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Entre o Mármore e a Tinta

A luz da manhã entrava pelas enormes janelas de vidro da cobertura, refletindo-se nas superfícies imaculadas de mármore e aço escovado. Emanuel observava o horizonte da cidade, mas seus pensamentos estavam longe dos lucros de seus estúdios ou das novas convenções de tatuagem na Europa. Ele estava focado na resistência silenciosa e delicada de Eduarda.

Havia passado uma semana desde o jantar na casa de sua mãe, e o que Emanuel imaginou ser uma transição suave — a mudança de Eduarda para o seu domínio — transformara-se em um campo de batalha diplomático e emocional.

Sara entrou na sala, usando um conjunto de seda preta que realçava suas curvas e a palidez de sua pele. Ela segurava um iPad, revisando a agenda de Emanuel, mas seus olhos azuis e afiados notaram imediatamente a tensão nos ombros dele.

— Você está com aquela cara de quem quer socar uma parede, querido — comentou Sara, sua voz carregada de um sarcasmo leve, quase carinhoso. Ela se aproximou e parou ao lado dele. — Deixe-me adivinhar: a pequena Duda disse "não" de novo?

Emanuel soltou um suspiro pesado, o som de alguém que estava perdendo a paciência com uma situação que a lógica não conseguia resolver.

— Eu ofereci tudo, Sara. Segurança, conforto, os melhores materiais de arte, motorista particular. Mas ela insiste que é "cedo demais". E os irmãos dela... aqueles três parecem cães de guarda em volta de um osso de ouro.

Sara riu, um som seco e divertido.

— Você esquece que ela não é como eu, Emanuel. Eu vejo o que quero e tomo para mim. Eduarda é... — ela buscou a palavra certa, fazendo um gesto vago com a mão bem cuidada — ...tradicional. Ela foi criada em uma estufa. Você não pode simplesmente arrancá-la de lá e esperar que ela não murche. E, honestamente? O fato de ela resistir só prova que ela tem aquele valor que você tanto admira.

— Eu a quero aqui — insistiu Emanuel, virando-se para Sara. — Quero acordar e saber que ela está protegida sob o meu teto. A ideia de ela estar naquela casa, com aqueles irmãos vigiando cada passo dela, me irrita profundamente.

— Então mude de tática — sugeriu Sara, encostando-se na mesa de centro. — Pare de agir como um CEO comprando uma empresa e comece a agir como o homem por quem ela é apaixonada desde os quinze anos. Vá até lá. Lide com a família. Se você quer a joia, terá que lidar com os guardiões do cofre.

Emanuel assentiu rigidamente. Ele odiava concessões, mas por Eduarda, ele estava disposto a enfrentar o território inimigo.

Enquanto isso, na casa dos Oliveira, o clima era de proteção absoluta. Eduarda estava sentada na mesa da cozinha, as mãos pequenas circulando uma caneca de chá, enquanto seus dois irmãos mais velhos, Rodrigo e Marcos, discutiam o "incidente" do jantar.

— Ele é um tatuador rico, Duda. Tudo bem, a gente sabe que ele é bem-sucedido — dizia Rodrigo, cruzando os braços musculosos —, mas o jeito que ele olha para você... parece que está marcando território. E aquela namorada dele? Ela é... intensa demais.

— Ele me ama, Rodrigo — sussurrou Eduarda, as bochechas corando. — Ele sempre foi meu sonho, você sabe disso.

— Uma coisa é namorar, outra coisa é ele querer que você se mude para aquela fortaleza em menos de um mês — interveio Marcos, o mais pragmático dos irmãos. — Você tem vinte anos. Tem sua faculdade, sua vida aqui. Nossos pais são modernos, eles aceitam que você namore quem quiser, mas eles não vão deixar você ser trancada em uma gaiola de ouro.

Eduarda sentia o conflito rasgar seu peito. Ela amava a proteção de Emanuel; a forma como ele a olhava a fazia se sentir a única mulher no mundo, uma sensação de importância que ela nunca tivera. Mas o medo daquela vida dupla — Emanuel e Sara — a assustava. Ela não entendia como Sara podia ser tão receptiva, tão... presente.

O som da campainha ecoou pela casa, interrompendo a conversa. Momentos depois, a mãe de Eduarda, Helena, entrou na cozinha com uma expressão de surpresa e admiração.

— Eduarda, querida... Emanuel está lá fora. Ele trouxe flores e... bem, ele quer conversar com todos nós.

Os irmãos se empertigaram imediatamente. Eduarda sentiu o coração disparar. Ela se levantou, ajeitando o vestido leve de algodão, sentindo-se pequena diante da tempestade que estava prestes a entrar em sua sala de estar.

Emanuel entrou na casa com a confiança de um rei. Ele não usava terno, mas suas roupas escuras e de corte impecável, somadas à sua postura ereta, emanavam autoridade. Ele cumprimentou os pais de Eduarda com respeito, mas seus olhos buscaram a garota morena no canto da sala quase que instantaneamente.

— Boa tarde a todos — disse ele, sua voz grave preenchendo o ambiente. — Peço desculpas pela visita sem aviso prévio, mas acredito que temos assuntos pendentes.

— Sentar-se, Emanuel? — convidou o pai de Eduarda, um homem de mente aberta, mas que valorizava a felicidade da filha acima de tudo.

— Prefiro ser direto — Emanuel declarou, permanecendo de pé. — Eu amo a Eduarda. Minhas intenções com ela são as mais sérias possíveis. Quero que ela faça parte da minha vida, de forma integral.

— Integral como? — Rodrigo perguntou, o tom desafiador. — Do jeito que você tentou fazer semana passada? Levando ela para morar com você e sua namorada?

Emanuel não desviou o olhar. Ele lidava com crises internacionais em seus estúdios; dois irmãos protetores não iriam intimidá-lo.

— Eduarda é especial. Ela precisa de um ambiente que estimule o talento dela, que a proteja das pressões do mundo. Eu posso dar isso a ela.

— Emanuel... — Eduarda deu um passo à frente, sua voz manhosa e trêmula atraindo a atenção dele como um ímã. — Eu quero ficar com você. Eu amo estar com você. Mas eu não posso simplesmente sair de casa assim. Eu gosto da minha rotina aqui... eu gosto de como as coisas são simples.

Emanuel sentiu uma pontada de irritação. Para ele, a lógica era clara: se eles se amavam, ela deveria estar ao lado dele. Por que ela preferia aquele ambiente barulhento e comum à paz e ao luxo que ele oferecia?

— Você quer ficar aqui? — perguntou ele, a voz baixando um tom, tornando-se mais íntima, ignorando os outros na sala. — Mesmo sabendo que eu posso te dar tudo o que você sonhar?

— Eu só quero tempo — ela pediu, aproximando-se dele e segurando a ponta da manga da camisa dele, um gesto de carinho e dependência que desarmou parte da rigidez de Emanuel. — Por favor, não fique bravo. Vamos namorar... como pessoas normais. Você vem me ver, a gente sai...

Emanuel olhou para as mãos dela. Eram tão pequenas e delicadas comparadas às dele, marcadas por anos de trabalho com agulhas e máquinas. A fragilidade de Eduarda era o que o atraía, mas era também o que o frustrava.

— Eu não sou um homem de "coisas normais", Eduarda — ele disse, embora sua mão tenha subido para acariciar o rosto dela, o polegar traçando o contorno de seu lábio inferior. — Mas se é isso que você precisa para se sentir segura, eu vou aceitar. Por enquanto.

Os irmãos relaxaram visivelmente, mas a tensão no ar não desapareceu. Eles sabiam que Emanuel não era homem de desistir.

— Mas há uma condição — Emanuel continuou, voltando-se para os pais dela. — Quero que ela passe os fins de semana comigo. Em minha casa. Ela terá o próprio espaço, o próprio quarto. Sara estará lá para garantir que ela se sinta bem-vinda.

Eduarda olhou para os pais, que trocaram um olhar cúmplice. Eles confiavam em Emanuel como empresário e como filho de uma amiga querida, mas a dinâmica com Sara ainda era um ponto de interrogação. No entanto, vendo o brilho nos olhos da filha, o pai assentiu.

— Os fins de semana parecem um acordo justo — disse o pai. — Mas nada de pressões, Emanuel. Eduarda decide o ritmo.

Emanuel apertou a mandíbula, mas concordou com um aceno de cabeça. Ele se despediu da família, mas antes de sair, puxou Eduarda para o vestíbulo, longe dos olhares vigilantes.

— Você está me testando, não está? — ele murmurou, pressionando-a levemente contra a parede.

— Não... eu só tenho medo de me perder — confessou ela, olhando nos olhos dele. — Você é muito forte, Emanuel. E a Sara... ela é incrível. Eu sinto que se eu for agora, vou sumir no meio de vocês dois.

Emanuel sentiu um aperto no peito. Ele não queria que ela sumisse; ele queria que ela fosse o centro.

— Você nunca vai sumir — ele prometeu, inclinando-se para beijar a testa dela. — Você é a minha doçura, Eduarda. Mas entenda uma coisa: eu tenho pouca paciência. Não me faça esperar demais por você.

Ele saiu, deixando Eduarda com o coração acelerado e uma sensação de que havia apenas adiado o inevitável.

Ao chegar em casa, Emanuel encontrou Sara na varanda, bebendo um martini e observando as luzes da cidade. Ela não precisou perguntar como tinha sido; o modo como ele jogou as chaves na mesa dizia tudo.

— Ela ficou, não foi? — Sara perguntou, sem se virar.

— Por enquanto — respondeu ele, servindo-se de um uísque puro. — Ela quer "tempo". Quer que eu a corteje como se eu fosse um garoto de faculdade.

Sara virou-se, um sorriso malicioso brincando em seus lábios perfeitamente pintados.

— E você vai fazer exatamente isso. Sabe por quê? Porque o que é difícil de conquistar é o que você mais valoriza. E quando ela finalmente se mudar para cá, ela não virá porque você a forçou, mas porque ela não conseguirá mais respirar sem nós.

Emanuel olhou para Sara. Ela era sua parceira de crime, sua administradora, a mulher que entendia sua escuridão. Ela não sentia ciúmes de Eduarda porque sabia que seu lugar era absoluto. Ela queria Eduarda ali para completar o ecossistema deles.

— Você já preparou o quarto dela? — ele perguntou, mudando de assunto.

— Está impecável — disse Sara, aproximando-se e ajeitando a gola da camisa dele. — Tons de lavanda e creme, como ela gosta. Comprei cavaletes novos e tintas que vêm de Paris. Quando ela vir o que preparamos, aquela casa dos pais dela vai parecer um cubículo.

— Eu não gosto de ser contrariado, Sara.

— Eu sei, meu amor. Mas pense na recompensa. Eduarda é como uma obra de arte que está sendo restaurada. Não se pode apressar as pinceladas finais.

Emanuel tomou um gole longo de seu uísque. Ele imaginou Eduarda em sua casa, a presença suave dela contrastando com a vulgaridade vibrante de Sara e com sua própria rigidez. Ele queria as duas. A força e a inteligência de Sara para dominar o mundo ao seu lado, e a doçura e vulnerabilidade de Eduarda para dar sentido ao seu cansaço.

— Vou buscá-la na sexta-feira — declarou Emanuel. — E não aceitarei desculpas.

— Ótimo — disse Sara, passando os braços pelo pescoço dele. — E eu vou preparar um jantar de boas-vindas. Só nós três. Sem irmãos, sem pais, sem interferências. Ela vai entender, finalmente, que o lugar dela é aqui, entre a minha proteção e o seu amor.

No dia seguinte, Eduarda estava na faculdade, mas sua mente não estava na História da Arte. Ela sentia o peso da promessa de sexta-feira. Seus irmãos ainda faziam piadas sobre "o mestre das tatuagens", tentando aliviar o clima, mas ela via a preocupação nos olhos deles.

Ela pegou o celular e viu uma mensagem de Emanuel. Não era um texto longo, apenas uma foto: uma janela grande com vista para um jardim de inverno que ele estava construindo dentro da cobertura, com a legenda: "Para você pintar em paz".

Lágrimas encheram os olhos de Eduarda. Ele era prático, direto e, às vezes, assustadoramente controlador, mas ele a conhecia. Ele sabia como chegar ao seu coração sensível.

Ela sabia que a batalha entre sua família e Emanuel estava apenas começando. Seus irmãos não desistiriam de protegê-la, e Emanuel não desistiria de possuí-la. E no meio de tudo isso, havia Sara — a mulher loira e poderosa que não a via como inimiga, mas como uma peça preciosa a ser integrada.

Eduarda suspirou, fechando o livro de arte. Ela sempre quis ser amada por Emanuel, mas nunca imaginou que o amor dele viria com tantas condições e tantas sombras. No entanto, quando pensava no toque dele, na segurança que sentia em seus braços, ela sabia que, mais cedo ou mais tarde, ela acabaria entrando naquele carro preto e não voltaria mais.

A fuga estava se tornando impossível, pois o caçador tinha as chaves de todos os seus desejos. E a rainha dele já havia aberto as portas do castelo.

— Sexta-feira — sussurrou ela para si mesma, entre o medo e a antecipação. — Sexta-feira tudo muda.