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O Labirinto de Vidro e a Paciência de Ferro

O sol da manhã entrava pelas janelas do chão ao teto da cobertura, refletindo-se nas superfícies de mármore e vidro. Emanuel estava parado diante da cafeteira, observando o vapor subir. Ele vestia apenas uma calça de moletom cinza, deixando o tronco tatuado à mostra. Seus olhos, no entanto, carregavam uma sombra de irritação que nem o café mais forte do mundo seria capaz de dissipar.

Sara entrou na cozinha com o barulho rítmico de seus saltos agulha. Ela já estava pronta para o dia: um conjunto de alfaiataria rosa-choque, extremamente justo, que acentuava cada curva de seu corpo. O cabelo loiro estava impecável, e ela segurava um tablet como se fosse uma arma de guerra.

— Os números do estúdio de Berlim chegaram — disse ela, servindo-se de uma xícara de café preto sem olhar para Emanuel. — Estamos com um crescimento de 15% acima do esperado. Mas você não está ouvindo, não é?

Emanuel suspirou, esfregando a nuca.

— Estou ouvindo, Sara. Excelente trabalho.

— Não, você não está — Sara colocou a xícara na bancada com um estalo seco e virou-se para ele, cruzando os braços sobre o peito farto. — Você está pensando na "pequena". De novo. Emanuel, já faz meses que estamos nesse vai e vem. Eu já organizei o closet dela, já comprei os móveis para o ateliê que você insistiu em montar, e o que temos? Uma visita de fim de semana a cada quinze dias.

— Ela é sensível, Sara. Você sabe disso — Emanuel respondeu, o tom de voz subindo ligeiramente.

— Ela é mimada, isso sim — Sara rebateu, com um sorriso sarcástico. — E você é um bobo por cair naquele biquinho toda vez. Até eu estou perdendo a paciência. Esta casa precisa de uma dinâmica real, não de uma convidada que age como se estivesse em um hotel. Se ela quer ser sua mulher, ela precisa estar aqui.

Emanuel não respondeu porque, no fundo, ele concordava. Ele queria o controle total de sua vida, e Eduarda era a única peça que insistia em não se encaixar no tabuleiro.

Mais tarde naquele dia, Emanuel estacionou seu SUV em frente à casa dos pais de Eduarda. O jardim estava impecável, refletindo a vida organizada e leve que a namorada levava. Quando ele entrou, encontrou Eduarda sentada na varanda, cercada por livros de História da Arte. Ela usava um vestido de algodão branco, leve e romântico, e seus pés descalços balançavam suavemente.

— Manu! — ela exclamou, fechando o livro e correndo para os braços dele.

Ela se pendurou no pescoço dele, escondendo o rosto na curva do seu ombro. O cheiro de baunilha dele a envolveu, e ela soltou um suspiro manhoso.

— Que saudade... você demorou hoje.

Emanuel a apertou, sentindo a delicadeza de seu corpo. Ele tentou manter a fachada rígida, mas Eduarda tinha o dom de desarmá-lo com um simples toque.

— Tive muito trabalho no estúdio, Duda. — Ele a afastou um pouco, segurando seu rosto com as mãos grandes. — Precisamos conversar. De novo.

Eduarda murchou visivelmente. Ela sabia o que viria. Seus olhos castanhos ficaram úmidos em um instante, e ela mordeu o lábio inferior de um jeito que sempre fazia Emanuel querer protegê-la de todo o mal do mundo.

— Sobre a mudança? — ela sussurrou, a voz trêmula.

— Sim, sobre a mudança. Duda, eu não aguento mais essa distância. Eu tenho uma vida pronta para você lá. A Sara também quer que você vá. Nós somos uma família, ou deveríamos ser.

Eduarda se soltou dele e voltou para a cadeira, sentando-se sobre as próprias pernas e abraçando um travesseiro decorativo.

— Manu, eu andei pensando muito sobre isso — começou ela, com uma inocência que beirava o insuportável para alguém tão prático quanto Emanuel. — Eu amo você, de verdade. E eu gosto da Sara, ela é engraçada e forte... Mas eu andei conversando com os meus pais.

Emanuel cruzou os braços, sentindo a tensão subir pela espinha.

— E o que eles disseram?

— Eles disseram que eu ainda sou muito jovem. E eu sinto isso também. Eu estou no meio da faculdade, Manu. Minha vida aqui é tão tranquila... — Ela olhou para ele com uma expressão doce, quase angelical. — Eu decidi que quero terminar meu curso primeiro. Só faltam dois anos. Eu pretendo morar com os meus pais por mais esses dois aninhos, e aí, quando eu me formar e for uma mulher adulta de verdade, eu vou para a cobertura com você.

Houve um silêncio mortal na varanda. Emanuel sentiu como se tivesse levado um soco no estômago.

— Dois anos? — ele repetiu, a voz perigosamente baixa. — Eduarda, você está brincando comigo?

— Não é brincadeira, Manu! — ela disse, fazendo um biquinho manhoso e esticando a mão para tocar o braço dele. — Dois anos passam rápido. Você pode vir me ver todos os dias, e eu durmo lá às vezes... Não fica bravo, por favor. Eu só não estou pronta para aquela vida de gente grande, com reuniões, jantares de negócios e a Sara falando de planilhas o tempo todo.

Emanuel sentiu a paciência, que já estava por um fio, arrebentar.

— Dois anos é uma eternidade! — ele explodiu, gesticulando com força. — Eu não sou um adolescente namorando no portão, Eduarda! Eu sou um homem com responsabilidades, com um império para gerir, e eu quero a minha mulher ao meu lado! Eu montei um ateliê para você! Eu comprei roupas, eu mudei a rotina da casa!

Eduarda começou a chorar silenciosamente, as lágrimas escorrendo por suas bochechas pálidas.

— Você está sendo grosso comigo... — ela solçou, encolhendo-se na cadeira. — Eu só quero o meu tempo. Por que você não pode esperar por mim? Se você me ama, você espera.

— Isso não tem nada a ver com amor, tem a ver com realidade! — Emanuel caminhou de um lado para o outro na varanda, sentindo-se sufocado. — Você está se escondendo atrás dos seus pais. Você tem vinte anos, não dez!

— Para de gritar! — ela pediu, tapando os ouvidos. — Eu vou ficar triste e não vou conseguir estudar. Manu, por favor... me dá um abraço e diz que está tudo bem.

A manha dela era sua maior arma. Ela se levantou e caminhou até ele, tentando se enfiar sob seus braços, procurando o calor e a segurança que ele sempre oferecia. Mas, desta vez, Emanuel permaneceu rígido. Ele a olhou de cima, sentindo uma mistura de adoração e um profundo cansaço emocional.

— Não está tudo bem, Eduarda. — Ele a afastou suavemente, mas com firmeza. — Eu vou embora. Preciso pensar se eu consigo viver desse jeito por mais dois anos.

— Manu! — ela gritou, enquanto ele descia os degraus da varanda. — Não vai embora bravo! Eu te amo!

Emanuel não olhou para trás. Ele entrou no carro e arrancou, o motor rugindo em sincronia com sua frustração.

Quando ele chegou na cobertura, o ambiente estava carregado. Sara estava na sala de jantar, terminando de jantar sozinha, uma taça de vinho tinto ao lado do prato. Ela o observou entrar e, pelo modo como ele jogou as chaves sobre o aparador, ela já sabia o resultado.

— Dois anos? — Sara perguntou, a voz tingida de um deboche frio.

Emanuel parou no meio da sala, surpreso.

— Como você sabe?

— Ela me mandou uma mensagem — Sara girou a taça de vinho, observando o líquido. — "Sara, fala para o Manu não ficar bravo, dois anos passam voando". Aquela garota é mais esperta do que você imagina, Emanuel. Ela usa essa aura de santinha para fazer você de palhaço.

Emanuel sentou-se à mesa, enterrando o rosto nas mãos.

— Eu não sei o que fazer, Sara. Eu a amo, mas essa indecisão está me matando.

Sara levantou-se e caminhou até ele. Ela não o abraçou com a doçura de Eduarda; em vez disso, colocou as mãos em seus ombros e apertou com força, uma demonstração de apoio e domínio.

— O que você vai fazer é dar um ultimato — Sara disse, a voz firme e autoritária. — Eu também estou cansada, Emanuel. Eu administro seus estúdios, eu cuido da sua casa, eu sou a mulher que está aqui todas as noites quando você chega estressado. Eu não vou aceitar viver em um limbo por mais dois anos por causa das inseguranças de uma menina que ainda pede permissão para os pais para sair de casa.

— Um ultimato pode fazê-la fugir de vez — murmurou Emanuel.

— Ou pode fazê-la crescer — Sara rebateu. — Mas, de qualquer forma, essa situação precisa acabar. Ou ela entra nessa casa como uma de nós, ou ela fica na varanda dos pais dela desenhando flores. Você precisa decidir o que quer: uma parceira ou uma boneca de estimação.

Emanuel olhou para Sara. Ela era vulgar, era barulhenta, era ambiciosa e, às vezes, agressiva. Mas ela estava ali. Ela era real, sólida e implacável em sua lealdade.

— Eu vou falar com ela amanhã — disse Emanuel, a voz decidida.

— Não — Sara sorriu, um brilho perigoso nos olhos. — Amanhã nós vamos buscá-la. Juntos.

O dia seguinte amanheceu nublado. Emanuel e Sara chegaram à casa de Eduarda logo cedo. Sara usava um vestido de couro preto, justo e curto, com botas de cano alto. Ela exalava uma energia de confronto que contrastava violentamente com o ambiente bucólico da vizinhança.

Eduarda apareceu na porta, usando um pijama de seda azul-claro, com os olhos ainda inchados de tanto chorar na noite anterior. Quando viu os dois, seu coração disparou.

— Manu? Sara? O que aconteceu?

— Aconteceu que o tempo das desculpas acabou, Duda — disse Sara, tomando a frente e entrando na casa sem ser convidada.

Emanuel seguiu Sara, sentindo o peso da situação. Os pais de Eduarda, que estavam na cozinha, apareceram na sala. Ao contrário do que Emanuel esperava, eles não pareciam intimidados pela presença de Sara ou pela rigidez dele.

— Algum problema, pessoal? — perguntou o pai de Eduarda, cruzando os braços, mas mantendo um tom de voz calmo.

— Nenhum problema que não possa ser resolvido com um pouco de maturidade — Sara respondeu, olhando diretamente para Eduarda. — Eduarda, o Emanuel não dormiu. Eu não dormi. Nós montamos uma vida para você naquela cobertura. Tem um espaço que custou uma fortuna só para os seus quadros. E você tem a audácia de dizer que quer mais dois anos de "conforto" aqui?

Eduarda se encolheu, buscando o olhar de Emanuel.

— Manu, você deixou ela falar assim comigo?

Emanuel suspirou, dando um passo à frente.

— Duda, a Sara tem razão no ponto principal. Eu te dei tudo. Eu te dei tempo, te dei espaço, te dei amor. Mas eu preciso de uma resposta definitiva. Eu não posso mais viver esperando. Eu vim aqui para te buscar. Suas malas principais já estão prontas lá em casa. Você vem comigo hoje, ou nós terminamos aqui.

O silêncio que se seguiu foi absoluto. Eduarda olhou para Emanuel como se não o reconhecesse. O homem protetor e paciente tinha dado lugar ao empresário implacável que não aceitava "não" como resposta.

— Você está me dando um ultimato? — ela perguntou, a voz sumindo.

— Estou — disse Emanuel, embora seu coração estivesse apertado. — Eu te amo mais do que tudo, mas eu não posso ser o único a lutar por nós dois.

Eduarda começou a tremer. O choro, que estava contido, explodiu em soluços desesperados. Ela olhou para os pais, os olhos suplicando por uma âncora naquele mar de exigências.

— Eu não quero ir! — ela gritou, a voz entrecortada pelo pranto. — Eu não estou pronta! Por que você está fazendo isso comigo, Manu? Eu disse que te amo, eu disse que vou... mas eu não posso ir agora!

A mãe de Eduarda, uma mulher loira e de traços modernos, deu um passo à frente e abraçou a filha, protegendo-a sob seu braço. Ela olhou para Emanuel com uma seriedade que ele nunca vira antes.

— Emanuel, eu acho que você passou dos limites — disse a mãe de Eduarda, a voz firme. — Nós somos jovens, entendemos a liberdade e entendemos o amor de vocês. Mas a Eduarda não é um objeto que você decide onde colocar.

— Eu não estou tratando ela como um objeto! — Emanuel rebateu, sentindo a raiva borbulhar. — Eu estou tentando construir um futuro!

— Um futuro onde ela não tem voz? — o pai de Eduarda interveio, aproximando-se da esposa e da filha. — Ela disse que não está pronta. Como pai, eu apoio a decisão dela. Se para você o amor termina porque ela quer terminar a faculdade na casa onde cresceu, então talvez esse seu amor seja mais sobre controle do que sobre ela.

— Escuta aqui — Sara deu um passo à frente, apontando o dedo para o pai de Eduarda —, vocês estão criando uma boneca de porcelana que não serve para o mundo real! O Emanuel é um homem de sucesso, ele não tem tempo para essas criancices!

— Pois o "mundo real" da minha filha é aqui, por enquanto — a mãe de Eduarda respondeu, sem se intimidar com a vulgaridade agressiva de Sara. — Duda, querida, olhe para mim. Você quer ir com eles hoje?

Eduarda soluçou, escondendo o rosto no ombro da mãe.

— Não... eu não quero. Eu tenho medo. Eles estão sendo maus comigo...

— Então você não vai — o pai de Eduarda sentenciou, olhando fixamente para Emanuel. — Emanuel, eu acho melhor vocês irem embora. A minha filha não vai ser levada à força nem sob chantagem emocional.

Emanuel sentiu o mundo girar. Ele olhou para Eduarda, que chorava copiosamente, protegida pelos pais como se ele fosse um vilão de filme. A visão o feriu profundamente. Ele esperava que ela cedesse, que a manha dela se transformasse em aceitação diante da sua firmeza, mas ele subestimou o apoio que ela recebia em casa.

— Eduarda — Emanuel tentou uma última vez, a voz agora carregada de mágoa —, se eu sair por aquela porta, acabou. Você entende isso?

Eduarda levantou o rosto, as bochechas vermelhas e os olhos inchados. Ela olhou para Emanuel, depois para Sara, que exibia uma expressão de desprezo absoluto.

— Então que acabe, Manu — ela disse, com uma coragem que nasceu do desespero. — Se você prefere me perder a esperar por mim, então você não me ama do jeito que eu achei que amava. Eu não vou morar com vocês desse jeito. Não vou.

Sara soltou uma risada sarcástica e bateu palmas.

— Bravo! A pequena finalmente mostrou as garras. Vamos embora, Emanuel. Já perdemos tempo demais com esse drama de subúrbio. Ela nunca vai ser a mulher que você precisa.

Emanuel ficou parado por alguns segundos, o peito arfando. Ele sentia uma vontade imensa de chorar, de gritar, de carregar Eduarda nos braços e fugir para longe de tudo, mas seu orgulho e sua rigidez o mantiveram no lugar. Ele olhou para a família unida diante dele — os pais modernos, protetores, e a namorada sensível que ele acabara de quebrar.

— Tudo bem — Emanuel disse, a voz fria como gelo. — Você fez a sua escolha, Eduarda.

Ele deu as costas e caminhou em direção à saída. Sara o seguiu, desfilando com seus saltos agulha, vitoriosa por ter Emanuel só para ela novamente, mesmo que soubesse que ele carregaria aquela ferida por muito tempo.

Ao entrar no carro, Emanuel não deu a partida imediatamente. Ele apertou o volante com tanta força que os nós dos seus dedos ficaram brancos. Pelo espelho retrovisor, ele viu a porta da casa se fechar.

— Não se preocupe, querido — Sara disse, colocando a mão sobre a dele. — Ela vai se arrepender em uma semana. Quando as flores pararem de chegar e o dinheiro dela acabar, ela vai rastejar de volta.

— Ela não vai, Sara — Emanuel murmurou, sentindo um vazio imenso no peito. — Ela tem os pais. Ela tem o mundo dela. E eu acabei de me trancar para fora dele.

Emanuel arrancou com o carro, deixando para trás o jardim impecável e a única pessoa que conseguia fazer seu coração bater fora do ritmo dos negócios. Ele tinha o controle, tinha a cobertura e tinha Sara. Mas, enquanto dirigia de volta para o seu império de vidro, ele percebeu que a vitória tinha um gosto amargo de cinzas. Eduarda não fora, e com ela, a pouca paz que ele ainda possuía havia se dissipado no ar frio daquela manhã.