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O Peso da Escolha e o Limiar do Sacrifício

A cobertura de Emanuel parecia mais silenciosa do que o habitual naquela manhã de quarta-feira. O sol de São Paulo entrava pelas janelas panorâmicas, iluminando as partículas de poeira que dançavam sobre os móveis minimalistas. Emanuel terminava de fechar sua mala de couro, um movimento mecânico que escondia a inquietação em seu peito. Ele e Sara partiriam em poucas horas para uma viagem de dez dias pela costa da Itália — uma mistura de negócios para os novos estúdios em Roma e um tempo necessário para que o casal principal recalibrasse sua dinâmica.

Sara surgiu no corredor, a personificação da eficiência e da sensualidade. Usava um conjunto de linho branco que contrastava com sua pele bronzeada e o cabelo loiro impecavelmente escovado. Ela carregava dois passaportes e uma pasta com documentos administrativos que precisavam ser revisados durante o voo.

— Tudo pronto, querido? — perguntou ela, aproximando-se para ajeitar o colarinho da camisa dele. — Você parece estar a quilômetros de distância. Aposto que é por causa da pequena Duda.

Emanuel suspirou, soltando a alça da mala.

— Ela se recusa a vir se despedir no aeroporto, Sara. Diz que não gosta de despedidas, que prefere ficar em casa estudando. Eu odeio deixá-la aqui, vulnerável àquela influência da família dela.

— Ela não está vulnerável, Emanuel. Ela está marcada — Sara sorriu, um brilho de posse nos olhos. — O que aconteceu naquela noite na casa da sua mãe não se apaga com dez dias de distância. Mas entendo sua preocupação. Os Oliveira são... tradicionais. E o pai dela não é bobo.

Como se o destino estivesse ouvindo a conversa, o celular de Emanuel vibrou sobre a mesa de mármore. O nome "Sr. Oliveira" brilhava na tela. Emanuel e Sara trocaram um olhar rápido. O pai de Eduarda raramente ligava; geralmente, a comunicação era feita através de Heloísa ou da própria Eduarda.

— Atenda — instruiu Sara, cruzando os braços. — Vamos ver o que o guardião do tesouro quer.

Emanuel atendeu, mantendo a voz firme e profissional.

— Senhor Oliveira. A que devo a honra?

— Emanuel — a voz do outro lado era calma, mas carregada daquela autoridade paternal que não aceitava rodeios. — Soube que você e a Sara estão partindo para a Europa hoje. Antes de você ir, gostaria de tomar um café. Estou aqui perto do seu escritório central. Podemos conversar? Apenas nós dois.

Emanuel olhou para o relógio. O tempo era curto, mas ele sabia que ignorar aquele homem seria um erro estratégico fatal.

— Estarei lá em vinte minutos.

O encontro aconteceu em uma cafeteria discreta, frequentada por executivos e advogados. O Sr. Oliveira já estava sentado a uma mesa ao fundo, observando o movimento da rua com uma expressão serena que Emanuel sempre achou enervante. Ele era um homem moderno, liberal em muitos aspectos, mas Emanuel sabia que, por baixo daquela fachada amigável, batia o coração de um pai que mataria e morreria pela filha caçula.

— Obrigado por vir, Emanuel — disse o Sr. Oliveira, indicando a cadeira à sua frente. — Serei breve, pois sei que seu voo não espera.

— Imaginei que o assunto fosse a Eduarda — Emanuel sentou-se, recusando o cardápio que o garçom oferecia.

— Sempre é a Eduarda. Ela é o nosso coração, Emanuel. E nos últimos meses, tenho visto esse coração ser puxado em direções opostas. Ela está apaixonada por você, isso é óbvio. Mas ela também está confusa. E eu, como pai, preciso entender o terreno onde minha filha está pisando.

Emanuel manteve o olhar fixo. Ele respeitava o homem, mas não gostava de ser questionado.

— Minhas intenções com ela são claras, senhor. Eu cuido dela. Eu a protejo. Quero que ela tenha o melhor de tudo.

— Proteção é uma palavra perigosa, Emanuel. Às vezes, o que você chama de proteção, ela sente como asfixia. Mas não vim aqui para discutir os métodos do seu relacionamento. Vim aqui para falar de futuro. De compromisso real.

O Sr. Oliveira inclinou-se para a frente, a expressão tornando-se mais séria.

— Você tem a Sara. Ela é sua namorada há algum tempo, é sua sócia, é a mulher que o mundo vê ao seu lado. E agora você tem a Eduarda. Você diz que quer as duas. Mas vivemos em um país com leis e em uma sociedade com tradições. Se amanhã a Eduarda me disser que quer se casar, o que você vai dizer a ela?

Emanuel sentiu um nó se formar em sua garganta. Ele nunca pensara em casamento no sentido burocrático. Para ele, o compromisso era de alma e de posse.

— Eu não vejo por que um papel mudaria o que sinto por elas — respondeu Emanuel, tentando manter a racionalidade prática.

— Para você, talvez não. Mas para a Eduarda, uma menina que cresceu vendo o casamento dos pais como um porto seguro, isso significa tudo. E aqui está a minha pergunta, Emanuel. Se você fosse colocado contra a parede... se tivesse que escolher apenas uma para levar ao cartório, para dar o seu nome de forma legal, para casar na igreja diante de Deus, como nossa família esperaria... quem seria?

O silêncio que se seguiu foi pesado. Emanuel podia ouvir o som da máquina de café ao fundo, o burburinho das conversas alheias, mas sua mente estava em um turbilhão. Escolher Sara seria o lógico. Ela era sua parceira, a estrutura de sua vida, a mulher que entendia seus negócios e sua mente. Escolher Eduarda seria o emocional. Ela era sua paz, sua doçura, a criatura que ele sentia necessidade física de proteger.

— Eu amo as duas de formas diferentes, senhor Oliveira. Não é uma questão de escolha, é uma questão de completude.

— Errado — cortou o Sr. Oliveira, a voz agora fria como aço. — A vida é feita de escolhas. E a Eduarda não será a "segunda" de ninguém. Ela não será a amante escondida enquanto a Sara desfila como a esposa oficial. Se você não consegue me dar uma resposta agora, Emanuel, se você não consegue visualizar um futuro onde minha filha seja a prioridade legal e moral, então eu a tirarei de você. E eu farei isso antes de você pousar em Roma.

Emanuel sentiu o estresse acumulado explodir em uma pontada de dor de cabeça.

— O senhor está me ameaçando?

— Estou protegendo o meu investimento mais precioso. Eduarda é sensível, Emanuel. Ela se apoia em quem confia. Se ela descobrir que você nunca poderá dar a ela o lugar de esposa, ela vai se quebrar. E eu não vou permitir que você a quebre.

Emanuel respirou fundo, tentando recuperar o controle.

— Eu não posso dar essa resposta agora. Não porque não queira a Eduarda, mas porque a Sara é parte fundamental de quem eu sou.

— Então você já escolheu — disse o Sr. Oliveira, levantando-se. — Você escolheu o seu império e a sua parceira de negócios. Eu esperava mais de você, Emanuel. Pensei que o amor que você dizia sentir pela minha filha fosse capaz de fazê-lo reorganizar sua vida.

— Espere — pediu Emanuel, também se levantando. — Eu vou viajar. Preciso desse tempo para pensar. Quando eu voltar, nós conversaremos novamente. Com a Eduarda e com a Sara presentes.

O Sr. Oliveira olhou para ele com uma mistura de pena e decepção.

— Você tem dez dias, Emanuel. Quando você voltar, se não tiver uma proposta de casamento formal para a Eduarda, eu a levarei para o interior, para a fazenda da família. E eu garanto que você nunca mais terá acesso a ela. Eu tenho recursos para escondê-la, e ela tem irmãos que garantirão que você não se aproxime.

Emanuel saiu da cafeteria sentindo o mundo girar. Ele entrou no carro, onde Sara o esperava com o motor ligado. Ela notou imediatamente sua palidez.

— O que aconteceu? — perguntou ela, preocupada. — Ele tentou te extorquir?

— Pior — disse Emanuel, encostando a cabeça no banco. — Ele me deu um ultimato. Casamento legal, Sara. Ele quer que eu escolha uma de vocês para ser a "oficial".

Sara ficou em silêncio por um longo momento. Ela não parecia apavorada; ela parecia pensativa.

— E o que você disse?

— Que eu não podia escolher. Que eu precisava de tempo.

Sara riu, um som sem alegria.

— Ele é esperto. Ele sabe que a Eduarda é o seu ponto fraco emocional. Ele sabe que, se você casar comigo, ela nunca vai aceitar ser a "outra" para o resto da vida. E ele sabe que, se você casar com ela, a nossa dinâmica muda para sempre.

— Eu não vou perdê-la, Sara. Mas também não posso te trair dessa forma. Você está comigo desde o começo.

— Vamos para a Itália — disse Sara, engatando a marcha. — Vamos usar esses dez dias para decidir como vamos manter a nossa rainha e a nossa princesa. Mas fique sabendo de uma coisa, Emanuel: se você escolher a Eduarda para o papel, eu não vou ficar nas sombras assistindo. Ou somos um time oficial, ou o castelo cai para todo mundo.

Enquanto o carro se afastava em direção ao aeroporto, Eduarda estava em seu quarto, cercada por seus irmãos. Rodrigo e Marcos estavam sentados em sua cama, observando-a organizar seus livros de História da Arte.

— O papai foi falar com ele, Duda — disse Rodrigo, a voz suave. — Você sabe que isso tinha que acontecer. Você não pode viver nesse limbo para sempre.

— Eu só quero que ele me ame — sussurrou Eduarda, abraçando um travesseiro. — Eu não me importo com papéis.

— Mas nós nos importamos — afirmou Marcos. — E o papai também. Se o Emanuel não estiver disposto a te dar o lugar que você merece, ele não te merece. E nós vamos te tirar daqui.

Eduarda sentiu uma lágrima escorrer. Ela amava a intensidade de Emanuel, a proteção que ele oferecia, e até mesmo a presença vibrante de Sara, que a ensinava a ser mulher. Mas ela também sentia o peso da expectativa de sua família. Ela era a menina sensível, a protegida, e agora era o centro de uma guerra de vontades.

No aeroporto, prestes a embarcar, Emanuel enviou uma mensagem para Eduarda: "Eu te amo. Não deixe que ninguém te convença do contrário nestes dez dias. Quando eu voltar, vou resolver tudo. Você é minha."

Eduarda leu a mensagem e sentiu um calafrio. Ela sabia que a resolução de Emanuel poderia significar a destruição de tudo o que ela conhecia. Ela olhou para a mala pequena que já estava pronta no canto do quarto — a mala que seu pai insistira que ela fizesse, "caso precisassem viajar de emergência".

A fuga de Emanuel era para a Itália, em busca de clareza. A fuga de Eduarda, se o pai dela cumprisse a promessa, seria para o isolamento, longe do homem que a despertara para o mundo.

Dentro do avião, observando as nuvens, Emanuel sentiu o peso do controle que estava perdendo. Pela primeira vez em sua vida rica e bem-sucedida, ele percebeu que o dinheiro não podia comprar a solução para um coração dividido entre a lealdade e a obsessão. Sara, ao seu lado, segurou sua mão.

— Dez dias, Emanuel — sussurrou ela. — Dez dias para decidirmos quem vai usar o véu e quem vai segurar a coroa.

Emanuel fechou os olhos, a imagem de Eduarda chorando no corredor e a imagem de Sara comandando seus escritórios fundindo-se em sua mente. Ele queria as duas. Ele precisava das duas. Mas o mundo, representado pelo olhar severo do Sr. Oliveira, estava prestes a forçá-lo a cortar sua própria alma ao meio.