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O Rapto da Noiva de Porcelana
Quatro meses podem parecer uma eternidade quando o silêncio é a única resposta para um coração que ainda grita. Para Emanuel, o império que ele construiu — os estúdios de tatuagem, os investimentos, a cobertura luxuosa — parecia cada vez mais um mausoléu de vidro e aço. Ele tinha Sara ao seu lado, eficiente, voraz e presente, mas as noites eram povoadas pelo fantasma de um perfume de baunilha e pelo eco de uma risada tímida que ele mesmo tinha expulsado de sua vida.
Emanuel mergulhou no trabalho. Suas tatuagens tornaram-se mais sombrias, seus traços mais agressivos. Ele evitava passar pela rua da faculdade de História da Arte, evitava os lugares onde a doçura de Eduarda pudesse feri-lo. Ele acreditava que o controle era a solução, mas o controle sem ela era apenas uma forma sofisticada de solidão.
Do outro lado da cidade, Eduarda vivia um luto silencioso. Ela ia às aulas, entregava seus trabalhos sobre o Renascimento e sorria para os pais durante o jantar, mas, assim que a porta do seu quarto se fechava, as lágrimas vinham. Ela sentia falta da proteção de Emanuel, do jeito que ele a segurava como se ela fosse o objeto mais precioso do mundo. No entanto, sua dignidade, alimentada pelo apoio incondicional de seus pais modernos, a impedia de discar o número dele.
A rotina de tristeza foi quebrada por um pedido inusitado. Sua prima, Beatriz, estava a poucos dias do casamento e em meio a uma crise de ansiedade. O vestido de noiva, uma peça exclusiva de renda francesa e seda, precisava de ajustes finais, mas Beatriz estava acamada com uma virose terrível.
— Por favor, Duda — implorou a tia de Eduarda pelo telefone. — Vocês têm o mesmo corpo, a mesma altura, os mesmos ombros delicados. Vá ao ateliê, prove o vestido para a estilista marcar os ajustes. Se ficar perfeito em você, ficará perfeito na Beatriz.
Eduarda, incapaz de dizer não a quem amava, aceitou. No ateliê de alta costura, cercada por tules e espelhos, ela se viu transformada. O vestido era uma obra de arte: decote ombro a ombro, uma saia volumosa que parecia uma nuvem e um véu longo que emoldurava seu rosto doce.
Sua tia, emocionada com a visão da sobrinha tão bela, não resistiu. Sacou o celular e tirou uma foto de Eduarda de costas, olhando para o espelho, o perfil delicado iluminado pela luz da tarde. "Minha noiva mais linda! O grande dia está chegando!", escreveu a tia nos stories, sem especificar que Eduarda era apenas uma modelo de substituição.
Naquele exato momento, Emanuel estava em seu escritório, fazendo uma pausa rara entre uma sessão de tatuagem e outra. O algoritmo do Instagram, indiferente ao sofrimento humano, trouxe a postagem da ex-tia para o topo de sua tela.
O mundo de Emanuel parou.
O sangue fugiu de seu rosto, deixando-o pálido sob as tatuagens. Seus olhos se fixaram na imagem: Eduarda, sua Duda, vestida de branco. O véu. A renda. A legenda confirmando o "grande dia".
— Não... — ele rosnou, a voz saindo como um trovão contido. — Ela não vai. Ela não pode.
A racionalidade, que ele tanto pregava, foi incinerada por um ciúme primitivo e uma possessividade que ele não conseguia mais mascarar. Ele não pensou em ligar, não pensou em perguntar. Em sua mente distorcida pela dor da perda, Eduarda estava se casando com outro para fugir dele, para se proteger em outros braços.
Ele saiu da sala derrubando a cadeira. Sara, que estava na recepção conferindo alguns agendamentos, assustou-se com a expressão dele.
— Emanuel? O que houve? Londres ligou?
— Ela vai casar, Sara! — ele gritou, os olhos injetados. — Aquela garota vai casar com outro!
— O quê? Quem? A Eduarda? — Sara pegou o celular dele e viu a foto. Por um segundo, seu coração falhou. Ela não odiava a menina, e a ideia de Eduarda pertencendo a outro homem parecia errada até para ela. — Emanuel, espera! Pode ser um engano!
Mas Emanuel já estava lá fora. Ele montou em sua Ducati preta, o motor rugindo como uma fera ferida. Ele cortou o trânsito de São Paulo como um louco, ignorando sinais vermelhos e xingamentos. O endereço do ateliê estava na marcação da foto. Ele ia impedir aquilo, nem que tivesse que queimar a cidade inteira.
No ateliê, Eduarda estava distraída, pedindo à estilista que afrouxasse um pouco a cintura do vestido.
— Acho que está um pouco apertado aqui — comentou ela, manhosa, ajeitando a saia.
De repente, o som de pneus fritando no asfalto ecoou do lado de fora. A porta de vidro do ateliê foi aberta com tanta força que o sino de entrada quase se quebrou. Emanuel entrou como um vendaval de couro preto e fúria.
As funcionárias gritaram. A tia de Eduarda se levantou, chocada.
— Emanuel? O que você está fazendo aqui? — perguntou a tia, assustada.
Emanuel não respondeu. Seus olhos estavam fixos em Eduarda. A visão dela vestida de noiva o atingiu como um soco físico. Ela estava linda demais, pura demais, e a ideia de outro homem tocando aquela renda o deixava cego.
— Você não vai a lugar nenhum com esse vestido — disse ele, a voz baixa e perigosa.
— Manu? — Eduarda arregalou os olhos, as mãos subindo ao peito. — O que você está fazendo aqui? Como soube...
— Eu não vou deixar você fazer isso, Duda! — Ele avançou pelo carpete luxuoso. — Você é minha. Sempre foi minha. Se você acha que vai subir em um altar com outro homem enquanto eu ainda respiro, você não me conhece!
— Manu, espera, você está entendendo errado! — ela tentou dizer, mas a voz falhou diante da intensidade dele.
Emanuel não quis ouvir. Ele não estava em condições de processar explicações. Antes que qualquer pessoa pudesse reagir, ele se aproximou, passou o braço pela cintura dela e, com um movimento brusco e decidido, a jogou por cima do ombro.
— Emanuel! Me solta! — Eduarda gritou, as pernas chutando o ar, o volume do vestido dificultando seus movimentos. — Você enlouqueceu? O vestido vai estragar!
— Que se dane o vestido! Eu compro dez desses para você, mas você não vai casar com ninguém que não seja eu! — ele rugiu para as funcionárias e para a tia estupefata. — Se alguém tentar me seguir, eu chamo a polícia por invasão de privacidade!
Ele saiu do ateliê a passos largos. A imagem era surreal: um homem alto, tatuado, vestido de couro, carregando uma noiva completa nos ombros em plena luz do dia. Ele a sentou no tanque da moto, de lado, prendendo a saia imensa como pôde entre as pernas dele.
— Segura em mim, Eduarda! — ele ordenou, subindo na moto e ligando o motor.
— Manu, para! Eu vou cair! — ela choramingava, mas o medo de cair a fez abraçar o pescoço dele com força.
Ele arrancou. O véu de Eduarda voava ao vento como uma bandeira de rendição. As pessoas nas calçadas paravam para filmar a cena digna de um filme de ação caótico. Eduarda estava perplexa, o coração batendo na garganta. Ela queria gritar, queria protestar, mas havia algo na firmeza dos braços dele que a fazia se sentir, depois de quatro meses, finalmente em casa.
Ele não a levou para a cobertura. Ele dirigiu até um de seus estúdios privados, que estava fechado naquele dia. Ele estacionou a moto dentro da garagem, fechou o portão de ferro com um estrondo e desceu, tirando o capacete e jogando-o no chão.
Ele a pegou no colo de novo, descendo-a da moto com cuidado, mas sem soltá-la. Ele a prensou contra a parede de tijolos aparentes do estúdio, as mãos grandes segurando o rosto dela.
— Quem é ele? — Emanuel perguntou, a respiração ofegante, o rosto a centímetros do dela. — Quem é o desgraçado que você ia aceitar como marido?
Eduarda olhou para ele. Viu o desespero nos olhos dele, o suor na testa, a vulnerabilidade que ele tentava esconder com agressividade. E, de repente, o absurdo da situação a atingiu. Ela começou a rir. Uma risada nervosa, cristalina e tipicamente manhosa.
— Do que você está rindo? — ele perguntou, confuso e irritado. — Eu acabei de te sequestrar do seu próprio casamento e você está rindo?
— Manu... — ela disse, tentando recuperar o fôlego, as mãos pequenas espalmadas no peito dele. — Você é um idiota. Um idiota possessivo e maluco.
— Eduarda, fala logo! — ele exigiu, embora a risada dela estivesse começando a desarmá-lo.
— Eu não ia casar com ninguém, seu bobo — disse ela, fazendo um biquinho e ajeitando o véu que estava torto. — A Beatriz, minha prima, ficou doente. Eu só estava provando o vestido para ela porque temos o mesmo corpo. Minha tia postou a foto por empolgação.
Emanuel paralisou. O silêncio que se seguiu no estúdio foi interrompido apenas pelo som da respiração dos dois. Ele processou a informação lentamente. O "grande dia" não era dela. O vestido não era dela.
— Você... você não ia casar? — ele perguntou, a voz falhando.
— Claro que não! — ela deu um tapinha no ombro dele, voltando ao seu tom manhoso. — Quem casaria em quatro meses depois de terminar um namoro como o nosso? Eu ainda choro todas as noites, sabia? E você estraga tudo vindo aqui, me jogando no ombro como se eu fosse um saco de batatas... Olha o meu véu, Manu! Está todo amarrotado!
Emanuel sentiu uma onda de alívio tão forte que suas pernas quase fraquejaram. Ele encostou a testa no ombro dela, rindo baixo de sua própria estupidez.
— Meu Deus, Duda... eu quase tive um infarto. Eu vi aquela foto e o mundo escureceu. Eu só conseguia pensar que eu tinha te perdido para sempre.
— Você quase me matou de susto! — ela reclamou, embora já estivesse se aninhando no abraço dele. — E agora? Como eu volto para o ateliê vestida assim? Todo mundo viu você me levando! Minha tia deve estar chamando o exército!
Emanuel a apertou mais forte, inalando o cheiro de baunilha que ele tanto sentira falta.
— Deixa que eles chamem. Eu não ligo. Eu não vou te soltar agora que te recuperei.
Enquanto isso, na cobertura, Sara andava de um lado para o outro. Ela tinha visto os vídeos que começaram a circular na internet: "Tatuador famoso sequestra noiva no centro de SP". Ela estava em pânico, mas, ao mesmo tempo, sentia um alívio secreto. Se Emanuel tinha feito aquilo, era porque a "pequena" ainda era o eixo do mundo dele, e Sara, em sua sabedoria prática, sabia que uma casa sem Eduarda era uma casa onde Emanuel nunca seria feliz por completo.
O celular de Sara tocou. Era Emanuel.
— Ela não ia casar, Sara — disse ele, a voz agora calma, quase triunfante. — Foi uma confusão com a prima dela.
Sara soltou um suspiro longo, sentindo o peso sair de seus ombros.
— Eu sabia que aquela garota não tinha coragem de subir num altar sem você, Emanuel. — Ela deu uma risada curta, recuperando sua postura vulgar e confiante. — Agora trate de trazer ela para cá. E diga para ela que, se ela amarrotou o vestido da prima, eu conheço uma lavanderia que faz milagres. Mas avise: se ela fugir de novo, eu mesma vou atrás dela com um chicote.
Emanuel desligou o telefone e olhou para Eduarda. Ela estava sentada em um dos bancos de couro do estúdio, tentando organizar as camadas de seda do vestido de noiva, parecendo uma pequena boneca perdida em um mar de branco.
— O que a Sara disse? — perguntou Eduarda, tímida.
— Disse que você tem que vir para casa. Comigo. — Emanuel se ajoelhou diante dela, segurando suas mãos. — Duda, eu sei que eu fui um bruto. Eu sei que eu tentei te controlar. Mas esses quatro meses foram um inferno. Eu não quero mais esperar dois anos. Eu não quero esperar nem mais um dia.
Eduarda olhou para ele, os olhos brilhando com uma mistura de amor e hesitação.
— Manu, eu ainda tenho medo... a Sara é tão forte, e você é tão mandão...
— Eu vou mudar, pequena. Eu prometo que vou tentar ser mais paciente. E a Sara... bem, a Sara sentiu sua falta também, embora ela nunca admita. — Ele beijou as mãos dela. — Fica comigo. No seu tempo, do seu jeito, mas dentro da minha vida. Eu te dou o ateliê, te dou o silêncio que você precisar, mas não me faz ver outra foto sua de branco sem que seja para mim.
Eduarda fez um biquinho, pensando por alguns segundos, antes de se inclinar e beijar a testa dele.
— Tudo bem. Mas você vai ter que explicar para a minha tia que eu não sou uma noiva fugitiva. E vai ter que me levar para comer um doce bem grande, porque eu estou morrendo de fome depois desse sequestro.
Emanuel riu, sentindo que o peso do mundo finalmente tinha sido erguido de seus ombros.
— Eu te levo onde você quiser, Duda.
Ele a pegou no colo novamente, desta vez com uma ternura infinita, cuidando para não tropeçar no longo véu. O império de Emanuel estava, de fato, completo novamente. O controle tinha falhado, a força bruta tinha causado um escândalo, mas o amor — aquele sentimento caótico que unia o tatuador rígido, a loira implacável e a menina de porcelana — tinha encontrado o seu caminho de volta.
Ao saírem do estúdio, o sol da tarde banhava a cidade. Emanuel colocou Eduarda no carro que ele pedira para um de seus funcionários trazer, deixando a moto para trás. Enquanto dirigiam em direção à cobertura, Eduarda encostou a cabeça no ombro dele, ainda vestida de noiva, observando as luzes de São Paulo começarem a acender.
Ela sabia que a convivência com Sara ainda seria um desafio, que Emanuel ainda teria seus momentos de rigidez e que ela ainda teria suas crises de timidez. Mas, naquele momento, envolta em seda e nos braços do homem que atravessaria a cidade por ela, Eduarda percebeu que, às vezes, é preciso um pouco de loucura para que a paz finalmente se instale.
— Manu? — ela chamou, baixinho.
— Oi, pequena.
— Da próxima vez que eu vestir branco... eu quero que você esteja me esperando no altar. Sem moto e sem sequestro, tá?
Emanuel sorriu, apertando a mão dela.
— Eu estarei lá, Duda. Eu prometo.
A cobertura nunca pareceu tão iluminada quanto naquela noite, quando a noiva de porcelana finalmente cruzou a soleira da porta, não por obrigação, mas porque descobriu que, no final das contas, o seu lugar era exatamente onde o caos e a proteção se encontravam.