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Sombras do Passado e o Gosto Amargo do Ciúme
O silêncio na cobertura de Emanuel era, agora, um silêncio preenchido. As semanas que se seguiram ao "sequestro" no ateliê foram marcadas por um ajuste delicado de engrenagens. Eduarda havia se mudado definitivamente, trazendo consigo suas telas, seus pincéis e aquela aura de suavidade que parecia absorver as arestas cortantes da personalidade de Emanuel e Sara.
Sara, surpreendentemente, havia se tornado uma espécie de mentora impaciente para Eduarda. Ela ensinava a menina a se posicionar diante dos funcionários da casa e a não baixar a cabeça quando Emanuel tentava ser controlador demais. Emanuel, por sua vez, parecia flutuar em um estado de satisfação perigosa. Ele tinha suas duas mulheres sob o mesmo teto, seu império crescia e o caos parecia, finalmente, domesticado.
No entanto, Emanuel ainda era Emanuel. A possessividade era o alicerce de sua estrutura emocional, e a segurança que ele sentia era um vidro fino, pronto para estraçalhar ao primeiro sinal de ameaça.
— Você está muito quieta hoje, pequena — comentou Emanuel, enquanto terminava de se vestir para o jantar na casa dos pais de Eduarda. — Aconteceu alguma coisa na faculdade?
Eduarda estava sentada na beirada da cama, calçando uma sapatilha delicada. Ela olhou para ele e sorriu, aquele sorriso manhoso que sempre fazia o peito dele apertar.
— Nada, Manu. Só estou animada. Minha mãe disse que o jantar hoje é especial. Ela fez aquela lasanha que eu amo.
— E eu espero que ela tenha feito o meu vinho favorito também — disse Sara, entrando no quarto enquanto fechava o zíper de um vestido de couro vermelho que deixava pouco para a imaginação. — Se eu vou passar a noite ouvindo histórias da infância da Duda, eu preciso de álcool de boa qualidade.
Emanuel riu, dando um beijo rápido no pescoço de Sara e outro na testa de Eduarda.
— Vamos. Não quero chegar atrasado.
O trajeto até a casa dos pais de Eduarda foi tranquilo, mas Emanuel sentia uma leve inquietação. Ele gostava dos sogros; eles eram modernos, boêmios e tratavam a dinâmica do trio com uma naturalidade que às vezes o deixava desconcertado. Mas ele também sabia que, naquela casa, Eduarda era a "menininha", e ele detestava qualquer lembrete de que ela tivera uma vida antes dele.
Ao chegarem, foram recebidos com a efusividade de sempre. A mesa estava farta, a música ambiente era um jazz suave e o clima era de total descontração. Sara e a mãe de Eduarda logo engajaram em uma conversa sobre tendências de moda e administração de eventos, enquanto Emanuel se sentava ao lado de Eduarda, mantendo uma mão possessiva sobre a coxa dela.
— Então, Duda — disse o pai de Eduarda, servindo o vinho —, você não vai acreditar quem voltou para o bairro na semana passada.
Eduarda levantou os olhos do prato, curiosa.
— Quem, pai?
— Os Martins. Lembra deles? Moraram na casa ao lado por quase dez anos antes de se mudarem para o Canadá.
Eduarda paralisou com o garfo no meio do caminho. Seus olhos brilharam de uma forma que Emanuel não gostou nem um pouco.
— Os Martins voltaram? Sério? A Dona Lúcia e o Seu Ricardo?
— Eles mesmos — confirmou a mãe de Eduarda, rindo. — E trouxeram o filho, claro. O Lucas está enorme. Formou-se em arquitetura lá fora e veio abrir um escritório aqui.
Emanuel sentiu um nó se formar em seu estômago. Ele apertou levemente a coxa de Eduarda, uma reação instintiva.
— Quem é Lucas? — perguntou Emanuel, a voz um tom mais grave, embora tentasse manter a casualidade.
A irmã mais nova de Eduarda, que até então estava em silêncio, deu uma risadinha maliciosa.
— Ah, o Lucas? O Lucas é só o garoto por quem a Duda foi perdidamente apaixonada a infância e a adolescência inteira.
O silêncio que se seguiu à mesa foi, para Emanuel, ensurdecedor. Ele sentiu o sangue subir para o rosto. Sara, percebendo a mudança drástica na energia do namorado, arqueou uma sobrancelha e tomou um gole generoso de vinho, observando a cena com um interesse predatório.
— Apaixonada, é? — Sara provocou, com um sorriso de canto. — Conte-nos mais, cunhadinha. Eu adoro histórias de amores platônicos.
— Não foi nada demais! — Eduarda protestou, ficando instantaneamente vermelha. — Eu era criança, tinha o quê? Doze, treze anos?
— Treze nada, Eduarda! — a irmã continuou, ignorando o olhar suplicante da outra. — Você tinha dezessete quando eles se mudaram, e eu lembro muito bem de você chorando no portão porque o seu "príncipe" estava indo embora. Você escrevia o nome dele nos cadernos com coraçõezinhos.
Emanuel soltou um riso seco, desprovido de qualquer humor. Ele soltou a perna de Eduarda e pegou sua taça de vinho, bebendo tudo de uma vez.
— Um arquiteto, então? — disse Emanuel, olhando fixamente para Eduarda. — Interessante. E ele voltou agora, justamente quando você está morando comigo.
— Manu, por favor, não começa — Eduarda sussurrou, aproximando-se dele, tentando recuperar a proximidade física. — Isso faz séculos. Eu nem lembro mais como ele é.
— Ah, mas ele lembra de você! — o pai de Eduarda interveio, sem perceber o campo minado que estava ajudando a construir. — Ele perguntou de você hoje de manhã, quando me viu no jardim. Disse que queria passar aqui para dar um "oi" e ver como a "pequena Duda" tinha crescido.
— Pequena Duda — Emanuel repetiu as palavras como se fossem veneno. — Ele te chama de pequena também?
— Era um apelido de infância, Emanuel! — Eduarda disse, começando a ficar nervosa. — Todo mundo no bairro me chamava assim.
— Mas ele não é "todo mundo", não é? — Emanuel se levantou da mesa, a cadeira arrastando no chão com um ruído estridente. — Ele é o cara cujos coraçõezinhos você desenhava no caderno. O cara por quem você chorou no portão.
— Emanuel, senta e come a sua lasanha — Sara ordenou, embora seus olhos brilhassem com a diversão do conflito. — Você está sendo ridículo. É um vizinho de infância, não um ex-noivo.
— Para mim é a mesma coisa — Emanuel retrucou, olhando para os sogros, que agora pareciam um pouco desconfortáveis com a intensidade dele. — Com licença, vou tomar um ar lá fora.
Ele saiu para a varanda, o peito arfando. A possessividade de Emanuel não era apenas sobre o presente; ele queria ser o dono do passado dela também. A ideia de que Eduarda pudesse ter olhado para outro homem com o mesmo brilho de adoração que reservava para ele o consumia por dentro.
Eduarda apareceu na varanda instantes depois. Ela se aproximou dele com cautela, como se estivesse diante de um animal ferido.
— Manu... por favor. Não estraga o jantar. Meus pais não entendem esse seu jeito.
— O que eles não entendem, Eduarda? Que eu não gosto de saber que você era "perdidamente apaixonada" pelo vizinho? — Ele se virou para ela, os olhos sombrios. — Quantas vezes você pensou nele enquanto estava comigo?
— Nunca! Emanuel, eu nem lembrava que o Lucas existia até meu pai falar o nome dele! — Ela segurou as mãos dele, forçando-o a olhar para ela. — Eu amo você. Você é o meu homem. O Lucas é... é uma lembrança de quando eu usava aparelho e tranças.
— Ele perguntou por você — Emanuel disse, a voz mais baixa, mas ainda carregada de tensão. — Ele quer te ver.
— E eu não quero ver ele! Se isso te faz sentir melhor, eu nem saio de casa enquanto ele estiver por perto.
— Você não vai se esconder como se tivesse culpa de algo — Emanuel rosnou, a contradição de seu ciúme vindo à tona. — Você vai agir normalmente. Mas eu quero que fique bem claro para esse arquiteto quem é que cuida de você agora.
Eles voltaram para a mesa, mas o clima havia mudado. Emanuel estava em alerta máximo. Sara, por outro lado, parecia estar se divertindo às custas da situação. Ela cutucava Eduarda com perguntas sobre o tal Lucas, apenas para ver Emanuel apertar o talher com força.
— E ele é bonito, Duda? — Sara perguntou, limpando o canto da boca com o guardanapo. — Sabe como é, arquitetos costumam ter bom gosto.
— Sara, chega — Emanuel avisou, o tom de voz perigoso.
— O quê? Só estou curiosa. Se ele for bonito, talvez possamos convidá-lo para um café na cobertura. Seria civilizado, não acha?
Emanuel não respondeu. Ele sabia que Sara estava testando seus limites, como sempre fazia.
O jantar terminou de forma tensa. Na hora de ir embora, enquanto se despediam no portão, a luz da casa ao lado se acendeu. Um homem alto, de ombros largos e cabelos castanhos claros, saiu para a varanda vizinha. Ele segurava um copo de água e olhou em direção ao grupo.
— Seu Ricardo? — o homem chamou, com uma voz profunda e amigável.
— Lucas! — o pai de Eduarda respondeu, acenando. — Olha só quem está aqui. A Duda e o namorado dela... os namorados, quero dizer.
Emanuel sentiu o sangue ferver. Ele deu um passo à frente, colocando o braço em volta dos ombros de Eduarda e puxando-a para perto de seu corpo de forma quase agressiva. Sara, percebendo o movimento, posicionou-se do outro lado de Emanuel, completando a barreira humana em torno da menina.
Lucas desceu os degraus da varanda dele e se aproximou da cerca baixa que dividia as propriedades. Ele sorriu, um sorriso aberto e genuíno que Emanuel imediatamente odiou.
— Duda? — Lucas disse, os olhos brilhando de surpresa. — Nossa... você mudou muito. Quer dizer, continua com a mesma carinha, mas... uau.
— Oi, Lucas — Eduarda respondeu, a voz pequena e contida. — Bem-vindo de volta.
— Obrigado. — Lucas então desviou o olhar para Emanuel. Ele estendeu a mão por cima da cerca. — Prazer, eu sou o Lucas. Vizinho de longa data dessa moça.
Emanuel olhou para a mão estendida como se fosse um insulto. Ele demorou alguns segundos antes de apertá-la, aplicando uma força desnecessária.
— Emanuel — disse ele, a voz curta e seca. — E esta é a Sara.
— Prazer, Lucas — Sara disse, lançando um olhar apreciativo para o arquiteto, o que só serviu para irritar Emanuel ainda mais. — Ouvimos muito sobre você no jantar. Especialmente sobre os cadernos da Duda.
Lucas riu, um som rico que pareceu ecoar na rua silenciosa.
— Ah, é? Espero que ela tenha escrito coisas boas. Nós éramos inseparáveis quando crianças.
— As coisas mudam — Emanuel cortou, sua paciência se esgotando. — Temos que ir. O dia amanhã começa cedo e a Duda precisa descansar.
— Claro, claro — Lucas disse, recuando um pouco, mas sem perder o sorriso. — Foi um prazer conhecer vocês. Duda, a gente se vê por aí? Quero colocar o papo em dia.
Eduarda não teve tempo de responder. Emanuel já a estava conduzindo para o carro. Sara foi logo atrás, rindo baixinho.
O caminho de volta para a cobertura foi um campo de batalha silencioso. Emanuel dirigia com as mãos firmes no volante, os olhos fixos na estrada. Eduarda estava encolhida no banco do passageiro, sentindo-se culpada por algo que não tinha controle.
Ao entrarem no apartamento, Emanuel foi direto para o bar e serviu-se de um uísque puro.
— Emanuel, para com isso — Eduarda pediu, aproximando-se dele. — Você está agindo como se eu tivesse me encontrado com ele às escondidas.
— Ele olhou para você como se você ainda pertencesse a ele — Emanuel disse, virando o copo. — "Pequena Duda". "A gente se vê por aí". Ele acha que ainda tem algum espaço na sua vida.
— Ele é apenas um vizinho, Manu! — Eduarda exclamou, as lágrimas começando a se formar. — Por que você sempre tem que transformar tudo em uma disputa? Eu moro com você! Eu durmo com você todos os dias! O que mais você quer?
— Eu quero que o passado morra, Eduarda! — ele gritou, batendo o copo na bancada. — Eu quero ser o único nome que você já escreveu em um caderno!
Sara entrou na sala, jogando a bolsa no sofá. Ela observou a discussão com uma expressão de tédio misturada com diversão.
— Vocês dois são exaustivos — disse ela, caminhando até o bar e roubando um gole do uísque de Emanuel. — Emanuel, você está com medo de um arquiteto de classe média que usa camisas de linho? Onde está o grande tatuador implacável?
— Não é medo, Sara. É desrespeito — Emanuel retrucou.
— Desrespeito é você tratar a Duda como se ela fosse uma posse que pode ser roubada por qualquer um que sorria para ela — Sara disse, a voz ficando mais séria. — Se você não confia no que construiu com ela, então talvez o problema não seja o Lucas. Talvez o problema seja você.
Emanuel olhou para Sara, a raiva sendo substituída por uma percepção incômoda. Ele olhou para Eduarda, que agora chorava silenciosamente no sofá. A possessividade dele, que ele via como proteção, estava, na verdade, sufocando a única coisa que ele queria preservar.
Ele caminhou até o sofá e se sentou ao lado de Eduarda. Ele a puxou para o seu colo, ignorando a resistência inicial dela. Emanuel enterrou o rosto no pescoço dela, sentindo o cheiro de baunilha que o acalmava.
— Me perdoa, pequena — ele sussurrou, a voz carregada de uma exaustão emocional. — Eu sou um idiota. Eu só... eu não suporto a ideia de que alguém tenha tido o seu coração antes de mim.
Eduarda soluçou, abraçando o pescoço dele.
— Ninguém teve o meu coração do jeito que você tem, Manu. Aquilo era coisa de criança. Você é o meu homem. O único.
Sara sentou-se na poltrona à frente deles, cruzando as pernas e observando o casal.
— Ótimo. Agora que a sessão de terapia acabou, podemos focar no que importa? — Ela deu um sorriso malicioso. — O tal Lucas é bonito, mas ele não tem as suas tatuagens, Emanuel. E ele certamente não saberia lidar com nós duas ao mesmo tempo.
Emanuel sorriu de lado, o ciúme começando a dar lugar a uma confiança renovada, embora ainda frágil.
— Você tem razão, Sara. Ele não saberia.
— Então — Sara continuou, levantando-se e caminhando em direção ao quarto —, eu sugiro que a gente mostre para a Duda exatamente por que ela escolheu ficar com o "vilão" em vez do "príncipe" da vizinhança.
Emanuel olhou para Eduarda, que corou profundamente, mas não desviou o olhar. O poder que ele exercia sobre ela era absoluto, mas ele sabia que precisava cuidar desse poder com mais delicadeza.
Naquela noite, na penumbra da cobertura luxuosa, o fantasma de Lucas Martins foi devidamente exorcizado. Entre carícias, sussurros e a presença avassaladora de Sara e Emanuel, Eduarda reafirmou sua escolha.
No entanto, Emanuel, enquanto observava Eduarda dormir horas depois, ainda sentia uma pontada de inquietação. O passado podia estar morto, mas ele sabia que, no mundo real, vizinhos de infância tinham o hábito de reaparecer nos momentos mais inesperados. E ele estaria pronto. Porque Emanuel não dividia o que era seu com o passado, e muito menos com o futuro.
A "pequena Duda" agora era dele. E ele garantiria que o nome de Lucas Martins nunca mais fosse escrito em caderno nenhum, a menos que fosse para ser riscado para sempre.