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O Silêncio sob os Pinheiros
A fazenda da família Oliveira, situada em uma região remota do interior de Minas Gerais, era um santuário de silêncio e tradição. Longe do asfalto, das luzes de neon e do zumbido incessante dos estúdios de tatuagem de Emanuel, o ar cheirava a terra molhada e café fresco. Para Eduarda, aquele lugar sempre fora o seu refúgio de infância, mas agora, aos vinte anos, as cercas de madeira branca pareciam as grades de uma prisão invisível.
Seu pai, o Sr. Oliveira, agira rápido. No momento em que o jato de Emanuel decolava para a Europa, ele colocara Eduarda no carro, ignorando seus protestos manhosos e suas lágrimas silenciosas. "É para você descansar, Duda. Para colocar a cabeça no lugar", ele dissera, mas ela sabia a verdade. Era um exílio. Um teste de resistência para Emanuel e um período de desintoxicação emocional para ela.
Eduarda estava sentada na varanda da casa colonial, segurando um caderno de esboços no colo, mas seus olhos estavam fixos na estrada de terra que se perdia no horizonte. Ela usava um vestido de algodão simples e um cardigã leve, o cabelo castanho preso em um coque frouxo. Ela se sentia murchar. Sem a presença esmagadora de Emanuel, sem o perfume caro e o sarcasmo protetor de Sara, ela se sentia apenas... pequena.
— Você não tocou no seu bolo, querida — disse a mãe, Helena, aproximando-se com uma bandeja. — É de fubá, do jeito que você gosta.
— Não sinto fome, mamãe — sussurrou Eduarda, a voz saindo fraca.
— Seu pai só quer o seu bem, Duda. Ele viu você se perdendo. Aquele homem... o Emanuel... ele é uma força da natureza, mas ele não oferece o que uma moça como você sonhou a vida toda.
Eduarda baixou o olhar para as próprias mãos. O sonho de casar. Desde pequena, ela se imaginava entrando em uma igreja barroca, com o véu arrastando pelo chão de mármore e o homem que amava esperando no altar com um olhar de devoção absoluta. Ela queria o compromisso, o nome, a segurança de ser a "única". Mas com Emanuel, tudo era turvo. Ele a amava, ela sentia isso em cada toque possessivo, mas ele também amava Sara. E Sara era a rainha oficial.
— Eu sinto falta dele — confessou Eduarda, as lágrimas brotando novamente. — Dói aqui dentro, mamãe. Parece que me tiraram o ar.
— Isso não é amor, é dependência — interveio Rodrigo, seu irmão mais velho, que apareceu na porta da varanda com as botas sujas de barro. — Ele te marcou como se você fosse uma das tatuagens dele, Duda. O papai fez certo. Se ele quiser você de verdade, ele vai ter que vir aqui e provar que você não é apenas um acessório na vida dele e daquela loira.
Enquanto isso, em uma vila luxuosa na Costa Amalfitana, o cenário era o oposto da paz mineira. Emanuel estava em pé na sacada, ignorando a vista deslumbrante do Mar Mediterrâneo. Ele segurava o celular com tanta força que os nós dos seus dedos estavam brancos.
— Ela não atende, Sara. O celular dela está desligado há três dias — rosnou ele, virando-se para o interior do quarto.
Sara estava deitada em uma espreguiçadeira, usando um biquíni de grife e óculos escuros. Ela parecia calma, mas quem a conhecia notava o modo como ela batia ritmadamente o pé direito, um sinal de que sua paciência também estava no limite.
— O pai dela cumpriu a promessa, Emanuel. Ele a levou para algum lugar onde o seu sinal de satélite e seu dinheiro não chegam facilmente. Ele quer que você sinta o que é perder a peça mais doce do seu tabuleiro.
— Eu vou voltar. Agora mesmo. Cancele as reuniões em Roma — ordenou Emanuel, a voz carregada de uma autoridade perigosa.
— E você vai chegar lá dizendo o quê? — Sara levantou-se, retirando os óculos e encarando-o com seus olhos azuis afiados. — O Sr. Oliveira foi claro. Ele não quer promessas de "eu vou cuidar dela". Ele quer um anel, Emanuel. Ele quer um contrato que eu, como sua administradora, sei que você nunca assinou com ninguém. Nem comigo.
Emanuel caminhou até ela, parando a poucos centímetros de seu rosto. O estresse acumulado fazia seus traços parecerem ainda mais rígidos.
— Você sabe que eu te amo, Sara. Você é o meu império. Mas se eu não tiver a Eduarda, eu não quero o império. Eu não consigo dormir, não consigo pensar. Aquela menina... ela me desarmou de um jeito que eu não previ.
— Eu sei — disse Sara, suavizando a voz e colocando as mãos no peito dele. — Eu também sinto falta da doçura dela nesta casa. Ela nos equilibra. Mas você precisa entender a gravidade disso. Se você casar com ela, legalmente, ela passa a ter direitos que eu nunca pedi. Ela passa a ser a Sra. Emanuel perante a lei. Você está pronto para me colocar em segundo plano nos papéis?
Emanuel fechou os olhos, sentindo o peso da escolha.
— Eu não quero planos, Sara. Eu quero as duas. Por que o mundo tem que ser tão limitado?
— Porque as pessoas como o pai dela acreditam na exclusividade — Sara suspirou. — Vá para o Brasil. Eu fico aqui e resolvo os contratos de Roma sozinha. Mas vá com uma resposta, Emanuel. Se você aparecer naquela fazenda sem um plano concreto de casamento, aqueles irmãos dela vão te expulsar a tiros, e você sabe disso.
Três dias depois, o som de um motor potente quebrou o silêncio da fazenda Oliveira.
Eduarda, que estava no jardim colhendo algumas flores para a mesa, parou o que estava fazendo. O coração dela deu um salto que quase a fez perder o fôlego. Ela conhecia aquele som. Era o ronco do SUV que Emanuel usava quando queria se sentir no controle da estrada.
O carro parou bruscamente diante do portão principal. Emanuel desceu antes mesmo de o motor silenciar. Ele parecia exausto; as olheiras eram profundas e sua camisa estava amassada, mas o olhar que ele lançou para Eduarda através da grade era puro fogo e alívio.
— Duda! — gritou ele.
Rodrigo e Marcos saíram da casa imediatamente, seguidos pelo Sr. Oliveira. Os irmãos se posicionaram à frente de Eduarda, como uma barreira humana.
— Você não foi convidado, Emanuel — disse Rodrigo, a voz firme. — Volte para o seu avião.
— Eu vim buscar o que é meu — respondeu Emanuel, aproximando-se do portão, ignorando a hostilidade. — Saiam da frente. Eu quero falar com a Eduarda.
— Você só fala com ela se tiver algo novo a dizer — interveio o Sr. Oliveira, caminhando calmamente até o portão. — Caso contrário, considere esta propriedade território proibido para você.
Eduarda, tremendo, deu um passo à frente, escapando dos braços dos irmãos.
— Deixem ele falar, por favor — pediu ela, a voz manhosa embargada pelo choro. — Emanuel... você veio.
Emanuel segurou as grades do portão, olhando para ela com uma intensidade que parecia querer devorá-la.
— Eu não consegui ficar dez dias longe. Eu não consegui nem três. A Itália não significa nada sem você, Eduarda. Nada tem cor sem a sua doçura para equilibrar a minha vida.
— E a sua resposta, Emanuel? — perguntou o pai dela, cruzando os braços.
Emanuel respirou fundo. Ele tirou do bolso uma pequena caixa de veludo azul-marinho. Ele a abriu, revelando um anel de diamante solitário, clássico, elegante e atemporal. O tipo de anel que Eduarda sempre descrevera em seus sonhos mais secretos.
— Eu quero me casar com ela — declarou Emanuel, a voz ecoando pelo pátio da fazenda. — Quero um casamento formal, com tudo o que ela tem direito. Quero que ela seja minha esposa legalmente, que use o meu nome e que more comigo não como uma protegida, mas como a dona daquela casa.
Um silêncio atordoado caiu sobre a família Oliveira. Eduarda levou as mãos à boca, as lágrimas correndo livremente. Era o que ela sempre quis ouvir, mas a sombra de Sara ainda pairava sobre eles.
— E a Sara? — perguntou Marcos, desconfiado. — Como você vai casar com uma e manter a outra?
— A Sara sabe — respondeu Emanuel, olhando fixamente para Eduarda. — Ela entende que o que eu sinto por você, Duda, exige esse sacrifício. Ela continuará sendo minha sócia, minha parceira na administração e a mulher que divide a minha vida. Mas você... você será a minha esposa. A rainha do meu lar. O meu compromisso diante do mundo será com você.
O Sr. Oliveira observou Emanuel por um longo tempo. Ele viu o cansaço no rosto do homem, viu a sinceridade na dor de seus olhos e, acima de tudo, viu como sua filha parecia ter voltado à vida apenas com a presença dele.
— Abra o portão, Rodrigo — ordenou o pai.
Emanuel não esperou. Assim que o portão cedeu, ele correu em direção a Eduarda, levantando-a do chão em um abraço esmagador. Ele a beijou com uma fome desesperada, ignorando a presença da família dela.
— Eu achei que ia morrer sem você — sussurrou ele no ouvido dela. — Nunca mais deixe que te tirem de mim.
— Eu tive tanto medo, Emanuel — soluçou ela, escondendo o rosto no pescoço dele. — Eu achei que você escolheria a lógica. Achei que escolheria a Sara e o império.
— Você é o meu império agora, pequena.
Emanuel colocou o anel no dedo trêmulo de Eduarda. O diamante brilhou sob o sol mineiro, selando um destino que nenhum deles poderia ter previsto.
Naquela noite, Emanuel ficou na fazenda. O jantar foi tenso, mas respeitoso. O Sr. Oliveira deixou claro que o casamento deveria acontecer em seis meses e que Eduarda terminaria o semestre da faculdade antes de se mudar definitivamente. Emanuel aceitou todas as condições. Ele estava disposto a qualquer coisa para garantir que ela não fugisse novamente.
Mais tarde, quando a casa silenciou, Emanuel saiu para a varanda para ligar para Sara.
— Está feito — disse ele, assim que ela atendeu. — Eu pedi a mão dela. Ela aceitou.
Houve uma pausa do outro lado da linha. O som das ondas do Mediterrâneo podia ser ouvido ao fundo.
— E como você se sente, meu rei? — perguntou Sara, sua voz mantendo a frieza profissional, mas com um traço de melancolia.
— Sinto que finalmente respirei. Mas sinto que estou traindo a nossa história, Sara.
— Você não está traindo nada — disse ela com firmeza. — Você está garantindo a nossa felicidade a longo prazo. Ela precisava disso para se entregar totalmente. Agora, ela não é mais uma menina fugindo de nós; ela é a sua esposa vindo para o nosso castelo. Eu cuidarei de todos os preparativos do casamento. Será a festa do século, Emanuel. Vou garantir que ela se sinta a mulher mais amada do mundo, para que, quando as luzes se apagarem, ela não se importe em nos dividir.
Emanuel desligou o telefone e sentiu uma mão pequena tocar seu braço. Eduarda estava ali, usando uma camisola de renda branca, parecendo um anjo na penumbra.
— Você estava falando com ela? — perguntou ela, timidamente.
— Estava. Ela está feliz por nós, Duda. Ela vai nos ajudar com tudo.
Eduarda encostou a cabeça no ombro dele. Ela ainda sentia uma pontada de insegurança ao pensar na dinâmica tripla que a esperava na cidade, mas o peso do anel em seu dedo e a promessa de casamento acalmavam sua alma sensível. Ela tivera o seu sonho respeitado. Ela seria a Sra. Emanuel.
— Eu te amo, Emanuel. Obrigada por não desistir de mim.
Emanuel a pegou no colo e a levou para dentro, fechando a porta para o mundo exterior. Naquela noite, sob o teto da fazenda que a viu crescer, Eduarda entregou-se a ele com uma confiança que nunca tivera antes. Não havia mais a pressa do corredor ou o medo do julgamento. Havia apenas a promessa de um futuro onde ela seria protegida, amada e, finalmente, oficializada.
Emanuel, por sua vez, sentia que o equilíbrio fora restaurado. Ele tinha a sua rainha loira cuidando do mundo lá fora e a sua doce protegida agora prometida a ele diante de todos. O custo fora alto, a pressão do Sr. Oliveira quase o quebrara, mas ao olhar para Eduarda adormecida em seus braços, ele soube que qualquer sacrifício valeria a pena.
O silêncio da fazenda não era mais uma prisão; era o prelúdio de uma vida onde Emanuel teria tudo o que desejava, sem ter que escolher entre a força e a doçura. Ele era o dono do império, e agora, finalmente, era o dono do coração que mais temia perder.