e oito horas era um teste de fogo para sua paciência e para a diplomacia de ambas.
Ao entrar na cobertura, ele encontrou Sara revisando alguns documentos da contabilidade de Londres. Ela olhou para ele e percebeu a empolgação em seus olhos.
— Ela vem, não vem? — Sara perguntou, sem tirar os olhos do tablet.
— No fim de semana.
Sara deu um sorriso enigmático.
— Então é melhor eu estocar vinho e paciência. E você, Emanuel, é melhor preparar o seu coração. Porque ter nós duas no mesmo ambiente por tanto tempo... bem, digamos que a sua vida nunca mais será a mesma.
Emanuel sorriu, sentando-se ao lado dela e puxando-a para perto. Ele estava pronto para o caos. Desde que, no final da noite, ele pudesse ter o melhor dos dois mundos. O poder e a glória, a manha e o desejo. O império de Emanuel estava completo, e ele faria qualquer coisa para garantir que nenhuma daquelas duas mulheres jamais quisesse sair dele.