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O Eco do Silêncio nas Montanhas
Oito meses haviam se passado desde que Emanuel decidira que Eduarda seria sua. Oito meses de uma queda de braço silenciosa, onde a vontade férrea de um homem acostumado a dominar o mundo colidia contra a fragilidade inquebrável de uma menina que ainda buscava o próprio chão. Emanuel tinha tudo: os estúdios em Londres, Nova York e Tóquio estavam prosperando como nunca sob a gestão afiada de Sara; sua conta bancária crescia, e sua influência era inquestionável. No entanto, o seu maior desejo — ter Eduarda morando sob o seu teto, dormindo no quarto que ele e Sara decoraram com tanto zelo — permanecia uma promessa não cumprida.
Eduarda ainda morava com os pais e os irmãos. Ela ainda ia para a faculdade de História da Arte no carro que o pai dirigia ou no transporte público, recusando sistematicamente os motoristas que Emanuel enviava. Ela o amava — Deus, como ela o amava —, mas a ideia de ser absorvida por aquela vida dupla, de se tornar uma extensão do império dele e do carisma esmagador de Sara, ainda a apavorava.
Emanuel estava no limite. O estresse acumulado transparecia no modo como ele apertava o volante do carro enquanto dirigiam em direção à serra. Ele decidira que precisavam sair da cidade. O amigo de longa data e sócio, um magnata do mercado imobiliário, cedera sua casa de campo: uma construção isolada, cercada por florestas de pinheiros e uma neblina que parecia esconder o resto do mundo.
No banco do passageiro, Sara retocava o esmalte das unhas, alheia à tensão que emanava de Emanuel. Ela usava um conjunto de veludo justo e botas de salto fino, uma visão de luxo que parecia deslocada no cenário rural, mas que ela carregava com a confiança de quem era dona de qualquer lugar onde pisasse. No banco de trás, Eduarda olhava pela janela, as mãos pequenas entrelaçadas sobre o colo, vestindo um casaco de lã oversized que a fazia parecer ainda mais jovem e delicada.
— Você está dirigindo como se estivesse indo para uma guerra, querido — comentou Sara, sem desviar os olhos das unhas. — Relaxe. A pequena Duda não vai fugir no meio da estrada.
Emanuel não respondeu de imediato. Ele olhou pelo retrovisor, capturando o olhar melancólico de Eduarda.
— Eu só quero chegar logo — disse ele, a voz rouca pelo cansaço. — Precisamos de paz. Longe dos seus irmãos, Eduarda. Longe da faculdade. Só nós.
Eduarda deu um sorriso triste, que mal chegou aos olhos castanhos.
— Eu gosto da minha vida, Emanuel. Você sabe disso. Não é uma guerra.
— Para mim parece uma — retrucou ele, sentindo a irritação borbulhar. — Oito meses, Eduarda. Oito meses esperando que você tome uma decisão que deveria ser óbvia.
— Não comece, Emanuel — interrompeu Sara, fechando o vidro de esmalte com um estalo seco. — Já conversamos sobre isso. Ela é lenta, você é rápido. O atrito é o que mantém o fogo aceso, não é?
O silêncio voltou a reinar até que os portões de ferro da propriedade se abriram. A casa era magnífica, feita de pedra e madeira escura, com janelas que iam do chão ao teto. Assim que desceram do carro, o ar frio da montanha atingiu Eduarda, que se encolheu dentro do casaco. Emanuel notou imediatamente e, em um gesto automático de proteção, envolveu os ombros dela com o braço, puxando-a para perto.
— Está frio — ele murmurou contra o cabelo dela. — Vamos entrar. Preparei tudo para que você não precise se preocupar com nada este fim de semana.
Lá dentro, a lareira já estava acesa por funcionários que haviam deixado tudo pronto antes da chegada deles. Sara jogou sua bolsa de grife sobre o sofá de couro e caminhou direto para o bar, servindo-se de uma dose generosa de gim.
— Finalmente — suspirou ela, olhando para Eduarda com uma simpatia quase predatória. — Venha aqui, pequena. Você parece um passarinho prestes a cair do ninho. Beba algo para esquentar esse sangue.
— Eu prefiro um chá, Sara — respondeu Eduarda, com sua voz manhosa, buscando refúgio no peito de Emanuel.
Emanuel a apertou mais forte. Ele amava esse contraste. Amava a forma como Sara era o seu braço direito, a mulher que não precisava de ordens para saber o que fazer, e como Eduarda era o seu porto seguro, a criatura que precisava ser guiada e protegida de tudo, inclusive dela mesma.
— Vou preparar para você — disse Emanuel, beijando o topo da cabeça de Eduarda. — Vá para o quarto, tire esse casaco pesado. Sara, ajude-a com as malas.
Sara arqueou uma sobrancelha perfeitamente desenhada.
— Eu não sou camareira, Emanuel. Mas vou ajudar a Duda porque sei que ela vai se perder naquela mala enorme que os irmãos dela provavelmente ajudaram a fazer.
As duas subiram as escadas de madeira. Emanuel ficou na sala, observando as chamas da lareira. Ele sentia que estava perdendo o controle da situação. Ele era um homem que resolvia problemas com lógica e dinheiro, mas Eduarda era uma variável emocional que ele não conseguia quantificar. Ele queria que ela aceitasse a vida que ele oferecia, mas a cada tentativa de pressão, ela se fechava um pouco mais, como uma flor sensível ao toque excessivo.
No andar de cima, no quarto principal, Sara observava Eduarda tirar algumas peças de roupa da mala. O quarto era luxuoso, com uma cama king-size coberta por mantas de pele sintética e uma vista deslumbrante para o vale.
— Você sabe que ele está perdendo a paciência, não sabe? — perguntou Sara, sentando-se na beira da cama e cruzando as pernas.
Eduarda parou o que estava fazendo, segurando um pijama de seda clara.
— Eu sei. Mas eu não posso simplesmente deixar de ser quem eu sou porque ele quer, Sara. Eu não sou como você. Eu não consigo entrar em uma sala e decidir que ela é minha. Eu preciso de tempo para sentir que pertenço a algum lugar.
Sara soltou uma risada curta, sem malícia.
— Querida, você já pertence. Desde o dia em que o Emanuel pôs os olhos em você naquele jantar, você deixou de pertencer a qualquer outra pessoa. O que você está fazendo agora é apenas uma birra de criança que não quer admitir que já perdeu o jogo.
Eduarda sentiu os olhos marejarem, sua sensibilidade sempre à flor da pele.
— Não é um jogo para mim. Eu amo o Emanuel. Eu amo o jeito que ele cuida de mim, até o jeito que ele fica bravo quando eu demoro a responder as mensagens dele. Mas eu tenho medo... tenho medo de que, se eu for morar com vocês, eu vire apenas um detalhe na vida de vocês. Você é a rainha, Sara. Você manda em tudo. O que eu seria?
Sara levantou-se e caminhou até Eduarda, segurando seu queixo com firmeza, mas sem machucar. O silicone em seus seios e a maquiagem impecável gritavam uma vulgaridade cara, mas seus olhos revelavam uma inteligência social profunda.
— Você seria o coração, sua boba. Eu cuido do que é externo, da estrutura, do poder. Você cuida do que ele sente quando as luzes se apagam. Emanuel é um homem tenso, Eduarda. Ele carrega o mundo nas costas. Eu dou a ele o apoio que ele precisa para lutar, mas você... você dá a ele o motivo para voltar para casa.
Eduarda desviou o olhar, sentindo o peso daquelas palavras.
— Por que você me quer lá? — sussurrou a menina. — A maioria das mulheres odiaria a ideia de dividir o homem que ama.
— Porque eu conheço o Emanuel melhor do que ele mesmo — respondeu Sara, soltando o queixo dela e voltando para a porta. — E eu sei que ele não será completo enquanto não tiver nós duas. E se ele não estiver completo, ele fica insuportável. Então, por puro egoísmo e por amor a ele, eu quero você lá. Agora desça. O chá dele deve estar pronto e ele odeia esperar.
O jantar foi silencioso, interrompido apenas pelo estalar da lenha na lareira. Emanuel observava as duas mulheres à sua frente. Sara comia com elegância, discutindo entre uma garfada e outra os novos contratos de licenciamento para uma linha de tintas de tatuagem. Eduarda apenas brincava com a comida, parecendo perdida em pensamentos.
— O que foi, Eduarda? — perguntou Emanuel, deixando os talheres de lado. — A comida não está boa? Posso pedir para prepararem outra coisa.
— Está ótima, Emanuel — respondeu ela, timidamente. — Eu só estava pensando na faculdade. Tenho uma prova de Barroco na segunda-feira.
Emanuel sentiu a mandíbula travar.
— Você está em um lugar maravilhoso, comigo e com a Sara, e está preocupada com uma prova sobre igrejas antigas?
— É importante para mim — disse ela, com uma pontinha de firmeza que raramente mostrava. — É o meu futuro.
— O seu futuro sou eu que garanto — afirmou ele, a voz subindo de tom, a rigidez de seu temperamento controlador vindo à tona. — Você não entende? Você não precisa de uma carreira, Eduarda. Você precisa estar aqui. Comigo.
Eduarda abaixou a cabeça, o lábio inferior tremendo. O conflito direto sempre a fazia se fechar.
— Emanuel, pare — disse Sara, calmamente, bebendo seu vinho. — Você está sendo um ogro. Ela gosta de estudar. Deixe a menina ter os livrinhos dela.
— Não é sobre os livros, Sara! É sobre a resistência dela em aceitar que a vida dela mudou! — Emanuel levantou-se, a tensão acumulada de oito meses explodindo em um gesto brusco. — Eu faço tudo por ela. Eu espero, eu sou paciente, eu lido com aqueles irmãos imbecis que me olham como se eu fosse um criminoso. E o que eu recebo em troca? "Tenho uma prova na segunda-feira".
Eduarda levantou-se da mesa, as lágrimas agora correndo livremente pelo rosto suave.
— Você não entende nada — soluçou ela. — Você quer me comprar, Emanuel. Quer me colocar em uma estante como uma das suas estátuas. Mas eu sou uma pessoa. Eu tenho medo! Tenho medo de que, se eu aceitar tudo agora, eu nunca mais saiba quem eu sou sem você me dizendo o que fazer.
Ela saiu correndo da sala de jantar, o som de seus passos apressados ecoando na escadaria de madeira.
Emanuel fez menção de ir atrás dela, mas Sara segurou seu braço.
— Deixe-a. Se você for agora, só vai gritar mais e ela vai se trancar no banheiro. Você precisa aprender a lidar com ela, Emanuel. Ela não é um dos seus gerentes que se curva quando você fala grosso.
Emanuel afundou-se na cadeira, passando as mãos pelo rosto, o olhar cansado e observador agora fixo no vazio.
— Eu a amo tanto que sinto que vou sufocar, Sara. Eu só quero ela perto de mim. É tão difícil entender isso?
— Não é difícil entender, é difícil de aceitar para alguém como ela — explicou Sara, aproximando-se e massageando os ombros dele, tentando dissipar a tensão. — Você é um sol, Emanuel. Você brilha e aquece, mas se chegar perto demais, você queima. Eduarda é uma flor de sombra. Ela precisa que você se aproxime devagar.
— Oito meses não é devagar?
— Para ela? Oito meses é um piscar de olhos. Ela ainda se sente a menininha que tinha um pôster seu escondido no armário. Ela precisa entender que agora ela é a mulher que divide a cama com o rei.
Emanuel suspirou, fechando os olhos e sentindo o toque de Sara.
— O que eu faço?
— Vá até lá em uma hora. Leve um copo de água. Peça desculpas — Sara sorriu, um brilho irônico nos olhos. — E diga que você vai ajudá-la a estudar para a prova de Barroco. Mesmo que você não saiba a diferença entre uma coluna e um altar.
Uma hora depois, Emanuel subiu as escadas. Ele entrou no quarto e encontrou Eduarda encolhida na poltrona perto da janela, olhando para a escuridão da floresta. Ela parecia tão pequena e frágil que o coração dele se apertou de uma forma que a lógica nunca explicaria.
Ele se aproximou em silêncio e ajoelhou-se aos pés dela, colocando as mãos sobre os joelhos da garota.
— Me desculpe — disse ele, a voz suave, desprovida de qualquer autoridade. — Eu sou um idiota possessivo. Eu fico estressado porque sinto que você está sempre a um passo de fugir de mim.
Eduarda olhou para ele, os olhos inchados pelo choro.
— Eu não vou fugir, Emanuel. Eu amo você. Mas eu preciso que você compreenda que eu ainda não estou pronta para morar aqui. Eu preciso terminar este semestre. Preciso que meus pais sintam que eu ainda sou a filha deles, e não apenas a sua... sua protegida.
Emanuel pegou as mãos dela e as beijou, sentindo a maciez da pele dela contra seus lábios marcados pela tensão.
— Eu vou tentar ser mais paciente. Eu juro. Eu só... eu quero as duas. Eu quero a Sara para me ajudar a conquistar o mundo e quero você para me ajudar a suportar o mundo que eu conquistei.
Eduarda inclinou-se para a frente, encostando a testa na dele. O cheiro de Emanuel, uma mistura de perfume caro e o aroma metálico da tinta de tatuagem que parecia impregnado em sua pele, a acalmava instantaneamente.
— Eu vou passar os fins de semana com você — sussurrou ela. — E nas férias, eu prometo que passo um mês inteiro na cobertura. Podemos tentar assim? Um passo de cada vez?
Emanuel fechou os olhos, sentindo a derrota e a vitória se misturarem. Não era o que ele queria — ele queria tudo, agora —, mas era o que ele podia ter. E por Eduarda, ele aprenderia a esperar.
— Um passo de cada vez — concordou ele. — Agora, pegue seus livros. Vamos falar sobre o Barroco.
Eduarda deu uma risadinha manhosa, limpando o resto das lágrimas.
— Você nem sabe o que é Barroco, Emanuel.
— Não sei, mas sou ótimo em observar detalhes. E se você me explicar, eu aprendo rápido.
Naquela noite, sob o teto da casa de campo, o equilíbrio foi brevemente restaurado. Emanuel ajudou Eduarda a estudar, ouvindo-a falar com paixão sobre sombras e luzes nas pinturas antigas, enquanto Sara, do andar de baixo, sorria ao ouvir o murmúrio das vozes. Ela sabia que a batalha ainda não estava ganha, que Eduarda ainda levaria tempo para se entregar totalmente àquela vida tripla, mas ela também sabia que Emanuel estava aprendendo a lição mais difícil de sua vida: que o poder pode comprar o mundo, mas apenas a paciência pode conquistar o coração de uma mulher que tem medo de voar.
A neblina lá fora cobria tudo, mas dentro daquela casa, as linhas do futuro estavam sendo traçadas. Lentamente, manhosamente, Eduarda estava sendo tecida na tapeçaria da vida de Emanuel e Sara, e embora ela ainda tentasse fugir, cada vez mais seus pés encontravam o caminho de volta para o homem que a amava com uma intensidade que era, ao mesmo tempo, sua prisão e seu santuário.